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sábado, 31 de julho de 2010

O PERFUME

Sempre a conhecera com o mesmo perfume.

Um perfume suave, fresco como as flores depois da chuva, com uma mistura de aromas de Lírios brancos, Peónias rosas e Jasmim, levemente desperto com a rara essência da exótica Rose Baie. 

Sem sofisticações mas com classe, sem pretensiosismos mas com afirmação, sem a imagem de marca de um Chanel n.º 5 mas com a discrição de quem se soube impôr.

Por isso ele a vê sempre com o mesmo encanto da primeira vez.

E é bom, aquele aroma desperta desejos, deixa saudades, imagina cumplicidade, pede reencontros e recorda "pleasures"...

 

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SEXTA FEIRA

Desculpe a intromissão, mas a sua menina tem uma tosse esquisita!

Fazia-lhe lembrar o "garrotilho", aquela tosse da difteria, que aprendera na Faculdade, o pescoço levemente tumefacto, o olhar febril e o rosto macilento.

Que não, era assim mesmo, como a irmã gémea que sofria de asma. Esta sofre de epilepsia e venho da consulta em Lisboa no Hospital da Estefânia.

O voo era  de Lisboa para a Terceira. Vinha sentada no banco de trás. Moça dos vinte e poucos anos, vinte e três, confirmou mais tarde, mãe solteira, com um par de filhas gémeas com 6 anos de idade. A Raíssa era a que sofria de epilepsia, tinha sido operada com 4 anos de idade e veio ontem da consulta com a medicação parada. A tosse sempre foi assim. Nunca ninguém tinha perguntado pela tosse: irritante, enrouquecida pela continuidade, quase constante, quase um tique. A outra menina, a Taíssa, tinha ficado na Graciosa, com os avós. Essa sofre de asma e também anda em tratamento na Estefânia. Não posso trazer as duas porque sou só; tratar das duas é complicado. Não tenho família no continente e ficar na pensão, almoçar numa tasca, com as duas é difícil e os bilhetes de avião são muito caros. Também ainda são pequeninas e a Raíssa, esta, parece que tem um "atrasosinho". 

E a Segurança Social?

Não me fale. Veja-me: mãe solteira, desempregada, a trabalhar em limpezas quando há, com duas filhas doentes e eles não querem saber. Não me ajudam com nada. Obrigam-me a ir a Angra com as meninas, que há bons médicos, dizem. Mas com a Raíssa, esta, foi preciso ir quatro vezes ao Hospital a dizer que a menina tinha ataques de epilepsia e eles a dizerem que não eram. Só quando fiz um vídeo de um ataque, com o telemóvel e eles viram, é que se convenceram e me mandaram a Lisboa. Foi operada à cabeça no ano a seguir e esteve com medicamentos até ontem. Agora dizem para voltar ao Hospital de Angra mas perdi a confiança. Por isso vou às consultas a Lisboa. Os meus pais são pobres, trabalham na terra e com as vacas, mas ajudam-me. Valha-me isso!

Olhe, Mariana, sou médico e vou ajudá-la no tratamento da asma das meninas. Tratamos do que pudermos pela internet e, um dia que vá a Lisboa  ou eu volte aqui, vemos as meninas com calma e mais atenção.


E a Mariana o que pretende fazer no seu futuro? Gostava de trabalhar em contabilidade. Estou a acabar o 9.º ano, preciso do 12.º e depois do curso. Mas não vai dar, aqui nas ilhas é tudo difícil, não há cursos nocturnos e é tudo muito complicado.


Raiva, tenho é à Segurança Social que não me ajuda: mãe solteira, duas filhas doentes, desempregada, a fazer limpezas de biscate... Os pais ajudam no que podem, mas também são pobres e têm de trabalhar.


Graciosa? 

Só mesmo o nome da ilha!

quinta-feira, 29 de julho de 2010

QUINTA FEIRA

Olhe, venho cá à consulta porque vivo sozinha e não tenho ninguém com quem conversar.

O senhor, ao menos, escuta-me, ouve o que lhe digo e ainda me responde e dá conselhos. 

O filho do meu defunto marido - o terceiro, porque do primeiro divorciei-me, do segundo enviuvei, tal como deste último - não quer saber de mim. E no meio disto tudo não fiz ou não me souberam fazer filhos. Estou só!

Já não havia muito amor, mas havia companhia, sempre falávamos, tínhamos a presença um do outro, ele ajudava na casa, ia à rua às compras, à farmácia.

Agora estou só! Vivo na aflição de me acontecer alguma coisa de noite, de cair, ficar imobilizada, meu Deus! um desassossego constante.

Quem me vale é a vizinha da frente, que passa lá todos os dias, tenho o telefone dela para uma precisão, mas não é família, nem amiga, é só vizinha. Boa vizinha diga-se, mas coitada, o marido uma desgraça, um bêbedo, dá-lhe pancada, maus tratos, mas ela nem quer ouvir falar em sair de casa ou chamar a polícia. Ele matava-a!

Mas peste é o filho dos vizinhos do 3.º esquerdo, um drogado, rouba os pais para a droga, um homem de 35 anos, devia andar a trabalhar, largou a mulher, o filho com seis anos. Droga-se nas escadas, as injecções, a latinha, o isqueiro, o limão, um cheiro que sobe. Uma vergonhice. Os pais, coitados, se não colaboram levam porrada, desculpe a expressão mas é assim mesmo. Também não adianta chamar a polícia: vai para a esquadra, e a mãe vai lá, retira a queixa e ele volta ao mesmo. 

Depois são os vizinhos do rez do chão, ambos desempregados, com o filhito de colo, magro, todo sujo, vão às sopas aos Anjos, e trazem roupa do Centro de Abrigo e sabe, casa onde não há pão... , e todas as noites a televisão aos berros a abafar os gritos e o miúdo a chorar, às vezes  já nem chora...  só vage!

Acho que já passei da minha hora, o doutor é um santo aqui a ouvir as lamurices de uma velha. 

Nem precisa de me auscultar.

Estou bem, só a minha solidão é que não.

Já agora importa-se de me passar as receitas que devo na farmácia? ...são só estes quinze remédios!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

QUARTA-FEIRA

"O pior é o cansaço!"

"Faço um gesto e fico a arfar. Quando era jovem arfava muito, mas era por outros motivos, por outros prazeres. Agora? Nada disso! Também o marido já tinha morrido há seis anos e eu, com estes oitenta e cinco, já não vou a lado nenhum!"

Foi assim que começou a conversa!

Não se queixava de nada, só do cansaço. 

Fora isso já tinha sido operada umas nove vezes: ao útero, ao ovário direito, a uma prótese da anca, ao coração, à vesícula biliar, ao outro ovário, a uma hérnia inguinal, a uma catarata do olho esquerdo e ao tendão da mão direita. Tomava uns dez medicamentos diferentes por dia mas, não se queixava de nada.

Só do cansaço! Que a deixava a arfar da sala à cozinha, e tinha que se sentar, e descansar, depois descascar as batatas para o almoço e a cansar.

Sim, é que vivia sozinha. Os filhos, longe, na vida!

Precisava dum remédio para o cansaço.

Que actuasse!

Não a deixasse naquele arfar de vida!

Esqueceu-se de mencionar que tinha fumado  desde nova. Deixara há 3 meses. Já não podia suportar o afogo que lhe provocava o cigarro. Pior ainda que o cansaço era a falta de ar com que ficava quando acendia o "maldito" e dava o primeiro trago. 

Mas agora não.

Era só o cansaço. 

Os pulmões aniquilados, anquilosados, os brônquios retorcidos, ressequidos... isso não interessava.

Agora era só o cansaço, terrível, angustiante, o arfar...

Que saudades do arfar de antigamente...

terça-feira, 27 de julho de 2010

TERÇA-FEIRA

"Doutore, meu nariz está cheio de feridas. Coloco gota nele fica a arder e quando assoo sai um fiozinho de sangue, bem vermelho. Tem mais! Espirro a toda a hora e sinto como uma goteira escorrendo na garganta. Isso dá uma tosse!"

É mineira, trabalha na limpeza e está em Portugal faz dois anos. Não perdeu o jeito de falar, nem a pronúncia. Não ganha muito, trabalha todo o dia e, ao fim de semana faz mais umas horas. Deixou dois filhos lá, com os avós, o pai das "criança" sumiu para o Rio Grande do Sul. Ela acha que ele tem lá mais filhos para alimentar. Os dela, os "mineirinho", ficaram só ao  cuidado da mãe! Vive com a irmã na outra banda do rio, num saguão, com uma cozinha pelo meio e uma casa de banho rudimentar; o quarto, onde dorme a meias com a irmã é interior e cheira a mofo.

Vida dura, má alimentação, pouco descanso, escasso dinheiro, sem inscrição na segurança social e, por enquanto, clandestina.

Diz que lá ainda é pior! Aqui, sempre junta algum dinheiro para mandar educar os "menino".

A receita digo que vá levantar na farmácia, aqui mesmo em frente, e que diga ao farmacêutico para "botar" o preço dos "remédio" na minha conta -  ele sabe! -, a consulta paga em "muito obrigado, doutor" e leva esta nota para ajudar no transporte de regresso.

Ainda há quem insista em dizer que não há crise?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

SEGUNDA-FEIRA

Entrou-me no gabinete de olhos vermelhos, umas olheiras mal disfarçadas pela base que apressadamente colocou, um ar macilento, quase pesaroso. Estava cansada, derreada, sem forças para iniciar a semana.

Precisava de um atestado! De uma justificação para ficar em casa uns dois dias para recuperar.

É que, depois de sair quase exausta do trabalho na sexta-feira, foi curtir o fim de semana para um festival rock, daqueles na praia, com cerveja, cigarros, charros e muita ganza. Durou até à madrugada de hoje!

Veio quase directa, apenas passou por casa para um duche rápido e um mudar de roupa desleixado.

Dois cafés fortes, duas pastilhas de "Guronsan", uma bebida energética constituíram a receita.

O atestado ficou para ser passado para quando estivesse doente!

domingo, 25 de julho de 2010

A MAÇÃ

Não a maçã da Eva com que tentou o Adão e deu origem ao pecado original, nem a do Guilherme Tell que teve de atirar a seta à maçã colocada na cabeça do filho, nem a maçã de Adão que sobressai na parte anterior do pescoço dos homens, em particular nos mais magros e de pescoço alto.

Mas simplesmente a maçã, o fruto, o pomo, com várias espécies, mas com uma característica comum a todas: faz bem à saúde!

Além disso é, de um modo geral, saborosa, tem uma textura e uma casca fáceis de mastigar, um sabor que vai do delicioso e perfumado da maçã de Bravo de Esmolfe, ao mais acídulo da Granny Smith.

Tem vitaminas, tem pectinas, tem fibras, tem fenóis que reduzem o colesterol, tem  ainda uma substância, o quercetin, que protege as células cerebrais contra as doenças neurovegetativas como o Alzheimer. E tem, ainda, a vantagem de, depois de lavada, ser comida à mão, com facilidade, sem ter de tirar a casca, pode-se ir comendo, trincando ou roendo.

Os ingleses têm um provérbio antigo: "Eat an apple on going to bed, and you'll keep the doctor from earning his bread" ou, na sua versão mais moderna "An apple a day keeps the doctor away".

Pobres dos médicos... qualquer dia deixam de ter doentes se todos começam a comer maçã!

Ainda bem que há quem goste de banana, abacaxi, pêra, jaca, laranja, kiwi, mamão...

sábado, 24 de julho de 2010

O FALA SÓ

Cruzei-me com ele na rua. 
Lá andava, avenida abaixo, avenida a cima, com um chapéu de palha - que isto do sol inclemente assa o cérebro de qualquer um - a tapar-lhe a calvíce abundante, uma camisa vermelha desbotada e uns calções curtos, de ganga, talvez uns jeans apropriadamente cortados a meio da coxa.
A falar só, em voz alta, para que todos ouvissem: que a vida está má, que os culpados são os políticos, que o sócrates e o cavaco são os responsáveis, que os ricos são muitos e os pobres muito mais. 
E lá andava, avenida acima, avenida a baixo, nesta ladainha queixosa, repetida, como o homem dos anúncios falados.
As pessoas olhavam, uns não expressavam opinião, outros a dar-lhe razão.
Falava só.
Mas falava certo!

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A 200

Não há dúvida que a vida é tudo menos monótona!

Ei-lo chegado de Cádiz, do El Puerto de Santa Maria, onde esteve uns dias em pleno repouso: San Lúcar de Barrameda, Rota, Chipiona, Puerto Sherry, tudo com praias de águas límpidas, quentes de 25ºC, com bons bares, excelentes restaurantes e comida saborosa.

O panamá, os óculos escuros, o ar bronzeado, o pequeno almoço tomado na esplanada do Miramar.

A viagem, com vento de frente, a obrigar a bordos compridos, a bolinas cerradas, a tensões imensas, a abanares de estruturas náuticas, a velas bem rizadas, mas, no meio destas emoções, a velocidade quase máxima de 4,5 nós. Um percurso de umas 60 ou 70 milhas em quinze horas de intensidade vibrante, com suor de esforço, mas também, de muita satisfação.  O prazer de andar no mar, de velejar, de sair da rotina, de alterar a monotonia.

Depois o regresso a casa, confortavelmente instalado no banco de trás dum BêÈme, a 200, a demorar, quase para a mesma distância, menos de duas horas.

E não tem nada a ver com tecnologia, tem a ver com modos de estar.

A pressa de chegar a 200, porque se chega rápido, porque cedo se está em casa.

Mas é muito melhor desfrutar os 4,5 nós, a olhar a imensidão do mar, do mar que atrai, do mar que dá  vida e dá morte, que agora é pacífico e daqui a nada é revolto, deste mar azul, deste mar de Sophia...

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A PROPÓSITO

Era assim: a propósito de qualquer assunto propositava. Qualquer conversa, qualquer assunto servia-lhe de mote e era certo e sabido saía uma história com piada, uma anedota... 
Falava-se da viúva do senhor Figueiredo e lá vinha, a propósito, a história do vizinho que queria namorar a dita, conversava-se sobre o hipotético filho do Ronaldo em barriga de aluguer e ele, a propósito, a lembrar-se do história da jovem que disse ter engravidado em pensamento, contava-se uma história de motos e ele, a propósito, a recordar aquela do piloto que era manco e só via de um olho.
Não perde pitada, não deixa uma em casa, é assim o Manel. 
Um companheiro, um bom amigo, um bem disposto, um alegre. A compensar tristezas, a enganar ilusões?
Obrigado Manel, por estes dias de são convivência! Oxalá o telemóvel apareça!
A propósito de telemóvel, sabes a do alentejano que...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CALOR

Abunda, tresanda, incomoda, esfrangalha, amolece, transpira, um horror! Este calor.
Já lhe tinha perdido o jeito, ainda não tivera tempo de se habituar e andava todo cheio de resmunguice a protestar com a manhã quente, imensamente quente, que o impedia de trabalhar. 
Tinha-se levantado cedo para aproveitar as horas mais  frescas do dia, mas qual quê? O suor a escorrer da testa e a salgar-lhe os olhos, a camisa colada às costas, toda ensopada, os pés a não caberem nos sapatos, de inchados...
A água dessecava-lhe a garganta mas não o arrefecia, não o satisfazia, a ventoinha enviava-lhe, no seu vai e vem, um bafo de ar quente e não o frio que almejava, mas tinha que trabalhar, deixar pronto o trabalho, tinha prazos, quase hora certa de entrega...
E uma linha escrita e um gole de água gelada, uma vírgula e o abanar de um leque improvisado feito com a revista que chegara no correio da véspera. Quando chegava ao ponto de exclamação, aí, dava direito a levantar-se, a uma paragem mais prolongada no seu tempo. É que, com tanto calor, com tanto incómodo, a inspiração para o texto do jornal não saía.
A hora do almoço não tardava e ele ainda nisto de escrever o prometido, no prazo certo. 
E se fosse almoçar àquela marisqueira que acabou de abrir? Tinha ar refrigerado, vinha no anúncio que lhe deixaram no pára-brisas do carro, ainda por cima era era logo ali em baixo, a duas portas da sua.
Pegou em si, levou o computador portátil e, bem instalado, com uma cerveja à sua frente, num ambiente bem frio e com promessa de um bom marisco, acabado de chegar, ei-lo, cheio de ganas a acabar o texto. Num instante!
O marisco, esse, era excelente!

terça-feira, 20 de julho de 2010

SOLTAR AS AMARRAS

O vento fresco da madrugada vindo de leste era sinal de calor durante o dia, a previsão apontava para um dia tórrido, e o barco, na sua rota pré-traçada com o piloto automático a funcionar, lá ia balançando nas ondas de um través pouco pronunciado. 
Sentara-se à ré olhando o mar à sua volta na procura de uma luz, de embarcações de pesca ou de grandes navios, não fosse haver uma colisão. A lua, de quarto crescente, não dava ainda luz suficiente para se distinguirem os barcos que, eventualmente, estivessem à sua frente ou muito por perto. Por isso a sua atenção às luzes: a de bombordo era a vermelha, a de estibordo a verde.
A sua hora já tinha passado e o seu substituto ainda não tinha vindo rendê-lo. Também não tinha importância, não tinha sono, gostava de estar ali e a música do Ipod era boa. A noite não lhe permitia a leitura de Moby Dick, que já lera umas três vezes na sua juventude. Agora queria sentir a emoção da leitura no meio do mar, de um livro passado no mar, e relembrar as passagens emocionantes da caça à baleia e da vida a bordo de um baleeiro.
Estivera o ano passado nos Açores fora ao Museu da Baleia, na ilha do Pico, e participou num passeio no mar para ver as baleias. Tirara muitas fotografias, as que mais gostava eram as do esguicho de água quando emergiam e as da cauda a dizer adeus, quando mergulhavam em profundidade. 
Naquela altura ocorreu-lhe a ideia de que uma baleia pudesse andar por perto, sem luzes e sem sirene. Agora, para além dos olhos bem abertos, precisava de ter as orelhas atentas e o ouvido bem apurado. Tirou os auscultadores e preparou-se para ouvir o ruído surdo e borrifento do bafo e os gemidos e gritos das baleias, nada diferentes dos que ouvia todas as noites na RFM, na abertura do Oceano Pacífico.
Sem a música e com os ouvidos atentos, deixou fechar os olhos quase de uma forma automática. E rapidamente se entregou nos braços do Morfeu. Trinta segundos, dez minutos? 
A luz incidiu-lhe nos olhos de forma insistente, nem vermelha nem verde, uma luz branca, intensa que o despertou meio assustado. O sol batia-lhe na cara, o barco navegava tranquilo, os companheiros de viagem dormiam, o substituto não aparecera, o mar, ao longe, deixava adivinhar um ou outro barco, sem que houvesse qualquer perigo de colisão.
Esfregou os olhos, bebeu um gole de água da garrafa que tinha a seu lado e, tranquilamente, abriu o livro na página 37 dando continuação à leitura emocionante do livro de Herman Melville.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

AGORA SÃO CINCO

O Molinho deixou-se adormecer! Era o mais parado deles todos. Mais pequeno que os irmãos e mole, mesmo.
Já o veterinário tinha dito que este, provavelmente, não iria sobreviver. Tinha razão!
Esta manhã, na hora de lhes ir fazer a cama de palha, lhes mudar a água e levar o Maxilase à Zá Zá, o Molinho estava deitado a um canto, irremediavelmente quieto, com a Ginja a lambê-lo, diria a chorar!
Nunca pensei que esta Ginja, sempre estouvada, meia doida, fosse uma mãe tão dedicada. 
Pedi ao Xico que o enterrasse, ao lado do Dandy, que morreu afogado no tanque num dia de imensa chuva.

domingo, 18 de julho de 2010

CÃO BRAVO

Por sugestão da minha empresa de segurança montei video-vigilância na quinta, em locais estratégicos, sugeridos pelos técnicos.

Na semana passada alguém, mulher jovem, tentou entrar na quinta, saltando por cima do portão, encostando o carro, em que se fazia transportar, ao mesmo. 

Não sei a que propósito, porque as câmaras não lêem mentes, nem propósitos.

A câmara registou, o vizinho, sempre atento, questionou-a - "que ia tratar dos cães" - mas, ao ver-se naquele embaraço a mocita meteu o rabo entre as pernas e foi-se.  Chegou agora o vídeo com a gravação: identifiquei logo a jovem, a marca e a matrícula do carro.

Na altura o vizinho telefonou-me, a avisar da tentativa de intrusão e quem seria a jovem.

Que fazer? A Empresa quer accionar o processo de envio para a GNR e, de seguida, para a Judiciária. Diz que o procedimento é este.

Por enquanto nada vou fazer, porque sou eu que tenho de assinar os papéis, e tenho 30 dias.

Que bom ter câmaras e vizinhos atentos. Assim fico mais sossegado e a saber quem me visita e quem me tenta assaltar.

 É que não basta ter no portão o dístico "CUIDADO CÃO BRAVO".


sábado, 17 de julho de 2010

SABE BEM

Sabe bem a bica tomada logo pela manhã, ainda com o estômago vazio. É o meu "shot" de cafeína. Dá energia e dispõe bem.
Depois, durante o dia mais uma ou duas, nada mais. Chega!
É a  única droga que gosto e não prescindo.
As outras drogas, as das notícias, as das asneiras que se fazem por aí, as de se ter de enfrentar com gente desagradável e pirosa, essas todas bem que as dispenso mas, inevitavelmente vou (vamos) ter que viver no meio delas. 
Por isso, a minha bica da manhã me sabe tão bem!

sexta-feira, 16 de julho de 2010

REZINGÃO

Se fossem sete podiam ser os anões da Branca de Neve, mas são seis e mesmo, desses seis, dois são do sexo feminino e uma já tem nome: Zá Zá.

Um dos machos anda sempre irritado, mordisca os irmãos, guincha baixinho por tudo e por nada, como se estivesse descontente, a resmungar e, ainda por cima, deve magoar a Ginja quando se põe a mamar, porque a mãe refila sempre.

Estava a pensar que nome lhe haveria de dar mas o Fred encarregou-se de tudo. No momento em que estes pensamentos me ocorriam o Fred resolveu dar uma forte mijada mesmo em cima dele, que o deixou ensopado e a rezingar.

Ficou logo baptizado. Não foi preciso chamar padre nem ir à Igreja.

Foi de tiro e queda.

Ganhou logo um nome: REZINGÃO.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

O CRISTAL

Comprara-o no Mercado Modelo, em Salvador. Logo ali, junto à base do Elevador Lacerda.

Um Mercado onde se encontra de tudo: roupas, artesanato, pintura, bugiganga, boa comida, acarajé bem frito - a saber ao bom feijão-fradinho com aquele azeite de dendê - e pedras preciosas e semi-preciosas, muitas! Tem é que conhecer os bons vendedores.
   
Tinha a mania das pedras, principalmente dos quartzos, dos cristais de rocha, daqueles com geometria quase perfeita, hexagonais, como mandam as leis da cristalografia, e de transparência quase total.

Dizem que têm potencial energético, que activam uma série de funções no nosso organismo, que melhoram as chacras, que influenciam o espírito, tornando-o mais positivo. Só coisas boas! Absorvem a energia negativa e, se esta for muito negativa mesmo, então são capazes de se quebrar ou rachar ao meio. É o que se diz!

Nunca tirou benefício disso. Dão a sensação de frio na pele quando se toca nelas, mas isso tem a ver com os fenómenos de condução térmica descritos em qualquer manual sobre as leis da física. 

As dores sabe que não as tira. É que, quando a articulação do punho anda mais incomodada, ou mesmo dorida, antes de colocar o punho elástico, para conter e apoiar os movimentos, às vezes passa o cristal mas a dor não atenua. Fica apenas com uma agradável sensação de frio.

Mas não os tem por causa disso. É por uma questão  mesmo de gostar, pela pureza, pela transparência, pela geometria. E gosta de os sentir ali perto de si, de os pegar na mão, de sentir o frio daqueles blocos que quase parecem de gelo.

Os Gregos acreditavam que os cristais de quartzo não eram mais do que blocos de gelo que tinham congelado a temperaturas tão baixas, tão baixas,  que já não podiam derreter, ficando eternamente congelados.

Há gente (nem lhe chamo pessoas) que, por acção do tempo, do mau carácter, da inveja, da ruindade, da cobiça e ambição, vão ficando empedernidas, herméticas, duras, impermeáveis, inderretíveis e frias, ganhando algumas das características do cristal. Mas a comparação fica por aí. Se as pudéssemos transformar em mineral, em vez da pedra linda e transparente não iam ser mais do que  pedra negra, amorfa, dura que só presta para calçada de rua, para ser pisada, calcada, espezinhada. 



quarta-feira, 14 de julho de 2010

ZSÁ ZSÁ

Agora já caminha direita mas, ao princípio, andava aos zigue-zagues, com falta de força na pata dianteira esquerda.
Ficava para o fim na mamada porque os irmãos se adiantavam e, depois, quando chegava à teta, a Ginja já não estava com muita paciência.
O Dr. Pedro arranjou-me um leite especial, um biberão para cachorros daquela idade e recomendou-me que lhe desse, em cada mamada, umas quatro  vezes por dia, uma colher de chá de Maxilase. Nos intervalos, e quando tivesse fome, ia à mãe.
Fez fisioterapia, quase digital, tal o cuidado que aquela pata, aparentemente frágil, parecia exigir e, agora, passados 4 dias, parece estar óptima. Já corre, se se chama àquilo correr, quase como os outros, e, uma vez por outra, lá se entorna para a esquerda. Acho que vai ficar óptima.

Isto de ter pais com nomes de artistas de cinema, o facto de andar a zigue-zaguear, e ser vistosa, deu-me para lhe chamar ZáZá, porque  lhe associei o nome  ao da Zsá Zsá Gabor, aquela artista de cinema de origem austro-húngara, mas que fez vida em Hollywood.

É que esta minha ZáZá, tem os olhos com sombras, como  estivesse maquilhada e pronta a entrar em cena. 

terça-feira, 13 de julho de 2010

O PANAMÁ

Assim que o sol começou a ficar mais intenso, a avermelhar-lhe a testa, disse para consigo que estava na hora de voltar a usar o panamá.

Velhinho, enrolado na caixa de madeira original, quase a parecer uma caixa de charuto gigante, com algumas das palhas partidas, mas que uns pingos de cola de contacto, aplicados no interior, resolveram e disfarçaram na perfeição, a fita preta bem presa ainda e, com dois toques, duas esticadelas, ficou quase como novo.


Também não gostava dos panamás novos, vincados, imaculadamente brancos, com as abas perfeitas.

Gostava deste assim, meio amachucado, já enformado à sua cabeça e com a aba, à frente, meia virada para baixo, a dar o seu toque pessoal.

Óculos de sol, Rayban, de lentes acastanhadas, e ei-lo com ar de sul-americano, a passear no seu MG, descapotável, pela marginal, em direcção ao Guincho.

Sem pressas; também não interessava, pois o vento e a deslocação do ar causada pela velocidade podiam levar-lhe o chapéu.

Fora-lhe oferecido por um doente, panamiano, funcionário da Embaixada, um modelo especialmente feito por um dos últimos artesãos, no Panamá. Agora a maior parte deles já são feitos na China, com a trama de palha tecida em máquinas, em vez de o ser à mão, e todo o fabrico automatizado, até a fita preta, em nylon, é colada em vez de cosida e pespontada.

Daí a estima grande pelo seu Panamá.

Parou no Muchaxo. Apreciava imenso aquela sala grande sobre o oceano, e o corredor cheio de recantos com mesas e janelas a olhar o mar. Pediu um branco bem gelado, levemente frutado, uma travessa de percebes e ali ficou a descansar a vista naquele mar sempre agitado e perturbado pelo vento da nortada do fim de tarde.

O senhor Guedes, o chefe de mesa, veio cumprimentá-lo e saber se ficava para jantar, é que tinha recebido uns sargos, acabados de pescar, ainda estavam vivos!, e podia grelhar-lhe um, escalado!

Quem podia resistir?

A sobremesa tinha que ser a encharcada; acha que nunca comeu, ali, outra sobremesa.

O café, a conta e horas de voltar.

Ainda tinha que preparar a palestra para amanhã sobre o efeito dos novos anti-inflamatórios no controlo da dor lombar.

O vento forte à saída do Muchaxo obrigaram-no a segurar, com veemência, o panamá, não fosse ele voar. A procura das chaves no bolso do seu casaco de linho, fizeram com que, momentaneamente, largasse o seu chapéu que, aproveitando a ocasião, se pôs a rodopiar, a rodar pela aba, e ele a correr atrás, rodopiando como o chapéu, acompanhando-lhe os movimentos até que, com o pé, o calca com força e finalmente o agarra com a mão livre; na outra, tinha a chave do carro. 

Ao endireitar-se, uma forte dor lombar a impedir de se endireitar. E, meio encurvado, com o chapéu espezinhado e sujo, lá entra no carro e regressa a casa.

Colocou o panamá na cabeça em bronze, do Mozart, tentando que ficasse mais composto, foi à procura do tal anti-inflamatório para as dores, e sentou-se numa cadeira dura, de costas direitas, à espera que a dor aliviassse.

Será que ainda vai ter que pedir ao Luís, o colega ortopedista que mora no 6.º esquerdo, para o observar? E se ele lhe mandar tomar o tal anti-inflamatório?

 



segunda-feira, 12 de julho de 2010

ADAMASTOR

Tem-se falado muito da África do Sul, por causa do futebol.
Mas, para nós portugueses, falar da África do Sul é lembrar a arte em que fomos Campeões do Mundo: a dos Descobrimentos e não só. 
Fomos os primeiros a dobrar os cabos do fim da África, é na África do Sul que vivem muitos emigrantes portugueses, e por lá passou e viveu, em Durban, o "nosso" e "universal" Fernando Pessoa.
A primeira referência vai sempre para Camões, o nosso maior poeta que, tão bem, relata o episódio da passagem do Cabo das Tormentas e que, depois de passado e vencido, passou a chamar-se Cabo da Boa Esperança, comparando-o e referindo-se à figura do Adamastor, no Canto V, estância 39:

"Não acabava, quando ua figura
se nos mostra no ar, robusta e válida,
de disforme e grandíssima estatura;
o rosto carregado, a barba esquálida,
os olhos encovados, e a postura
medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
a boca negra, os dentes amarelos."

É de notar a semelhança da descrição com a fotografia do cabo da Boa Esperança, tirada de terra; imagino que do mar, no meio das ondas alterosas, de ventos e neblinas, de medos, de pavores, de susto o aspecto pareça ser, ainda, mais medonho.

Fernando Pessoa na Mensagem - 2.ª parte: Mar Portuguez, também se refere ao Mostrengo, a simbolizar o medo do desconhecido e, ao mesmo tempo a revelar a coragem para o enfrentar e o vencer: 

"O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou trez vezes,
Voou trez vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-rei D. João Segundo!»
 
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou trez vezes,
Trez vezes rodou immundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-rei D. João Segundo!»
 
Trez vezes do leme as mãos ergueu,
Trez vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer trez vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quere o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
D' El-rei D. João Segundo!»"
 
São passos da nossa História, da história do povo deste país pequeno de que nos orgulhamos, tão bem cantada e glorificada por estes homens grandes.
 

domingo, 11 de julho de 2010

A FITA

Fora uma baiana que lha colocara no pulso, dera-lhe os sete nós e a recomendação de não a tirar, era azul escura, e a fita ali ficou no braço, na esperança não sabia bem de quê.

De felicidade?

De dinheiro?

De sucesso?

Os nós acabaram por se desfazer e hoje, ao fim da tarde, depois de toda a gente, quase, abandonar a praia foi até à beira-mar, de pé descalço, de branco vestido, não fosse a Iemanjá  por ali aparecer, e esperou pela sétima onda. Lançou a fita já meio desbotada e o mar a engoliu.

Não sabe se ficou mais feliz, mais rico de certeza que não e, quanto ao sucesso, não deu por nenhum aplauso.

Mas uma coisa foi ganhando ao longo deste tempo: segurança, maturidade, tranquilidade e, sobretudo, a sentir-se bem consigo mesmo.

Só teve que agradecer senhor do Bonfim!


sábado, 10 de julho de 2010

O FRED

Acordei com um ladrar forte, mesmo debaixo da janela, persistente, batendo com a pata no vidro. Levantei-me, abri a janela e ele quase saltou para dentro do quarto a puxar-me o braço, com ladrar ansioso. Vesti rápido umas calças, calcei as velas, a camisa de ontem que estava ali em cima da cadeira e saio pela garagem.
A Ginja no canil, dentro da casa, escura, latia baixinho, ao mesmo tempo que parecia escutar uns guinchos fracos...
Seis cachorros, malhados, dois brancos com malhas pretas. Ainda não sei quantos são eles e elas. A mãe deitada, esvaída, sangrada, a pedir ajuda. Água, bebeu tudo e repetiu. Telefonema para o Pedro, que vinha já aí...
Lindos, encantadores, com ar saudável, todos. 
O Fred atento, curioso. Acho que nos tempos mais próximos não vai entrar no canil. Por precaução.
Vou ter que lhes arranjar nomes, colocar uma coleira ou etiqueta com os nomes. E comprar ração especial para a Ginja.
A mãe bem, os cachorros saudáveis, sem defeitos, com força na mamada. 
Agora é deixá-los crescer, mimá-los e arranjar quem queira  ficar com alguns cachorros. Acho que vou guardar um ou dois.
Tão lindos!
Mas até lá, vou gozá-los, aproveitá-los enquanto bebés, deixá-los crescer um pouco...
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sexta-feira, 9 de julho de 2010

DAR O NÓ

Faltavam cinco minutos e ele ainda não tinha colocado a gravata; não sabia fazer o nó. Tinha que passar a parte mais larga por cima da mais estreita, dar uma volta por trás, depois passar para a frente e meter a ponta no espaço entre as duas partes e ajustar. Foi assim que o Carlos lhe tinha ensinado pelo telefone.
Já nem se lembrava de quando colocara uma gravata ao pescoço pela última vez. Detestava andar de corda ao pescoço  mas hoje tinha que ser. Era o padrinho!
O Baptizado na Igreja de São João Baptista era daqui a pouco e não podia aparecer, sem gravata. Ia ser o padrinho, ele  e a Irene, amigos de longa data, os quatro: ele, a Irene, a Lena e o Zé. Um percurso de vida quase feito em comum: colegas de liceu, depois de Faculdade, companheiros de estudo e, com o curso terminado, ele seguiu  para Cabo Verde, agarrar e reabilitar os negócios que a família tinha por lá. Duas gerações com a mesma firma e ele tinha que lhe dar continuação.
Voltou para o casamento da Lena e do Zé; a Irene fora a madrinha da noiva e ele o padrinho do noivo.
Nessa altura foi o noivo, à porta da Igreja, que o tinha ajudado a fazer o nó da gravata.
Mas hoje não ia dar tempo. Estava na hora de ir para a cerimónia, e ele que nunca chegava atrasado....
Não tinha solução se não ir com a gravata na mão e pedir a alguém que o ajudasse.
Chamou o táxi e lá foi; o motorista sabia onde era a Igreja, perdida no meio de uma estrada de terra batida, local de romarias na altura das festas Joaninas, que não tinham sido há muito tempo. À medida que se ia aproximando ia vendo, nas bermas do caminho, os restos da festa ao santo.
O terreiro já estava cheio de carros e de pessoas. O João e a mulher - Teresa? já não se lembrava bem do nome dela -, ali o Zé Carlos, o Rodrigo, a Cáti e o marido, mais um grupo onde não reconhecia ninguém, ao longe a Sassá e o Tó Zé,  a Patrícia - ao tempo que não via - e muitos miúdos correndo à volta daquelas pernas adultas. Esperavam pela chegada do seu afilhado e dos pais.
Dispensou o táxi, com a certeza de que alguém lhe havia de dar boleia no fim da cerimónia, até casa do Zé e da Lena.
Disfarçadamente resolve pedir ao Rodrigo para lhe ensinar a fazer o nó. Que não sabia, fora a Irene que lho tinha feito.
Já veio? Onde está?
A sacristia, o local mais apropriado, naquele ermo feito Igreja e uma espécie de coreto que acolhia a banda na altura das festas anuais de São João. A Irene a tratar duns papéis. O abraço longo de saudade, o beijo de imensa amizade, o deixar a mão na mão dela...
Fazes-me o nó? Que sim, até era capaz de o dar contigo.
A mão vazia, o bolso sem gravata, esquecida em casa ou no banco do táxi? Agora não tinha remédio.
Que fazer? A fita! Aquela do andor do Santo, vermelha, dá-se um jeito.
Vamos dar nó? Sim, há muito que o queria dar contigo.
Eu também, então vamos...
 

quinta-feira, 8 de julho de 2010

TUDO SOMADO

Tinha acabado de chegar da farmácia, de mãos a abanar.

Fora ao Médico de Família fazer a consulta programada e aproveitou para pôr as queixas em dia, e foi de quase tudo: do estômago com aquela azia e ardor que lhe chegavam à garganta, da tensão arterial alta que lhe dava aquelas dores de cabeça e os picos nos olhos que já não podia suportar, do colesterol que estava altíssimo, da ureia que não baixava dos 8, dos diabetes que lhe apareceram há três anos, mais a bronquite com a tosse e aquele catarro horroroso, das dores na coluna e nos joelhos... e já nem teve coragem para se queixar das insónias, dos zumbidos nos ouvidos, e do cansaço que lhe ia tomando conta do andar e do subir das escadas.

O médico nem levantava os olhos, a cada queixa  ou sintoma, toca de escrever na receita tripla - pois só ia ter nova consulta daí por três meses - o nome do medicamento apropriado. E, quando acabou a consulta, deu-se na mão com quatro receitas, todas preenchidas, o que dava, tudo somado, dezasseis medicamentos. O modo de tomar aquela medicação toda saiu numa folha impressa que a enfermeira lhe entregou, explicando como devia tomar cada um. Havia uns que só tomava uma vez por dia, outros duas vezes e dois que tinha que tomar três vezes ao dia, antes das refeições o que, tudo somado, dava uns 22 comprimidos por dia. Ficou sem saber se ainda lhe sobravam horas do dia em que não tomava medicação.

E, da consulta, vai a pé para a farmácia, que não era longe, no vagar do seu andar, pois o cansaço e as dores nas pernas não permitiam  que caminhasse mais depressa. E, no caminho, ia meditando e fazendo contas em voz alta: ao pequeno-almoço são seis - o do estômago, os da tensão arterial, mais o do reumatismo que já andava a tomar, e o do colesterol -, depois ao almoço eram o do coração, o da coagulação do sangue, mais os da diabetes, juntamente com a vitamina, o que, tudo somado, faz seis comprimidos, tantos como os do pequeno-almoço, mais três ao lanche, já não se lembrava bem para quê, mais os seis ao jantar e um ao deitar, para ver se adormece mais depressa. E,na verdade, tudo somado, dá os 22 comprimidos que lhe tinha dito a enfermeira.

Tira a senha, aguarda a chamada do número, o 127, e ainda vai no 121. Sem um banco para se sentar, ele que estava cansado de ter vindo a pé à torreira do sol abrasador. Cento e vinte seis, e já só falta um. O besouro, de novo, e ele a dirigir-se ao balcão n.º 3. Boas tardes e entrega  o molho das receitas,  a menina, diligente, de bata imaculadamente branca, abre o gavetão e fecha o gavetão e vai colocando no cesto os medicamentos receitados.
E pronto, aqui estão, e, tudo somado, são 126 euros a pagar. A pensão, que tinha ido levantar nessa manhã, não chegava aos 450 euros e começou a contar as notas, devagar, e a custar-lhe a conta a chegar ao fim.

É que, tudo somado, quase ficava sem dinheiro para a renda da casa, para a água, a luz e o gás; já devia dois meses na mercearia e as meias-solas estavam a pedir um reforço.

Olhe menina, não vai dar, o dinheiro é curto e eu prefiro a sopa ao comprimido, a batatinha cozida à cápsula da vitamina, o chá da noite com a bolacha Maria, à pastilha que se desfaz na boca.

Também, para morrer intoxicado com aqueles remédios todos, não precisava pagar tanto e, se formos a ver bem a coisa, tudo somado, assim por assim, se não tomar os remédios, até pode ser que ainda ande por cá mais algum tempo... é que, tudo somado, já só faltavam dois anos para os noventa!

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quarta-feira, 7 de julho de 2010

SOSSEGO

Depois da agitação de ontem, resolvi ter um dia  diferente para tentar ganhar as forças perdidas durante a noite.
Optei por um dia tranquilo, sem ver doentes, sem telefonemas, sem contas para pagar...
Resolvi conceder-me uma folga: desliguei os telemóveis, desmarquei os doentes e fui, tranquilamente, dar um passeio calmo junto ao mar.
Uma esplanada com boa sombra e as ondas tranquilas a convidarem para um banho de bandeira verde, numa praia azul.
A salada de alface com  tomate cherry e um chá verde, refrescado com gelo e folhas de menta, confortaram o estômago com pouca fome.
O acabar a leitura de "A Arte da Alegria", naquele lugar calmo, completou-me o resto da tarde.
Depois o regresso tranquilo, sem filas de trânsito, sem engarrafamentos...
Em casa, sossegado, vou agora ver o jogo entre a Alemanha e a Espanha, sem emoções de maior, mas a torcer pelos vizinhos.
Há tanto tempo que não tinha um dia assim, de sossego...

terça-feira, 6 de julho de 2010

O ACORDAR

A noite quente, daquelas que nem permitem o lençol por cima do corpo sem roupa, foi horrível. Para além do calor, o zumbido daquele mosquito, toda a noite, num zumm zumm de voos arrojados, de picadelas, em todo o corpo, de levantares constates e de tentativas vãs de, com o chinelo na mão, o esmagar contra a parede.
Já há muito tempo que não tinha uma noite assim.
Ainda pensei no spray para o matar, mas acho que quem ia morrer com o produto era eu: as minhas vias respiratórios manifestaram sempre uma incompatibilidade total a esses produtos.
Mudei de quarto, mas ele veio atrás, estilo melga, daquelas que andam coladas à gente. 

Tapei-me com o lençol, mas o zumm zumm ouvia-se na mesma e o desgraçado devia ter a tromba afiada e comprida pois picava por cima do lençol. Cobertor nem imaginar! Aí era a assadura total!

Assim passei a noite, sem pregar olho e com o corpo pintalgado de manchas rosadas, altamente comichosas e com as marcas das unhas, de tanto me coçar.
Maldito!
Mas o acordar foi óptimo, senti uma picada na cara e num automatismo ainda adormecido, esmaguei-o todo. Ficou uma pasta de sangue, MEU!, na minha mão.
Acho que foi o melhor acordar destes últimos tempos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

CONTENTORES

Sempre andaram por aí de árvore em árvore, de ramo em ramo, aventurando-se no chão à procura de algum grão, de uma migalha.
Lembro-me bem, uma vez em Budapeste, sentado na esplanada de um café e de eles virem pousar na mesa a debicar as côdeas do pão e as migalhas de um bolo. Sem temor, com naturalidade e à vontade. Pensei comigo que, como aqui ninguém faz mal aos pardais, eles ganharam a atitude de virem, sem pedir licença, bicar os restos de comida: uma espécie de simbiose, limpam as mesas e, ao limpar, têm a refeição grátis e sem esforço.
Esta manhã, ao dar o meu passeio madrugador, reparei que os pardais da minha cidade são mais do tipo "homeless", vagabundos, sem eira nem beira. A verdade é que também não vi, naquela rua, qualquer esplanada e, muito menos, alguém a tomar um café e a comer uma sanduíche ou um bolo que fizessem migalhas.  O que vi foi que assim que a camioneta do lixo esvaziou os contentores de um supermercado, que estavam ali no passeio, ei-los, em bandos, famintos, a entrarem dentro dos caixotes verdes à procura das sobras, no chão do passeio, atropelando-se uns aos outros... até restos de fiambre comeram. Tudo entrava... 
Eles magros, de penas despenteadas, de olhar triste e piar desconsolado, mas agressivos na disputa do alimento.
Por enquanto eram só eles. Ou será que os verdadeiros "homeless" já tinham passado antes? E a partir de agora quantas mais pessoas vão passar a andar, envergonhadamente, a procurar os restos dos outros?  
Prenúncio de 7 anos de vacas magras?


domingo, 4 de julho de 2010

A RAPIDEZ DA JUSTIÇA

Afinal a justiça, em Portugal, é rápida.
Depois de 8 meses parado, o processo da Jornalista Manuela Moura Guedes contra o primeiro ministro josé sócratres (engenheiro faxista de fim de semana) foi, finalmente reactivado e, em poucas horas - tempo record-, o ministério público resolveu arquivar o dito processo.
A comunicação foi feita no sábado à noite - um fim de semana (terá a resolução sido enviada por fax?).
O que me parece é que o juiz do ministério público que ditou o despacho, deve ter sido formado na mesma universidade do dito primeiro ministro:  curso tirado em pouco tempo, o mesmo professor para cinco cadeiras e o certificado de licenciatura enviado por fax, num fim de semana. Às tantas ainda foram colegas e amigos de carteira.
Ah! por causa das dúvidas, essa universidade já foi encerrada e os certificados, como sempre acontece, devem ter sido destruídos por um pequeno foco de incêndio, que apenas queimou aqueles processos. 
Tudo isto cheira a esturro!
Se fosse mal educado diria que cheira demais a MERDA! 

sábado, 3 de julho de 2010

A VERDADE

O meu amigo João telefonou-me.
Andava com problemas de saúde e queria que eu o observasse. 
Pedi-lhe que me trouxesse uma radiografia do tórax e assim que a tivesse que viesse ter comigo.
Apareceu-me ontem de manhã, com a radiografia, com uma TAC, com a mulher e com um ar desesperado.
Lera os relatórios. Ele é médico e entendeu tudo muito bem: tumor extenso, com gânglios mediastínicos e metástases cerebrais.
Queria saber se era operável, quanto tempo teria de vida.

O João sempre foi um fumador. Ultimamente, para enganar o vício e se enganar a ele próprio, optou por fumar cigarrilhas. 
Primeiro foi a bronquite, com aquela tosse e expectoração que nunca paravam, depois a hipertensão arterial, mais tarde os problemas circulatórios, e entrou num correr de expectorantes - logo a seguir ao cigarro da manhã-, de "by-pass" coronários e periféricos - e o cigarrinho sempre na ponta dos dedos -, de comprimidos vasodilatadores - e as cigarrilhas a serem fumadas até ao fim-,  de anti-hipertensores - e agora só a fumar cinco por dia -.

O cansaço a tomar conta dele e ele a insistir no fumo. 

Nunca ligou aos avisos, ao que lhe dizíamos todos, colegas e amigos, e o João, com o seu lacinho ao pescoço e o seu ar de dandy, ia fumando a sua vida, alcatroando as vias respiratórias, enchendo-as de bronquites, de DPOCs, de metaplasias, de neoplasias...

A verdade?

Seis meses a um ano. Não vai passar disso.

E assim vou perder um amigo, um colega, um "compagon de route".

Acho que te quiseste cremar em vida com tanto tabaco que queimaste.

E agora, João?

Vou começar a chorar por ti mesmo antes de te ires embora?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

DE LENÇO NA MÃO

Naquele dia ele tinha-lhe prometido um jantar especial. Fazia 6 meses que namoravam, continuavam a sentir uma imensa paixão um pelo outro e aproveitavam esta ocasião para comemorar esse acontecimento.
Tinham começado namoro na Internet. Conhecimento casual, com amigos comuns, e foram, a pouco e pouco, desenvolvendo uma forma especial de amizade, ganhando afectos, criando cumplicidades. A teia universal e virtual da comunicação lançou sobre os dois um manto de amor.
Era a primeira vez que se iam encontrar. Moravam em cidades distantes e nunca se tinha proporcionado o encontro. Coincidiu, também, com o facto de ela vir morar para perto dele, fruto de uma nova oportunidade de trabalho.
Ele marcou encontro no melhor restaurante junto ao mar. Pediu para reservar, expressamente, a mesa n.º 15, aquela que ficava perto de uma janela discreta, num recanto que lhes permitia a visão única do espelhar da lua sobre as águas, hoje mansas, daquele mar que eles tanto diziam gostar.
A noite estava ainda quente, mas o calor era atenuado por uma leve brisa que o mar lhes enviava.
Ela chegou a horas, pontual, como nos encontros regulares no msn. Um vestido preto que lhe fazia sobressair a elegância da silhueta e um colar de pérolas brancas de uma simplicidade ímpar.
Ele de blazer preto e uma camisa branca imaculada.
Um beijo singelo, um abraço a denotar afecto e a bastante emoção daquele primeiro encontro. E três sonoros espirros da parte dele.
Foram encaminhados para a mesa previamente marcada. 
Acertaram na escolha do prato principal: robalo ao sal com um João Pires de 2008, bem fresco. 
E, de novo, os espirros agora com o nariz a pingar. De lenço na mão, tentava conter a sonoridade dos espirros e a correria dos pingos nasais.
De entrada ela escolheu uma salada com crocante de lagosta "aux petits morceaux" e ele ficou-se por espargos verdes amornados em "sauce d'escargot au beurre". A bebida a acompanhar era um espumante da Ervideira com "espressão" de maracujá .
A música de fundo, com  Sinatra a cantar em dueto, canções de amor, não podia ser a mais adequada.
O momento apropriado para assumir grandes decisões e ele estava disposto a isso.
Levantou a flute e propôs um brinde-compromisso de vida. Para que fossem viver juntos, em casa dele,  um apartamento com vista sobre o rio, naquela zona da cidade onde era "chic" viver.  Assim ela escusava de  procurar um apartamento e todas as coisas associadas: mobílias, contratos de luz, água, gás, TV Cabo e internet. Acabavam os sms, as horas marcadas de encontro virtual e concretizavam o sonho da realidade que os fez chegar àquele momento.
Ela sorriu, baixou o olhar de emoção, pronta a dizer o SIM...
Que  SIM, que SIM, que SIM... mas tinha que levar junto com ela as gatas persas, de um pêlo cinzento abundante, quase angorá...
Que NÃO, que NÃO, que NÃO... que não podia por causa da alergia ao pêlo do gato, e alergia era a única doença que ele padecia.
Ela foi intransigente, que assim não ia, eram a sua companhia, os seus amores, a sua paixão mais antiga.
Além de intransigente, intolerante na forma como o disse.
De nada valeram os argumentos dos espirros, do nariz a escorrer, dos olhos vermelhos, da falta de ar, da comichão pelo corpo que, só de ouvir falar em gatos, isso lhe provocava.
Ela levantou-se, pegou na carteira e, sem olhar para trás, saiu porta fora bamboleando as ancas da forma que só uma gata sabe fazer.
Ele deixou-se ficar, pegou de novo no lenço branco, deu duas assoadelas, puxou  do comprimido de antihistamínico e engoliu-o com um trago de espumante.
Não espirrou o resto do jantar.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

EM CRISE, COM TANTOS AUMENTOS?

Que bom, a partir de agora aumenta tudo: o IVA, as retenções na fonte, o IRS, o IRC, a electricidade, o gás, os combustíveis, os transportes, as portagens, o pão, os bens essenciais...

Aumentam também os juros dos empréstimos bancários, aumentam as dificuldades em obter empréstimos, aumentam os descontos que são feitos nas reformas, aumenta o imposto de selo, aumentam os custos das transferências bancárias, aumentam mais uma série de etcs...

Com  tudo isto aumentam, logicamente, os roubos, os assaltos, o vandalismo, a insegurança, a intranquilidade...

Mas este governo, que apenas pretende o bem estar dos seus contribuintes, o que tira com uma mão dá com a outra e, assim, aumenta também a degradação da nossa qualidade de vida, aumenta o desemprego, aumenta a precariedade dos empregos, aumenta a revolta das populações, aumenta a diminuição da auto-estima, aumenta a incompreensão, aumenta o desagrado...

E ainda falam em crise?

Só se for no futebol, aí os jogadores e o treinador  é que se podem queixar, não tiveram o tal aumento por não terem chegado à final. Bem Feita! Quem lhes mandou não serem ambiciosos?