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segunda-feira, 30 de abril de 2012

DIA INTERNACIONAL DO JAZZ

A UNESCO assinala, pela primeira vez, a data dedicada ao estilo musical que "pode derrubar barreiras e simbolizar a paz e a unidade".

 
Fica aqui a magistral interpretação de Sidney Bechet, da Petite Fleur.






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DESCONSTRUÇÃO

"...
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado

(do autor - Castelo de Mourão)
...
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
...
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
..."
Chico Buarque - Construção - 1971


As paredes sólidas, como por um passe de magia, mas, certamente, por força das conjunturas, dos créditos malparados, de muitas parcerias, de muito cimento, de muita estrada e pouco tráfego, de muito paraíso fiscal, de muita corrupção, de muito enriquecimento ilícito, de muito de tudo, transformaram-se em paredes flácidas, abandonadas, a mostrar como se vai desconstruindo, tijolo a tijolo, parede a parede, um país historicamente sólido.

O pássaro voou... 

Mas sempre ficam as ruínas...

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domingo, 29 de abril de 2012

O SORRISO

Hoje é mais um Dia Mundial: este dedicado ao sorriso!

Já tanta coisa foi dita sobre o sorriso, sobre os seus diversos tipos, formas e feitios...

Melhor que um sorriso, uma boa risada, uma boa gargalhada, franca, aberta e leal; é que o sorriso pode esconder muita coisa e o riso, esse, não...

Não sei bem porquê, ou porque sei bem demais, o sorriso que hoje consigo sorrir é, apenas, um sorriso bem amarelo!




NEVOEIRO

O dia hoje acordou cerrado, de um cinza esbranquiçado, quase opaco, a barrar as vistas, a ocultar os olhares, a esconder o horizonte, a deixar que, cada um e cada coisa, perdesse a sua sombra... quase a sua identidade.

Esta manhã, ao abrir as portadas da janela, foi como se deparasse com um vidro fosco em que só a claridade cinza, quase esbranquiçada, dominava e separava do mundo; apenas os ramos das árvores mais próximas deixavam a sua impressão em riscos ténues, como que levemente desenhados; os sons do campo pareciam filtrados por algodão e os badalos, das ovelhas ao lado, ficavam distantes, como se estivessem na outra encosta, lá longe!

Hoje, por ser domingo, soube bem o acordar nesta envolvência de paz, nesta ausência de cor, nesta luminosidade alvacenta, como se o acordar tivesse acontecido na virtualidade das nuvens, como se fosse o acordar dum sonho...

 

sábado, 28 de abril de 2012

CHUVA

Gosto de ver a chuva a bater nos vidros da minha janela.

Bate com força no vidro deixando, depois, escorrer lágrimas  gordas que vão descendo, lentas, como que arrependidas...



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sexta-feira, 27 de abril de 2012

PROMESSAS

A primavera está aí, em plena pujança!

Os campos estão bonitos, as árvores cheias de força e os frutos, depois de uma floração atrasada, estão a nascer, a crescer com alegria, a prometerem abundância.

A cerejeira, essa, está carregadinha de promessas, por enquanto verdes, tal e qual como as da pereira, mesmo ao lado.

(do autor - cerejeira)
Era tão bom que as promessas se tornassem realidade!

E, já que as deste governo parecem ser difíceis ou quase impossíveis de cumprir, ao menos que a Natureza cumpra as suas e transforme estes frutos verdes, duros e amargos que agora são, em fruta boa, bonita à vista, doce e aromática ao paladar.

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quinta-feira, 26 de abril de 2012

AS CEGONHAS

Há muitas que já vão ficando por cá, tornaram-se residentes e deixaram de ser aves migratórias. As que partiram, e foram passar fora o inverno, também já voltaram há algum tempo e regressaram aos seus ninhos tornando, de novo, à sua casa...

Estas têm voltado, todos os anos, ao mesmo ninho, ao lugar onde nasceram, em cima da velha chaminé de um monte abandonado...  Um monte com a casa a ficar em ruínas, com o terreno à volta que, há muito,  deixou de ser tratado, a mostrar que as vidas, que por ali passaram, já partiram faz tempo.

(do autor - no distrito de Portalegre)

Vidas que se foram e não voltaram... que perderam a fidelidade ao lugar onde nasceram e viveram, partindo para outras latitudes, abandonado as raízes, o comprometimento à terra, esquecendo as origens, perdendo a identidade...

Um país a desfazer-se aos bocados...


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quarta-feira, 25 de abril de 2012

CRAVOS

Esta primavera, apesar de muito anómala em questões climáticas, tem tido a virtude de encher os campos, os jardins, os canteiros, os vasos e, até, as bermas das estradas de flores.

Apesar da crise, apesar do mau tempo, da chuva que anda por aí, da seca que por aqui passou, do sol meio escondido que nos vai visitando, do frio da noite, do calor envergonhado que nos começa a aquecer, a verdade é que as flores chegaram e conseguem, malgré tout, dar cor e vida a esta primavera meia invulgar.

(do autor - Cambará - Lanata camara)
No tropeço de uma encosta junto ao mar encontrei estas florinhas, apresentadas em forma de bouquet, com tons que vão passando do branco ao vermelho.

Andei à procura do nome destas flores pequeninas e acho que encontrei: o nome científico da planta é Lantana camara e o nome comum é Cambará, embora tenha muitos outros nomes, conforme o local.

É um arbusto, florífero e lenhoso, de grande efeito ornamental. As inflorescências são compostas por numerosas flores, formando  mini-bouquets de diferentes cores, como amarelo, laranja, rosa, vermelho e branco, podendo encontrar-se, no mesmo raminho, flores com diferentes colorações. Podem-se fazer maciços ou bordaduras com estas plantas que se mantêm, com flor, durante muito tempo.

E não são só bonitas, também são úteis, as folhas, neste caso: são balsâmicas, expectorantes, estimulantes e diuréticas, pelo que são indicadas, no âmbito de uma terapêutica natural, nas infecções e alergias respiratórias, no reumatismo, na febre e nas otites.


E eu que vinha para falar de cravos, da revolução de Abril, da democracia, dos partidos, das liberdades, da corrupção, das folhas dos loureiros, das varas de porcos, dos penedos de granito, das limas do feteira, das prescrições dos isaltinos, de tanta coisa... e, também, da crise a que chegámos pela mão de um aspirante a filósofo, agora parisiense, porque nome de filósofo, isso, ele já tem...

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terça-feira, 24 de abril de 2012

AS CORES

Gosto do Abril porque enche os campos de flores, esborrata a paisagem de coloridos intensos trazendo pinceladas de Van Gogh à tela da natureza.

Esta mescla de brancos e amarelos, de azuis e de lilázes, com o verde da campina, convida ao silêncio e à meditação...

(do autor - Alentejo)

GLÓRIA

Depois do inverno, morte figurada,
A primavera, uma assunção de flores.
A vida
Renascida
E celebrada
Num festival de pétalas e de cores.

Miguel Torga.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DO LIVRO

Mais um dia que se comemora!

Este, acho, vale sempre a pena!

O livro é um companheiro e é uma boa companhia, é um educador, é um ocupador de tempos livres...

O livro distrai-nos, ensina-nos, emociona-nos...

O dia 23 de Abril foi o escolhido porque, neste dia, se comemora o falecimento de dois grandes vultos da literatura: William Shakespeare, em 1616, e Miguel de Cervantes, que morreu no dia anterior.

(Google images)

Começam agora a aparecer os "e-readers", uma espécie de "tablets", adaptados para a leitura de livros. Têm um bom tamanho, são leves, são a preto e branco, como as páginas de um livro, as folhas vão passando ao correr do dedo e usa-se um marcador quando tem de se interromper a leitura. Tem a vantagem de poder armazenar milhares de títulos sem ocupar mais espaço e peso do que o do próprio instrumento de leitura. Grande vantagem para quem viaja muito, para quem tem peso limitado nos voos de "low-cost". Irá substituir o  livro? Não acredito... apenas o completa por esta vantagem do peso e do armazenamento de informação...

Nada melhor que o cheiro e a textura do papel no sossego de um sofá, junto à lareira, numa tarde fria de chuva e vento...

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RECANTO

O dia acordou cedo, como é costume nesta altura do ano. E mais agora,  passado o equinócio e com o aproximar do solstício de Junho, os dias vão sendo mais longos e os acordares, necessariamente, mais prematuros.

Ainda por cima, o dia, ao contrário dos anteriores, banhou-se de sol, ganhou outra luminosidade e encheu-se de cor.
  
E foi ao percorrer a pé os caminhos da serra, num pedaço de campo cheio de verdes frescos e brilhantes, ainda humedecidos da chuva dos dias anteriores, num recanto de uma encosta acabada de florir, a pintalgar-se de margaridas amarelas e de papoilas rubras, que se encontrou no meio da paz e do silêncio que andava à procura. Um silêncio feito de ausências de toques, de campainhas, de telefones, de businadelas, de ruídos do trânsito, de pessoas... sim, principalmente de pessoas!


(do autor - Alentejo - Serra de São Mamede)
Ali, na quietude do lugar, no êxtase da cor, na envolvência da brisa da manhã, deixou os sonhos à solta,  na paz e no silêncio que só aquela serra lhe sabe dar...

Só que aqui, neste recanto, o silêncio era...

"... maior. Era como uma flor que tivesse desabrochado inteiramente e alisasse todas as suas pétalas".

Sophia de Mello Breyner Andresen - O silêncio (contos).

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domingo, 22 de abril de 2012

AS CAMÉLIAS

"Era uma vez um jardim maravilhoso, cheio de grandes tílias, bétulas, carvalhos, magnólias e plátanos.

Havia nele roseirais, jardins de buxo e pomares. E ruas muito compridas, entre muros de camélias talhadas.

E havia nele uma estufa cheia de avencas... "

Sophia de Mello Breyner Andresen - O Rapaz de Bronze  (conto).


(do autor - São Bento)


"E foi no tempo das últimas camélias (vermelhas, pesadas e largas) que nasceu o seu primeiro filho."

Sophia de Mello Breyner Andresen - Saga (conto).


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sábado, 21 de abril de 2012

CONCHA

A minha casa é concha...

(do autor - Ilha da Culatra)


A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio - A Concha.

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sexta-feira, 20 de abril de 2012

APANHADO

Chegou pelo ar em voo rasante ao espelho de água daquela maré vazante. Pousou tranquilamente para não afastar o peixe, bem vermelho, que, desde lá de cima, tinha posto em mira activa.

Durante algum tempo deixou-se ficar quieta, quase imóvel, não fora a leve corrente a afastá-la da margem e, assim que tudo ficou aparentemente tranquilo, começou a girar em círculos amplos e lentos, persistindo na perseguição daquela mancha vermelha que, da amurada do cais, também se via no meio daquela água turva e com algumas algas. 


(do autor - foz do rio Minho)


De vez em quando mergulhava bem fundo a cabeça naquela água que ia escorrendo para o mar, levantava a cauda que ficava quase num pino, e voltava à posição inicial agitando o corpo em sacudidelas de água que salpicava em todas as direcções.

Até que, finalmente, depois de mais um mergulhar da cabeça, de mais um levantar de cauda, de mais um quase pino, traz no bico, bem pinçado, o peixe vermelho que tanto perseguiu, a agitar-se de corpo, a abanar-se de cauda, num desespero quase terminal.

Tudo se passou num instante! Assim que o peixe ficou aparentemente imóvel levantou a cabeça até o bico ficar a apontar o céu, numa vertical aprumada, e, numa fracção de nada, escancara bem a boca para deglutir, de uma só vez, o peixe que lhe iria servir de pequeno-almoço.

Mas, no momento do instante, como que adivinhando o destino fatal, num instinto de sobrevivência, aquele corpo vermelho contorce-se uma vez mais e, de um salto, mergulha rápido nas águas agora agitadas pelo passar de um traineira. 

Não ficou ali muito tempo, com um bater de asas possante levantou voo e foi, certamente, à procura de outros peixes, vermelhos ou não, para outras águas...


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quinta-feira, 19 de abril de 2012

ANDORINHAS

Já chegaram e já andam no arranjo dos ninhos que deixaram do ano anterior. Dizem que a andorinha volta sempre ao mesmo ninho. As do meu lugar, não sei, não sei se são as mesmas do ano passado e se são as que nasceram por aqui. O que sei é que elas voltam, sempre, para anunciar a primavera, ficando-se a gozar o verão e a partirem no outono para fugirem ao inverno mais rigoroso daqui.

Agora os ninhos, esses, vão ficando de uma época para outra. Desde que não haja nada que dê cabo deles, vão ficando, com mais ou menos estragos causados pelas chuvas, pelos ventos e pelo frio do inverno. E, agora, com esta chuva abençoada que lhes fornece a lama fresca, elas andam mais apressadas na reparação e no completar da sua casa que também serve de maternidade e de jardim de infância.

Dá gosto vê-las no currupio do vai e vem, de as ver voar bem alto à procura do alimento, do piar satisfeito quando regressam a casa...

Gosto do preto e branco das suas penas, como se fossem um "cliché" fotográfico do preto e branco de antigamente a sobrepor-se ao colorido da primavera.

 

(do autor)

Deixo alguns provérbios "andorinheiros":

Por morrer uma andorinha não acaba a Primavera.

Uma andorinha não faz a Primavera.

Uma andorinha só não faz Verão.

Nem um dedo faz a mão nem uma andorinha faz o Verão.

Andorinha por fora não tarda a chuva uma hora.

Se as andorinhas partirem em Outubro seca tudo.

Andorinha rasteira, sinal de ventaneira.

Mais come o boi de uma lambida que cem andorinhas.

A andorinha salvou o rei leão.

Andorinha que voa com morcego acaba dormindo de cabeça para baixo.

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

NÃO FORA A CHUVA

Não fora a chuva e este campo estaria seco e acastanhado, como o estava na passada semana.

Não veio muita, mas o suficiente para pintalgar, com o amarelo das azedas e margaridas e o vermelho das papoilas, a mancha, agora verde, desta charneca rude a abrir em flor...

(do autor - Porto da Espada - Serra de São Mamede)
"...
E já não sou, Amor, Soror Saudade...

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!"

Florbela Espanca - Charneca em flor.

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terça-feira, 17 de abril de 2012

A TABERNA

Era já um ritual! À mesma hora, mais minuto, menos minuto lá se encontravam, sempre os mesmos, os mesmos amigos de há muitos anos, do tempo da escola, do futebol com a bola de trapos, camaradas de tropa, a viverem na mesma terra, a terra que os viu crescer e a serem homens, na mesma terra em que todos trabalham...

(A Taberna)
Mas, depois do trabalho, ao fim do dia e antes do jantar, é sagrado o encontro na taberna onde, entre um e outro copo de tinto, vão trocando conversas, falando do campo, da falta de pasto para os animais, maldizendo do tempo, barafustando contra o vento, praguejando contra as medidas do governo que lhes leva tudo e que nada dá em troca... E também discutem a bola, o penalti falhado, o golaço do Cristiano, as opções do Jesus...

E só quando o sino da Igreja, que disputa o adro com a taberna, começa a badalar a meia hora é que partem com um até amanhã de volta...

 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

A ORLA DO MAR

Junto à rebentação, feita de ondas e espumas, os surfistas com as pranchas, as velas e os papagaios coloridos pintalgavam aquela orla do mar onde tudo começou...

(Do Autor - Praia do Guincho)

"Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego da luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo recto
Da construção possível


Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla


Desde a sombra do bosque desde a orla do mar..."


Sophia de Mello Breyner Andresen, Delphos, Maio de 1970.


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domingo, 15 de abril de 2012

SEM SOPRO

Na vasta praça, centrada pela figura de D. Pedro V, apenas duas personagens ali estavam, naquela esquina: um bronzeado tocador de flauta e um espectador atento.

Mas, a verdade é que não saía da flauta, qualquer som ou qualquer melodia, a não ser a do vento que, cirandando pela praça, e ao passar com diferentes velocidades entre a flauta e os dedos do tocador, emitia sopros de tonalidades variadas, como se o músico estivesse a preparar um solo e fosse assoprando lámirés de afinação.

(do autor - Castelo de Vide)
E por ali ficou, algum tempo, o espectador atento, até que, face ao imobilismo do intérprete e à demora no início do concerto, se foi embora, não sem antes ter colocado uma moedinha junto aos pés daquele músico que nunca mais se decidia a tocar...

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sábado, 14 de abril de 2012

NUVENS

O dia, hoje, encheu-se de vento e de frio que trouxeram nuvens fartas e cheias: umas brancas como claras batidas, a lembrar as farófias de casa das avós, outras escuras, quase negras, carregadas de chuva forte, a imporem respeito pelo breu assustador.

O dia esfriou muito, ventou o bastante para chegar a partir ramos e, mesmo, árvores, como se ontem, o tal da sexta-feira 13, tivesse posto as bruxas a bailar pelos ares e elas tivessem prolongado a festa pela madrugada dentro; "chuvou", também, como já não se via há muito.

(DO AUTOR - ALGURES NO CÉU)


Mas, quando o fim da tarde permitiu que o céu também se deixasse mostrar, exibindo a sua cor azul inconfundível, as nuvens amontoaram-se em castelos, criando formas e figuras fantásticas que se deixavam identificar à medida da imaginação de cada um...


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sexta-feira, 13 de abril de 2012

SEXTA-FEIRA 13

Imagino, hoje, a quantidade de Blogs que irão falar da sexta-feira - 13, da sorte e do azar, de duendes, lobisomens, de bruxas, de luas cheias, de vampiros, de mordedelas no pescoço, de gatos pretos... sei lá que mais!


Hoje, a minha sexta-feira deve, deverá, ser igual aos outros dias, espero, porque, se não fôr, e se alguma coisa correr mal, é porque estou cheio de azar.

E quanto a gatos pretos já tenho o Ouriço para me miar às pernas!

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quinta-feira, 12 de abril de 2012

MENINA

Na praia azul, tão azul como a cor do mar que tudo coloria, surgiu assim, de azul iluminada, de azul vestida como se de azul fosse toda pintada, menos na mão de onde uma luz, pequenina, luzia uma luz amarela que tremia como se fosse luz duma vela, e que enchia de alegria o rosto lindo daquela menina. 

(do autor - La Valletta - Malta - 2011)




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quarta-feira, 11 de abril de 2012

ATRAVESSAR

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento


(do autor - Vulcão dos Capelinhos -Faial - Açores)

PARA ATRAVESSAR CONTIGO O DESERTO DO MUNDO - Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra poética.


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terça-feira, 10 de abril de 2012

ASAS LEVES

LANGUIDEZ

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar...

E a minha boca tem uns beijos mudos...
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar...



(do autor - em Ghent - 2011)


Languidez - de Florbela Espanca

segunda-feira, 9 de abril de 2012

NESTE DIA

Neste dia de mar e de nevoeiro
É tão próximo o teu rosto.

São os longos horizontes
Os ritmos soltos dos ventos
E aquelas aves
Que desde o princípio das estações
Fizeram ninhos e emigraram
Para que num dia inverso tu as visses.

Aquelas aves que tinham
Uma memória eterna do teu rosto
E voam sempre dentro do teu sonho
Como se o teu olhar as sustentasse.


(do autor - Caminha)


Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra poética.


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domingo, 8 de abril de 2012

PÁSCOA

O dia amanheceu cor de rosa e azul. Um dia que, hoje, acordou suave nas cores, ameno na temperatura e a espelhar os seus sentires nas águas mansas da lagoa.

Um dia que se foi enchendo de sol, de luz e de calor. 

Um dia a mostrar-se agradável, doce, terno e sorridente. 



(do autor)

Um dia que, hoje, se aprimorou para celebrar a Páscoa!


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sábado, 7 de abril de 2012

ALELUIA

Quando ali chegou já lá estavam dois, em cima do muro, de passos irrequietos, saltitantes. De vez em quando paravam, tornavam-se estáticos, mas por muito pouco tempo, e, de novo, voltavam àquele saltitar em dueto..

Passaram, assim, uma parte daquele tempo juntos nos saltitos e em trinados dialogantes, em canto de pássaros que ele não entendia.

(do autor - Porto Pim -Faial)
A pouco e pouco outros pássaros foram chegando e, à medida que iam poisando em cima do parapeito da amurada que dava sobre o mar, os pios, os chilreios, os gorjeios iam dominando o silêncio daquela baía cheia de sol, como se aquela assembleia de pássaros, em musicalidades cruzadas, numa harmonia de sons, mais parecesse um orfeão a cantar Aleluias ao dia e ao sol que enchia de calor e de cor aquele lugar!


sexta-feira, 6 de abril de 2012

ECCE HOMO

EIS O HOMEM... foram as palavras de Pôncio Pilatos quando apresentou Jesus de Nazaré, flagelado, de mãos atadas, com uma cana na mão direita (a fazer de ceptro) e uma coroa de espinhos, à multidão para ser tomada uma decisão sobre o destino a dar-Lhe.

Ele, Pôncio Pilatos, não Lhe encontrou nenhum mal mas a multidão não soube dizer outra coisa que: Crucifica-O! Crucifica-O!
(Ecce Homo - Caravaggio - 1571-1610)

(Ecce Homo, de Antonio Ciseri - 1821 - 1891)





Ao fim de mais de 2000 anos as multidões continuam a ter o mesmo comportamento carneiro, de rebanho obediente às vozes de comando das minorias...


Os homens a esquecerem e a não aprenderem!



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quinta-feira, 5 de abril de 2012

MELGA

Pode ser A MELGA ou O MELGA.


A MELGA é um insecto voador, tem duas asas e uma tromba habilitada para picar a pele e sugar o sangue provocando, quando pica, uma baba bem vermelha que produz uma comichão tremenda, transmite doenças e, quando voa, faz aquele bzzz chato que nos impede de dormir. É um insecto tramado, não se sabendo se serve para alguma coisa ou se faz alguma coisa de útil.

(do autor)
O MELGA, esse, não voa porque não tem asas, mas tem, também, uma tromba, só que façanhuda, e, por isso, não pica mas, como A MELGA, chateia, é um intrometido, aparece sem aviso, instala-se, espia, intromete-se, vigia, questiona, oprime, incomoda, pressiona, acusa, sufoca, inferniza, faz marcação cerrada, também não serve para nada e é um inútil porque não sabe fazer nada de útil.

A sua primeira noite no Hotel du Lac foi incomodada por uma MELGA horrível que zuniu toda a noite sobre a sua cabeça e lhe encheu os braços e as mãos de babas comichosas.

Apesar de tudo, mal por mal, sempre é preferível ser incomodado por uma MELGA zunidora e picadora, a ser perturbado ou chateadado por um MELGA horrível e intrometido que não sabe fazer mais nada que chatear os outros.




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quarta-feira, 4 de abril de 2012

O GRASNAR

O chá amornava na chávena enquanto esperava pela torrada e, também, olhava a tranquilidade do lago que ia reflectindo o azul límpido do céu e o verde das montanhas que, do outro lado da margem ainda distante, se projectavam naquelas águas aprisionadas no meio dos Alpes.

Foi assim que deu por ele a vogar, solitário, vindo dos lados do Hotel du Lac em direcção ao cais dos barcos de recreio. Passou e, algum tempo passado, voltou; por várias vezes isso aconteceu, num vai e vem e num vem e vai, como se andasse a passear, sem hora e sem destino. De vez em quando soltava um grasnar - ansioso?, chamativo?, de aviso? - e lá continuava no seu ir e no seu voltar.

À medida que o tempo passava, à medida que o chá também ia ficando mais frio, reparou que ele olhava para todos os lados, especialmente para aquele céu azul, como procurando algo, como se andasse, ou nadasse, agora ansioso, à espera de um encontro que tardava.

(do autor)
Pediu outra chávena e encheu-a do mesmo chá que se conservava, ainda quente, no bule de porcelana amarela. E, enquanto a enchia daquele chá fumegante, lhe adicionava uma gota de leite evaporado, e se preparava para mordiscar a torrada que, entretanto, o empregado lhe trouxera, ela chegou num vôo rasante que se continuou num deslizar exuberante e atrapalhado, num chapinhar de água a salpicá-lo, acabando, ambos, por se embrulharem num bater de asas amistoso, a provocarem espumas naquela água, agora agitada, e a emitirem grasnares fortes e aparentemente divertidos. Depois, como num bailado de coreografia bem estudada, correram sobre as águas, lado a lado, nos dois sentidos, tocaram os bicos, como se beijassem e, de novo, voltaram a grasnar de satisfação. Durou algum tempo este espectáculo gratuito, este dueto de primavera, este encontro bem celebrado, este namoro exuberante!

Depois, sem mais... partiram num levantar rápido daquelas águas azuis e verdes e subiram nos céus, num vôo nupcial que o fim de tarde quis esconder dos olhares que, daquela esplanada sobre o lago, os tinham acompanhado com curiosidade e agrado.

terça-feira, 3 de abril de 2012

TROMBETAS

(do autor)
Quando era mais novo e ainda andava na escola primária, a rua que dava acesso ao colégio onde estudava tinha um muro totalmente revestido de uma trepadeira de abundante folhagem verde de onde, nesta altura do ano, emergiam estas flores azuis de pé comprido, a lembrar uma corneta, com os estames encimados por anteras compridas no seu interior, que lacrimejavam um líquido, adocicado e xaroposo, que era uma delícia. 

O nome que lhes dávamos era trombetas, porque o faziam e fazem lembrar as trombetas dos arautos. A net já me esclareceu: o nome científico é Ipomoea purpurea L. e são denominadas Glória da Manhã ou Cordas de Viola e as flores têm mesmo, conforme diz a Wikipédia, a forma de trombeta.

Como a parede, quase de um dia para o outro, ficava cheia destas flores azuis nós, os miúdos, íamos arrancando, do cálice, a flor e sorvendo o suco da parte inferior, como que sugando de uma teta... reminiscências do aleitamento da infância?

E era uma razia... dávamos cabo das flores até onde chegavam os nossos braços esticados! Para cima lá continuava todo o colorido azul das flores, o verde das folhas e os pontos amarelos saltitantes das muitas abelhas que, de flor em flor, competiam connosco na disputa daquele xarope doce e saboroso.

Quase uma selecção natural: até onde chegavam os nossos dedos esticados as flores desapareciam, ao mesmo tempo que iam, lá mais para cima, as abelhas que, assim, não nos picavam evitando os inchaços e o mal-estar causado pelo ferrão.

A Natureza a proteger-nos e a oferecer-nos, durante um curto período do ano, uma guloseima que, naqueles tempos de Quaresma, de abstinência e de jejum, em que nos sentíamos coibidos de comer doces, nos compensava dos rebuçados e das amêndoas que só voltaríamos a comer depois do sábado de aleluia!

Trombetas, também, a anunciar um novo ciclo de vida, o acabar de um período de sofrimento, de desagrados, para uma ressurreição, para um novo viver, para uma Páscoa a celebrar!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ODE À ALEGRIA

Hoje, por ser 2 de Abril, o dia a seguir ao dia das mentiras, apetece cantar e gritar à vida, à alegria, ao contentamento... ao começo do mês da primavera, ao Abril das águas mil, à Páscoa e à Ressurreição da vida, apetece sorrir e dar as mãos, para sempre...






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domingo, 1 de abril de 2012

TÁGIDES

(do autor - junto ao Tejo, às Tágides e à Torre de Belém)
"E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo
Se tão sublime preço cabe em verso."

Luís Vaz de Camões - Os Lusíadas na invocação às Tagides, Canto I , estrofes 4 e 5.