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sexta-feira, 30 de abril de 2010

AMORES PERFEITOS

Amores-perfeitos só conheço aquelas flores, que embora não sejam de particular beleza,  têm o seu quê de peculiar. Têm rosto, ao longe até podemos imaginar uma borboleta pousada na dita flor. Também lhe chamam violetas. E são úteis: dizem que apaziguam as iras, em grinaldas e colocadas na cabeça, como uma coroa, acalmam as dores e os enjoos, e também são usadas para tratar algumas doenças de pele, nomeadamente o eczema, quer sob a forma de chá ou em aplicações cutâneas feitas com as flores secas e mel.


Agora, amores perfeitos, dos outros, de homem e de mulher, acho que não existem. Muito menos amores eternos; ou seja, todos são eternos enquanto duram. Depois adormecem, adaptam-se, consolam-se, vão-se habituando, vão-se calando, toleram-se e deixam de ser amores. Há os que acabam naturalmente, outros mais brutalmente e até há os que terminam de forma litigiosa, com tribunal pelo meio.

Mas, também, amores perfeitos, estetas, belos, adonisíacos (existe a palavra?) interessam para quê? Para estarem numa exposição pela invulgaridade? Para ficarem fixados numa redoma de vidro para serem vistos mas não tocados  por mãos imperfeitas? Acho que o amor não deve ser perfeito. Só Deus é perfeito! O Homem nunca será perfeito e também não os seus amores: são as imperfeições limadas e corrigidas no dia a dia da cumplicidade, da amizade, da compreensão, do carinho, da afectividade que podem fazer, isso sim, um GRANDE AMOR! 

Agora, amores-perfeitos só  estes, como os do meu jardim!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

DANÇA E LIVROS

Hoje celebram-se dois acontecimentos: o Dia Mundial da Dança e a abertura da Feira do Livro, em Lisboa.
 
A dança, ao lado da música e do teatro, é uma das artes cénicas mais importantes.

E, se é uma arte que pode ser expressada de uma forma autónoma e improvisada, habitualmente está associada às outras duas artes referidas.

É uma arte porque usa um objecto, o corpo, que se vai modelando, de acordo com a improvisação do momento, ou seguindo movimentos cadenciados, previamente criados por uma coreografia e  muitas vezes acompanhados por música compassada e ritmada.

A dança não é mais do que a expressão, em movimento, dos sentimentos que a música pode evocar. A solo, a par, ou em conjunto, a dança é uma forma máxima de expressão artística precisamente porque junta as três formas de arte cénica: tem coreografia, tem ritmo e tem movimento.

Seria bom que, hoje, todas as Escolas de Dança viessem para a rua e, nos jardins, nas praças, nos passeios, nas Escolas, nos Hospitais, em qualquer local, viessem mostrar o quanto importante a dança é para todos nós , não só como forma de expressão artística ou de lazer mas, também, como forma de desenvolver a harmonia espiritual e corporal, como forma de cultura, até como meio terapêutico.

Também hoje abre mais uma Feira do Livro, em Lisboa, na semana a seguir à celebração do Dia Mundial do Livro. É a oportunidade que temos de comprar livros mais baratos, e quão caros eles estão(!), de, no mesmo espaço, podermos ter uma grande variedade de géneros literários, de tentar encontrar aquele título que há tanto tempo procuramos (neste momento ando à procura de mais uma edição dos Contos e dos Novos Contos da Montanha que se encontram esgotados há bastante tempo), de enriquecermos a nossa cultura.


quarta-feira, 28 de abril de 2010

O DISTRITO

Acaba hoje.
Saiu o último número.
Recebi um anúncio por e-mail do actual Director a dar conta do fim, na data em que comemora os 126 anos.
Que é a falta de dinheiro.
Pode ser que sim, até acredito. Sempre conheci este jornal com falta de dinheiro.
Mas a falta de dinheiro nunca foi impedimento para que o Jornal não saísse, sempre houve vontade para que ele chegasse aonde devia chegar: aos leitores, aos assinantes, aos interessados.
Lembro tempos bem difíceis em que o empenho de alguns, em particular do Director de então e de alguns colaboradores mais próximos, impediu que o Jornal acabasse.
Mas, pelo que parece, a Morte veio aos 126 anos. Podia fazer-se um obituário longo, cheio de palavras bonitas, mas acho que este, ou qualquer outro, Jornal, não merece morrer.
Nunca falei com o actual Director, nunca vi o Bispo de agora, mas li muitos Editoriais e ouvi, atentamente, a entrevista que o Dom Antonino deu à Radio de Portalegre. Até está na You Tube em versão integral.
Não levanta dúvidas, nem más interpretações: está ali, escarrapachado, o que Portalegre significa para este representante da Igreja.
Pela amostra da entrevista eu permito-me imaginar o que ele (o Bispo) deve pensar do DISTRITO, sempre em tom jocoso e com algumas gargalhadas pelo meio: "um jornaleco de meia tigela, feito por amadoreszecos e dirigido por um padreco qualquer, pelo que não vale a pena investir o dinheirito, especialmente por ser um jornal da Igreja".
Concluo, assim, do seu não empenho neste Jornal.
AMEN
RIP

terça-feira, 27 de abril de 2010

PALETA DE CORES

Estão lindos os campos do "meu" Alentejo.

Reservo e reivindico uma parte deste Alentejo para mim. Tenho todo o direito a chamar-lhe meu: tenho uma casa minha aqui, parte da minha vida é passada aqui, parte do meu trabalho é feito aqui, tenho aqui grandes e bons amigos, compartilho muitas coisas da vida aqui e até escrevo nos jornais daqui! E já lá vão, quase, 40 anos!

Mas hoje, não quero refilar com nada, nem reivindicar coisa nenhuma, quero, tão só, falar da beleza dos campos deste Alto Alentejo, do seu verde intenso e forte mesclado de roxos, de amarelos, do vermelho das papoilas, do amarelo e branco dos milhões de giestas que bordejam as estradas, como se fossem açafatas prontas a festejar o Maio que está a chegar. E não são só as cores, mas também a luz única que as faz avivar e deixar, no fechar dos olhos, uma paleta imensa de cores vivas, exuberantes e fortes.
Hoje andei a passear o meu olhar, a colorir as minhas emoções visuais, a encher a alma de sensações boas, nesta tela imensamente bela e vasta que é o meu Alentejo.

Obrigado!

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O ESPIRRO

Habitualmente vêm em séries de dois ou de três, ou trinta. Às vezes basta pôr os pés fora da cama e a sinfonia começa. Dá aquela comichão no nariz, incontrolável e precipitada, e não vale a pena contê-lo. Se há tempo, ainda se põe o lenço ou a mão diante do nariz para impedir que aquele aerossol de perdigotos se espalhe diante de nós e sempre diminui, um pouco, a sonoridade do "atchim", que pode ser mais do tipo trombone "atchooom" ou, na  escala oposta, de tipo prato de bateria "atchiiiim", mais metálico. Se não se quer que seja barulhento, há quem aperte o nariz, abortando o espirro mas ficando a ver luzes, estrelinhas e moscas volantes, mesmo com os olhos fechados.

O que não há dúvida é que os espirros são incómodos, perturbam, causam mossa e podem ser traumatizantes.

Nesta altura da primavera não há alérgico aos pólenes que não ande com o lenço de papel na mão, com o frasco do nebulizador nasal e com os comprimidos dos antihistamínicos no bolso ou na carteira, pronto a aplicar ou a tomar, sempre que a comichão, os espirros e os olhos irritados e a lacrimejar obrigam a tal.

Quando se espirra é habitual a réplica do "santinho", ou "Deus te guarde", tal e qual como "saúde", "viva" ou outra coisa parecida. Há sempre uma história por detrás disto que não vale a pena estar aqui a contar. Em qualquer enciclopédia se encontram milhares de histórias a explicar o motivo da réplica ao espirro.

Cá na nossa terrinha portuguesa o "santinho" prevalece, não sei se é porque tem o "inho" que nos caracteriza - um cafézinho, um bolinho, é só um instantinho, estou  pronto em dois minutinhos, ai ela é um bocadinho apoucadinha... - o certo é que soa melhor dizer santinha ou santinho, do que santa ou santo. Até parecia mal, chamar assim santo ou santa a alguém, nem o próprio levava a sério, mas se fôr santinho... escapa!

Só não sei é o que dizer a um governante, deputado, gestor corrupto ou quejando, quando espirra: diabinho? corruptozinho?, vendidinho? aldrabãozinho? vigaristazinho?

O melhor é ficar por aqui... não comecem a espirrar todos ao mesmo tempo e depois não há "inhos" que cheguem para todos!

domingo, 25 de abril de 2010

CALEIDOSCÓPIO

O nome vem do Grego: bonita (kalos) imagem (eidos) para se olhar (scópio). E, de facto, não serve para mais nada: ver imagens coloridas, em combinações variadas e variáveis, sempre que se roda o tubo por onde espreitamos. 
A concepção é fácil: três espelhos, ligados entre si, um tubo onde se colocam estes espelhos, e pedaços de vidro colorido que se reflectem, simetricamente, nos espelhos criando combinações de imagens agradáveis e de belo efeito.

Com materiais simples se consegue fazer um, fácil, também, de se construir e capaz de criar um mundo de imagens, sempre diferentes, geometricamente perfeitas.

Parece o mesmo com muitas coisas que este governo, o sócrates (não o filósofo grego, que esse escreve-se com maiúsculas) e o partido socialista nos querem meter pelos olhos a dentro: criar ilusões de belo efeito, harmonicamente correctas, que se modificam com o mudar das circunstâncias, e que encantam qualquer pessoa menos atenta. Tem sido  assim com muita coisa desta política de enganos, de mentiras, de opulência para alguns, de corrupções, de imensas injustiças, de tribunais que funcionam mal e, pior que isso, não condenam quem deviam condenar, de políticas de saúde que degradam, cada vez mais, a assistência à doença, de escolas que não educam nem formam cidadãos capazes, de um tudo de nada, sempre para pior.

Foi nisto que transformaram o 25 de Abril: um enorme CALEIDOSCÓPIO!

sábado, 24 de abril de 2010

AS FORMIGAS

Chegou a primavera, o tempo aqueceu ligeiramente, o Sol começou a mostrar-se mais homenzinho, a dar mais luz aos dias, a prolongá-los nos fins de tarde, a incrementar as cores da natureza e elas, as formigas, a carreirarem-se por tudo quanto é sítio. Descobrem o grão açúcar debaixo da arca, que o potente aspirador não conseguiu aspirar, sobem pelas paredes escorregadias de azulejo da cozinha e refastelam-se no recipiente do mel, entram na caixa do pão onde, bem guardado, está um bocado de bolo finto de Castelo de Vide, encimado por uma coroa de açúcar e banqueteiam-se naquela montanha branca. Na sala, junto à lareira, espalham-se, como veraneantes na praia, diante do cesto da lenha: devem andar a "snifar" o cheiro da resina de pinheiro, porque eu não vejo lá nada que lhes possa interessar. Só se forem raspas do chocolate preto que está na prateleira dos livros!

São uma praga, saem de qualquer buraco do chão, de qualquer fenda na parede, como se andassem a corroer os alicerces da casa numa tentativa de a desmoronar, tantos os milhares ou milhões de galerias que estes insectos minúsculos escavam ao construírem o seu mundo subterrâneo.

E lá fora, com o sol a aquecer a terra, a cigarra a cantar, contente da vida.

Acho que o Esopo e o La Fontaine não tinham totalmente razão: a formiga trabalha, não há dúvida,  mas estraga o sossego, as provisões, as casas dos outros, ao passo que cigarra canta e encanta com a sua música, não chateia e leva a vida a sorrir.

E levar a vida muito a sério não leva a nada: implica sacrifícios, pagamento de impostos, que não vão melhorar a saúde de ninguém, nem a educação dos jovens. Os impostos vão servir para pagar o rendimento social de inserção, a uma malta que não faz nada mas que vai votar PS, e os ordenados e indemnizações chorudas dos "boys" do sócrates que, também, por obrigação do tacho votam PS. E para pouco mais servem. O resto do dinheiro vai-se buscar ao estrangeiro e aumentar assustadoramente a dívida pública externa.


E então? Formigas ou cigarras?


sexta-feira, 23 de abril de 2010

A DOÇARIA CONVENTUAL E O DIA MUNDIAL DO LIVRO

Portugal é um país doce. Doce de clima, apesar das grandes transformações destes últimos tempos, doce no viver, doce na afabilidade e no receber, e, sobretudo, doce nas suas sobremesas. 

Para falar de doces tem-se de falar muito de conventos, de ordens religiosas, de frades e de freiras, de monges e de monjas. E os doces, precisamente por serem doces, precisam de açúcar e, para que cheguemos ao açúcar, é necessário recuar uns séculos, talvez à segunda metade do século XV, altura em que o açúcar da Madeira e o do Brasil começa a chegar, em abundância, a Portugal. Até essa altura o mel era o principal elemento adoçante da culinária na Europa, embora os Árabes, que por cá viveram muito tempo, nos tivessem deixado um grande legado em doces de açúcar, do verdadeiro, não apenas dos doces melados.

Açúcar e ovos, principalmente as gemas, são os dois elementos que mais caracterizam os doces dos Conventos. Mas também os frutos secos, em particular a amêndoa, herdada também das tradições árabes, fazem parte, quase integrante, dos doces, conventuais ou não, sejam do Alentejo ou  do Algarve. As gemas abundavam porque as claras eram usadas para "engomar" as toalhas dos altares e os hábitos das freiras, e eram  usadas, também, para clarificar o vinho branco, sobrando as gemas, que eram oferecidas às "pobres" das freiras dos conventos.

Muitas destas freiras vinham de famílias nobres, habituadas a um certo requinte de comida e de doçaria e, assim, não foi difícil desenvolver uma arte tipicamente feminina.

Tirando raras excepções, os frades e os monges dedicavam-se mais à arte enólica, não só no fabrico de vinhos mas, também, no de licores e aguardentes.

Tudo isto a propósito de que decorre, este fim-de-semana, aqui em Portalegre, no Convento de Santa Clara, a X Feira da Doçaria Conventual, com uma série de actividades: doces e as novas criações gastronómicas, laboratórios de gosto, concursos, animações, exposições, "workshops", música... que vão trazer movimento e cor, além de muita doçura, a esta Cidade.

E falar de doces conventuais é falar das "Fartes", quase só açúcar, gemas e amêndoa, da "Encharcada" só com açúcar e gemas, do "Leite Serafim", este com um tudo nada de farinha de arroz e de trigo, para além de leite, dos ovos e do açúcar, do "Manjar Branco", desta vez sem ovos, mas com açúcar, leite e farinha de arroz, do doce "Fidalgo" feito com trouxas de ovos e ovos moles, ou seja, gemas e açúcar, uma vez mais, e de um enorme et cétera, pois a quantidade de doces conventuais quase não acaba.

Também, hoje, é o Dia Mundial do Livro. Mais um dia mundial! Mas, este deve ser sempre celebrado, todos os dias se possível, pois só o livro nos traz cultura, sabedoria, enriquecimento intelectual, conhecimento e mais um et cétera imenso de virtudes que acompanham os livros, a literatura e os bons hábitos de ler.

Resta-me comemorar, da melhor maneira, este dia, e por isso vou comprar um Livro sobre a Doçaria Conventual.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

A PERDIZ

A espera foi longa, o fim de tarde ameaçava chuva e mau tempo, o vento fresco fazia-se já sentir mas, de certeza, o jantar iria compensar o desagradável desse tempo de espera.

Os três jipes chegaram e levaram o grupo a um local especial, em plena charneca alentejana, num monte isolado. Um grupo de casas encostadas umas às outras, com as suas chaminés largas a fumegarem, e o sol a começar a desaparecer no horizonte, mas a iluminar a chuva que, ao longe, projectava um arco-íris, enorme, que emoldurava o casario branco do monte.

A porta da casa principal a abrir-se com a chegada dos carros. Dois rafeiros alentejanos, de pêlo branco e creme, e ladrar forte, farejaram o grupo numeroso, mas não o hostilizaram. O anfitrião, de farto bigode branco, acolheu-os de braços abertos, cumprimentando, com satisfação, cada um dos convivas.

Este encontro estava marcado há algum tempo, mas só naquele dia foi possível a sua realização. Uma promessa para comemorar diferentes celebrações, daí a heterogeneidade do grupo - industriais, gestores, agricultores, advogados, médicos - mas todos conhecidos e amigos de longa data.

O motivo era um jantar de caça, um pouco diferente do habitual pela originalidade da ementa, que prometia:
     
     Chamuças de lebre, crepes de alface migada com galinhola e escabeche de codorniz, bem desfiada, suavemente avinagrado.

     Consomé de pombo, das arribas da Costa Vicentina, com toques de hortelã da ribeira.
 
     Perdiz com uvas, preparadas numa espécie de esturgido, confitadas em gordura de porco preto e com sumo de uva tinta. A acompanhar, carpaccio de pão alentejano aquecido no forno e passado, rapidamente, no molho do esturgido, uvas despeladas marinadas em vinho da Madeira, Malvasia, com cravinho e aquecidas,também, no molho da perdiz e, ainda, cebolinhas e batatinhas novas, com casca, assadas em forno de lenha.

     O vinho era um Reserva Alentejano, premiado e guardado especialmente para esta perdiz. Um casamento perfeito!


     A encharcada era a única sobremesa adequada para este fim de refeição.

Jantar magnífico, diferente, apaladado nos sabores, original na apresentação, quase sofisticada, fazendo contraste com ambiente rústico da sala de jantar: uma mesa corrida, comprida, de carvalho, uma lareira acesa na parede do fundo, dois aparadores de apoio e, nas paredes, chocalhos, alfaias, uma cabeça de touro e, meia escondida, mas para que a sorte nunca fuja, uma ferradura já enferrujada de muitos anos. 

Após o repasto, na sala dos troféus de caça, o café, a bagaceira e o fumo de cigarrilhas e charutos, a acinzentar o ar da sala e fazer dissipar os sabores e os aromas da caça acabada de comer. A conversa prolongou-se pelo resto do serão... 

Lá fora, a tempestade a passar por cima, com fortes bátegas de chuva e com uma trovoada bem sonora e relampejada, a querer deixar marca naquela comemoração de amigos...
 

quarta-feira, 21 de abril de 2010

O MOLESKINE

Ando sempre com um.

Os meus primeiros eram do tamanho de uma folha A5. Eram práticos para fazer desenhos, croquis, diagramas (os célebres flow-chart), e para escrever ao correr da pena. Úteis nas reuniões, quase a funcionar como um livro de actas.

Têm um inconveniente: são um pouco grandes, não cabem no bolso do casaco ou das calças e, quando não levamos a nossa pasta de trabalho, temos de andar com ele na mão. E nem sempre é cómodo e prático andar de Moleskine todo o dia na mão. Dá para esquecer em cima da mesa do almoço, ou em cima da secretária, ou  noutro local qualquer.

Já perdi o rasto a dois e, por isso, desde há algum tempo adoptei o Moleskine mais pequeno, o de bolso. É menos prático por causa da área de escrita, mas tem a enorme vantagem de o poder meter no bolso e andar sempre com ele.

O Moleskine, é o meu diário, o meu caderno de apontamentos, o meu guardador de ideias, o meu caderno de desenhos e esboços. Anda sempre comigo.

É um bom companheiro e uma boa companhia.

Quantos Moleskines não foram os confidentes dos milhares de passageiros retidos, ultimamente, nos aeroportos?

Quantos não aguentaram a raiva e o desespero dos inconvenientes daqueles dias de espera? 

Quantos desenhos não foram feitos naquelas páginas brancas guardadas por uma capa grossa e aconchegadas por um elástico? Vá-se lá saber.

O Moleskine é um daqueles inventos úteis, que a electrónica e os IPADS nunca irão tornar obsoletos. Tal e qual como os livros!

 

terça-feira, 20 de abril de 2010

FINALMENTE

Há dias encurralado no espaço de um aeroporto de uma cidade de pouca importância, sem possibilidade de fuga, sem comboios, sem carros de aluguer, com os hotéis da zona sobrelotados, eis que, finalmente surge, no écran das partidas, o tão desejado anúncio da hora de saída. 
Mais uma fila quase interminável para o check in, pois não era possível fazê-lo de forma electrónica, e ei-lo, finalmente,  com o desejado e ansiado cartão de embarque na mão.
Agora, as três horas que ainda faltam para a partida já quase parecem minutos. O arrumar definitivo da bagagem de mão, a compra do último jornal, para um actualizar de notícias, e a ida, finalmente, para a porta de embarque.
Finalmente o anúncio da partida. Ordeiramente as pessoas a respeitarem as instruções e o avião a encher-se. E a partida definitiva!
Três horas e quarenta e cinco minutos depois a chegada, com bom tempo, sem nuvens ameaçadoras, sem cinzas, com um sol avermelhado de fim do dia.
Finalmente em casa. 
Sabe bem chegar a casa. Finalmente!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ARCO ÍRIS

O Arco Íris que apareceu no fim da tarde de domingo em Lisboa quase abrangia a cidade toda.

Visto do Marquês de Pombal parecia ter início no Saldanha e ia cair no Tejo para o lado do Cais das Colunas.
Um arco enorme, bem desenhado, com as cores bem visíveis, espessas e constantes.


Tinha acabado de sair de uma Missa de Acção de Graças, com muitas crianças, algumas mesmo muito pequeninas que, no final da mesma, se reuniram à volta do celebrante - no estilo de um "deixai vir a mim as criancinhas ..." - sentadas pelo chão do altar, para escutarem uma passagem do Evangelho, contada de modo a que crianças entendessem, sobre um pacto que Jesus Cristo estabeleceu com Simão Pedro, à margem do lago de Tiberíades, sobre o Amor e  Dedicação.

E este arco, que assim me surgiu pela frente, fez-me lembrar o Arco da Aliança, aquele que apareceu logo após o dilúvio, no momento em que a Arca de Noé se quedou no Monte Ararat. Nessa altura, Deus fez um pacto com Noé e prometeu-lhe que nunca mais tornaria a inundar a Terra daquela maneira. Mais, disse que, sempre que chovesse, o Seu arco iria aparecer entre as nuvens para lembrar este pacto estabelecido entre Deus e os viventes da terra.

De facto a Terra nunca mais ficou inundada daquela maneira, mas a verdade é que tem havido muitas inundações por todo o lado, com muito sofrimento, muitas mortes, muito desespero. E, se não é a chuva, são os tremores de terra, são os vulcões a cuspirem lava pulverizada pelos céus da terra criando nuvens avassaladoras de negritude, de tapares de sol, de impedimentos de voos.

Uma forma de avisar o homem que o Deus-Natureza é quem comanda os destinos? Ou que os homens na afã da ganância, do dinheiro e do poder esqueceram a importância do Amor e de valores como a Amizade, a Verdade e a Dedicação às causas?
A Natureza vai deixando avisos. Estamos preparados para os entender?

domingo, 18 de abril de 2010

TANGO

Lembra a Argentina, Buenos Aires, Carlos Gardel, o bandoneón, Ástor Piazzolla, o Caminhito...


É uma música, uma dança a dois, que mistura a tristeza intrínseca com paixão, drama, sensualidade, agressividade e machismo. O machismo manifesta-se no tipo da dança, dura, sem meneios femininos, com o homem a comandar a mulher submissa.

A letra conta, quase invariavelmente, a história de um homem que sofre por amor, mas em que a culpa é sempre da mulher.

Enrique Santos Discépolo, poeta portenho dos anos 20, compositor e autor de letras de tango, dizia que "o tango é um pensamento triste que se pode dançar".


Não se sabe muito bem como apareceu, apenas que a sua origem se situa na zona do Rio de la Plata, sendo os pais o Uruguai e a Argentina, um verdadeiro "affaire" de vizinhança. E conta a lenda que a dança teria começado nas prisões onde era dançada entre os prisioneiros masculinos que, uma vez livres, teriam ido viver para os bairros mais pobres de Buenos Aires, onde continuava a ser dançada por dois homens, daí o facto de os rostos virados, sem se fitarem.

A música pensa-se que tenha uma influência cubana, da Habanera, uma música afro-latino-americana, levada dos salões da Europa para Cuba, por volta do século XVII. Depois de várias alterações dadas por músicos europeus retornou às Américas através dos emigrantes portugueses e espanhóis. O Tango, assim, não é mais do que um ritmo da habanera.
Bizet tornou esta habanera popular em erudita através da ópera Carmen.


O bandoneón, que é o instrumento por excelência do tango, veio nas malas dos emigrantes alemães. Ástor Piazzolla, que tive o privilégio de ouvir tocar no Coliseu dos Recreios de Lisboa, foi, para mim, o seu melhor intérprete.


De início, o Tango, apenas era uma dança rio-platense, mais tarde, pelos anos 20, com o aparecimento da discografia, começou a difundir-se, principalmente veiculado pelas vozes de Carlos Gardel, Azucena Maizani, entre outros. Os anos 40 marcam os anos de ouro do Tango, principalmente com as interpretações de Ástor Piazzolla e Juan D'Arienzo.

Hoje, toca-se, canta-se e dança-se em qualquer lugar do mundo é Universal. Por isso, em Setembro de 2009 foi considerado, pela Unesco, Património Cultural da Humanidade.

Hoje, ao folhear um álbum de fotografias, foram recordações de Buenos Aires, que me fizeram virar para o Tango.
Não amores perdidos, nem machismo, nem submissão feminina.
Talvez uma leve tristeza, uma saudade nostálgica dos dias bons aí passados, do bom café do Ortoni, do Puerto Madero e da excelente carne e, seguramente, das longas e boas noites de Tango vivido... 

 

sábado, 17 de abril de 2010

AS LARANJAS DO ESPANHOL

Depois de uma suave aterragem na pista das Lajes, na Ilha Terceira, Açores, um pouco como compensação feita pelo comandante do avião da SATA à sacudida viagem desde Ponta Delgada, meti-me num táxi e segui rumo a Angra do Heroísmo, a capital, do outro lado da Ilha. Ia-me encontrar com um grupo de amigos, um dos quais um simpático espanhol, residente em Portugal há muitos anos, possuidor de grandes laranjais na zona de Benavente, a norte de Lisboa.
O táxi era um Mercedes, já antigo, e o seu motorista e dono ficou ao serviço do grupo durante os três dias que passámos na Ilha. Figura simpática, de pronúncia carregada e fechada, típica do falar terceirense, o senhor Hermínio, assim se chamava o homem, cedo se revelou um infindável conversador e contador de histórias. À medida que a conversa se desenrolava, fui adaptando o meu ouvir àquele dialecto difícil de perceber e entender às primeiras vezes.
O senhor Hermínio era um grande defensor da sua Ilha! Para ele era a ilha mais bonita das nove ilhas dos Açores, as paisagens as de maior encanto, o mar o mais azul e o mais rico em peixe, o Algar do Carvão o mais espectacular, e patatí e patapá... e, assim foi, até chegar ao hotel, no centro da cidade.
No outro dia foi a visita à ilha e o "nosso" Hermínio a debitar "... e a cidade da Praia da Vitória, e a bravura dos ilhéus, e a corrida de touros à corda, única em Portugal, e os Impérios do Divino Espírito Santo, os mais bonitos, e as pastagens com as vacas que produzem o melhor leite do mundo, e o queijo flamengo, melhor que o original, e a alcatra comida ao almoço, nos Biscoitos, sem comparação com qualquer outra, e o vinho das curraletas, muito superior aos vinhos do continente... ".
No terceiro dia, a partida para outra Ilha e o fiel e dedicado Hermínio lá nos foi levar ao aeroporto. O trajecto de regresso foi mais o desfiar de uma ladainha de louvores à Ilha e aos terceirenses, sempre melhores que os naturais de São Miguel (japoneses e coriscos) ou os do continente.
 
Já dentro do aeroporto, com o "check in" feito e as malas despachadas para a Ilha do Faial, o meu amigo espanhol resolveu pôr o nosso Hermínio à prova. Do bolso do casaco tira a carteira, dentro desta retira uma fotografia que mostrava um dos seus laranjais, com as árvores carregadas de laranjas muito grandes, de aspecto suculento e mostra-a ao Hermínio ao mesmo tempo que lhe perguntava: "E vocês têm cá laranjais e laranjas assim como estas?"

Durante 30 longos segundos a verborreia do Hermínio transformou-se num sepulcral silêncio acompanhado de um ar de espanto e surpresa mas, sem demoras de maior, com um sorriso de vitória a aflorar-lhe a face, um brilho estimulante no olhar e o teclado dos dentes a mostrar-se no seu esplendor, num rasgo de génio intelectual e de bairrismo, sai-se com esta frase lapidar: "As nossas são mais doces..."

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A NUVEM

Nem sempre traz chuva. Mas, de certeza que faz uma coisa: tapa o sol!

Faz-me lembrar aquela história de alguém que dizia ao Sol que ele era todo poderoso, ao que o Sol replicava que qualquer nuvem o tapava, e a nuvem, por sua vez, dizia que o vento a desfazia, e o vento também concordava pois qualquer obstáculo o desviava, e assim por diante numa clara tentativa para dizer que ninguém é mais importante que o outro. E que o mundo, o viver, é feito das importâncias de todos e, também, das fraquezas de cada um.

Mas hoje a nuvem que faz notícia é a do vulcão da Islândia, que impede os aviões de voar, que não deixa as pessoas saírem de casa, que não deixa os carros andarem por aí. As cinzas vulcânicas entopem tudo, os motores, os filtros de ar, os narizes e os brônquios, e depois depositam-se serenamente deixando um manto pesado e cinzento como se fosse uma fotografia, em negativo, de uma paisagem de neve.
Aí está a natureza a substituir-se ao homem: como um forte agente de poluição, superior à que é produzida por quase toda a indústria a nível mundial; como um sindicato laboral que pára quase tudo - transportes, aeroportos, as mais diversas actividades - mais do que uma greve geral era capaz de o fazer; como uma epidemia capaz de complicar a saúde respiratória de muitos milhares de pessoas, principalmente os mais fragilizados...

E contra isto nada podemos fazer, não há políticas, não há dinheiros, não há poderes, nem há peneiras que tapem tão bem o sol, como esta nuvem!

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quinta-feira, 15 de abril de 2010

VOAR E PLANAR

Voar faz pensar em liberdade, em percorrer distâncias sem obstáculos, em rapidez.
Habitualmente é assim que vemos os pássaros: apressados, com bateres de asas frenéticos, em voos irrequietos, de uma árvore para outra ou para um beiral de telhado; ou o mergulhão, do alto do seu voar a picar, em velocidade estonteante, sobre o peixe que se esconde dentro de água, mergulhando certeiro sobre o alvo...
Também os aviões a jacto, se avistam como um ponto brilhante rapidamente se deslocando no céu claro, deixando um trajecto de riscas brancas, como um fumo que se vai diluído no azul do infinito.
Voar é uma palavra curta e rápida que sugere velocidade -"vou num vôo",  num instante -, mas voar pode não ser só pressa, voar pode querer dizer, também, ter tempo, olhar com cuidado e atenção, admirar longamente no tempo. E, para voar com tempo, é necessário encontrar a palavra mais adequada, que sugira, precisamente, esse vagar... daí o planar.
As rapaces, como as águias, os milhafres, o açor, planam na procura do alimento vivo que se esconde no restolho da planície, assim com plana o condor nas suas horas de tranquilidade, quase sem um bater de asas, nas arribas alcantiladas dos Andes, ora subindo, ora descendo, num aproveitar sereno das correntes de ar junto às montanhas.

Tanto do alto de Monsaraz, como de Marvão, tanto do Pão da Açúcar, como do alto da Pedra da Gávea, em São Conrado, é possível ver as aves de cima, ver o seu dorso e o seu planar tranquilo: sejam águias, gaivotas, milhafres ou corvos, é um encanto observá-las no deleite do seu passeio aéreo.
Quanto eu não gostaria de possuir asas que me deixassem ir assim? Não como as do Ícaro, mal concebidas, não pela ambição de voar alto, apenas pela sensação boa que é de vaguear por ali, horas quase esquecidas, a contemplar a floresta, os cumes, as casas a pontearem no verde das planícies, os caminhos que unem vidas.


Claro que, para se sentir, é preciso experimentar pormos-nos na pele ou nas penas do pássaro e afrontar o abismo que, aparentemente, está à nossa frente. Quem diria que me ia dar a mania de voar assim!



Nada como tentar... Barra da Tijuca e São Conrado, Pedra da Gávea,  Praia do Pepino, favela da Rocinha, o partir e o voar em liberdade, desafiando  a gravidade, e depois planar olhando a terra, de cima, como pássaro errante, sem ruídos, apenas uma suave brisa tropical acariciando o rosto enquanto se flutua cercado por cenários fantásticos: floresta tropical, picos rochosos como a Pedra Bonita, a Pedra da Gávea e os Dois Irmãos a emoldurar o Oceano. Depois o suave pousar nas areias quentes e convidativas da Praia do Pepino.

Voar é bom, leva-nos aos destinos que escolhemos, transporta-nos para longe, com rapidez.

Planar é diferente, é viciante, é tranquilo. Planar  é apaixonante, sempre!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

BEIJO

Não sei se será o beijo mais conhecido e divulgado mas é um dos que eu mais gosto: gosto pelo quadro em si, gosto das cores, gosto da expressão e da força intensa que emana daquele beijo.
Na minha última deslocação a Viena, na comemoração dos 250 anos do Mozart, fui vê-lo, mais uma vez, no Belvedere Superior, este quadro de Gustav Klimt, em que ele se auto-retrata a beijar a sua amante (e amada) Émilie.

É a minha homenagem ao Dia Mundial do Beijo que passou ontem, dia 13.

Passou-me ao lado, também, porque só hoje me apercebi de tal celebração.

Mas acho que as pessoas, de um modo geral, não ligaram muito: não vi ninguém nas ruas aos beijos, nem vi os bancos de jardim com pares de namorados dando beijos, nem nos transportes públicos me apercebi dos casais a se beijarem aproveitando a hora de ponta e das enchentes para ficarem mais juntos e apertados.

Estou de acordo que o beijo tenha direito a um Dia Mundial. Porque beijar não é o mesmo que comer sopa, ou lavar os dentes, embora haja muita gente que beije apenas como uma rotina.

O beijo é qualquer coisa de importante. O fado "O Embuçado" termina com um "beija-mão real", significando que o beijar é quase uma coisa de Reis, mas não é bem assim.
O beijo é Universal, tanto interessa rico como pobre, novo como velho, e beijo não é coisa de agora.
O beijo é antigo, quase tão antigo como o homem. Há quem defenda que o beijo não é mais do que uma evolução das lambidas que o homem das cavernas dava no rosto dos outros companheiros , como forma de absorver e suprir a sua necessidade de sal. 
Na antiga Mesopotâmia, as pessoas costumavam enviar beijos aos deuses, uma forma muito mais agradável de orar do que ficar ajoelhado de mãos postas a murmurar ladainhas infindas.
Os Gregos também não se perderam com os beijos: eles adoravam beijar e beijavam-se para selar acordos, e demonstrar respeito social.
Mas foram os Romanos que difundiram a prática do beijo: começaram por beijar os guerreiros no retorno dos combates. Os imperadores permitiam vários tipos de beijo: o beijo nos lábios para os nobres mais influentes, o beijo na mão para os menos influentes e ao povo só era permitido o beija-pé. Até tinham três categorias para o beijo:
    Osculum: era um beijo na bochecha;
    Basium: era um beijo nos lábios;
    Savolium: era um beijo profundo.

Imagino que este Savolium deveria ser um beijo cheio de imensos Savores. Também aquela história do noivo beijar a noiva no fim da cerimónia do casamento vem do tempo dos Romanos.
Na Escócia a coisa ainda era mais interessante porque a noiva, além de ser beijada pelo padre no fim da cerimónia (não era um Osculum, era um Basium mesmo), ia beijar os todos os homens na boca, tipo mistura de Basium e Savolium, em troca de dinheiro.
Até os católicos adoptaram o beijo como cumprimento entre eles, mais púdico, como conviria, e era chamado o Osculum pacis.
Em França, no século XVII, os franceses começaram a praticar uma forma voluptuosa de beijo, o beijo de língua, tão afamado que ficou conhecido pelo nome de Beijo Francês.

Claro que nem sempre o beijo é meio de cumprimento, de saudação, de troca de afectos, de felicidade. Há beijos perigosos ou mortais como o do Romeu e Julieta. Outros beijos são de traição, como o célebre Beijo de Judas usado para trair Jesus Cristo antes de ser crucificado.

Mas também o beijo pode ser fonte de doenças, a mais frequente é a Mononucleose infecciosa, mais conhecida como a Doença do Beijo.

Não há dúvida que o beijo e o beijar fazem parte do nosso dia a dia, da nossa rotina, dos nossos afectos, dos nossos sentimentos, dos nossos amores, dos nossos prazeres, das nossas paixões, dos nossos encontros, das nossas despedidas... é um acto totalmente transversal nas nossas vidas.

Beijar é bom quando nos sabe bem beijar, por isso só tem uma coisa a fazer: beije muito!




terça-feira, 13 de abril de 2010

O DARRACQ E A CURVA DO COSTA LIMA

Tive um tio-bisavô que viveu em Trancoso, terra de onde era também natural. Conhecido por Costa Lima, Francisco de primeiro nome.
 
Começou a vida como serralheiro, foi para África onde trabalhou muito, fez fortuna, e regressou às suas origens.
 
Homem de bens e de posses, cedo se tornou um benemérito daquela vila arranjando dinheiro para reconstruir duas Igrejas, fazer o Hospital e foi o principal responsável pela electrificação de Trancoso.
 
Daí a ser o Comendador Costa Lima foi um instante.
 
Devia ser um bom coração. Mas com mau feitio, dizem! Ia aos arames com facilidade, por tudo e por nada se zangava e, se fosse preciso, puxava da sua pistola pronto a dar um ou dois tiros para o ar, só para assustar.
 
Estamos no início do século XX, altura em que os veículos a motor começam a surgir por todo o lado, como cogumelos. Os construtores eram às dezenas, principalmente franceses, ingleses e alemães, quase todos apresentando um chassis e um motor, sendo depois escolhida a carroçaria, habitualmente em madeira, e feita ao gosto ou às necessidades do comprador.
 
Trancoso não possuía nenhuma destas quase carroças, sem animal a puxar.
 
Como este meu tio tinha muitos negócios em Lisboa e tinha de se deslocar com alguma frequência à capital achou, por bem, que deveria comprar um carro que lhe desse a autonomia suficiente para as suas idas e vindas, sem depender da mala-posta, das mudas de cavalos e das estalagens ou hospedarias de estrada, para além do perigo dos assaltos naqueles trajectos através dos pinhais da Beira Alta e da zona de Leiria.
 
Homem de decisões rápidas, mas acertadas, se assim o pensou, melhor o fez e tratou de encomendar uma dessas viaturas sem cavalos.
 
 Depois de muitos assédios por parte dos representantes das diversas marcas, decidiu-se pelo DARRACQ, modelo de 1903/1904, de caixa aberta e 4/6 lugares, conforme fossem mais à larga ou mais apertados, nos dois bancos corridos que os catálogos, profusamente ilustrados, mostravam.

 
(DARRACQ DE 1903 - FOTO DA NET)
Feita encomenda era preciso esperar uns meses até o carro ser fabricado e despachado, por via marítima, desde Suresnes, nos arredores de Paris.
 
Finalmente o anúncio da chegada do vapor a Lisboa e a ida do Costa Lima e de mais dois amigos, um deles o Juiz da Comarca, para irem buscar o veículo e fazerem o trajecto de Lisboa a Trancoso e a promessa de uma entrada triunfal na vila, com  banda e fogo de artifício.
 
A viagem foi acidentada pois, perto de Tábua, bem depois de Coimbra, o veículo caiu por uma ribanceira, felizmente sem qualquer ferimento importante para os ocupantes, e teve de voltar a Coimbra para ser reparado. Um atraso de mais umas quantas semanas! Até que, finalmente, o carro entra em Trancoso. Não a rugir, ou a "relinchar" a força dos cavalos/vapor, mas placidamente puxado por uma parelha de muares, uma vez que o motor tinha feito uma birra e resolveu não trabalhar, "malgré" as inúmeras tentativas para o pôr a funcionar.
 
Não foi uma recepção em glória, mas foi gloriosa, pois a banda e o fogo de artifício fizeram esquecer, um pouco, aquele percalço mecânico.
 
E por lá andou com o seu carro, com aqueles barulhos de motor, a tossir e a rugir, e mais o da buzina de trompete accionada manualmente a fazer um barulho de corneta de cana rachada, afugentando tudo o que fosse vivo da sua frente.
 
Parece não haver dúvida que o motor, tal como o dono, também tinha mau feitio: era muito temperamental! De vez em quando resolvia parar e não havia manivela, empurrão ou desembraiar da caixa de velocidades que o fizessem pôr, de novo, em rotação.
 
Um dia, não sei em que altura do ano, na ocasião de mais um regresso a Trancoso, ao fazer uma das curvas apertadas e a subir que dão acesso à vila, mesmo no meio duma delas, o motor resolve parar. De novo as manobras costumeiras: a manivela a girar, empurrão do povo que, entretanto se juntou, mas nada. Silêncio de morte!
 
Foi um duelo de temperamentos, de teimosias, de um lado o motor que se quedou e se recusou a trabalhar, ficando no seu silêncio desafiador, do outro o meu tio Costa Lima a irritar-se, a perder as estribeiras, até que chegou ao ponto de sacar da pistola e descarregar a sua ira e frustração naquele motor tecnicamente morto. Um, dois, três, quatro tiros e nada. A única centelha de vida era a do ricochete das balas que faiscavam ao bater no ferro do bloco do motor. Ainda tinha duas balas no tambor do revólver.
 
Guardava sempre a última para uma ocasião mais desesperada, por isso, apenas lhe restava mais um tiro, de raiva, de ira, de destempero. Pum! E, subitamente... o rom-rom do motor a fazer-se anunciar, sem tossidelas, sem rugires, sem altercações... como um gato manso, obediente, a ronronar, e o carro subiu o resto da rampa  de curvas e contra curvas que dão acesso a Trancoso, sem hesitações, como se fosse empurrado por uma força invisível. Parece que a bala acertou na "mouche" e terá feito deslocar alguma peça que estava fora do lugar, não sei. O que sei é que o caso foi muito comentado, muito falado até bastante fora dos limites do Concelho, quase virando uma lenda...
 
E a verdade é que, ainda hoje, passados mais de cem anos, aquela curva (que vai desaparecer dentro em breve, por construção de uma nova estrada), aquela curva, dizia, ainda é conhecida pelo nome da "CURVA DO COSTA LIMA".
 
 
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segunda-feira, 12 de abril de 2010

SAPO

O SAPO é um animal, um anfíbio, daqueles sem cauda. 

Existem muitas espécies e a maioria vive perto de água. 

É parecido com a rã, mas tem uma pele mais rugosa e mais seca, para além de não ter, tão desenvolvidas, as membranas interdigitais. 

Põem os ovos na água dos quais saem os girinos que mais se parecem com peixes - têm cauda e não têm pernas. À medida que se desenvolvem, a cauda vai atrofiando e os membros aparecendo (ainda lembram as metamorfoses da rã e do sapo?). 

Alimentam-se dos mais variados insectos e capturam as presas lançando a língua mucosa, longa e pegajosa.

Mas SAPO não é só o animal, o Bufo bufo, a sua designação científica.

SAPO pode ser um espectador, que não toma parte num jogo.

SAPO pode ser bem o contrário: uma pessoa intrometida, que se mete na vida dos outros.

SAPO é, também, no Brasil, o fiscal de transportes públicos que anda disfarçado, no meio dos passageiros.



Há, também, os SAPOS DE PELUCHE que fazem parte das recordações de qualquer um de nós. E eu guardo sempre as boas recordações!



(DO AUTOR - O MEU SAPO DE PELUCHE)





A palavra SAPO está associada a uma série de histórias, fábulas, expressões, magias, bruxedos, a um mundo de coisas e até, ao mundo automóvel.

Corre agora a versão moderna de "A PRINCESA E O SAPO",  a história de Tiana e do Príncipe SAPO Naveen que desespera em voltar a ser humano até surgir o tal beijo fatídico dado por Tiana; nesta história, em vez de casarem, terem muitos filhos e serem felizes para sempre, ela sempre realiza o seu sonho de abrir um restaurante na Louisiana.

Também tem a da fábula do "SAPO E O BOI", em que aquele, ao ver passar um boi imponente, fica cheio de inveja e começa a estufar..., a estufar..., a estufar..., a estufar... até que estoira, e cuja moral é: nada de inveja, seja sempre você mesmo.

Ainda ligado aos livros, aos contos e às histórias quem esquece o SAPO-CURURU do Zézé do "Meu pé de laranja Lima" e "Vamos aquecer o Sol" (do José Mauro de Vasconcelos)? E a cantilena como acaba o livro:
"Sapo-cururu
Na beira do rio.
Quando o sapo canta, maninha
Diz que está frio...
Diz que está frio...
Diz que está frio...
Diz que está frio..."

Depois há as múltiplas expressões:

   "ENGOLIR SAPOS" - que significa passar por uma situação desagradável ou constrangedora, fazer uma coisa contrariado. Em política engolem-se muitos sapos.
   "PAGAR SAPO" - quase o mesmo que o engolir sapos.
   "SAPO DE FORA" -  aquele que entrou num lugar ou festa sem ser convidado. O borlista.
   "MÃOS DE SAPO" - as mãos gordas, rechonchudas, como as das crianças pequeninas. Também se chamam mãos sapudas.

E as bruxas, magias e superstições?

Há sempre um SAPO por lá, com verrugas, pele com peçonha e visco, unguentos feitos de gordura de sapo... 

Ainda me lembro da Madame Min a preparar um encantamento para atrair um dos Metralhas: colocava no caldeirão unhas de gato preto e vesgo, asas de morcego, pele e baba de sapo... um horror!

Não acabava este texto pois são tantas referências ao SAPO.

Fico-me por aqui!

Vou acabar, fazendo a referência final à ligação do SAPO com a indústria automóvel: o Citroën DS, um carro mítico, a Deusa das viaturas (DS é a onomatopeia de Déesse = Deusa em francês). Aqui é Portugal era conhecido por BOCA DE SAPO.

Não é um amor de SAPO? Eu tenho um!

(DO AUTOR - O CITROËN DS - O BOCA DE SAPO)

domingo, 11 de abril de 2010

O LENÇOL

Há dois: o de cima e o de baixo.
Antigamente acho que só havia em branco, de popelina, de flanela, de linho, de seda... de pobre ou de rico, mas brancos! Depois vieram os de cores lisas, em tons suaves, sem grandes exageros. Hoje, nem sei! Tem de reproduções de pinturas abstractas, de mesclas de cores vivas, com o pato Donald e a Margarida, cores fortes, garridas, com barras fazendo contraste... Sei lá!

Para que o lençol de baixo fique sempre esticado, inventaram de colocar nos cantos uns elásticos que os mantêm firmes e sem rugas. Os de cima podem ser duplos e colocar no meio um edredão.

Os lençóis ajudam-nos no sono, aconchegam-nos, protegem-nos das picadas dos insectos nocturnos, daquelas melgas que fazem zum-zum ou bzz-bzz, e nós prudentemente puxamos a volta que o lençol de cima faz, e colocamos por cima da cabeça.

O Ney Matogrosso tem uma canção que se chama "Por debaixo dos pano" e diz ele:

O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber...

É debaixo dos pano
Que a gente não tem medo
Pode guardar segredo...

É debaixo dos pano
Que eu me afogo
Que eu me dano
sem perder o bem...

É debaixo dos pano
Que a gente fala de fulano
E diz o que convém...

Nessa letra de música ele bem que resume muitas das funções do lençol: coisas de dormir, coisas de sexo, coisas de amor, coisas de temor, coisas de mágoa, coisas de confidência, coisas de inconfidências e coscuvilhice, coisas de tudo.

Por isso os lençóis são importantes. Neles, dizem, passamos um terço das nossas vidas, aqueles que têm lençol, claro!

Depois há, ainda, outros lençóis, mas esses ficam longe, lá para os lados do Maranhão, em São Luís, no Brasil. São brancos, extensos, têm dunas e água pelo meio. Não são bons de dormir, mas são bons para muitas outras coisas. Querem saber?

sábado, 10 de abril de 2010

CHOCOLATE NEGRO


Dizem que está cheio de antioxidantes; que a massa de cacau, formada pelas sementes, é um verdadeiro concentrado deles. São chamados flavonóides e têm uma acção muito importante na circulação sanguínea: activam a produção de um ácido, o ácido nítrico o qual, por sua vez, leva ao relaxamento dos vasos sanguíneos e, consequentemente, a uma diminuição da pressão arterial. Também reduz a oxidação das LDL (o mau colesterol que se vai depositar nas paredes das artérias).


Claro que, para ter estes efeitos benéficos, o chocolate negro deve ter uma percentagem elevada de cacau, nunca menos de 70%, caso contrário vamos comer mais açúcares e massa de chocolate do que os tais antioxidantes.

Também se sabe que o chocolate cria uma certa dependência psíquica e que há pessoas que são mais sensíveis, que outras, aos compostos presentes no chocolate. A substância que provoca estes efeitos - a Anandamina - é muito semelhante ao Cannabis e é mesmo, dela, um derivado. Exerce a mesma acção no cérebro que a Marijuana que dizem ter uma acção positiva para mitigar os amores desenganados (será por isso que anda por aí tanta gente a devorar chocolate negro?).

Mas tem mais coisas: a feniletilamina, a cafeína, a teobromina, substâncias causadoras de melhoria de humor e responsáveis pela sensação de felicidade. A feniletilamina é produzida, em grandes quantidades, pelo cérebro dos apaixonados.

Por isso, o meu conselho de se comer chocolate negro.

Melhor ainda se for saboreado com morangos.

É que estes estão também cheios de boas propriedades antioxidantes, em particular as do ácido elágico que tem um muito importante efeito fotoprotector sobre a pele  prevenindo o seu envelhecimento e o aparecimento das rugas. Além disso são essenciais para se manter a linha e a juventude.

Morangos com chocolate... sugerem coisas boas, hummmmm!

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sexta-feira, 9 de abril de 2010

A CADEIRA DO DENTISTA

É sempre um stress ir ao dentista.
Primeiro pelo motivo que nos leva lá: habitualmente a dor de dentes incómoda, a gengiva vermelha e inchada, aquela sensação desagradável do metal quando toca no dente, ou a prótese que se descolou, ou o dente que se partiu...
Depois a espera: angustiante pelo tempo que demora, pelos queixumes ouvidos, pelos berros estridentes das crianças ou pelas caras sofridas que se vêem quando saem, habitualmente com uma das mãos a segurar a queixada.

Em seguida a entrada no gabinete: o médico ou médica de máscara na cara, com a broca na mão, a fazer lembrar os filmes de cowboys com o bandido de lenço a tapar o rosto e de colt 45 na mão, pronto a disparar, e nós de mãos no ar!
Segue-se o sentar na cadeira: um sentar quase empurrado e imediatamente reclinado para impedir qualquer movimento mais brusco, desde o soco ou o pontapé no dentista, quando ele, com a broca maldita de alta rotação, toca naquela raiz hipersensível, que nos faz doer no alto da cabeça, parecendo que a dor nos quer furar o crânio.
Depois é o enquanto: ou seja, aquele tempo infinito que ali estamos com a luz dirigida nos nossos olhos, quais bandidos a ser interrogados pelo FBI ou CIA, e a ouvirmos palavras estranhas e arrepiantes -  "prepara a broca n.º 3", "faz a amálgama para a obturação" (quando mais que amolgados estamos nós, naquela posição de inferioridade) - a agarrar crispada e intensamente os braços da cadeira com a boca escancarada num sofrimento de condenado à morte na cadeira eléctrica.
A parte melhor é quando nos concedem aqueles vinte segundos de intervalo para bochechar e lavar a boca com a água meio amornada daquele copinho minúsculo que nos dão para a mão. São vinte segundos, nem mais um, já contabilizei! Naquela curta fracção de tempo dá para recuperar e ganhar coragem para a fase seguinte.
A parte pior quando tem de arrancar o molar, velho, empedernido de anos naquele local, e o dentista com alicates, martelos e escopro, pronto, a cada martelada vigorosa, a fazer os olhos saltar das órbitas, o cérebro empancar contra os ossos do crânio, os sentidos a degradarem-se... e o desmaio quase a surgir.
Mas, como para tudo, há sempre um final: bom quando acaba bem e por ali, pior quando chega ao orçamento para o implante, para a prótese, ou para o aparelho de correcção, mas que sempre pode pagar em prestações suaves.

Eu vou muito ao consultório dos dentistas, quase todas as semanas. É muito agradável, conversamos, bebemos café, falamos de futebol e da política e, quando chega a hora de trabalhar, a hora da verdade,  cada um vai para seu gabinete: eles vão tratar dos seus doentes e eu vou tratar dos meus.

Agora que estamos no tempo de primavera, os meus doentes entram quase todos de boca aberta, mas não é por engano de gabinete ou porque estão mal dos dentes, é porque têm o nariz entupido e não têm outro remédio senão respirar pela boca.