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terça-feira, 30 de novembro de 2010

O MERGULHO

Tinha vindo à superfície várias vezes... desde manhã cedo que a sua presença tinha sido assinalada.

Enquanto andava lá por baixo, ia deixando as pegadas nas águas daquele mar azul, límpido e tranquilo, o que permitia acompanhar-lhe o passeio.

Mas desta vez veio por mais tempo, ficou ali, à superfície, a brincar aos esguichos, aos sopros, a dar pequenos mergulhos como a convidar a um passeio lá em baixo.

Entretanto chegaram outros, estabeleceram conversas naquele falar feito de gritos abafados, guinchos por vezes inquietantes, brincaram, e por ali ficaram...

À volta, os barcos, as máquinas fotográficas, o encanto do avistamento e da proximidade com estes seres marinhos, gigantes, tranquilos, pacíficos...

Quase apetecia saltar para dentro de água, tocar, passar a mão naquela pele espessa mas frágil, sentir o volume da sua importância, e mergulhar, ir ao fundo... e, ao voltar, tal como eles, soltar um esguicho forte, imenso, possante, aspergindo de água e sal o mundo ao redor... purificando o ambiente, a terra, os homens...

Até que chegou a altura de se ir embora ... tempo da partida... fez uma inspiração mais profunda, levantou bem a cabeça, um piscar de olhos a despedir-se... encurvou o corpo... deixou que o dorso luzidio brilhasse uma vez mais diante dos olhares atentos e ansiosos... levantou a cauda... e, num adeus... mergulhou!
 
 (Mar dos Açores, frente às Ilhas do Pico e Faial - 2008)


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A OUTRA MARGEM

Esperava o barco... queria ir para a outra margem... tinha prometido que ia, que lhe levava o combinado, a que juntava um convite para jantar... ali, na Trafaria, do outro lado da Torre de Belém, mesmo em frente... eram só duas milhas de rio-mar... dez minutos de travessia e logo se encontravam.

A noite estava serena mas fria, sem vento, as águas calmas, quase como um espelho... permitiram um atravessar suave, vibrado apenas pela rotação das máquinas e do hélice, originando uma trepidação que não incomodava, quase dando a sensação de uma vibro-massagem que percorria o corpo encostado naquelas cadeiras de madeira, sem qualquer revestimento...

Se a noite estivesse quente, de luar... seria uma travessia bem agradável, lá fora, no convés... mas hoje, com o frio, a passagem para a outra margem, sem ser penosa era, no mínimo, desconfortável... mas valia pelo encontro...

Quase um ano de ausência, uma distância enorme em tempo e, ao mesmo tempo, tão perto... era só uma questão de atravessar o rio, para a outra margem...

O trabalho... os afazeres... a militância... as reuniões... quase não sobrava tempo... hoje não... amanhã nem pensar... p'rá semana, talvez... e o encontro a distanciar-se... a escapar...

Mas desta vez não... estava tudo combinado... a hora, o local, até mandara reservar mesa.... no Parafuso! A "fondue" de lagosta a abrir apetites... a fazer salivar desejos...

O rio a meio... um petroleiro enorme a passar junto... o barco dos pilotos... e o cais logo ali, bem iluminado...

 (Trafaria - Junho 2009)
 
Um salto para terra... e ela, ali, casaco escuro, apertado... o frio... um gorro de malha cinzento escuro, de luvas e cachecol... ele, com o ramo de rosas, vermelhas... sempre... a abrir os braços na procura do abraço... do abraçar saudades imensas...

Seguiram, juntos, braço dado... encostados... até ao restaurante... ali, quase ao lado do barco... a passar frente à praia fluvial, de areia limpa... pedia um passeio... mas o frio e a hora... prevaleceram... a mesa à espera... a "fondue" preparada... o espumante bem frio... rosé...

O brinde, os olhares, os sorrisos, a partilha da comida, a conversa boa...

Nessa noite ele ficou... ali... na outra margem!

domingo, 28 de novembro de 2010

FRIO

Desta vez veio inesperado, uma frente fria do norte, dizia a meteorologia, com frio e muita neve nas ilhas britânicas e na Escandinávia...

De bater o dente e sentir os ossos enregelados... a manta... a cobrir, a enrolar o frio, a tentar aquecer o corpo, a aconchegar... e ela diante da televisão a ver aquela série que tanto gosta... a neve a pintar de branco os "greens" de Oxford... miss Wilford, com o seu ar áspero, a pedir o chá e os scones... e os dois, Margaret e Alfred, bem resguardados daquele frio intenso, de braço dado, percorriam a alameda da Universidade a caminho da biblioteca...

Esperava por ele... ia chegar naquela tarde, vindo também do frio, trazia saudades... um ramo de rosas... trazia sempre um ramo de rosas... vermelhas... intensas de cor.

Ficavam bem, na jarra de cristal, na mesa do canto, a dar cor ao fundo branco da parede.

O chá esperava abrir... as torradas quentes, escorriam a manteiga acabada de barrar... a compota de morango e a marmelada da quinta, certamente, iam adoçar aquele pão de Salavessa...

Sentaram-se à mesa de camilha com a braseira de picão bem desperta, a transmitir um calor bom. Ficaram ali, sentados, a aquecer os corpos, a conversar, a falar do amanhã...

E eles, os da meteorologia, a prometerem mais frio para os próximos dias...

E eles, os dois, a prometerem mais calor na sua relação...



(Neve em Cambridge, Dezembro de 2009).


sábado, 27 de novembro de 2010

O CAÇADOR

Tinha saído cedo... ainda noite... ia aos pássaros...

Já tinha aberto a época da caça... mas ele não ligava a isso... era anti-convenções, anti-regras, um caçador anarquista...

Saiu sorrateiro, com aquele andar manso, silencioso, felínico... passou por debaixo da sebe das piracantas, atravessou o caminho de terra batida, saltou agilmente o muro de pedra do vizinho e esgueirou-se, lesto, pelo meio da vinha já vindimada e ainda com algumas folhas de outono amarelo e vermelho e chegou ao outro lado...

Ali havia sempre água... um bebedouro quase natural, à saída da mina... agora era uma questão de esperar... quieto, quase imóvel... só com as orelhas atentas e um olho bem aberto...

O sol a começar a sorrir numa tangente ao horizonte... as cores a ganharem vida.... os trinados dos pássaros a acordarem o bosque de carvalhos, medronheiros e sobreiros... a água da mina a raiar lampejos de prata... como que a pedir... ser bebida...

Ele quieto... como um gato-estátua das Ramblas de Barcelona... só não tinha diante, a caixa das moedas...

Dois pardais, um chapim, um melro... ali, a banharem-se... a sacudirem as penas... a beberem... e ele quieto, as orelhas direccionadas, o olho aberto bem fixo no pardal mais gordo...

Um virar de cauda... uma desatenção... um salto de catapulta... quase instantâneo... certeiro... um estrebuchar... no final cuspiu as penas da cauda... foi só o que sobrou!

Agora penteia os bigodes... limpa o focinho... e prepara-se para um descanso... merecido... satisfeito... regalado!



(Foto tirada em Dezembro de 2008- Buenos Aires)


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ASAS DE UM VOO

Decidira partir... voar longe... ir até onde a noite fosse feita de sonhos... onde o dormir não fosse  insónia de angústias... onde o acordar lhe trouxesse luz de paz... onde o sorriso não fosse o esconder mágoas... onde o trabalho trouxesse  compensações... onde o viver fosse feito de companhia... onde os abraços fossem mantos de ternura... onde as mãos dadas fossem o entrelaçar da cumplicidade... onde os beijos soubessem ao desejo... onde o amor fosse a realidade!


Depois de um breve pouso, de um sentir o mundo amargo,  decidiu-se seguir o rumo, resolveu, de novo, partir...

Voar longe... longe... lá... onde a noite é um adormecer tranquilo... onde o acordar é feito de luz... onde o sorriso é de verdade... onde o trabalho compensa... onde a companhia é vida... onde a ternura é um abraço... onde a cumplicidade dá as mãos... onde o desejo vem num beijo... onde os sonhos são realidade...  onde a realidade é feita de amor...

Voou... voou... longe voou... voou... até que, finalmente, pousou!



(Praia de Moledo do Minho, Março de 2007)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

ERA DIA DE GREVE...

Tentou apanhar o transporte à porta de casa, não havia, era dia de greve...

Foi a pé até ao Centro de Saúde por causa da consulta programada há 4 meses, foi cancelada, era dia de greve...
  
Aproveitou o tempo e tentou ir à Conservatória do Registo Predial, estava fechada, era dia de greve...

Dali, seguiu para os Correios, para enviar a carta registada, estavam encerrados, era dia de greve...

Tentou ir de metro ao Chiado, as estações estavam  fechadas, era dia de greve...

Quis marcar a inspecção à  canalização do gás doméstico, ligou para a Companhia, nem atenderam, era dia de greve...

Passou à porta de escola secundária onde trabalhava a sobrinha, tinha as portas fechadas com aloquete, era dia de greve...

Ligou para o aeroporto a confirmar a chegada do voo TP615 vindo de Bruxelas, não havia voos, era dia de greve...

Antes de ir para casa ainda passou pelo supermercado, de portas corridas, era dia de greve...

E ele que não queria nada com greves, nunca tinha feito uma greve...

Chegou a casa cansado de não ter feito nada, cheio de fome, o frigorífico vazio, nem um pedaço de pão... não teve outro remédio... desta vez teve de fazer greve à comida e não teve outra  solução, entrou em greve de fome!
 

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

GREVE



...MAS EU ESTOU A TRABALHAR, PARA ALIMENTAR ESTE BLOG...

AGENDA

Ganhou uma agenda para o próximo ano.

Era uma agenda especial, não tinha meses, nem semanas, nem dias, nem horas.

Era uma agenda cheia de páginas em branco onde havia, pelo meio, umas páginas com excertos de poemas, outras preenchidas com desenhos ou reproduções de aguarelas, outras, ainda, com pensamentos, mas nada de horas, horários, datas, feriados, nem festas móveis.

Tinha sido uma prenda de aniversário, esta agenda dos descompromissos, das desmarcações, das desreuniões, dos desagendamentos...


Nesta agenda vai poder assinalar os momentos de paz, as horas de amor, as ocasiões de lazer, os dias de felicidade, os tempos de sonhar... de andar de braço dado com a boa disposição, de saltar à corda com a alegria, de se esticar de preguiça, de passar a tarde com um livro, de passear a máquina fotográfica pelo mundo, de arregalar os olhos num museu,  de se sentar na poltrona de um cinema, de se deliciar a ouvir um concerto, de ir jantar com os amigos...

Assim, sempre que lhe surgir uma ideia, um pensar, um sentir,  um desejo, uma necessidade vai poder anotar, escrever, desenhar... mas, sobretudo, descompromissar, desmarcar, desreunir, desagendar, desfrutar, discordar, disfarçar, disparatar, distrair-se, gozar...




terça-feira, 23 de novembro de 2010

SIM! NEM NÃO, NEM TALVEZ.

SIM!!!

Foi um SIM forte, vincado, sonante, afirmativo.

Disse-o com convicção, com o coração a bater forte, com os olhos a brilharem de satisfação, um SIM de certezas, um SIM de esperança, um SIM de tranquilidade.

Estava farta de dizer NÃO de, muitas vezes, dizer TALVEZ, e, raramente, de dizer SIM.

Mas agora, finalmente, disse SIM. Um SIM à vida, um SIM que queria dizer, definitivamente, SIM.

E sorriu, e com o sorriso veio uma lágrima a rolar pela face abaixo...



uma gota de alegria, que depressa limpou com o lenço que tantas vezes secou as lágrimas da tristeza, do desconforto, da solidão.

Bastou, apenas, dizer SIM... tão fácil, tão espantosamente bonito, tão definitivamente feliz...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

NOVO DIA


É tempo de um novo dia. 

Quando o sol desponta, quando aparece por detrás daquelas nuvens e se nos mostra com todo o esplendor, é porque é tempo de um novo dia.

Seja um dia de trabalho ou um dia de lazer, um dia de preocupações ou um dia tranquilo, um dia triste ou um dia de alegrias, um dia solitário ou um dia rodeado de amigos, um dia de paz ou um dia de inferno, um dia de amor ou um dia de rancor, um dia de sol ou um dia de chuva, um dia quente ou um dia de frio, um dia disto ou um dia daquilo... 

 
Seja o que for, sim ou não, branco ou preto, seco ou molhado, alegre ou triste, só ou acompanhado... é sempre  tempo de  um novo dia!


(foto do autor tirada a 10.000 metros de altitude, algures sobre a linha do Equador - 2008)

domingo, 21 de novembro de 2010

LAGO DOS CISNES

O tempo serenara e o jantar especial pedia um passeio.

Tinham que desmoer aquela comida toda: as migas, o costado, o bolo fidalgo, o vinho do Monte da Ravasqueira, ali mesmo, de Arraiolos.

A pousada não ficava distante, era um bom passeio, a pé.

E foram andando por aquelas ruas estreitas e inclinadas, feitas de calçada de pedra, com casas baixas e brancas, todas a desaguar na praça do Município.

Praça grande, com espaço em demasia, vazia àquela hora da noite.

Ela, ele,  sós, e  a música clássica que saía das varandas do edifício da Câmara... reconheceu-a num instante... o Lago dos cisnes... era Tchaikovsky, ali, naquele pedaço do Alentejo,  a encher de sons aquela praça vazia... e, num instante, ele a imaginar-se o príncipe Siegfried a sonhar a sua Odette, de momento enfeitiçada, pelo mago Rothbart,  em cisne branco.

E, enquanto a música tocava, os jogos de água, ao compasso da mesma, saíam em repuxos ritmados do lago, situado no meio da praça, em jogos de água e de luz únicos, surpreendentes, enigmáticos, mágicos.

Sem arco e flecha, mas com a câmara fotográfica, ali estava pronto a disparar sobre um cisne imaginário... e no momento do disparo, do flash saído, surge-lhe assim, num passo de dança, numa inesperada pirueta, a sua Odette... 





... a sua princesa de encantos!
 
(fotografia do autor)

sábado, 20 de novembro de 2010

ENCRUZILHADAS

Parece que o mundo veio desembocar em Lisboa. 

Uma encruzilhada de encontros, de caminhos, de ideias, de opiniões, sobretudo de interesses... muitos interesses.


 São aviões a chegar, comitivas a percorrer a cidade, hotéis por conta, zonas da cidade isoladas, ruas fechadas, impedidas de serem passeadas pelos seus habitantes. 

Presidentes, chefes de estado, primeiros ministros, secretários de estado...

E muita segurança, polícia, tanta polícia... pena não estar presente onde mais falta!

Cimeiras, conversas, decisões, discursos...  para melhorar o mundo? Para trazer paz? Para dar esperança de um futuro melhor?

Conclusões?








sexta-feira, 19 de novembro de 2010

VAN GOGH

Amesterdão enche a alma de quem a visita. 

O casamento dos canais com as ruas, canais que percorrem a cidade como dedos de duas mãos abertas que se tocam, as pontes que  ligam e fazem lembrar as cegonhas dos poços de antigamente, as cores dos barcos-residência definitivamente encostados às margens de pedra, as bicicletas paradas, quase amontoadas, ou a circular por todo o lado, os mercados de flores, as ruas floridas, as casas altas e estreitas, o movimento das pessoas,  os eléctricos com o seu "triiiimmmm......" característico, uma vida quase de encanto, de fascínio, de se estar bem.

Mas Amesterdão é também, e muito, cultura... A Ronda Nocturna de Rembrandt, no Rijksmuseum, esmaga pela grandiosidade, encanta pela história de cada personagem, a figura da menina no meio daqueles homens sérios... 


 Mas é Van Gogh, no seu museu, quem preenche o imaginário, quem faz saltar as cores diante dos olhos, quem mexe com os sentidos, quem desorienta os sentires, quem abana as emoções, que quase permite uma lágrima comovente...




Uma loucura feita arte, uma arte, por vezes, feita loucura na mistura das cores... no calcar do pincel, no efeito do matizar, nos tons fortes, nos azuis, nos amarelos...


nos girassóis, nos seus girassóis... 




O museu Van Gogh merece mesmo uma visita, mas estas fotos não se encontram lá...





quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O TRÂNSITO


É o sol, ao meio dia, sem nuvens, sem obstáculos diante dele, a iluminar-nos o dia no seu esplendor de uma manhã de Dezembro.

Um senão! Um pixel avariado na máquina digital, aquele ponto negro? Aquela pequena mancha ali, entre as cinco e as seis, a atravessar-se diante do sol?

Não. Aquele ponto negro apareceu na imagem solar perto das sete horas e continuou, num movimento ascendente da esquerda para a direita, até desaparecer pelas 3 horas. Demorou umas  6 ou 7 horas nesse trajecto.

Não é um cisco, nem uma mancha solar.

Tão simplesmente o planeta Vénus, a passar, displicentemente, diante do sol no seu chamado "Trânsito de Vénus".

Maravilhas desta natureza astronómica, que nos fazem pensar na nossa pequenez, na nossa insignificância, um infinitamente pequeno num infinitamente grande... na realidade, um cisco!

(Foto foi tirada pelo autor, em plena Lisboa, em 10 de Dezembro de 2004, perto do  meio dia.)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

VIOLENTADO

Não mandei matar ninguém. Não provoquei guerras. Não fabrico nem vendo armas. Não decido de enviar tropas para lado nenhum. Não tenho fábricas de armamento, de aviões de guerra, de submarinos, "destroyers" ou porta-aviões.

Não tenho bancos, nem "off-shores", não sou político, governante ou presidente de nada, muito menos deputado, sub-secretário, secretário de estado, ministro ou primeiro ministro, nem presidente da república.

Não enriqueci do nada, não sou vice-presidente ou presidente de instituições financeiras, nem de bancos, nem de empresas de construção, nem sequer sucateiro.

Não apareço nas televisões a ditar discursos, a mentir das verdades, a enganar, a mandar, a roubar aos pobres para dar aos ricos...

Não sou nada disso, mesmo nada, absolutamente nada.

Trabalho honesto, pago imensos impostos, não devo nada a ninguém.

Então porque é que me vêm revistar a mim, espiolhar o meu carro, ver o forro do meu casaco, ameaçar-me com armas sofisticadas, agredir-me verbalmente por discordar do que me estão a fazer?

Alguém vai ver ou revistar os verdadeiros culpados? Lançar-lhes suspeitas? Ameaçá-los com armas quase letais?

Não, de modo nenhum... estendem-lhe passadeiras vermelhas, fazem continência, adulam, batem palmas, sorriem...

Quase a mesma coisa que fazem aos vigaristas, aos ladrões, aos corruptos, aos ricos da nova geração...

Pelo menos cá, em Portugal, é assim.


terça-feira, 16 de novembro de 2010

DIÁLOGOS DE ACORDAR

Bom dia, disse ele.

Bom dia, disse ela.

Eram assim, quase todos os dias, os DIÁLOGOS DE ACORDAR. Houvesse linha telefónica, que a distância não contava.

Ele, longe, cada dia quase em seu lugar, gestor, enólogo, a tentar colocar os seus vinhos nos melhores mercados.

Ela, em casa, no seu dia a dia de psicóloga, a tentar entender a alma e as ansiedades dos outros.

Assim começavam o dia.

Falavam os dois, do trabalho desse dia, diziam palavras bonitas um ao outro e, assim, o dia ia correr bem!

Ao fim do dia, cansados do dia, ela esperava o toque. De telefone na mão... quase ansiosa.

A voz dele, a contar do dia, das vendas conseguidas, das perspectivas de mais negócios... a voz dela, das novidades da família, do trabalho esgotante nesse dia, do cansaço, da saudade...e tudo acabava com troca de mimos, com palavras doces, com  renovar de promessas.

Esta era sempre a melhor parte do dia, a dos DIÁLOGOS DE ADORMECER.

Mas, quando ele estava em casa, os diálogos adormeciam juntos...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

AFONIA

Ficou afónico, tinha gritado imenso durante o jogo.

Como costume tinha ido com o grupo habitual ao futebol, sempre juntos, para o terceiro anel, bem no alto do estádio...

Altura para descontrair, para estar com os amigos, quase todos os quinze dias, durante a época do futebol.

Uma tradição desde os tempos da Faculdade.

Almoço de conversa e de vinho, boa disposição, e depois o futebol, a equipa de sempre, a bola a correr, os apupos ao árbitro, as assobiadelas, o agitar dos cachecóis, o desfraldar da bandeira gigante, o escutar, pela telefonia com auscultadores, o relato do jogo no campo do rival, uma cerveja que se bebe... mas naquela tarde ele gritou em demasia, gritaram todos em excesso e beberam mais cervejas, bem geladas.

O almoço, naquele dia, tinha pedido mais álcool, o entusiasmo era maior e o jogo animava as hostes com as avançadas de assalto à baliza do adversário, os passes quase de mágica do número 11 e as bolas ao poste...

A cada bola perdida, a cada passo mal executado, a cada falta, a cada não entrada da bola na baliza era um coro de impropérios, gritados, urrados... e ele a notar a voz a querer faltar, a perder fonia, e tornar-se um rouco de baixo volume e num girar constante do botão do som, até que deixou de sair qualquer som.

Acabou o jogo e ele mudo, afónico, desesperadamente sem som.

Ainda por cima o jogo tinha acabado num nulo, um zero a zero quase a saber a derrota. Dois pontos perdidos, mais dois pontos afastados do rival...

E ele sem poder dizer nada... chatice, agora não podia fazer o comentário na rádio local, ali da Charneca... é que se tinha comprometido. E agora? O que ia dizer?

Resolveram colocar uma música em substituição do comentário de 3 minutos: The sound of silence! 



domingo, 14 de novembro de 2010

A PRIMEIRA SAÍDA

Conhecera-a no início das aulas, tinham entrado, de novo, para aquela faculdade.

Ela, de cabelo ruivo, olhos de um castanho muito claro, um mel de rosmaninho, uma tez quase pálida.

Ele, alto, olhos pretos, cabelo crespo e forte, e tom de pele bem moreno.

Quando se olharam da primeira vez deixaram os olhares presos um no outro, os corações em sobressalto, as emoções a transpirarem... mas não falaram um com o outro, apenas aquela troca de olhares e um assentimento mútuo para ficarem sentados perto um do outro.

Passaram a andar juntos, a trocarem as notas que iam apontando nas aulas, a comerem lado a lado na cantina universitária, mas quando acabavam as aulas ela ia para casa dela e ele seguia o seu caminho. 

Ele ainda não tinha  tido a coragem para a convidar a sair, imaginava convidá-la para jantar, um jantar a dois, com velas, música ambiente, criados de camisa branca e lacinho preto e com copos de pé para o vinho. Tinha receio que o desiludisse com um não!

Mas ela aceitou, sem hesitações. Ele marcou mesa, foi buscá-la a casa e sentiu-se pessoa importante quando chegaram ao restaurante e disse que tinha mesa reservada.

Num canto, discreta, isolada o suficiente para consentir uma certa intimidade de conversa, a mesa, com uma toalha branca, imaculada, esperava-os. Escolheram o mesmo: rósbife, daquele muito fino, bem vermelho, com um molho espesso e bem quente, para contrastar com o frio da carne, acompanhado de esparregado, cebolas glaceadas e batatas fritas, das redondas, muito finas, estaladiças... 

Ela preferiu um vinho rosé, ele um tinto. Brindaram, olharam-se nos olhos, beberam e sorriram um para o outro.

A sobremesa  foi, também, partilhada... bolo de chocolate, a desfazer-se, quase, numa mousse líquida, saborosa. Café com um pau de canela e a refeição a terminar... mas a conversa não.

Pegou-lhe na mão e não disse nada... apenas deixou os olhos sorrirem-se-lhe. Ela anuiu com outro sorriso de olhar...



sábado, 13 de novembro de 2010

CHÁ DAS CINCO

Eram quase cinco da tarde, a hora do seu chá.

E ele gostava de tomar o seu chá àquela hora. Desde que não houvesse motivo de maior, pontualmente, às cinco horas, dezassete para ser mais preciso, lá chegava o seu chá, o seu Assam, de cultivo indiano, acompanhado de bolos secos, de canela.

Era um ritual.

Naquela altura do dia, com as tarefas quase  todas realizadas - só faltava ver os desenhos que ela tinha prometido trazer - um chá preto, como o Assam, satisfazia-o de forma especial: dava-lhe o ânimo que a teína e a cafeína forneciam, o sabor apaladava-lhe as papilas gustativas e preparava-as para o momento do jantar e, o calor daquela infusão, confortava-o e descansava-o do seu trabalho intenso de criação.

Mas ela tardava em chegar.

Tinham combinado às 16 horas, o que dava tempo para verem, com tranquilidade, as novas colecções de moda para o próximo verão.

Ela tinha combinado trazer os esquissos dos vestidos e dos fatos de banho. Mas a verdade é que ela não tinha tido tempo para nada e nem sequer tinha ainda feito qualquer rabisco.

E sabia também que, depois do chá, ele já não queria saber de trabalho.

Adiou o problema.

Mandou uma mensagem: trânsito caótico, vou chegar mais tarde, só pela hora do chá...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

SÃO MARTINHO

Lá chegámos ao São Martinho.

E como cada dia tem um santo, o do Martinho é a 11 de Novembro.

Há dias que têm dois santos, como o 28 de Outubro, que comemora o de São Simão e o de São Judas Tadeu. Claro que não é o Judas que traiu Cristo... esse era o Judas Iscariótes: acabou pendurado numa oliveira, triste dia para ele!

Mas o Martinho não traiu ninguém. 

O Martinho era um soldado romano, daqueles com elmo de ferro, couraça, também de ferro polido e brilhante, e uma túnica enorme, vermelha, que, presa aos ombros, lhe caía pelas costas abaixo, esvoaçando ao vento provocado pela deslocação quando fazia as suas rondas a cavalo, num trote apressado, pois a área a vigiar era grande.

Conta a lenda, porque há sempre uma lenda por detrás de cada história que, quando o soldado Martinho andava a fazer a sua ronda, viu um velho homem, um mendigo, cheio de magrezas de fome e tremores de frio, praticamente sem roupa. Além do frio, chovia também e os cabelos e a pele daquele velho mendigo escorriam imensa água.


O nosso Martinho, bondoso, ao ver aquele homem velho naquelas condições, e porque gostava de ajudar o próximo, principalmente os mais necessitados, parou o seu trote,
puxou a sua capa grossa e quente e, num golpe certeiro de espada, cortou a capa ao meio, saltou do cavalo, e embrulhou aquele velho tiritante e molhado.

Quase por milagre, a chuva parou, o frio e o vento desapareceram e o sol veio inundar de luz e calor aquele dia até então imensamente triste.

Parece que virou mesmo lenda, a do verão de São Martinho.

Só não sei o que aconteceu depois àquele ancião, nem quando o Martinho se tornou santo.

Mas lá que a história é linda e comovente, isso é.

Depois, e sem se saber muito bem porquê, começaram a aparecer uma série de adágios relacionados com o São Martinho, com o vinho (será só por que rima?), com o verão (que também rima com o São do Martinho) e, como o dia é o 11 de Novembro, também tem a ver com castanhas, como o lume e outros motivos outonais.

Ficam alguns:

  • No dia de São Martinho vai à adega e prova o vinho.
  • Mais vale um castanheiro do que um saco com dinheiro.
  • Dia de São Martinho fura o teu pipinho.
  • Do dia de São Martinho ao Natal, o médico e o boticário enchem o teu bornal.
  • Pelo São Martinho mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho.
  • Se o Inverno não erra caminho, tê-lo-ei pelo São Martinho.
  • Se queres pasmar teu vizinho lavra, sacha e esterca pelo São Martinho.
  • Dia de São Martinho, lume, castanhas e vinho.
  • Pelo São Martinho, prova o teu vinho, ao cabo de um ano já não te faz dano.
  • Pelo São Martinho mata o teu porco e bebe o teu vinho.
  • Pelo São Martinho semeia favas e vinho.
  • Pelo São Martinho, nem nado nem cabacinho.
  • Água-pé, castanhas e vinho faz-se uma boa festa pelo São Martinho.

E eu que não bebi um copo de vinho e nem comi uma castanha, sequer! 

Desculpa lá São Martinho
E não me leves a mal
Se não provei do teu vinho
e das castanhas, do bornal.
 

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ENGORDA

Quando apareceu o euro resolveu arranjar um mealheiro.

É que a vida ia ficar mais cara, o aumento do custo de vida quase passou para o dobro, a bica passou dos 50 escudos para os 50 cêntimos e o resto também aumentou na mesma proporção... era altura de começar a economizar, guardar algum dinheiro, para uma compra inesperada, para uma viagem, para as prendas de Natal...

Lembrou-se dos tempos da sua infância, quando tinha um porquinho de barro onde guardava os tostões que ia recebendo dos padrinhos e dos tios e, quando o porco estava cheio, partia-o com um martelo... depois era só separar os cacos dos tostões, contá-los, e lá ia comprar a bola de futebol, os últimos cromos da colecção dos ases de futebol... era o Travassos o mais difícil de encontrar, o Travassos dos cinco violinos do Sporting. Era o último cromo... e quem o tinha vendia-o bem caro. Lembra uma vez em que pagou vinte e cinco tostões pelo cromo do Barrigana, o guarda-redes do Porto, conhecido pelo "mãos de ferro". 

Comprou um porco-mealheiro, versão recente de plástico e começou só a guardar as moedas de 2 euros, cada uma que lhe aparecia ele guardava-a e, ao fim do dia, lá ia meter a ou as moedas na ranhura, e ia enchendo, devagar, a pouco e pouco., aquele porco de plástico.. tinha dias em que não tinha moedas...  eram só as de dois euros...



Com o tempo começou a receber menos moedas... às vezes tinha uma semana que não lhe calhava nenhuma. Resolveu começar a guardar também as moedas de um euro, sempre a metade das que tinha e, à medida que o tempo ia passando, ia aumentando a dificuldade em arranjar moedas para colocar na ranhura do porco e ele a não engordar como queria...

Mudou de emprego, o salário reduziu a sua expressão e o guardar moedas foi-se tornando mais difícil e o porco a emagrecer... Havia alturas em que retirava mais moedas do que as que colocava. O que enchia, agora esvaziava e, com o tempo, o dinheiro foi evaporando, desaparecendo, sumindo...

O porco deixou de ser útil, ficou lá, no cimo do móvel, como decoração.

Mas ele achava que devia voltar a poupar, já não pensava em euros, mas em cêntimos, a guardar as moedas de um e de dois cêntimos... precisava arranjar outro mealheiro, um que fosse adequado à sua realidade, à realidade deste país... e encontrou-o.


Pode ser que agora o encha mais depressa, com as moedinhas de um cêntimo, mas  será que consegue arranjar dinheiro para as férias, para as prendas de Natal... quando partir o porco?


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

MAU TEMPO NA SERRA

O dia acordou cheio de vento, daquele que uiva como os lobos,  daquele que faz abanar as árvores, partir os ramos e que acaba com os resto das folhas que ainda persistem presas aos galhos. 

Os animais inquietos, o gato num miado assustado, a encostar-se às paredes, a arquear a coluna, os cães a ladrar, a ganir ou quase uivar ao desafio dos ventos, os pássaros escondidos, calados e bem abrigados nos ramos mais fortes e de folhagem densa e persistente.

Uma rajada mais forte, violenta, a fazer bater portas não trancadas, a levantar telhas mais soltas, a atirar longe os ouriços prenhes de castanhas, a fazer vergar árvores modestas e a sacudir copas de sobreiros velhos.

E a chuva, batida, empurrada, soprada por este vento doido, que não dá sossego.

E ela, no conforto da casa, com o calor da lareira acesa, um lume do azinho e do sobro a deixar o lar atapetado de brasas vermelhas e quentes. 

E a panela de ferro, no cimo dos seus três pés, a chiar a sua água quase em fervura, como que a querer silenciar o vento com esse "schiu" feito vapor.

O Jornal vinha cheio de avisos, de alertas, laranjas, vermelhos... a prenunciar agoiros, rios e ribeiros a galgar margens,  cheias, inundações, árvores caídas... a anunciar um São Martinho molhado, frio e ventado.

Ou será o São Martinho a preparar o seu verão e a varrer os frios, os ventos as chuvas, para nos dar as castanhas e a água pé num dia de sol, quente e sem vento?


terça-feira, 9 de novembro de 2010

MICROBAND

São dois: fazem lembrar os Marx Brothers dos tempos modernos.



Apresentam um espectáculo de comédia musical com violas, violinos de vários tamanhos que se abrem ao meio, de flautas que são sopradas pelo nariz... Tudo com uma mímica, uma cumplicidade de gestos e atitudes, com a dose necessária de loucura para pôr um público em delírio.

São exímios intérpretes, de Beethoven a Bach, de Rossini a Astor Piazzola, de Jethro Tull a Júlio Iglésias...

Duas horas de um espectáculo de música séria apresentada de forma dessincrónica, hilariante, gargalhante, que provoca até dores de barriga de tanto rir.

Imaginação, sincronismo, originalidade que mais dizer?

Grazzie Luca Domenicali e Danilo Maggio!

Obrigado ao Auditório do Ramo Grande e ao Outono Vivo da Praia da Vitória!

Se querem rir vão ao youtube -

http://www.youtube.com/watch_popup?v=45n0rZ3x2MY&vq=small



segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ENSAIO GERAL

Tudo estava pronto, o texto bem decorado, as dicas estudadas, as entradas no tempo certo, a dicção correcta, tudo pronto para o ensaio geral.

O palco com o "décor" adequado, as luzes acertadas, o ponto no lugar, os outros actores no sítio certo.

Só faltava ela.

Era quase sempre assim. Chegava sempre atrasada. Não se sabe se por capricho, por modo de chamar a atenção, ou porque o relógio dela se atrasava, sempre, naquelas ocasiões.

Os que não gostavam dela diziam que era por uma questão de capricho, já os defensores alinhavam pela hipótese do relógio atrasado.

Finalmente, apareceu, com ar de desdém, um tanto indiferente à ansiedade e impaciência dos outros...

Era o ensaio geral. A estreia seria no dia seguinte. O palco cheio de público convidado.

As pancadas de Molière e o espectáculo a iniciar.

Tudo certo, tudo afinado, o ensaio geral a ser um êxito... aplausos de pé, flores, muitas subidas à cena.

Ele resolveu oferecer-lhe uma prenda, um relógio de ouro, lindo, quase como uma jóia. Com uma particularidade, estava sempre adiantado 10 minutos. 

No dia seguinte, no da estreia, foi a primeira a entrar em palco!

domingo, 7 de novembro de 2010

AREIA ESCURA


O dia de sol convidava a um passeio junto à beira-mar. Passeou mais de meia hora, num passo normal, naquela faixa de areia escura, mais molhada e dura, junto ao final da rebentação.

De vez em quando apanhava um pedra lisa e atirava-a tangente à água tranquila da praia, quase sem ondas. A pedra a saltar, uma, duas, três... seis, sete vezes. Não conseguia passar dos sete saltos. Se a pedra entrava num ângulo mais incisivo, mergulhava de imediato, sem um pulo, sequer. Mas, se a tangente era perfeita o pulo era longo e ia-se encurtando de pulo para pulo até ao sétimo salto... curto de nada.

Acabado o passeio, antes de voltar ao hotel, resolveu sentar-se na areia escura da praia, ali, na beira-mar de uma maré vazia. Olhou a areia, escura, lisa, sem vida, quase inerte e alargou o olhar para o mar, estendendo a vista até onde ela ia... porque daquele lugar, sem nenhum obstáculo diante dele, o horizonte ficava muito distante, muito para lá do longe.

De novo baixou o olhar e reparou, agora atento, que aquela areia, quase negra, afinal, tinha vida: os camarões da areia, semi-transparentes, a pular como a pedra que ele fazia saltar pelo mar dentro, os esguichos das conquilhas escondidas debaixo da areia, os caranguejos a atravessarem-se na sua frente com a sua passada lateral apressada, mais adiante um pássaro atrevido a tentar apanhar uma minhoca do mar e, naquela poça de água que ficou esquecida junto a uma rocha polida pelas marés, os alcabozes nadavam tranquilos como peixes em aquário.

Curioso!, quando se sentou naquela areia escura e a olhou, nada viu no relance do olhar, mas agora, ao quedar-se com mais atenção, reparou na imensa vida que lhe passava diante dos olhos. 

É por isso que, às vezes, as primeiras impressões, não mostram a realidade, não deixam ver o que ali está diante de nós... nada como um olhar mais atento e curioso sobre a vida para descobrirmos aquilo que realmente existe e que sempre esteve, ali, diante de nós.

sábado, 6 de novembro de 2010

A FLAUTA

Era magro, alto, vestia de preto! A flauta cromada sobressaía elegantemente do escuro que ele vestia,  do escuro do piano, que estava logo ali atrás, e do escuro do palco. 

Apenas dois focos de luz, sobre o flautista e o pianista.

Tocou-se Mozart, Haendel, Fauré, J. S. Bach e Taffanel.

O som saía perfeito, sem hesitações, sem desmaios, naquele arrastar de sons que a flauta tão bem sabe transmitir. O piano, um Steinway & Sons, de cauda, meio aberta, suportava e acompanhava maravilhosamente bem o som da flauta.

Um concerto, digno de um Ramo Grande!

É a cultura a aproximar-se das periferias, é a cultura a democratizar-se, a ser acessível, a tentar ser banal.

E a sala aplaudiu de pé...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O QUARTO 502

O voo estava marcado para as 8h00. Queria dizer que tinha de estar no aeroporto pelas 6h00. Foi o que lhe disseram na agência de viagens: duas horas antes da partida.

A fila para o "check in"  já estava longa e só um balcão a funcionar. Odiava aquelas filas, aquelas esperas. Era sempre a mesma ansiedade da partida, uma espécie de nervosismo que o tornava impaciente.

Ainda conseguiu um lugar junto à janela, lá atrás, quase na cauda do avião, mas ia à janela. Gostava de ver o avião a levantar, de ver as casas a ficarem pequeninas e bem lá em baixo, as ruas e estradas a tornarem-se carreiros, linhas, como se olhasse um mapa de estradas. Depois já só via os montes, os rios, as albufeiras e, a partir de uma certa altura, atravessava um acolchoado de nuvens e ficava acima de tudo. O céu azul, forte, luminoso e por baixo aquele colchão das nuvens, brancas, compactas...

A viagem decorreu sem incidentes, adormeceu a sua ansiedade durante quase todo o voo e, na altura da descida, lá se foi quase debruçar sobre a janela disposto a não perder pitada da aterragem. A descida através das nuvens, o aparecimento das cúpulas dos maciços ainda cobertos de neve, depois os carreiros das estradas a engrossarem, os carros a distinguirem-se, os aglomerados de casas, os campos bem tratados, as luzes do aeroporto, o barulho do trem de aterragem a sair, os flaps para cima e o bater no chão, o chiar dos pneus, o barulho do jacto invertido a frenar aquele enorme pássaro metálico, até à paragem junto ao terminal.

Agora o quase percurso inverso ao da partida, a espera das malas, o táxi para o hotel, de novo o check in, agora mais tranquilo, para receber a chave do quarto.

Número 502, com vista para o mar, um quarto amplo, luminoso, e uma varanda que prometia tranquilidade.

A cama larga e macia pedia um descanso e ele que andava bem cansado, a semana de intenso trabalho, a preparação para a apresentação do trabalho de logo à noite. 

Deitou-se um pouco, só um passar pelas brasas, disse-o para consigo mesmo, depois um banho, o vestir do fato, gravata e o ir para a conferência apresentar o trabalho da sua vida, a sua promoção e a subida a um lugar de importância na empresa.

Assim fez, deitou-se um pouco, deixou os olhos fecharem-se e adormeceu, profunda e longamente... acordou passava do meio dia.  Estremunhado, confundido com a luz forte do dia e, de repente, deu-se conta das horas, da conferência, do trabalho que não apresentou... Levantou-se a correr para a casa de banho. Tinha de arranjar uma desculpa...

Debaixo da porta do quarto já tinha uma carta... da empresa, curta, a rescindir o contrato.