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quinta-feira, 1 de abril de 2010

O AVENTAL DA MINHA AVÓ


O avental, mais do que uma peça de roupa é um utensílio.


O avental sempre acompanhou a história das mulheres e dos homens, desde o da nossa Rainha Santa Isabel que soube transformar o pão para os pobres, que escondia no seu regaço, em rosas vermelhas e brancas... até ao mais célebre avental masculino, o da maçonaria.

Claro que poderia passar horas a falar de muitos aventais, ou de histórias de aventais, mas não foi isso que me veio ao pensar.

Hoje vou falar do avental da minha avó. Era de sarja azul, com bolinhas ou pintinhas  brancas, debruado por um folho azul mais escuro e com dois bolsos grandes, um de cada lado. Cabia uma mão inteira em cada um dos bolsos e, neles havia sempre um mundo de coisas: o lápis e o papel onde apontava o que precisava de fazer, as chaves de tudo o que tivesse fechadura e, também, aqueles rebuçados de açúcar, aqueles de tostão, embrulhados em papel encerado, e que estava sempre pronta a tirar quando um dos netos lhe aparecia e a ia cumprimentar.

A finalidade primeira do avental era a de proteger o vestido que ficava por baixo. Mas, se servisse só para isso, a história ficava curta, sem história, porque acabava agora mesmo. Fim e ponto de exclamação!

A verdade é que o avental da minha avó, e certamente o de todas as avós, servia para uma infinidade de coisas:
        Servia de rodilha para retirar o assado do forno, era o melhor lenço que havia para enxugar as lágrimas das crianças e até para secar ou  limpar um prato antes de ir para a mesa.
        Quando íamos à horta e passávamos pelo galinheiro, era no avental que a minha avó transportava os ovos que nós íamos retirar, às vezes até, debaixo da galinha.
        Quando chegavam visitas desconhecidas era no avental da minha avó que abrigávamos a nossa timidez.
        Também, no tempo frio, o avental da minha avó era a manta onde enrolávamos os braços e as mãos para ganharem um pouco mais de calor.
        Se a braseira começava a esmorecer, era o avental da minha avó o abano certo para reanimar aquelas brasas meio adormecidas.
        Também transportava as batatas da tulha para a cozinha ou as cavacas para aquele enorme fogão de lenha onde preparava os melhores pitéus do meu mundo.
        Era no avental que acolhia as ervilhas e as favas que ia descascando e depois deitava na panela de água fervente.
        No fim do Verão, era no avental que recolhia os marmelos das árvores para, depois, preparar a marmelada que só ela sabia fazer.
        Era com o avental que a minha avó retirava a tarte de limão ou o pão de ló, feito com ovos de gemas bem amarelas, do forno de lenha e colocava depois no parapeito da janela a arrefecer.
       Até o pó ela, às vezes, limpava com o avental. Era certo que se apareciam visitas de surpresa, antes de retirar o avental para as receber, ia dar sempre uma passagem na sala das visitas para ver se estava tudo limpo e deixar a sala com bom aspecto.

Parece-me que hoje, o avental deixou de ter metade dessas funções. Os ovos já não se vão buscar ao galinheiro, pois são comprados e vêm arrumados em caixas de cartão apropriadas; as tartes já não se põem à janela a arrefecer, agora vão é para o microondas para descongelar; os rebuçados dos bolsos não são aconselhados, porque engordam e contribuem para o grande número de crianças obesas; as lágrimas devem ser enxugadas com um lenço de papel quase asséptico; também as visitas já não aparecem de surpresa!

Não sei quem o inventou, mas sei que vão ser precisos muitos anos até alguém aparecer com um objecto que tenha tanta utilidade como o avental, porque as avós, mesmo sem o avental, continuam a preencher a nossa realidade, apesar do microondas (e das Bimby!).

2 comentários:

Anónimo disse...

Lindo!
As comparações são deliciosas!
Quem não teve uma avó assim?Ou melhor um avental assim.
Tens razão, hoje a vida das nossas crianças se tornou um pouco mais asséptica,e previsível, mas o bom mesmo é o inesperado, aquilo que aontece de repente, como uma visita que não se esperava, ou um rebuçado fora de horas,ou até conhecer pessoas extraordinárias, felizmente para alguns, essas surpresas ainda acontecem...
Beatriz Morcego.

Anónimo disse...

Se os nossos neurônios captam tudo e em segundos já estão lá, arquivados, devemos olhar o tempo presente através das lembranças...Belo texto!
Vera Menna Barreto