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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

DUAS MÃES E DUAS FILHAS

A Susana entrou no gabinete acompanhada da Mariana e da Joana.

Estavam marcadas as três consultas seguidas, três consultas a três gerações de mulheres: mãe (e avó), filha (e mãe) e neta (e filha).

Começara a tratar a Susana, tinha uns seis anos, e foi-a acompanhado desde então: assistiu às suas crises de adolescência, conseguiu que deixasse de fumar, libertou-a do estigma do "asmático-coitadinho", acompanhou-a nas gravidezes, quando a asma, nela, se agravava de forma intensa, e agora, a entrar na menopausa, de novo com os sintomas a incomodarem e a necessitar de apoio e tratamento.

A Mariana deu trabalho a nascer, com a mãe em crise asmática, as cianoses, o índice de Apgar baixo, a colaboração intensa com o pediatra, a infância com as bronquiolites, as vacinas contra os ácaros, os broncodilatadores e os anti-inflamatórios, e a Mariana foi crescendo, entrou bem na escola, raramente faltou às aulas, praticou desporto e chegou a ser praticante federada de atletismo, gostava da natação e corridas de corta mato. A Mariana nunca se deixou iludir pelo tabaco e outros fumos, cresceu bem, tirou o curso que queria e dedica-se, como fisioterapeuta, aos seus idosos nas aulas de hidroginástica. A Mariana mantém a terapêutica de controlo da asma com o rigor e regularidade que a doença exige e passou bem a sua gravidez.

A Joana nasceu bem, apenas umas semanas antes do previsto, e passou uns dias na incubadora, até obter um peso mais consentâneo com a vida fora de água. Os primeiros sintomas da asma apareceram-lhe aos três anos e hoje, no dia dos seus seis anos, apareceu, contente, radiante, com uma boneca enorme que a avó lhe ofereceu e com a caixa da vacina que agora vai iniciar.

Ao vê-las, as três, quase mais amigas que doentes, lembrou-se daquela adivinha das duas mãe e duas filhas que vão à missa com três mantilhas. A Joana foi rápida na resposta. São três, e explicou com o exemplo vivo ali presente: como a avó também era mãe e a mãe também era filha e ela, neta, também filha.

Quando saíram, ficou a pensar nas coisas boas que, muitas vezes, os seus quarenta anos de médico lhe têm trazido.

 

terça-feira, 29 de novembro de 2011

À TABELA

Ainda se lembrava das velhas locomotivas a vapor, do cheiro do carvão, da nuvem branca e densa que saía dos êmbolos junto ao rodado da máquina, como um bafo, do fumo negro que borbotava da chaminé alta, da fuligem que andava por todo o lado e que sujava o colarinho e os punhos brancos das camisas, das carruagens de compartimentos fechados e de corredor lateral, das janelas que se abriam ao puxar de uma fivela de couro, do silvo estridente da máquina, antes de partir, aguardando o apito fino e prolongado do revisor ou do chefe da estação.

(Estação do Rossio - Google imagens)

Eram uma aventura as viagens no comboio a vapor: o tuff-tuff do arranque, o tuuu-tuuu-tuuu quando se cruzava com o comboio descendente ou saudava o pessoal que acenava na passagem de nível, o abanar constante e ritmado das carruagens na sua deslocação e o tac-tac das rodas ao passarem nas juntas dos carris. 

O revisor, de fartos bigodes e alicate na mão, a pedir os bilhetes para perfurar, a pergunta constante da senhora do banco da frente a saber quantas estações ainda faltavam para a Lageosa de Cima, o cesto que se tirava  da prateleira por cima das cabeças e o farnel que se abria, o papo-seco que se comia com marmelada, a maçã que se descascava com a navalha de ponta-e-mola, o senhor do lado a fumar um Definitivos ou Provisórios e a ler o jornal O Século, o fumo que tudo invadia cada vez que o comboio entrava num túnel, e a emoção que era quando se passava de uma carruagem para outra, naquela passagem metálica, estreita, a descoberto, e que abanava por todos os lados.

A paragem breve nas estações, com as mulheres, de xaile e chinela, a venderem água fresca do cântaro de barro, mais os rebuçados de açúcar queimado, as arrufadas, as santinhas e as orações a São Cristóvão para uma boa viagem. Também se aproveitava a paragem para o ajudante do maquinista ir batendo nas rodas e nos eixos das composições com um martelo de cabo comprido, para ouvir se nada soava a rachado.

Depois eram as paragens, às vezes longas, no apeadeiro, à espera do comboio que vinha em sentido contrário, porque a linha era de via única. O chefe da composição a baixar a alavanca do sinal para dar a indicação de via aberta e o maquinista a virar a agulha para dar entrada na linha lateral do apeadeiro. É que o Rápido e o Sud-Express tinham sempre a prioridade...


Finalmente a chegada, o descarregar das malas e dos cestos de vime, as mantas que não ficassem esquecidas, porque no inverno fazia mesmo frio e, lá ao fundo da estação, agitando a mão bem ao alto, a figura ímpar do avô esperando os netos para o terno abraço das saudades...


Eram assim as viagens, no tempo em que o vapor era rei e senhor e o comboio, raramente, andava à tabela!



segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ATLÂNTICO

"Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia."

(Sophia de Mello Breyner Andresen - Atlântico - Obra Poética).


Passara muitas vezes por aquela porta, a porta que lhe dava acesso ao mar, ao mar que ele tanto gostava, tanto gostava e tanto amava...

O mar onde tantas vezes se banhara, onde, vezes sem conta, mergulhara saltando da rocha lisa que servia de acesso à água.

O mar que era a fonte dos seus sonhos, das aventuras imaginadas, da sua poesia, das canções que apenas cantava para si, o mesmo mar das lágrimas salgadas, o mesmo mar de Sophia, o mesmo mar do canal e  do mau tempo...

(Ilha Terceira - Açores)

Mas agora já lhe custava descer as escadas de acesso e, muito mais, caminhar por sobre as pedras e as rochas cobertas de musgo e limo. Era fácil escorregar naquele piso quase sem atrito, como lubrificado de óleos de essências marinhas...

Por isso preferia ficar por ali, sentado numa cadeira, à entrada daquela abertura que já tivera uma porta, a olhar o mar, o seu atlântico, a cheirar a maresia, a olhar o sul para lá do horizonte, a despedir-se, solitário, como sempre quis que assim fosse...



domingo, 27 de novembro de 2011

O FADO

Hoje ficámos cheios de Fado, de fadistas, de casas onde ele se canta, de entrevistas, de opiniões, de regozijos, de alegrias, de contentamentos...

A forma de cantar de um povo, o Fado, do maltrapilho ao selecto, do Marialva ao popular, do Marceneiro à Hermínia, da Amália à Mariza, do embuçado às tabuinhas, do fado gingão ao fado triste, do fado cantado ao fado tocado...


(retirado da net)

A alma dum povo, a sua universalidade, hoje feito património imaterial, um património do mundo!




sábado, 26 de novembro de 2011

DA COR DO CÉU

Hoje, no fim de tarde glorioso, o céu era bem vermelho, com "nuances" de amarelo...

(foto do autor)


Ontem, durante o dia, tinha uma cor azul brilhante e lavada...

Anteontem, carregado de nuvens, parecia um esborratado de cinza-azulado...

Quarta feira acordou sem se deixar ver porque resolveu lançar um véu denso de neblina...

Na terça feira era negro, feito de nuvens maciças, prontas a despejarem toda a água de dentro delas para cima dos peões mais desprevenidos...

Segunda feira o céu tinha a cor da minha lembrança, um azul penteado de riscos brancos dos aviões que passavam lá no alto...

Afinal! De que cor é o meu céu?

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

VIOLÊNCIA

Teimosamente continuava ali. 

Era a única flor amarela no meio daquele prado verde.

Solitária mas afirmativa!

Resistira à chuva forte do início da semana e hoje, neste dia que foi de sol quente e luminoso, abriu ainda mais as pétalas, aprumou o caule e, como sentinela daquele pequeno prado, ali estava, vigilante e atenta.

Ela, que não se deixara torcer pelo vento forte e violento dos dias passados, permitia agora que as pequenas brisas que por ali passavam, a acariciassem e a envolvessem, oscilando de contentamento a estes abraços de ternura da Natureza.

(imagem do Google)

Era a Natureza a manifestar-se solidária, nestes pequenos gestos de ternura e afecto, com o dia do Não à Violência Doméstica.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O TRABALHO

Saíra cedo de casa! A manhã estava fria mas o dia prometia sol e, por isso, arriscou em não levar o chapéu de chuva e a gabardina que tanto jeito lhe tinham feito na véspera.

Ia quase sempre a pé para o trabalho, e só tomava o transporte público se o dia o não permitia.

Era a maneira de se manter em forma, de combater a diabetes que, por herança familiar, lhe poderia bater à porta, um destes dias, se não fizesse uma boa prevenção.

Cuidado com a boca, exercício físico regular e nada de ociosidade! Fora o conselho do seu médico de família. E ele tentava cumprir, sempre que podia, o aconselhado.

A manhã estava mais fria que o habitual mas era assim, nesta altura do ano, quando não chovia e o céu estava liberto de nuvens; como se estas servissem de cobertor à noite e não deixassem que a temperatura baixasse tanto.

Mas o dia prometia sol, prometia cor e, por isso, soube-lhe bem sentir aquele frio na cara provocado pelo seu caminhar apressado.

Pegou o jornal gratuito que o ardina distribuía junto aos semáforos, no cruzamento das avenidas, entrou no café da dona Lena para a bica habitual, deu uma vista de olhos pelas notícias mais gordas, fixou a sua atenção na história da criança que precisa de um transplante de medula e na do casal de idosos assaltado em plena rua por dois adolescentes, e lá seguiu rumo ao seu trabalho.

A mais um dia de trabalho!



quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ENCANTOS

Encanto-me quando a cidade acorda com luz, com o sol a dourar as folhas no chão dos jardins e dos passeios.

Encanto-me quando vejo os pardais a esvoaçarem, por aí, soltos e a chilrearem de contentes.

Encanto-me quando olho as flores do jardim da praça por onde passo, cheias de cor e de viço, a contrariar o outono invernoso da véspera.

Encanto-me quando vejo as pessoas de sorriso nos lábios, a cumprimentarem-se na rua.

Encanto-me quando quase tropeço nas crianças da minha vizinhança, felizes e contentes, a correrem ao agarra, a jogarem à macaca, ali, no jardim, sob o olhar enternecido dos pais ou dos avós.

Encanto-me, mas nem sempre, não assim tantas as vezes... 

É que a maior parte do tempo, quando olho e quando passo, vejo e sinto, não encantos, mas desencantos... 



terça-feira, 22 de novembro de 2011

A NANA PIREZ

A Nana partiu, deixou-nos, e deixou o Clube da Letra de luto e pobre.



Pois é, Nana, apesar de nos termos conhecido tarde, apesar da pouca convivência, apesar da distância, apesar de tudo, tivemos boas conversas e sempre estivemos juntos algumas vezes - a primeira, recordo bem, foi em casa de Marion, faz uns três anos, e foi lá que tomei o meu primeiro contato com o Clube da Letra, pelo meio, nos encontrámos em Lisboa e jantámos no Martinho da Arcada, o café do Fernando Pessoa, e a última vez foi em casa da Pietrina, em Junho passado, num luminoso domingo de feijoada - contámos estórias, jogámos de adivinhas, tentámos ler os pensamentos uns dos outros, prosou-se, rimos muito e até tirei algumas fotografias a você...


Depois desse encontro, via e-mail e pelo Facebook, fomos trocando bastante correspondência. A última foi por intermédio de sua filha, no dia de meu aniversário, por já se sentir sem forças para teclar... 
















Vou recordar sempre a Nana e o seu boné, quase uma marca de estilo, a Nana e o seu cigarro, a Nana e a sua voz inconfundível, a Nana e a sua forma de estar na vida e em sociedade, a Nana e o seu inconformismo...




A Nana tinha orgulho das suas origens, era a mais   portuguesa das brasileiras ou a mais brasileira das portuguesas, como se queira, a Nana conquistou muitas amizades, soube ser sempre respeitada e acarinhada, soube lutar pela vida, a Nana venceu muitas batalhas mas perdeu a última, a decisiva, a fatal... 















Mesmo que não fosse esse o seu desejo, mesmo sabendo que o percurso da sua doença era irreversível, a Nana preservou, para si e para os seus, as suas dores e os seus sofreres, mas a Nana não conseguiu calar, com a sua partida, a dor enorme que causou aos seus amigos, a Nana não vai conseguir apagar a saudade imensa que deixa no coração de todos, a Nana vai estar sempre presente nas reuniões do Clube da Letra.


Boa viagem, Nana!

ADEUS NANA, até sempre!     


(Fotos do autor)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

DOCE DE OUVIR

- Sabe uma coisa? Agradeço-lhe o tempo que me tem dedicado, agradeço a sua disponibilidade, agradeço o ter-me escutado e, acima de tudo, agradeço as suas palavras. É que depois de dias, de semanas, de conversas moucas, de dizeres e desdizeres, de ofensas verbais e quase corporais, de presenças desagradáveis, de esperas inesperadas, de vigilâncias tolas, de desconfianças infundadas, de quase destruição da pessoa, sabe bem o escape, sabe bem um doce de ouvir feito de palavras ternas, sabe bem escutar a sua voz serena e tranquila, sabe bem sentir a paz transmitida, agora com a esperança a renovar-se...

domingo, 20 de novembro de 2011

FINAL DE DIA

Com o dia a acabar, a sala inundou-se de uma luz intensa, amarelo-avermelhada, vinda do sol quase a desaparecer.

Um sol que, neste final de dia, não se quis despedir da cidade sem mostrar o quanto pode ser belo e surpreendente o seu adeus.


(Foto do autor - 20/11/2011)


(Foto do autor - 20/11/2011)

sábado, 19 de novembro de 2011

A TÂNIA

Deve ter herdado o nome de uma personagem de telenovela de então.

A Tânia vende jornais! Abre o quiosque às sete da manhã, fecha-o pelas cinco da tarde e está ali, no seu posto, todos os dias, sem folgas de sábados, domingos ou feriados.

Só não abre no Natal, no Ano Novo e não sei, também, se no primeiro de Maio porque, nesse dia, parece, também não há jornais à venda porque, se houvesse, quase que, de certeza, ela lá estaria.

Não sei que idade tem: 20? 25? 30 anos? A quase sempre mesma indumentária, o mesmo penteado e as borbulhas na cara não dão para um rigor maior de cálculo. 

Nestes anos que a conheço, que lhe compro jornais e revistas, só uma coisa de diferente aconteceu: há uns tempos atrás começou a usar um daqueles aparelhos de dentes que muita gente agora usa e que põem o sorriso igual a todos, daqueles que parecem terem um elástico e uma espécie de florinhas que as pessoas podem mudar a cor; um sorriso  sempre igual mas de cores diferentes.

A Tânia nunca foi uma mulher de sorrisos, de conversa sim, ia conversando com os clientes, discutindo com a mãe que a ajuda na venda dos jornais e revistas, mas sorrir, só raramente. Não sei se por uma questão de feitio, se por ter os dentes feios e, daí, o ter passado a usar, agora, aquele aparelho.

Mas a verdade é que, nos últimos tempos, ao longo destes últimos meses, a Tânia, por vezes e cada vez mais, começou a sorrir, a mostrar um sorriso de dentes mais alinhados, um sorriso adolescente atrás das florinhas amarelas do aparelho.

Hoje, ao vender-me o jornal diário e o semanário, e enquanto lhe pagava, disse-me com um sorriso maroto, hoje não amarelo, mas cor de rosa, da cor das florinhas do aparelho dos dentes... "parece que agora os vigaristas já começam a ficar na cadeia... isto está a mudar!"

Ainda bem!




sexta-feira, 18 de novembro de 2011

ASSUSTADOR

Assustador foi o fim do dia e, também, o resto noite!

Um verdadeiro temporal, com o mar a bramir contra a muralha de pedra da Marginal do Estoril e as águas soltas das ribeiras da Parede e de São João a criarem rios caudalosos que rapidamente alagaram a estrada e, do céu, aquela chuva imensamente forte, a tornarem um quase pesadelo o percurso entre Lisboa e Cascais.

Sem mais nada a fazer do que, lentamente, de credo na boca e mãos firmes no volante, ir diminuindo a distância que faltava até à chegada.

O que se percorre em minutos demorou tempos infindos de marcha lenta e paragens prolongadas.

E, no meio de todo este desatino da natureza, uma trovoada forte, com raios de estalo mesmo ao lado.

Mais do que um susto e uma preocupação foi, também, uma boa ocasião para reflectir sobre a impotência dos homens perante uma natureza que, apesar de nos consolar tantas vezes, também sabe castigar de rijo!


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NATHALIE

Diante de si a praça, que sempre fora branca, estava coberta por um imenso tapete de folhas vermelhas, como um lago  de águas quietas, da cor do sangue

Deu-se conta que, à sua frente, ela caminhava num passo determinado e apressado deixando, atrás de si, ao levantar as folhas vermelhas, uma esteira branca da pedra calcária que calçava aquela praça.

Como se fora a Nathalie da Praça Vermelha.

E passou o resto do dia com a canção na cabeça:

"La place rouge etait vide, devant moi marchait Nathalie, elle avait un joli nom mon guide, Nathalie..."

Gilbert Bécaud - Nathalie - 1964

La Place Rouge était vide
Devant moi marchait Nathalie
Elle avait un joli nom, mon guide
Nathalie

La Place Rouge était blanche
La neige faisait un tapis
Et je suivait par ce froid dimanche
Nathalie

Elle parlait en phrases sobres
De la Révolution d'Octobre
Je pensais déjà
Qu'après le tombeau de Lénine
On irait au Café Pouchkine
Boire un chocolat

La Place Rouge était vide
Je lui pris son bras, elle a souri
Il avait des cheveux blonds, mon guide
Nathalie, Nathalie

Dans sa chambre, a l'université
Une bande d'étudiants
L'attendait impatiemment
On a ri, On a ri, on a beaucoup parlé
Ils voulaient tout savoir
Nathalie traduisait

Moscou, les plaines de Krim
Et les Champs-Elysées
On a tout mélangé et on a chanté
Et puis, ils ont débouché
En riant à l'avance
Du champagne de France
Et on a dansé


 http://www.youtube.com/watch?v=JABdFz9rJAg


quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O NOVO PRINCIPESINHO

Apareceu há pouco tempo nas livrarias.

O desenho da capa é sugestivo: uma paisagem de montanhas cinzentas,  com uma cordilheira ao fundo, a lembrar a Patagónia, uns montes, mais próximos e mais baixos, semeados de flocos brancos a imaginar neve e, como figura principal, de costas, um homem aparentemente jovem, de cabelo louro, calças brancas, casaco azul escuro e um cachecol vermelho a deixar-se ondular nas costas. Mais um pormenor: da cabeça do jovem,  como se fosse uma nuvem de vapor, esvoaça um amontoado de flores e estrelas de tamanhos diferentes e variadas cores.

Ah! e o título do livro: O Regresso do Jovem Príncipe.

O autor, A. G. Roemmers, poeta argentino.



É estreito, tem apenas 126 páginas de letra que facilita a leitura e, no meio do texto, vão aparecendo alguns desenhos coloridos relacionados com o mesmo.


Tudo sugere um novo "Petit Prince" e o autor não nega. Ele foi sempre um apaixonado pela figura criada por Antoine de Saint-Exupéry e "soube sempre conservar a sua alma de criança e quis na sua obra chamar a atenção sobre a poesia do essencial".

É um livro que conta uma viagem deste novo jovem príncipe pelas terras ermas e desoladas da Patagónia e proporciona a um adulto o privilégio de uma conversa com um adolescente desconhecido que ele encontra adormecido na berma de uma estrada. E, essa conversa leva a que o adulto modifique a sua percepção dos outros colocando-lhe importantes perguntas filosóficas de forma compreensível e simples.

Trata-se de uma viagem de iniciação para a juventude, e de um regresso às origens para adultos desorientados.

Como se fora uma cartilha escrita por um homem levado pela ambição de uma grande mudança numa sociedade que renega um sistema educativo capaz de promover uma mensagem de esperança. 

Um livro que devolve aquilo que nunca se deveria ter abandonado: o amor pelo próximo, a fraternidade, a educação, a família, valores que consolidam as sociedades civilizadas e humanas.

Um livro que ilumina o nosso caminho e que nos ajuda a impulsionar a magia do amor, a sua capacidade para tudo mudar.

(Texto baseado no prefácio escrito por Bruno d'Agay, familiar de Antoine de Saint-Exupéry).

terça-feira, 15 de novembro de 2011

O DISCO

Hoje foi-se tudo abaixo.

No meio do trabalho a máquina falhou, o écran apagou, o disco parou e não abriu mais, nem com o desenrascante "ctrl alt delet", nem desligando e ligando de novo. Nada! Foi-se abaixo o trabalho, o computador, o disco...

Tipo doença mortal, daquelas viroses que  não há memória, que nem as vacinas, os antivírus e as manobras de reanimação conseguem voltar a fazer girar o disco.

Um desastre!

Chamou-se o técnico, chegou, sentou-se diante, abriu, desmontou, abanou, pôs-se a escutar junto do ouvido, mas nada: nem um solavanco, nem um tique, nem um tac, apenas um definitivo chelique.

Não havia outro remédio, só levando para tentar reparar e recuperar os ficheiros onde se estava a trabalhar.

E ficou-se à espera do telefonema da verdade, num desespero. Tanto trabalho e, num segundo, "catrapum", tudo ao ar, tudo perdido.

Unhas roídas, ansiedades, recriminações, constrições do tipo "se eu tivesse feito assim...", mas não valia a pena, pois só restava esperar.

E finalmente a resposta veio, boa, recuperou-se o importante, o resto perdido, mas que importa!

E a vida continuou, o mundo não parou, o dia seguiu, o trabalho fez-se e o drama acabou.

Nem sempre as histórias do dia têm, assim, um final feliz!


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A NESGA DE SOL

Não há dúvida que estes últimos dias têm sido de chuva persistente e intensa, de trovoadas barulhentas e muito próximas, de vento forte e perturbador.

E hoje, o dia, não tem sido excepção à regra: noite de inverno, manhã quase de inferno por causa do trânsito, das ruas alagadas, dos túneis fechados, dos sinais de trânsito avariados... e sempre a chover aquela chuva vertical, de gordas gotas de água fria, bem a prumo, que não só molham como ensopam a roupa da gente.

Mas o sol, sempre presente e persistente, às vezes, consegue descobrir um caminho por entre os Cumulonimbus e Nimbostratus, e atravessar aquelas massas escuras e densas de nuvens para dar um pouco de cor e de mais calor ao dia cinzento. 

E soube mesmo a bom, depois do almoço rápido, aquele passeio a pé nos dez minutos de tolerância que as nuvens deram ao sol, abrindo-lhe, apenas, uma fenda longa e estreita... mas bastante para pôr o dia a sorrir e a brilhar!  


domingo, 13 de novembro de 2011

A AFLIÇÃO

A noite de temporal não a tinha deixado dormir.

A falta de sono, associada ao medo daquela noite, a aflição, naquela solidão, de que algo de mau poderia acontecer fizeram-lhe aparecer a asma, aquela falta de ar, aquela pieira intensa, a dificuldade em respirar, a pata do cavalo no peito...

Telefonou-lhe ansiosa, as comunicações foram difíceis por causa do mau tempo, mas sempre deu para a acalmar, para lhe indicar o que devia fazer, o comprimido, o inalador, o calor no peito... e, a pouco e pouco, tudo foi melhorando, a falta de ar, a ansiedade, a aflição, o pânico...

O resto da noite, cheia de riscos brilhantes no céu, preenchida por ribombares constantes, molhada de tanta chuva, foi mais tranquila por saber que o tinha ali ao lado, embora distante, mas à distância do telemóvel. Sabia que lhe poderia ligar, sabia que a sua voz tranquila e amiga a acalmava, lhe tirava o peso do peito e a ia acompanhar na sua solidão daquela noite...



sábado, 12 de novembro de 2011

FALAR SOZINHO

Deu-se conta a falar sozinho. A falar como se fosse um diálogo entre duas pessoas que, afinal, era uma só. 

Ia no carro quando começou o "diálogo monologado": imaginou-se acompanhado, com alguém a seu lado, e com quem ia falando. A pessoa não interessava, se era homem ou mulher, a verdade é que começou a falar do movimento na estrada, da ultrapassagem, quase no limite, que tinha feito ainda há pouco, do susto porque passou, quando o outro lhe apareceu de frente.

O outro tinha aparecido, assim, de repente, à saída da curva, em boa velocidade, e tinha ido para a sua faixa de rodagem. Não fora o sangue frio, o carro seguro, os pneus com bom piso...

"Viste aquele tipo?"... e não esperou por resposta... "devem vir com os copos, em carros que não sabem guiar..."

E, da condução, passou para o tempo, para a chuva e vento fortes que o acompanhavam naquela viagem, depois, porque as notícias falavam do orçamento de estado, o diálogo passou para os problemas da economia, do que se gasta por aí escusadamente, do dinheiro que nunca chega ao fim do mês, dos ordenados a pagar ao pessoal e, quando deu por ele já estava a falar do trabalho que ainda tinha que fazer, agora, neste outono feito inverno, com as constipações, as gripes, as infecções, as tosses que não param... depois o tema foi o Natal, quase a chegar, o presépio para fazer, a árvore de Natal para decorar, as poucas prendas a comprar, agora que o dinheiro é mais curto, só mesmo para os mais novos, mais os projectos para o próximo ano...

E sempre que falava, ou perguntava para si, ficava à espera da resposta silenciosa do outro lado como se, na realidade, fosse um verdadeiro diálogo, uma conversa a dois mas feita só por um.

Até que chegou à cidade. Agora já podia prescindir da companhia que, a seu lado, não existira, seria só mais um pouco, só mais um instante e estaria a procurar o seu local de estacionamento no parque subterrâneo, e logo, logo, estaria no seu gabinete, para ir ver mais um doente. Mas não, ficou parado no trânsito, no meio de um engarrafamento enorme e, por isso, resolveu não mandar embora a "companhia" e, mais uma vez, começou a comentar com o seu parceiro imaginado, desta vez sobre os engarrafamentos, sobre o pára-arranca que desespera qualquer um, sobre as buzinadelas que descarregavam o desespero dos condutores, mas que não faziam andar os carros, sobre a greve dos transportes que trouxe mais carros para a cidade, sobre o viver, por vezes caótico, nas cidades...

Depois de tanto diálogo monologado até quase estranhou, quando o doente se sentou diante de si, o ouvir de uma resposta à pergunta que lhe tinha feito! 



sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O PALÍNDROMO

Hoje falou-se muito no 11-11-11 [ dia 11, do mês 11, do ano (dois mil e) 11 ] e, também, no 11-11-11-11-11-11 ( 11 horas, 11 minutos, 11 segundos, do tal 11-11-11 ) e falou-se, também, no dia de São Martinho e no Magusto.

Claro que, para que tudo desse certo, à data do ano - 2011 -,  foi preciso tirar o 20, senão... 

E foi por isso que as profecias, há muito anunciadas - o fim do mundo, terramotos, catástrofes -, não surgiram: a chuva veio na mesma, o sol nasceu à hora prevista e foi-se deitar também como estabelecido, a lua lá estava no céu, gorda de cheia, mas quase não foi avistada por causa das nuvens, o Orçamento de Estado foi aprovado na generalidade, as castanhas compraram-se, venderam-se e comeram-se, o Magusto cumpriu-se e o São Martinho celebrou-se com a jeropiga. Desta vez sem verão, sem a janela de sol e de calor tradicionais!

(Foto do Picasa)

Que me lembre, no dia 11-02-2011 - nesse dia é que houve a capicua, ou palíndromo, perfeitos -, também não aconteceu nada de especial.

Vamos ter que esperar, agora, pelo dia 21-02-2012 a ver o que dá profecia para aquela data: a do aperto do cinto, da redução dos proventos, do aumento do custo de vida, dos impostos em alta e da vida em baixa.

Quase de certeza que esta não irá falhar!

 

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O LAMPIÃO

Estava ali, bem fixado, na parede caiada de branco daquele prédio duma rua estreita. 

Era o único. Também a rua, além de estreita, era pequena em comprimento e acabava, logo adiante, no muro alto da muralha. Não dava para ter, mesmo, outro candeeiro de parede. Mas tinha um nome pomposo, aquela rua: rua do Coronel Joanes de Acevedo, militar andaluz que ajudou na defesa daquela praça-forte.

E cada dia, assim que o sol começava a desaparecer no horizonte, assim que o dia  passava da luz ao lusco-fusco, a lâmpada, no seu interior, acendia-se e passava a emitir uma luz branca e forte que iluminava tudo ao seu redor.

E a rua, de noite, ficava como se fosse dia, cheia de luz, por vezes em demasia, mas sem grande utilidade pois a rua, estava sempre vazia. Só os insectos, à volta da luz, naquele girar constante, davam alguma animação, davam alguma vida àquela rua adormecida. 

(foto do autor)

E o pobre do lampião, no seu esplendor de luz, quase que para nada servia. 

A verdade é que, só durante o dia, quando o sol por detrás dele se escondia, quando a luz do sol com a da lâmpada se confundia, é que ele resplandecia, é que ele chamava a atenção de todos, só nessa altura é que se viam as pessoas a olhar para ele, de câmara em punho, a tirar-lhe uma fotografia...




quarta-feira, 9 de novembro de 2011

OS INGREDIENTES

A noite passada e o dia juntaram os ingredientes todos: vento, chuva, trovoada e acentuado arrefecimento noturno.

Depois de um tempo manhoso, de um verão fora de época, de uma instabilidade atmosférica pouco habitual, o tempo invernoso veio em força.

Confesso que tinha saudades de andar à chuva, de me deslocar a pé de gabardina e com o chapéu de chuva a ser sacudido pelas rabanadas de vento, de ter as calças molhadas e os sapatos a fazerem "chap chap" ao andar nos passeios irregulares desta cidade e cheios de poças de água.

A chuva e o vento lavaram as ruas, purificaram o ar, ajudaram a respirar melhor, e o frio, ao pedir uma roupa mais espessa, deixou-nos mais aconchegados.

Claro que o frio ainda não é aquele gélido, o que desce da serra e corta a cara, greta as mãos e os dedos, tirita o corpo, faz bater o pé para o aquecer... ainda não chegámos lá, mas, pelo andar da carruagem, não deve faltar muito tempo.

Só tem um senão, ou um porém (adoro esta expressão dos meus amigos Celetristas), é que o São Martinho está mesmo à porta, faltam só dois dias e nada do verão dele, coitado! E as castanhas como se vão comer? Pingadas de chuva? E a água pé? Não ficará mais molhada? A jeropiga, diluída?

Será que com esta chuva, com este temporal, o pobre do São Martinho consegue chegar até à adega e provar o vinho?


terça-feira, 8 de novembro de 2011

QUEM É QUE SE LIXA?

Hoje teve que sair mais cedo de casa. Felizmente não mora muito longe do local de trabalho e deu para ir a pé. Por isso saiu mais cedo.

É que hoje foi decretada uma greve dos transportes. E, aqui na cidade, as greves dos transportes são feitas em séries bem coordenadas: primeiro o metro, depois a carris, entretanto os comboios suburbanos, depois os barcos da travessia do Tejo, de novo o metro e assim por diante...

Um ver se não te avias e se ficas em casa e não vais trabalhar. Um modo de impedir que outros trabalhadores, os que precisam do seu trabalho, vão para o seu emprego e, ao não irem, não recebem o dia ou, se chegam atrasados, são-lhes descontadas no salário essas horas de trabalho a menos ... 

Não há dúvida que perturba, que incomoda, que vai aos bolsos daqueles com menos posses económicas, daqueles que têm mais dificuldade em viver com o dinheiro que ganham.

É assim a justiça desta greve: a prejudicar os trabalhadores mais débeis, aqueles que, não tendo meio próprio de transporte, têm de ficar em casa, com faltas não justificadas, com cortes fundos no já magro salário.

Não haverá outro modo de fazer greves, sem causar danos económicos nos menos capazes? Naqueles em que o trabalho é, não a sua forma de vida mas um modo de sobrevivência? 

É que, de certeza, não foram eles os causadores da crise, não foram eles os responsáveis pelos motivos que levam os trabalhadores dos transportes à greve e não serão eles os que irão lucrar, alguma coisa, com este tipo de greve.

Então porque é que eles é que são os mais penalizados? Porque é que têm que sair  prejudicados?

É sempre assim, no final quem é que se lixa?... o mexilhão, claro!


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

SABE BEM

É bom e sabe bem.

Agora que a temperatura baixou, que o vento, em vez de refrescar, arrefece a carne, que a humidade se entranha nos ossos, sabe bem sentar num dos bancos da minha rua e aproveitar o sol, ainda quente, que consegue passar por entre os prédios e os ramos das árvores ainda cobertos de alguma folhagem.

Um sol que aquece o corpo, conforta o coração e anima a alma...

É bom e sabe MUITO BEM.

domingo, 6 de novembro de 2011

O BOLO FINTO

Tinha comprado dois! 

Pensara em oferecer um e o outro guardá-lo para si, para o saborear, cortado às fatias finas, assim, sem mais nada, ou, então, com manteiga, ou com queijo, ou em torradas ao pequeno almoço.

Deixou que passasse a chuva e, naquela manhã, com o sol a inundar-lhe o terraço, a aquecer a laje ainda fria da noite, sentou-se à mesa redonda e tomou, ali, o seu pequeno almoço: o sumo de laranja em copo de vidro, o café forte na caneca de faiança e as duas fatias de bolo finto, bem torrado e bem quente.

Não resistiu e deixou-se ficar mais um pouco, ali, naquele sol quente, a gozar um pedaço daquela manhã de outono...


sábado, 5 de novembro de 2011

NEBLINA

O dia acordou macio, aveludado, discreto, envolto numa imensa rede de gaze ou de tule.

A noite, que se tinha deixado adormecer ao som de grossos pingos de chuva e de um vento por vezes forte, continuou-se na madrugada fria, mas aconchegada numa teia de neblina quieta e silenciosa.

E na manhã que agora se começa a revelar, com o sol a querer rasgar o seu véu de névoa, o  outono parece querer marcar, de forma determinante, a sua presença: as trepadeiras da casa bem vermelhas, a relva húmida e salpicada de amontoados de cogumelos, os castanheiros a atapetar o chão de folhas amarelo-acastanhadas e de ouriços abertos a mostrarem o fruto, pronto a ser retirado daquele invólucro picante, o diospireiro, carregado, a vergar os ramos quase até ao chão, a oferecer, fácil, os seus frutos amarelos e avermelhados...

(Foto do autor)


À medida que o sol vai avivando as cores, à medida que o dia se vai tornando mais luminoso, à medida que o olhar vai descobrindo a serra, agora despida de neblina, o outono das cores, dos cheiros e da magia vai tomando conta do nosso viver e dos nossos sentires!


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

SELF SERVICE

Fora a maneira de se encontrarem.

Ela acabava de sair do bloco operatório, ele acabava de fechar a porta da livraria.

Era tarde e os restaurantes estavam a fechar. Ambos com fome.

Ela não almoçara, tinha sido uma operação complicada e demorada: estava faminta!

Ele tivera a apresentação de um livro, casa cheia, um pequeno beberete, tinha bebido champagne, comido um ou outro snack, e estava necessitado de forrar o estômago.

Mas o motivo do encontro não era, apenas, a comida, ou a fome de ambos. Fome, sim, mas das saudades que precisavam de ser atenuadas. Fazia uma semana que não se viam, apenas se telefonavam raramente, um ou dois sms por dia e nada mais.

Era sempre assim quando o trabalho apertava mais. A cidade grande, as horas desencontradas, o trânsito muitas vezes congestionado, o tempo livre a encurtar-se cada dia.

Mas, quando se encontravam esqueciam as ausências e davam-se à entrega, queriam saber um do outro, falavam de cada um, tocavam-se nas mãos, trocavam sorrisos meigos, mas as intimidades, essas, ficavam para o aconchego da casa que, silenciosa, os aguardava...

Ele escolheu, para ela, um lombo de porco com ananás e, para ele, ela escolheu um frango tostado. Beberam da mesma água, comeram do mesmo doce e terminaram com um café.

Saíram do Self Service e continuaram a noite na boa companhia um do outro...


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

SOPA DE LEGUMES

Meteu a mão no bolso e apenas encontrou uma moeda de cinquenta cêntimos.

Dava para uma sopinha de legumes, uma sopa servida numa malga funda, cheirosa, uma sopa feita de couve, cenoura, alho francês e grão.


Mas só tinha aquela moeda. Era o único dinheiro que possuía.

Nunca lhe tinha faltado nada, ganhava bem, gastava o que ganhava mas agora, agora que perdera o emprego, agora que tinha esgotado as parcas economias a pagar compromissos e dívidas acumuladas, agora, hoje, neste dia, deu-se conta que não tinha um tostão no bolso, apenas os cinquenta cêntimos que chegavam, à justa, para comer aquela sopinha de legumes que, só de olhar, só de lhe sentir o cheiro, lhe apertava ainda mais o vazio do estômago.

O dinheiro do fundo do desemprego só o iria receber amanhã. Faltava um dia, mas a fome não se compadecia. A fome era de hoje, não de amanhã.

E ele só com aqueles cinquenta cêntimos para a satisfazer.

E nem valia a pena pensar em pedir fiado, é que mesmo à entrada da tasca, tinha um aviso feito de letras bem gordas: "FIADO SÓ AMANHÃ!" E lá dentro, para que não restassem mais dúvidas, mesmo por cima do balcão, mesmo por cima da cabeça do patrão, um respeitável Zé Povinho no seu gesto característico, no seu manguito bem português, com outro lembrete suficientemente esclarecedor: "QUERES FIADO? TOMA!"

Não se atreveria a pedir o tal fiado e não tinha outro remédio se não gastar os últimos cinquenta cêntimos na sopinha.

E, enquanto se decidia, foi ficando por ali, naquele dilema, encostado à parede daquele prédio antigo, até que não resistiu. Entrou na tasca, sentou-se ao balcão e pediu a sopa, "quentinha, por favor!".


E, enquanto ia saboreando aquele quentinho bom, enquanto mastigava cada grão, um a um, para fazer render aquela sopa boa, dizia de si para si que, afinal, eram só cinquenta cêntimos, quase nada, uma moeda que não valia mesmo nem uma colher daquela sopa deliciosa que estava comendo. 


Quando acabou, pediu um copo de água, bebeu um gole e deixou, junto à malga da sopa acabada de comer, a reluzente moeda de cinquenta cêntimos.


Desta vez, nem um cêntimo de gorjeta deixou!





quarta-feira, 2 de novembro de 2011

AS NOZES

Veio-lhe entregar, tímida como sempre, um saquinho com nozes.

Tinha-as apanhado no dia dos Santos. Fora à terra dos pais e não se esqueceu da tradição.

Valia pela intenção, pela tradição, pelo significado. Eram poucas porque o ano tinha sida mau, muitas estariam bichadas, não se admirasse, mas não queria que a tradição dos Santos acabasse.

Antigamente ele costumava receber nozes e avelãs, a jeropiga ou o vinho abafado, até porque o São Martinho não tarda.

Este ano apenas lhe ofereceram aquelas nozes, num saquinho, e algumas delas provavelmente bichadas.

Fruto do tempo, fruto da crise...


terça-feira, 1 de novembro de 2011

BRUXAS E SANTOS

É curiosa esta conjugação das bruxas e dos santos: o Halloween e o Dia de Todos os Santos. Um a seguir ao outro, com a noite a dar a continuidade do profano ao sagrado.

À noite as bruxas, as vestes negras, a cor do sangue, o ruído das assombrações, os gritos dos mortos, a abóbora oca e, pela manhã, a celebração dos Mártires, o louvor a Todos os Santos, a missa, a consagração na Eucaristia, a recordação dos mortos, a visita aos cemitérios, as flores e as suas cores...

É a aproximação da festa pagã à festa religiosa, o menos e o mais, o mal e o bem, o Yin e o Yang, a tragédia e a comédia, a guerra e a paz que, juntos,  levam a esta dualidade constante da humanidade, como se fora uma corda bamba, que vai assegurando o equilíbrio da nossa existência.