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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

SETE MIL MILHÕES

Calcula-se que vá nascer hoje o homem (ou mulher) número sete mil milhões; a meio da tarde, dizem, provavelmente na Índia, dizem também... 

Significa que, desde que o homem assim foi considerado, desde que a Eva e o Adão procriaram o primeiro Abel, a humanidade já gerou sete mil milhões de seres. Não sei se a tradução em algarismos se expressa neste número - 7.000.000.000 - mas, com mais um zero ou menos um, é um número que impõe respeito.

Um número que impressiona mas que é sinal que ainda anda muita gente, pelo mundo, a procriar. É a humanidade a querer continuar-se, a negar o fim dela própria, apesar tanto de se auto maltratar, apesar dos erros e desvarios que faz, das asneiras que, continuadamente, comete.

Uma humanidade feita tanto de "Abéis" como de "Cains" que continuam a degladiar-se, a invejar-se, a matar-se...

Vai ser sempre assim, foi sempre assim... 

Tudo começou num paraíso e, pelos vistos, vai acabar num inferno!


domingo, 30 de outubro de 2011

ESPLANADA

Levantou-se cedo!

Pudera! A hora tinha aumentado sessenta minutos mas o sono não esticou assim tanto e ficou com mais tempo, nessa manhã de domingo, para ir até à esplanada. A do costume, ali, na encosta da Sé e do Castelo, a olhar o Tejo, a sentir o cheiro fresco da manhã de outono, a ver a ponte desfocada pela neblina que subia das águas calmas do rio, a admirar a paisagem que, apesar de ser a mesma, nunca é igual!

Levou o livro que estava quase no fim da leitura, levou o jornal e levou, também, tempo para estar ali. 

Hoje não iria ser a bica bebida, o pastel comido, os cinco minutos de olhar a paisagem e ir embora.

E, assim se deixou ficar tranquilo, só, naquela esplanada, a gozar a tranquilidade de uma manhã de outono...

sábado, 29 de outubro de 2011

A HORA A MAIS

Esta noite vamos dormir mais uma hora, mas não sei se ganhamos algum tempo de sono porque, às duas horas da manhã, à hora a que se deveria estar a dormir mais profundamente, é a essa hora precisa que dizem para se atrasarem os relógios. E dizem-no de uma maneira muito formal e imperativa: "Na próxima madrugada, quando forem duas horas da manhã, os relógios devem ser atrasados por uma hora, voltando para a uma hora da manhã!".

Por isso não vale a pena ficarmos contentes que vamos dormir mais uma hora. Com aquela "ordem" o que vou ter que fazer é pôr o despertador para a 1h 59m e, mal acorde, andar com os ponteiros para trás uma hora. Mas não são só os ponteiros do despertador, são os dos relógios todos da casa, da cozinha à casa de banho, passando pela sala de estar, pela sala de jantar, pelo escritório, mais o relógio de cuco na parede e os de trazer no pulso.  Com isto tudo, a tal hora que, diziam, se ficava a mais na cama a dormir, não vai passar de uma grande mentira.

Talvez seja importante ganharmos horas ao dia, regularmos a nossa actividade produtiva de acordo com o sol. Até estou de acordo! Se assim não fosse lá nos tínhamos de levantar noite escura, sair de casa às apalpadelas porque agora, com a crise, as luzes da rua apagam-se mais cedo, e regressarmos a casa já de noite, em plena escuridão! Assim, deste modo, sempre saímos de casa com luz natural!

Mas o pior, para mim, é o sentido de obrigatoriedade de ter que ser às duas da manhã!

(Da colecção do autor)

Porque não às oito, ou às nove? Seria muito melhor... A pessoa dormia as horas que normalmente lhe apetecem, desta vez ciente que ainda tinha mais uma folga de sessenta minutos e, quando acordasse, tinha a boa sensação de saber que afinal ainda não eram as oito, ou nove, ou dez horas da manhã, mas uma hora a menos e que ainda dispunha de um extra de tempo para fazer o que quisesse, inclusivamente, o tempo, mais que necessário, para ir acertar os relógios da casa. 

Eu cá já sei o que vou fazer: como falta pouco tempo para as duas horas da madrugada, mal acabe de escrever este blog, vou estirar-me no sofá da sala, ver um filme na televisão e, à uma hora e cinquenta e nove minutos, lá vou fazer a ronda dos relógios.

É que não sei se, com tanto controle, com tanto aperto, com tanto rigor da governação, não me mandam um fiscal cá a casa e me multam por andar adiantado uma hora.

Sempre era mais um dinheirinho extra que entrava para os cofres deste Estado falido. 

E

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O CRAYON

Não tinha muito tempo para desenhar mas estava quase sempre a fazê-lo. Bastava-lhe um papel, um lápis ou uma caneta e lá estava ele a rabiscar, a riscar, a tentar dar forma ao que lhe ia saindo da ponta dos dedos.

A maior parte dos "bonecos" deitava fora, ou então ficavam na toalha de papel da mesa do almoço, ou no guardanapo amarrotado que largava no fim da refeição, ou, ainda, no canto do jornal que, depois de lido, deixava em cima de um banco ou colocava directamente no cesto dos papéis.

Mas, quando tinha tempo, quando tinha ambiente, quando sentia necessidade, pegava no bloco de papel "Canson", ia buscar o crayon de carvão e começava nos seus riscares, no saltitar do carvão de um lado para o outro do papel, a procurar formas, a imaginar as figuras que emergiam daquele caos de riscos, de ponteados, de sombras...

Nunca levava ideia do que iria desenhar e depois, no meio do desenho, sem saber como, lá aparecia um tigre, ou uma floresta, ou o campanário de uma igreja... 

(desenho original)


Outras vezes pensava desenhar um cavalo e, quando olhava o desenho, o que lá estava era um cardo, ou um pássaro ou uma paisagem do alto Douro...

Era assim o seu crayon, cheio de magia, de imaginação, voluntarioso... os dedos, a mão, apenas lhe serviam de suporte para a sua inspiração, os seus devaneios, as suas loucuras...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A BRANCA

De repente deu-lhe uma branca!

Todos os dias escrevia aquele nome, várias vezes ao dia!

Mas, naquele momento, quando o ia para escrever deu-lhe a branca. Estava a ver como era, a cor, o formato, a consistência, mas o raça do nome não lhe saía.

Pensou um bocado, levantou-se e foi dar uma volta, tornou a sentar-se, levantou-se de novo, foi beber um copo com água, tornou a sentar-se, mas nada! Não lhe vinha o nome.

Tentou associá-lo a outras coisas, poderia ser que lhe viesse à ideia, mas nada! Foi ao dicionário tentar, ao folheá-lo, que lhe aparecesse a ideia, que voltasse o nome. "Rien de rien..."

Já estava a ficar incomodado, a sentir-se frustrado, a irritar-se consigo próprio, com a sua cabeça.

Dizem que, à medida que se vai envelhecendo, a memória de factos recentes vai desaparecendo à frente da dos factos mais antigos, que se guarda muito bem a memória da infância e que se esquecem as coisas de agora, mas não era a questão: tratava-se de um nome velho, antigo, de um nome do seu dia a dia, só que, com esta branca, pura e simplesmente esqueceu e, de momento, já não é capaz de associar a nada e já nem sabe a que é que se está a referir, nem em que contexto.

Será que está a ficar com o maldito Alzheimer, ou terá sido daquele vinho maravilhoso que bebeu ao jantar que lhe fez esquecer o tal nome que não era para esquecer?

Deve ter sido isso, não lhe deu branca nenhuma... deu-lhe, antes, uma tinta, uma tinta bem escura, da cor daquele vinho tinto que bebeu à vontade e sem qualquer restrição na comemoração de mais um aniversário da sua vida.

Ainda bem que não lhe deu a branca!


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

NOITE HORRÍVEL

Está uma noite de pavor!

O tempo anda num reboliço, o vento sopra aos bochechos, bufa torvelinhos, cospe bátegas de água, abana as casas, estala as janelas.

Sinto que a noite vai ser de acordares constantes, de agitações permanentes, de inquietação.

Será que as bruxas do Halloween chegaram mais cedo para a comemoração que não tarda? Ou será que, também, querem vir à reunião do FMI para ajudar a embruxar, ainda mais, este pobre país?






terça-feira, 25 de outubro de 2011

DELETE

É aquela tecla no lado direito em cima do teclado do computador.

Tem a função de apagar o que se fez, o que se escreveu, o que se gravou na memória...

Selecciona-se o que se quer apagar, carrega-se na tecla e já está! Num instante, num ápice, numa fracção de segundo apaga-se, "deleta-se", o que não se quer mais.

E, uma vez apagado, apagou! Deixa de ter reminiscências, de haver saudosismo, de haver aquele voltar atrás...

Claro que há sempre uma solução de reaver o apagado: é só ir ao cestinho que costuma estar no lado inferior esquerdo do écran do computador, e que  se chama "Reciclagem", e voltar a pôr tudo como estava. É bom para aqueles casos em que se apaga uma coisa que não era para apagar e, assim, se pode recuperar o documento eliminado.

Às vezes apetecia ter uma tecla dessas na nossa vida. Apagavam-se os momentos maus, as chatices, as pessoas que nos incomodam, os dias feios, a solidão, a miséria...

Mas nunca seria igual à tecla do computador. É que este, o computador, não tem sentimentos, não tem saudades, não tem arrependimentos, são só informações, binários de 0 e 1 arrumados, e nada mais. O computador não grita de raiva, não chora de saudades, não ri de alegria, não sorri com ironia e nem, sequer, opina.

Se eu tivesse uma tecla de "Delete", tinha que ter, ali ao lado, o ícone da "Reciclagem" porque não ia querer tornar definitiva a minha vida, não queria dizer "nunca mais" e, um dia, ao arrepender-me, ao reconhecer que não estava certo, ou que aquela não era a melhor solução, ao arrepiar caminho, já nada poder fazer. 

Ainda bem que não sou só 0 e 1, que não sou uma sequência binária do tipo 0001011101100101101010010001101, mas antes uma sequência genética, feita de uma parte que herdei e de outra que se foi e vai moldando com o correr da vida.

Os "vira-casacas", esses, é que nunca irão precisar de uma tecla "Delete", nem da "Reciclagem". Para eles basta-lhes uma outra tecla que se chama "Reverse".


segunda-feira, 24 de outubro de 2011

APETITES DE CHUVA

Há momentos em que apetece que chova.

Que venha aquela água toda lavar a sujeira das ruas, o pó dos carros estacionados juntos ao passeio, levar as folhas das árvores amarelecidas pelo outono adiantado...

Mas nem sempre precisa que venha forte, também sabe bem senti-la a cair fria na cara, vê-la escorregar como fios de cristal na janela grande do escritório, a assinar a terra seca com os seus pingos grossos e molhados...

Gosto da chuva que dá vida, daquela água que vem do céu, que começa ou acaba um ciclo, que pinga das nuvens e corre para os rios e para o mar, que molha a terra, enche os nascentes, jorra nas fontes, corre em carreirinhos pelos regos da horta...

A chuva devia ser sempre assim: molhada, benéfica, fria e em quantidades necessárias. Bastava assim!



domingo, 23 de outubro de 2011

FINALMENTE

Finalmente a chuva chegou!

Veio trazida pelo vento, veio agitada por rajadas fortes, veio acompanhada de trovões, veio trazer o outono que tardava!

E já tardava, mesmo!

O ar andava pesado, empoeirado, doentio de tanto calor seco.

Dá gosto voltar a ver as ruas da cidades lavadas pela água da chuva e as pessoas passeando de chapéu de chuva e, muitas ainda, com as roupas do verão que se deixou ficar.

Promete ficar por uns dias e ainda bem! Estava a fazer falta!

Bem-vinda!

sábado, 22 de outubro de 2011

PRISIONEIRA

Era assim que se sentia. Não que estivesse presa, agrilhoada, de algemas ou simplesmente amarrada, de mãos atadas.

Não era esse o tipo de prisão, mas a verdade é que se sentia observada, vigiada, sem liberdades de movimentos, ou de conversas. 

Ela, mulher de liberdade, mulher de lutas, mulher de confrontos... ali estava, aparentemente submissa, quieta, calada, de coração apertado, alma inquieta, como conformada. 

Mas a determinação, essa, não a deixava sucumbir. A força interior que, por vezes parecia ficar abalada, obrigava-a lutar contra aquela realidade que não queria.

Por agora sentia-se prisioneira mas, sempre, a pensar no amanhã da libertação.


sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CLANDESTINO

No começar da manhã, ainda as horas estavam a acordar, ela veio, chegou-se junto a ele, abraçou-o e deixou-lhe, na sombra de um recanto e escondido de olhares, um beijo doce e terno, um beijo curto, um beijo cheio, um beijo rápido, um beijo de amor, um beijo feito fuga,  um beijo de entrega, um beijo clandestino...



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ANIVERSÁRIO

Cada ano é mais um, a somar, a juntar aos que estão para trás, a festejar com a família com os amigos, a brindar a mais uns tantos, a olhar para metas distantes, a pedir saúde, a desejar sucesso, a esperar trabalho, a confiar no amanhã.

De uma assentada, neste dia 20, festejaram-se três aniversários, de três pessoas diferentes: o filho Manuel André, a amiga e colega Conceição e a amiga e colaboradora Manuela.

Três pessoas que me dizem muito pelos afectos, pela amizade, pela profissão...

Com votos de muita vida com saúde vou cantarolando os "Parabéns a você"...

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O APERTO

Entrou com ar preocupado no gabinete. Com um olhar meio cerrado por rugas carregadas, com uma mímica a apontar para o chão, com uma voz a sumir-se dentro de si própria, com as mãos inquietas a percorrerem o colo, como a localizarem o mal, a indicarem o motivo...

Ultimamente andava assim: triste, ansiosa, preocupada, cheia de angústias, com sensação de dor indefinida no peito, uma dor ou um peso que lhe apetecia arrancar com as mãos, tirar do peito.

Tinha quase a certeza que se arrancasse aquela angústia, se removesse aquela impressão, se desatasse aquele aperto iria ficar melhor, mais aliviada...

Mas sabia que não ia ser fácil, porque sabia que a causa era, dizia, da vida que tinha, das dificuldades do dia a dia, das preocupações do amanhã, da crise que se adivinhava, do aperto forte  que está para vir.

Desta vez enganou-se, a dor era séria, o aperto verdadeiro, a angústia real: entrou de urgência nos cuidados intensivos, fez o cateterismo, colocaram-lhe um "by-pass" e dois "stents" e safou-se do enfarte extenso do miocárdio que quase a ia matando.

Tinha entrado, à hora certa, no gabinete...


terça-feira, 18 de outubro de 2011

DEZ ANOS

Não se encontravam fazia uns dez anos.

Tinham tido uma boa relação profissional, de dia a dia, feita nas enfermarias do hospital, feita de noites de trabalho no serviço de urgência,  e foram criando, ao longo dos anos de trabalho, uma amizade sã. 

Desde que se separaram por motivos profissionais mantiveram, de forma muito irregular, contacto telefónico, fosse por causa de um doente, fosse por motivo de um aniversário, fosse só por quererem saber um do outro...  Nunca mais se tinham visto!

Passaram-se uns dez anos e, agora, voltaram a encontrar-se, num café, à volta de uma bica, de novo por motivos profissionais!

Dez anos como se quase nada se tivesse passado, como se fosse o quotidiano encontro matinal para tomar a bica no bar do hospital, como se fosse um dia igual a um outro qualquer de há uns bons anos atrás, como se esses 10 anos se tivessem evaporado, como se, ao se olharem, tivessem esquecido ou ignorado as rugas do tempo no rosto, as gorduras da barriga e das ancas e os cabelos brancos que, entretanto, foram aparecendo.

Voltaram a encontrar-se porque vão voltar a trabalhar juntos de novo. Foi como se a vida profissional se tivesse encurtado dez anos, e os velhos hábitos de rotina retomassem o seu ritmo habitual...



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O EXTRATO

Chegou-lhe, sem o "c" que antigamente continha.

Era a única diferença, a ortográfica.

De resto, tudo vinha igual. O dia e a hora do que tinha comprado, por onde tinha passado com a via verde, os pagamentos feitos por débito direto (também sem o "c"), as vezes que tinha levantado dinheiro no multibanco...

Não faltava nada. A conta, claro, estava certa até ao cêntimo. O deve e o haver corretos (de novo sem o "c") e o saldo, esse, como sempre, negativo.

Não tinha maneira de lhe dar a volta. Por mais que imaginasse em modos de poupar, por mais que desejasse ganhar o totoloto, por mais que menos comprasse, lá estavam as despesas do costume, as da água, as do gás, as da eletricidade (mais uma vez sem "c"), as do supermercado, as da renda da casa...

Ainda bem que os extratos não descriminavam tudo... É que se lá estivessem transcritos os desejos, os sonhos, os apetites de compra, então o extrato afundava-se de tal maneira que entrava em falência técnica (por enquanto ainda com o "c").



domingo, 16 de outubro de 2011

LENÇOS DE PAPEL

Gastou um pacote naquele pedaço de tempo.

Entre o choro e o nariz a escorrer quase não havia intervalo.

Um choro a parecer chuva grossa, com os olhos bem vermelhos, e um escorrer de nariz, como cascata, numa misturada de espirros e fungadelas, e os lenços eram uns atrás dos outros...

Tinha dias...

Ora se sentia bem disposta e a sorrir para a vida, como se nada fosse, ora acordava assim, chorosa, espirrenta e a correr do nariz.

De cada vez que isto acontecia, tomava o comprimido, aplicava o inalador do nariz e, ao fim de um dia ou dois, tudo melhorava...

O pior era quando se esquecia de comprar os medicamentos, ou quando tinha pressa e saía a correr de casa sem ter tempo para nada e, depois, era a cena do costume.

Mas também tinha dias em que o choro e as fungadelas não desapareciam com os remédios, dias em que vinham de dentro da alma, quando o coração doía, quando a dor da vida sufocava...

Nessas alturas nada lhe parava os choros, nada acabava com as fungadelas restavam-lhe, apenas, os lenços de papel...


sábado, 15 de outubro de 2011

ARMAGNAC

Levantou-se tarde, tinha dormido mal, aquela comida toda ao jantar, as bebidas, o mau-estar, a azia...

Quem lhe tinha mandado ser glutão?

O jantar soubera-lhe bem, as favas, o entrecosto, aquele tinto de 2003, depois os doces e, para terminar, o Armagnac... delicioso, o pior fora a quantidade.

Felizmente que fora para casa a pé, não tinha que conduzir, não havia o problema de soprar no balão...

Mas valeu a pena... celebrações daquelas...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

DE VOLTA

Saiu a meio da tarde.

O carro foi-se afastando lentamente deixando, atrás de si, uma faixa negra de luto, como se a fosse desenrolando à medida que se ia deslocando.



Partiu com destino, mas sem data de regresso...

Foi numa viagem de ida.

E agora, quando será a de volta?


quinta-feira, 13 de outubro de 2011

INCERTEZA

Como será o amanhã?

Igual ao hoje que definha e indefina?

Ou um amanhã de certeza, de afirmação, pleno de confiança?

Acho que temos de ser, sempre,  optimistas... 

... e, de certeza, que...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

LUXOS

Tive de ir ao Algarve, a Portimão mais precisamente, no âmbito de uma acção de formação a médicos de Clínica Geral e de Medicina Familiar. 

Foi marcado o encontro para o final do dia, o que deu tempo para trabalhar em Lisboa até perto das 17 horas, hora a que saí de Lisboa rumo ao Algarve. Após o trabalho realizado, e de uma rápida refeição, o regresso na mesma noite porque, no dia seguinte, o dia de trabalho começa cedo.

O percurso foi feito pela auto-estrada e pela via do Infante. Foi um ir e voltar, quase num ápice, numa estrada que parecia ter sido feita só para mim. Poucos foram os carros com que me cruzei, ou que me passaram. Não porque eu fosse depressa mas porque, pura e simplesmente, não andavam carros por aquela estrada. 



Qualquer coisa como 700 Km de quatro faixas de tapete de asfalto à minha, quase exclusiva, disposição.

Privilégios de ricos, ou de pobretanas armados em ricos?

Luxos destes quem os tem?


terça-feira, 11 de outubro de 2011

PERDIDO

Saiu da auto-estrada e quase entrou num deserto. Uma estrada escura e estreita, sem sinalização, sem placas indicadoras, sem ninguém a quem perguntar por onde deveria ir.

Deu voltas, mais voltas, deve ter passado umas duas vezes pelo mesmo sítio, entrou por caminhos sem saída, teve de fazer marcha atrás outras tantas vezes, foi atrás de luzes amarelas a imaginar que ali era o local, mas nada!

Quase desesperado, a querer desistir, mas a não saber por onde ir, por onde voltar. O pinhal cerrado, as casas de luzes apagadas, as ruas vazias, um lampião de estrada quase de cem em cem metros, mais parecendo a luz mortiça de uma vela, até que lhe surgiu diante dos olhos uma placa, escura como a noite, de letras quase apagadas, com uma seta a indicar alguma coisa.

E lá foi, quase por instinto, na direcção e sentido indicados pela seta,  naquela estrada escura e estreita, com a esperança debilitada, até chegar a um local que lhe parecia o do destino.

Quase lhe apeteceu gritar: Bingo! O destino, o instinto, o acaso, um deles ou todos juntos levaram-no ao local certo. 

O ambiente tranquilo e convidativo da sala pacificaram-lhe os temores de há pouco.


Enquanto esperava que o viessem chamar resolveu sentar-se num daqueles sofás apetecíveis de sentar e relaxar um pouco e, esgotado, deixou-se adormecer.


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

CHARUTO

Abriu a gaveta e, ao dar com ele, sorriu satisfeito.

Ali estava, dentro de um cilindro metálico, de alumínio, bem fechado por uma tampa de rosca, estanque, para que mantivesse, ao longo do tempo, a humidade necessária para ser bem apreciado.


Pegou naquele tubo comprido, rolou-o entre os dedos, fez o gesto de quem pega num charuto e colocou-o na boca, entre os lábios, como se estivesse fumando.

E ficou-se, assim, naquele rolar entre os dedos, naquele imitar de gestos tantas vezes feitos, naquele imaginar de fumar, naquela hesitação de abrir a tampa, de tirar de dentro o "puro", de sentir o aroma único, de o cheirar da "cabeça ao rabo"...

Mas não,  não queria fumar, não queria voltar ao vício que, faz tempo, abandonou, não queria tornar-se dependente de novo.

Mas, desta vez... porque não só desta vez? 

E imaginava o fumo a soltar-se em espirais, a sair da boca em anéis que se iam alargando à medida que se afastavam de si, quase  sentia os sabores e os aromas únicos daquele fumo... a pouco e pouco a tampa foi sendo desenroscada, entre cada meia volta uma paragem, uma hesitação breve, e mais meia volta até que a tampa se soltou. Um inclinar do cilindro para baixo e ei-lo a escorregar suavemente na sua mão esquerda, a ser acariciado pelos seus dedos, a ser tocado com delicadeza, como quem pega numa criança acabada de nascer... quase com medo de lhe tocar, com receio de amachucar aquela pele delicada, quase um temor...

Iria ter coragem de o acender? Iria transformar em fumo aquele rolo de folhas secas, cheirosas, que estremeciam e crepitavam ligeiramente quando o rolava entre os seus dedos?

Depois de mais uma passagem por baixo das narinas, depois de ser lentamente cheirado, depois de muitos fechares de olhos  saudosos, de muitos rolares entre os dedos, voltou a colocá-lo no tubo metálico, apertou-lhe a tampa com energia e convicção e voltou a pô-lo na gaveta onde o encontrara...

Fechou a gaveta com um sorriso de satisfação.


domingo, 9 de outubro de 2011

O VELHO

Ali estava, como habitualmente, sentado no mesmo banco, não longe da porta do supermercado. 

Desta vez tinha, de diferente, a seu lado, um saco, dos recicláveis, do tipo dos que agora se oferecem na compra dos semanários, com fotografias do meio ambiente ou dos que se vendem nos supermercados, a imitar um cesto de compras
 
De resto, os mesmos sapatos já muito usados, as calças de padrão escocês a lembrar um jogador de golfe em decadência, o casaco velho, gasto, de lapelas bem ensebadas, o chapéu mole, de cor indefinida pela sujidade... tudo igual excepto o tal saco novo, bem aberto, ali, a seu lado, no banco, meio cheio de compras.

Como habitualmente, deu-lhe o cumprimento do "como vai isso?", deixou-lhe a moeda na mão e fez um comentário por causa do saco, novo, parecia a estrear, bem aberto, e já quase cheio...

Ele respondeu-lhe, na sua voz arrastada e rouca, que ali, hoje, era a sua campanha do banco alimentar; a quem falasse com ele e que fosse ao supermercado, pedia alguma coisa do que lhe fizesse falta para ele e para a mulher, doente, que não podia sair de casa.

Quando voltou a passar diante dele, para lhe deixar o seu contributo, reparou que  o saco já estava quase cheio.

"E agora como vai levar isso assim tão carregado?", perguntou preocupado.

"O mundo é feito de pessoas boas", respondeu ele.

Todos o têm ajudado, tal como ele sempre o fez com os outros.

É que tem um vizinho, motorista de táxi, antigo colega do filho falecido, que o leva para casa, daqui a nada, mal acabe o turno.

"Olhe, lá vem ele! Não se importa de me ajudar a carregar o saco até ao táxi?"


sábado, 8 de outubro de 2011

PIRIPIRI

A sala era enorme, com as duas televisões, uma de cada lado, a debitarem um desses programas cor de rosa, num som alto, quase estridente.

As mesas, cobertas de toalha de papel e encostadas umas às outras, quase davam, àquela sala, um aspecto de cantina social, pronta a receber os operários de uma fábrica qualquer que existisse ali por perto.

Entraram na sala vazia e tiveram dificuldade em escolher mesa tal a quantidade de oferta. Olharam à procura de um local sossegado, o mais longe possível das imagens cor de rosa e, sobretudo, daquele som alto e castrador de conversas.

Ainda antes de se sentarem, naquela hesitação de escolha, o empregado de mesa tratou logo de anunciar que o prato do dia era arroz de tamboril.

Fazia tempo que não o comiam e, por isso, se decidiram pela sugestão.

Pediram uma sangria branca, com muito gelo, pois o calor daquele dia quase sufocava. E pediram, também, já que mais ninguém estava na sala, que baixasse o som daquelas televisões enormes.


Quase não deu tempo para iniciar uma boa conversa. Chegou, num tacho enorme, a cheirar bem, cheio de peixe, de ameijoas e gambas; o arroz mal se notava naquela confusão de cores, naquele mar vermelho apetitoso. Nunca iriam comer aquilo tudo... Acharam que deveriam ter pedido só uma dose! De certeza que chegava e ainda iria sobrar.

A cor vermelha do tomate imaginava sabores fortes. Estava saboroso, a saber a peixe fresco, o arroz na boa textura mas faltava, ali, o toque picante do piripiri.

Olhe que este é muito forte, disse o empregado. Não ponha mais do que três gotinhas!



E, à medida que iam comendo, à medida que o aroma se ia libertando e o sabor acentuando, o piripiri ia-se adicionado às três gotas de cada vez, conforme a recomendação, mas muitas vezes. 

Rapou-se o fundo ao tacho, quase a pedir mais. Mas não! Bastou! 




A sobremesa doce, de uma  bem amarela encharcada, não foi suficiente para afastar os sabores fortes daquele arroz e a bica, no final, apenas espevitou a dormência que se estava a querer instalar.





sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O VENTO

O vento voltou!


Andava a portar-se tão bem, tão tranquilo, quase esquecido; provavelmente deve ter ido fazer férias para aqueles países onde há sempre muito vento e muitos tufões e ciclones. Aproveitou as férias para se renovar de energias, treinar novas técnicas de assopro, melhorar a sua capacidade ventilatória, "et voilà"...

E o certo é que voltou, cheio de energia, violento, torvelinhento, a fazer rodopiar tudo do chão, a encher a cidade de folhas, das das árvores e das de papel, principalmente de jornais velhos, já lidos e sem novidades, a assobiar em janelas mal fechadas, a bater portas desprevenidamente abertas, a agitar cortinados adormecidos.

Bem que podia ter aparecido mais brando, como uma brisa suave que ajudasse a arrefecer este outono de verão. Mas não. Veio como um toleirão, forte e possante, a querer dar nas vistas, a incomodar toda a gente. 

(origem Google Imagens)

Lá longe, no cume da serra, as pás das torres de energia eólica, a girarem em alta rotação, até pareciam ser as culpadas de todo o vento que surgiu, assim, tão de repente.


Será que foi alguém que ligou o botão no máximo da velocidade?

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

MUNICIADA

Começou a preocupar-se ao ver as notícias nos jornais atrasados que ia lendo, cada vez que ia à vila para vender os produtos da horta ou quando se proporcionava a ocasião para ir cortar o cabelo, e, também, ao espreitar as imagens assustadoras na televisão do café, daquilo que se tinha passado em Londres, e do que ia acontecendo lá na Grécia e no norte de África...

A sua casa era pequena e pobre, os seus bens escassos, mas o espaço era o seu, tinha-o pago com muito trabalho, com muitos anos de sacrifício; aquele lugar, aquela casa com a horta pegada, donde tirava o seu alimento e o seu sustento. 

Não ia deixar que aqueles encapuçados, de matracas, de paus e com pedras nas mãos, lhe partissem os vidros, rebentassem a porta ou as janelas, como viu fazerem com as montras das lojas naquelas cidades.


Quase deixou de dormir a pensar naquilo e no que lhe poderia acontecer. Passou a manter-se alerta, como o seu cão, o "Maroto", de orelha levantada e  olho bem aberto.

E, por via das dúvidas, resolveu municiar-se... Arranjou um carrinho de mão cheio de pedras, das da estrada quase abandonada que leva ao apeadeiro do comboio e que já não existe e, em cada parapeito das janelas, colocou a munição a jeito, guardou mais um monte de pedras, lá nas traseiras, e agora, eles que venham!

Arma para disparar não tinha, a forquilha seria sempre o último recurso, mas aquelas pedras, bem atiradas, ele que ainda tinha força nos braços, aliadas a uma boa pontaria, iam fazer mossa.

Até passou a dormir mais descansado, já não precisava de estar tão alerta, começou a acordar mais bem disposto e com mais coragem para ir tratar da horta e dar de comer aos coelhos e às galinhas. 

(Foto do autor - Alentejo - Novembro de 2006)
A verdade é que não era provável que aquela malandragem lá aparecesse. Aquilo era só lá fora, nas estranjas, mas quer aparecessem, quer não, já estava com a casa bem municiada.

Lembra-se bem do seu pai sempre lhe dizer, era ele um miúdo: "homem prevenido vale por três, porque por dois é só lá, nas cidades... e aqui, no campo, sempre temos a ajuda de um cão que ladra e de um burro que zurra".


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

ATÉ DÓI...

Desde Maio que nove médicos da Costa Rica estão em Portugal a ganhar 2.800 euros com direito a casa. A trabalhar (?), a ver doentes (?), pensam as almas das pessoas. Mas não... não fazem nada, não podem trabalhar porque não têm autorização legal para o fazer.

Façamos as contas: nove médicos a 2.800 euros, e já lá vão 5 meses, mais a casa à borla, faz, sem contar com o alojamento  gratuito para eles, 126.000 euros. Para fazer o quê? Como dizia a Edith Piaf: "rien de rien"...

Uma trapalhada de papéis que os impede de ter a certidão profissional. A Ordem dos Médicos não lhes pode passar a dita certidão porque falta um documento, o "certificado de reciprocidade", que deveria ser passado pela Ordem dos Médicos da Costa Rica.

Ora, se os médicos não estão legais porque é que o Ministério da Saúde (o do tempo do Sócrates) os contratou? Mais, contratou-os antes de o processo de inscrição estar terminado e assinou um contrato que não previu, sequer, a obrigatoriedade de o processo estar terminado para efectuar o pagamento. 

Claro que a ex-ministra socialista Ana Jorge tratou de sacudir a água do capote, com a mesma ligeireza com que admitiu saber das fraudes das receitas médicas "passadas" por médicos falecidos há uma data de anos, a doentes que já morreram há, também, uma data de tempo e que lesaram o Estado em muitas centenas de milhões de euros. Quem lhe pediu contas? Como é que vai ser responsabilizada?

Ao menos, o Alberto João construiu estradas e túneis...

ATÉ DÓI ver como tudo isto vai acabar no próximo 10 de Junho: uma medalha de mérito e uma comenda de um infante qualquer à ex-ministra da saúde pelos serviços prestados à nação.

E VIVA A REPÚBLICA (DAS BANANAS E DOS CHICOS ESPERTOS), porque hoje é o dia 5 de Outubro e tem que haver, por aí, uma banda, um atirar de foguetes e uns discursos empolgados para justificar a efeméride.



terça-feira, 4 de outubro de 2011

A VIDA É BELA

(foto do autor - Coruche - Agosto de 2011)


A vida é bela, mas os homens dão cabo dela!


Cada vez é mais verdade, cada dia se nota mais a mão do homem a tornar a vida feia e desagradável.


Não sei se existe algum aforismo do tipo: "Onde Deus põe a virtude, o homem põe azedume" ou, por fazer tanta asneira,  será melhor dizer "O que Deus faz em virtude, o Homem transforma em estrume"?

Se é verdade que tudo isto está mau, também é verdade que não nos podemos deixar levar só por azedumes, queixumes, maus costumes e tanto estrume. 

Temos de encontrar um modo de poder voltar a sorrir à vida, de fazer um esforço para descobrir momentos bons, de tornar a dizer que a vida é bela!

E porque não fazer rimar a virtude com perfume, em vez do queixume e do estrume?

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

A SOMBRA

O outono, este ano, está a querer ser mais do que foi o verão. Os dias quentes, quase sufocantes, pedem praia para os que ainda podem ir, e arrasam o bem estar, e o descanso adquirido nas férias acabadas de gozar, a quem tem que trabalhar, principalmente se tem que andar na rua ou se não tem ar condicionado no local de trabalho.

Já não bastava a troika para dar cabo da vida às pessoas! Já não é preciso tanto calor e, ainda menos, tanto sol!

É que também fica penoso o passeio costumeiro, depois do almoço, na avenida arranjada de novo, aquele passeio avenida acima avenida abaixo para ajudar a digestão.

Como é Outubro, e é costume o tempo estar mais temperado nesta altura do ano, senão mesmo chuvoso, programaram o fim de semana para podar as árvores que asseguram uma sombra tranquila ao passear das pessoas. Não atenderam ao tempo quente, a este verão inusitado, e toca de podar e arrancar as folhas daquelas árvores frondosas.



Agora, quais esqueletos em deserto quente, ali estão, inúteis a tirar a sombra a quem a procura. 


domingo, 2 de outubro de 2011

DAMA DE COMPANHIA

A velha senhora começava a manifestar sinais de fraqueza. Agora com um caminhar mais incerto, apesar de apoiado na imprescindível bengala, com mais dificuldade no subir o lanço de escadas que separam o quarto da sala e no querer ficar em casa e não sair à rua...

Mas a cabeça estava boa, sabia de tudo, lembrava-se das coisas passadas e das presentes, sabia dos dinheiros, das contas a pagar, das propriedades, lembrava-se de cor das receitas dos bolos...

Só o corpo é que começava a enfraquecer, a encurvar-se, a debilitar-se: às vezes era a perna que inchava, outras a visão que ficava turva, quando se faziam as análises lá vinha a anemia...

Que não lhe falassem em arranjar uma dama de companhia! Queria, enquanto pudesse, tratar da sua vida à sua maneira, a seu modo. Gostava muito da sua independência, de fazer o que lhe apetecesse sem a sombra de uma desconhecida a rondar-lhe a vida, a meter-se nas suas intimidades.

Mas perdia-se por uma boa conversa, por contar histórias, por recordar episódios de família, por saber desta ou daquele... Esquecia as horas, quase perdia a noção do tempo! Ainda por cima tinha bom ouvido, sabia escutar bem uma conversa e adorava uma boa companhia!

Mas que não lhe falassem em damas de companhia, daquelas chatas, ignorantes, quezilentas, pagas ao mês... 

Isso nunca! 

sábado, 1 de outubro de 2011

A LOJA DAS ANTIGUIDADES

Andava à procura de uma peça especial que lhe completasse o canto da sala. Não sabia muito bem o quê!

Poderia ser um móvel, uma peça decorativa, um candeeiro...

Fora à Feira da Ladra, dera uma volta pelas lojas de "bric à brac" de Santa Apolónia e Santos, pelos antiquários do Chiado e de São Bento, passou por duas lojas de adelos na rua de São José... e nada!

Vira muita coisa, muitas peças de decoração, umas bonitas e em bom estado, mas de preço exorbitante, outras sem graça, em mau estado, também a um preço que não era propriamente dado.

Mas não encontrou nada que lhe desse agrado ou causasse surpresa.

Como não tinha pressa na compra seria tudo uma questão de paciência e de oportunidade.

E foi, de forma inesperada, que deu de caras com o biombo. No canto de um jardim, transformado em depósito de trastes, à espera que a carrinha da Câmara os levasse para o aterro municipal.

Um biombo antigo em madeira lacada, de quatro folhas, com desenhos de pássaros pintados com cores suaves, apenas com duas dobradiças de latão avariadas e que facilmente seriam substituídas.

Uma boa limpeza e um arranjo simples recuperaram a peça que agora ocupa um espaço cheio de vida e movimento, e que foi, pela riqueza dos materiais, pelo pormenor dos desenhos e pela subtileza da pintura, dizem os que a apreciam, quase de certeza, adquirida numa boa loja de antiguidades e a um custo elevado.