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quarta-feira, 30 de novembro de 2011

DUAS MÃES E DUAS FILHAS

A Susana entrou no gabinete acompanhada da Mariana e da Joana.

Estavam marcadas as três consultas seguidas, três consultas a três gerações de mulheres: mãe (e avó), filha (e mãe) e neta (e filha).

Começara a tratar a Susana, tinha uns seis anos, e foi-a acompanhado desde então: assistiu às suas crises de adolescência, conseguiu que deixasse de fumar, libertou-a do estigma do "asmático-coitadinho", acompanhou-a nas gravidezes, quando a asma, nela, se agravava de forma intensa, e agora, a entrar na menopausa, de novo com os sintomas a incomodarem e a necessitar de apoio e tratamento.

A Mariana deu trabalho a nascer, com a mãe em crise asmática, as cianoses, o índice de Apgar baixo, a colaboração intensa com o pediatra, a infância com as bronquiolites, as vacinas contra os ácaros, os broncodilatadores e os anti-inflamatórios, e a Mariana foi crescendo, entrou bem na escola, raramente faltou às aulas, praticou desporto e chegou a ser praticante federada de atletismo, gostava da natação e corridas de corta mato. A Mariana nunca se deixou iludir pelo tabaco e outros fumos, cresceu bem, tirou o curso que queria e dedica-se, como fisioterapeuta, aos seus idosos nas aulas de hidroginástica. A Mariana mantém a terapêutica de controlo da asma com o rigor e regularidade que a doença exige e passou bem a sua gravidez.

A Joana nasceu bem, apenas umas semanas antes do previsto, e passou uns dias na incubadora, até obter um peso mais consentâneo com a vida fora de água. Os primeiros sintomas da asma apareceram-lhe aos três anos e hoje, no dia dos seus seis anos, apareceu, contente, radiante, com uma boneca enorme que a avó lhe ofereceu e com a caixa da vacina que agora vai iniciar.

Ao vê-las, as três, quase mais amigas que doentes, lembrou-se daquela adivinha das duas mãe e duas filhas que vão à missa com três mantilhas. A Joana foi rápida na resposta. São três, e explicou com o exemplo vivo ali presente: como a avó também era mãe e a mãe também era filha e ela, neta, também filha.

Quando saíram, ficou a pensar nas coisas boas que, muitas vezes, os seus quarenta anos de médico lhe têm trazido.

 

2 comentários:

Carlota Pires Dacosta disse...

Ao ler esta sua "consulta", recordo-me o que pensará o meu ginecologista que trata a minha avó, eu e a minha irmã e todas tão diferentes, eheheheh
Como há os maus momentos, também há os bons, que nos fazem sorrir...
beijo

Anónimo disse...

É assim que se faz o Tempo...

Beijinhos
Berta