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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

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É um dia especial por ser raro na periodicidade.

Acontece de 4 em 4 anos e serve para fazer acertos entre o tempo astronómico e o nosso tempo do calendário Gregoriano de dias, horas, minutos e segundos, que não consegue ajustar-se com o dos astros.

Quem faz anos neste dia tem motivos para o celebrar de forma mais especial devido, precisamente, à sua periodicidade quadrianual.

Por isso, hoje, deixo aqui os PARABÉNS especiais a quem faz anos neste dia. Mesmo sem o apagar das velas, mesmo sem se cantarem os Parabéns a Você, mesmo sem prendas ou flores...

Vale pelo desejo de o celebrar!




terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

TEMPO DIVIDIDO

"Não te chamo  para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde habite"

Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética - No Tempo Dividido - Poemas de um Livro Destruído - VIII



De braços abertos quero viver
Sem medos, sem receios, nem temor
Para te dar e de ti receber
A vida que habita no amor



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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

ALERGIAS

Está no tempo de começarem os espirros, o nariz entupido, os olhos vermelhos, as comichões, as pieiras, as faltas de ar...

Estamos no tempo das rinites, das asmas, das conjuntivites, das urticárias... 

As mimosas já começaram a pintalgar de amarelo a paisagem, a fazerem ala nas bermas das estradas, a anunciarem a primavera a chegar! 

E, falta pouco, vão chegar os pólenes das gramíneas e de muitas outras plantas, os insectos, os cheiros da natureza, os ácaros vão regressar em força, os gatos e os cães, cedo, começam a largar o pêlo, em mais um período de renovação...

(do autor)


Chegou a altura de os alérgicos começarem a preparar as suas armas, a abrir gavetas à procura dos xaropes e comprimidos anti-histamínicos, dos sprays, dos inaladores, das gotas e das pomadas, mais os lenços de papel, os óculos escuros...

É que, com este sol e uns pingos de chuva que prometem para o fim da semana, não tarda que o mundo das alergias entre em efervescência!


domingo, 26 de fevereiro de 2012

DIA

"Meu rosto se mistura com o dia
Nuvens telhados ramagens e Dezembro
Apaixonada estou dentro do tempo
Que me abriga com canto e com imagens

Tão abrigada estou dentro da hora
Que nem lamento já a tarde antiga
Tudo se torna presente e se demora
Será que o dia me pede que eu o diga?"

Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética - Dia


(do autor)
O dia pede, mas não obriga
Que não cale esta paixão dentro do tempo
Que me impede, então, que o não diga
Neste dia, nesta hora, neste momento?

sábado, 25 de fevereiro de 2012

HOJE O MAR

(Portalegre - cidade)


Hoje, o mar que está distante,
veio ficar, hoje, aqui bem perto.


Continua longe, lá... o mar feito de águas, de marés, de ondas, de espumas e de praias.


Está perto, aqui, hoje, o mar feito de nuvens brancas, como vindas das espumas das ondas do mar longe que veio fazer praia aos pés desta cidade.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

PASSARADA

Ainda estamos no inverno mas esta seca e este sol enganam e fazem crer que o Março já vai quase no fim. Como se estivéssemos um mês avançados no calendário. Não fosse mesmo a seca, a crise, as incertezas... e tudo era maravilha.

Até a passarada anda contente, os chilreios enchem o ar, os ninhos começam a fazer-se, as árvores a servirem de esconderijo e abrigo aos mais pequenos e, lá no alto, as águias e os milhafres a rodarem nos céus com os olhos bem postos na terra à procura de alimento.

(desenho do autor)

De manhã é uma algazarra, os pardais, os tordos, os rouxinóis..., a misturarem os sons, num bater de asas quase permanente, com os gatos da vizinhança a andarem numa constante atenção à espera de uma oportunidade.

A garça voltou de novo! Chegou no seu voo silencioso e elegante, pousou na borda da água e ali ficou, quieta, imóvel, à espera que um peixe vermelho se chegasse mais perto dela. Depois de satisfeita, deu um impulso com as pernas longas, e partiu, tão silenciosa, como quando chegou.

Os melros, este ano, são tantos que quase se atropelam uns aos outros na procura de alimento e nos voos de namoro e perseguição, os gaios, esses, continuam a atravessar velozmente o espaço diante da janela e a refugiarem-se na quietude da mata, e os pica-paus lá continuam, com o seu bater ritmado, a encher de outros os sons, aquele pedaço de serra.

A vida a acontecer e tudo a recomeçar!


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

AHORA

De autor anónimo ou desconhecido:


"Ahora puedo oírte,
puedo sentir el silencio,
puedo recorrer tus besos
y soñar tus labios,
puedo hasta escuchar tu melodía,
aún cuando estés lejos
y seas toda nostalgia."


ENTONCES POR QUE LE TEMEMOS AL AMOR?


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

AS CINZAS E O PÓ

Hoje é quarta-feira de cinzas, dia que marca o começo da Quaresma no calendário cristão ocidental. Cinzas que servem para lembrar o início de um período de reflexão, de mudança de vida, lembrando quão efémera e transitória é a passagem por esta vida.

(Quarta-feira de Cinzas - pintor Carl Spitzweg)


Porque é dia de entrada num círculo novo do calendário da vida lembrei uma pequenina parte do Sermão de Quarta-Feira de Cinzas, do Padre António Vieira, que aqui deixo:

"Notai. Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó: do pó que fomos ao pó que havemos de ser. Uns fazem o círculo maior, outros menor, outros mais pequeno, outros mínimo. Mas, ou o caminho seja largo, ou breve, ou brevíssimo, como é círculo de pó a pó, sempre e em qualquer parte da vida somos pó. Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto, quanto mais se aparta dele tanto mais se chega para ele; e quem quanto mais se aparta mais se chega, não se aparta. O pó que foi nosso princípio, esse mesmo, e não outro, é o nosso fim, e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó, quanto mais parece que nos apartamos dele, tanto mais nos chegamos para ele; o passo que nos aparta, esse mesmo nos chega; o dia que faz a vida, esse mesmo a desfaz. E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo, sempre somos pó." 


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

SEMI-CARNAVAL

Máscaras e mascarados pelas ruas, papelinhos, garrafinhas de mau-cheiro, serpentinas, saquinhos de arroz, partidas, assaltos e bailes de mascarados, risos, boa disposição... Eram os carnavais de há uns bons anos atrás, espontâneos, divertidos, com férias escolares, com tolerâncias de ponto, com pontes...

Os papelinhos já quase não se vêem, as garrafinhas de mau cheiro foram proibidas, os saquinhos de arroz devem ter sido considerados armas de arremesso ou de agressão, assaltos e bailes de mascarados podem ser confundidos com coisa à séria e têm a polícia à perna, risos e boa disposição a conjuntura quase não deixa, ficaram as serpentinas, as máscaras e alguns, poucos, mascarados.

Uma parte do país trabalhou, outra nem por isso, outra fez greve e outra, ainda, é que folgou. Nos locais mais tradicionais lá se continuaram a ver as moças a desfilar, quase despidas, neste Fevereiro frio, lá se viram os carros alegóricos com as caricaturas dos políticos, lá se percebeu um pouco de animação.

Desta vez o "é Carnaval ninguém leva a mal" parece que foi substituído por "triste Carnaval porque isto está mal"!


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

DE PARTIDA

Estava frio na estação dos comboios. O vento desagradável, que levantava a poeira e fazia rodopiar as folhas de jornais abandonados, criava torvelinhos que a despenteavam e arrefeciam, ainda mais, o ambiente. A mala, pesada, com uma das rodas partidas, atrapalhava-lhe a pressa e incomodava-a pelo balançar rápido e pelo barulho ritmado do toc-toc.

Ia embora, numa partida solitária, mas necessária. Precisava de sair, de se afastar da asfixia da vida, ia ter com o filho. Não gostava do avião e sentia-se mais segura junto ao chão. Eram quase dois dias de viagem, mas não fazia mal... quanto mais tempo fora, melhor, mais longe do trabalho que acabou de perder, das angústias do dia a dia, das injúrias, do desconforto. Precisava, absolutamente, de dormir e a carruagem-cama ia dar-lhe resposta a essa necessidade. Até o balancear cadenciado da carruagem ia ajudá-la nesse adormecer.

E, enquanto o comboio saía da estação, quase deslizando,  ele, no cais, sabia que aquela partida já não teria mais regresso.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

PIÃO

Teve vários, todos de madeira e com a ponta de ferro.

Tinha o hábito de, no intervalo do recreio da escola, jogar ao pião! Mas também jogava ao berlinde, e à bilharda e, quando era mais pequeno, jogava ao arco fazendo gincanas imaginadas a empurrar aquela roda de ferro, aconchegada por uma haste de metal com uma curva na ponta!

Para ele o pião era, de todos, o jogo que requeria mais habilidade e destreza: depois de bem enrolado com um cordel comprido era lançado com força, e com jeito, para dentro da área do círculo desenhado no terreiro frente à escola. Formava-se uma volta de rapazes que tentavam lançar, cada um, o seu pião de modo a atirarem para fora os piões do outros. E só podia haver um vencedor.
  
Havia, também, o concurso de lançar o pião para o ar e de o apanhar na palma da mão com ele sempre, sempre, a girar. Os mais habilidosos passavam-no de mão em mão e deixavam-no girar nas pontas dos dedos, ou do nariz, ou no meio da testa.

Havia quem o conseguisse atirar para o ar e apanhá-lo, de seguida, na mesma, com o cordel... Isso nunca fora capaz de o fazer, a habilidade nunca lhe chegou a tanto; apanhava-o do chão com a mão, passava-o de uma mão para outra, punha-o a girar na polpa dos dedos das mãos e não mais do que isso. No nariz e na testa nunca tentou, sequer, não fosse haver o azar de partir os óculos ou as lentes e, certamente, teria de ouvir sermão e missa cantada de ralhetes...

Ao passear, naquela tarde de sol, pela feira de antiguidades e de artesanato deu de caras com uma banca repleta de piões de madeira, de rapas, de giroscópios e de piões mágicos de lata, aqueles que se punham a girar por meio de uma haste que se empurrava para dentro e produziam um som cavo, ondulante, como se fosse uma sirene rouca e distante.

Agora, que sabia do efeito giroscópico, que aprendera o que era a força centrífuga e outras leis da física, entendia, perfeitamente, o equilíbrio daqueles objectos que giravam, giravam e se mantinham estáveis na ponta do dedo... Mas, naquela altura, no tempo em que o fascínio desconhecia leis, no tempo em que estes fenómenos eram quase magia, os piões eram uma forma de encantamento e de ilusão que o atraíam de forma irresistível...

sábado, 18 de fevereiro de 2012

GAMBOZINOS

Fora muitas vezes à caça dos Gambozinos.

Mais miúdo ficara algumas horas, noite escura, diante da sebe de piracantas, de saco de serapilheira na mão, bem aberto, à espera que um gambozino lhe entrasse no saco, na sua saída da toca.  Nunca apanhou nenhum e, só mais tarde, depois de muitas caçadas inglórias, é que soube da realidade da caçada aos gambozinos.

"Gambozinos ao saco" era a palavra de ordem! E lá ficavam, os mais novos, quietinhos, cheios de medo, à espera que um gambozino lhe entrasse pelo saco dentro. E não podiam dar parte fraca...

Depois inverteram-se os papéis e foi ele a induzir os mais novos na iniciação da caçada.

Nunca se apanhou um, sequer! Mas, descrições havia muitas, desde os que diziam que eram parecidos com um grilo ou um pirilampo, outros que afirmavam serem como um ouriço, com picos e tudo, outros ainda que diziam serem cheios de pelo e terem orelhas enormes...

A caça aos Gambozinos fazia-se só de noite, principalmente no verão, na altura das férias, não precisava de qualquer licença ou autorização, só a dos pais que colaboravam no emprestar dos sacos de serapilheira e das lanternas para alumiar o caminho até ao local onde ficavam os iniciados à espera do "bicho". A caçada não precisava de muitos preparativos, bastava que houvesse uma família ou um grupo de famílias conhecidas, com muitos miúdos, primos e irmãos mais velhos, que organizavam a caçada, e um grupo de miúdos que ficavam excitadíssimos com a perspectiva da saída nocturna, com os mais velhos e sem a vigilância dos pais... uma forma de iniciação na vida da noite, uma espécie de praxe de caloiros na escola do crescimento.

(do Google images)


Não sabe se ainda se organizam muitas caçadas, se os mais novos sabem o que são estes seres ideais e imaginários.

O que sabe é que as famílias são cada vez mais pequenas, que, cada vez, há menos nascimentos e os pais já não não dão tanta liberdade aos filhos mais pequenos porque os perigos da noite são muito mais reais que os dos ditos gambozinos; também os mais velhos já não devem ter paciência para sacos de serapilheira e lanternas... preferem, quase de certeza, as tocas das discotecas onde convivem e se divertem e sempre podem contar com a aventura de alguém que apanhou uma ganza ou uma gambozina! 

  

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O ABAFADOR

Era um berlinde de vidro maior que os outros! E servia para abafar os mais pequenos. Bastava tocar com o abafador no berlinde e, zás, o berlinde mudava de proprietário e ficava pertença do dono do abafador.

O abafador, habitualmente, era de vidro multicolorido e quantas mais cores tivesse mais poder tinha, mas podia ter um olho de cor única - azul, frequentemente - a fazer de centro, era o "olho de boi", ou ser de vidro branco leitoso e opaco e, nesse caso, dava-se-lhe o nome de "vaca" ou "leiteira" e servia de salvaguarda ao dono para evitar que lhe abafassem os berlindes. 



As regras do abafador mudavam de terra para terra, de ano para ano, e de momento para momento. Nalguns sítios, o dono do abafador só podia abafar um berlinde se tivesse com ele uma esfera metálica, daquelas dos rolamentos, conhecida por "licença", e tinha de ser uma esfera grande, e nunca daquelas pequeninas, que não tinham qualquer valor. Quem tivesse um abafador, e fosse maior em tamanho que o proprietário do berlinde, era certo e sabido que o abafava sem apelo nem agravo. E se fosse mais pequeno, bastava que fosse acompanhado por uma "testemunha" de maior corpulência que as regras do abafa valiam na mesma.

Eram regras que ninguém questionava... bastava, quase, que um dissesse que era a regra, habitualmente um mais matulão, entenda-se, e não havia mais discussões. Acontecia, algumas vezes, o saco dos berlindes, ao fim da manhã de recreio, ficar sem berlinde algum, especialmente se eram bonitos, porque bastava aparecer um tipo mais velho com uma "vaca" ou com um "olho de boi" e lá se iam os "bilas" ou os "guelhas".

Às vezes um puto mais esperto inventava uma cláusula de última hora, para tentar impedir que lhe abafassem o berlinde, e lá se acrescentava mais um artigo às regras aleatórias dos abafadores.

Hoje já quase não se vêem covas no chão de terra para jogar ao berlinde e, muito menos, abafadores de vidro... A sociedade actual e os homens que fazem as políticas, os governos e os países, e que manipulam o dinheiro e o poder, transformaram o jogo do berlinde e os abafadores num imenso jogo de influências, de poderes, de forças, de abafamentos de povos, de injustiças, de opressões sobre os mais fracos...

Os abafadores que mais abafam o nosso viver chamam-se, agora, "Impostos", levam quase tudo e têm vários nomes: IVA, IRS, IRC, IMI, IS, IA, IUC... e, já agora, só falta acrescentar mais um: o ISURQOPAT (Imposto Sobre Um Raio Que Os Parta A Todos)!



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

MATRAQUILHOS

Gostava mais de jogar à defesa, com o guarda-redes e os dois "backs". Só por azar é que deixava entrar uma bola na sua baliza e tinha um jeito especial para marcar golos directos, na baliza do adversário, dali detrás.

A bola parada com os calcanhares do boneco, o levantar dos pés, o trejeito de mão a fazer deslizar suave e rapidamente a barra de ferro e, quase no mesmo instante, numa fracção de nada, o remate fatal! 

Descobria, quase sempre, uma nesga por onde a bola iria passar, fazendo um ricochete de nada no avançado lateral e, numa fracção do mesmo segundo, o TOC seco da bola a bater no fundo da baliza.



Às vezes, lá calhava, mas só raramente, fazer quase um auto-golo! Geralmente acontecia com as velhas bolas de madeira, já com algumas mossas e um rolar ondulante... A bola saía do alinhamento e, em vez de fazer tabela na face lateral do pé do adversário, acertava na ponta da bota e o ricochete atirava-a para dentro da própria baliza.

E o guarda-redes sempre a andar de um lado para o outro, de pés virados para a frente, com um dos defesas a fazer linha com a bola para cobrir bem a baliza... E só entravam, mesmo, as bolas que não tinham defesa!

Não resistiu a um joguinho... os cinquenta centavos (os cinco tostões) de então são agora cinquenta cêntimos... as dez bolas reduziram-se para cinco e a habilidade e a destreza da altura, empancaram numas mãos pêrras e já quase sem jeito que quase não atinavam com os pés dos bonecos na bola, agora de material sintético, muito mais solta e rápida...

A partida foi de curta duração mas, em contrapartida, os golos foram muitos, os frangos maiores que o do almoço, e os gritos, os impropérios e os lamentos, foram muitos e arrasadores, mas a diversão foi total!

E o fracasso da derrota transformou-se num momento de vitória e de boa disposição.

 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

GINJINHA

Serve-se em copos pequenos, de vidro grosso, com espaço suficiente para, no fundo, caberem uma ou duas ginjas... agora até deu moda serem servidas em copos de chocolate!

(Da Arqueolojista, com a devida vénia!)

Assim aproveita-se tudo: a bebida, o copo, o fruto... Tudo, não! Tudo menos o caroço, claro, que se deita fora.

É uma bebida tradicional da baixa lisboeta onde ainda se encontram alguns lojinhas de venda, ou tendinhas, conhecidas por Ginjinhas: a do Rossio, no largo de São Domingos, é a mais conhecida e tradicional e é, também, a mais antiga.

Não se dispensava uma ida à Baixa sem ir à Ginjinha do Rossio passando, primeiro, pelo Eduardino, nas Portas de Santo Antão que tinha, e tem, duas especialidades únicas: a Ginjinha e o Eduardino. Não se sabe qual a composição do Eduardino, mas, segundo a tradição, herdou o nome de um palhaço bêbado que misturava várias bebidas espirituosas... Ficou uma bebida forte, com leve toque de anis.

Ambas as bebidas têm sabores únicos e inigualáveis...   Bebem-se bem... sempre uma de cada vez e de uma só vez, mas sempre mais do que uma!

Hoje, por ter ido à Baixa de Lisboa, não dispensou a tradição e lá entrou, em ambas as tendinhas, como peregrino devoto, no cumprimento dum ritual!


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

VALENTIM

O Valentim, que é santo, tem uma história de amor... um amor cego, porque a apaixonada dele era cega, e mortal porque, ao desobedecer ao imperador Cláudio, foi decapitado, precisamente, no dia 14 de Fevereiro, mas do ano 270.

O amor deste Santo foi feito às escondidas, por cartas escritas, por encontros clandestinos mas de tal modo intensos que a cega Astérias até conseguiu recuperar a visão, daí o milagre que o fez santo.

Ficou a tradição de celebrar o AMOR neste dia 14 de Fevereiro com a força do comércio, nestes últimos anos, a impor-se ao verdadeiro espírito do acontecimento.

Deixo que o Fernando Pessoa fale por mim:

"Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?"

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

CORAÇÕES VERMELHOS

Hoje quase não vi montra que não tivesse um coração vermelho, a palavra "LOVE" escrita nos vidros, almofadas vermelhas, roupa interior feminina vermelha e preta e desejos de um "Feliz Dia dos Namorados"...
 
Os supermercados criaram "ilhas de amor" com garrafas de espumante e vinho "pink", caixas de chocolate em forma de coração, flores e pétalas cor de rosa e, claro, montes de caixas de preservativos e de gel lubrificante...

Os floristas aqui à volta trocaram os cravos por rosas vermelhas, a flor dominante nestes dias, e criaram ramos especiais em forma de coração.

A montra da minha livraria encheu-se de livros dedicados ao amor e às cartas do mesmo.

Até a pastelaria, aqui ao lado, fez um bolo alusivo cheio de setas e com o desenho de um cupido.

O São Valentim a comemorar-se da forma mais comercial possível! Mais um modo de aquecer e reanimar o comércio que, tal como os dias gélidos que nos têm assolado, também quase congelou!



domingo, 12 de fevereiro de 2012

O PIANO

Meio desconjuntado, de tampa aberta, a mostrar algumas teclas soltas, de um marfim já muito amarelado e sujo, ali estava, abandonado.

(Do Google Images)
Tentou dedilhar um lamiré mas só lhe saiu, no lugar do Ré, um Fá, sustenido, que mais lhe pareceu um lamento, um gemido, um som de agonia, um desalento, um fim de vida...

Não lhe restava outra atitude que baixar, com respeito, e alguma dificuldade!, a tampa do velho piano, resguardando, de olhares curiosos e de mãos inábeis, aquele teclado agora inútil e meio desdentado.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

QUEIMADAS

Fazem uma coluna de fumo branco que, cedo, se transforma em nuvem deixando o ar cheio de aromas rústicos. 
Hoje foram os ramos dos cedros, acabados de aparar e deitados sobre a chama viva da queimada, a encher a mata de um aroma a resina adocicada e de um fumo azulado, como se de uma fumigação se tratasse.

São bons estes fumos e estes cheiros, a queimarem o inútil, a purificarem os ares e as plantas, a prepararem a primavera que  não tarda, como num cerimonial de Igreja, com a queima do incenso no turíbulo... a lembrar Santiago de Compostela e o seu Botafumeiro.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

OS CRISTOS

A casa era velha e suja. O cartaz, também velho, estava escrito num azul desbotado, anunciando a venda de mobílias, de antiguidades e de velharias. Não fora a curiosidade e o gosto por coisas antigas aguçarem-lhe o apetite e não teria parado para ver o que, por ali, haveria.

Do nada, naquela campina perdida, também no meio de nada, apareceu-lhe um velho sujo, de cigarro na boca, chapéu preto, a perguntar, numa voz meio espanholada, se queria entrar para ver... Não se fez rogado.

A casa continuava a sua velhice e sujidade para dentro da porta de madeira empenada que, dificilmente, ele empurrou para abrir. Lá dentro, logo à  entrada, em destaque, como para bem impressionar, o olhar a prender-se num cadeirão enorme em talha dourada e veludo vermelho, como se fosse um trono de cardeal ou de bispo, já que de rei ou de papa não poderia ser porque não tinha qualquer coroa ou tiara a adorná-lo, ao lado um armário de igreja, ainda com vestes de missa penduradas e, depois, um espaço, aberto e fundo, mas escuro, onde se amontoavam centenas de móveis, de mesas, de cadeiras, de trastes, de bugigangas num caos bem conhecido do velho que se movimentava, com destreza, por aqueles corredores abertos no meio da confusão de mobílias mal tratadas, de cadeiras empilhadas, de mesas amontoadas...

Ele disse-lhe que nada disso lhe interessava mas que procurava Cristos e imagens de santos... O velho, com ar de quase cumplicidade, piscou-lhe o olho e fez-lhe sinal para que o seguisse naquele labirinto; perdeu-se do homem por duas vezes, empancando nas pernas de uma cadeira desalinhada e na porta aberta de um armário que, perigosamente, fugia do alinhamento vertical desafiando as leis da gravidade.

Quando lhe chegou junto já ele escolhia, do molhe de inúmeras chaves aparentemente iguais, a que iria abrir uma porta, meio escondida, nas traseiras de um louceiro enorme que estava, propositadamente, afastado da parede.

Uma porta bem trancada que se abriu para uma sala escura, que ele alumiou acendendo uma lâmpada que pendia do tecto. Uma luz fraca a que não custou muito a habituar porque a luz de onde vinha já era escassa... um modo ardiloso para esconder os defeitos e as mazelas daqueles móveis todos?

E, mal a luz se acendeu, surgiram-lhe perante os olhos, dezenas largas de Cristos, que ali estavam, impassíveis, resguardados de olhares inconvenientes. Também peças de alguns santos completavam o recheio daquele lugar.

Uns na cruz, outros pousados numa mesa velha ou nas prateleiras que ladeavam as paredes velhas daquele quarto ou arrumação. Uns de olhar triste, melancólico, outros de olhar sofrido, uns de olhos fechados... Alguns bem trabalhados, com pormenores de minúcia, outros toscamente esculpidos, com aspecto bem "naïf"...

Eram mesmo muitos... e não vieram, parece, de um museu, ou de um espólio familiar... achou, por bem,  não perguntar pela origem das tantas peças que ali estavam, expostas, oferecidas, sem qualquer mostra de religiosidade, sem quaisquer afectos espirituais e não outro interesse do que "este custa 200 euros, aquele com a cruz grande 350, o das vestes castanhas 150..."

Naquele momento lembrou-se do Régio e dos seus Cristos, do seu Museu, do cuidado na conservação, na beleza como estavam expostos...

E recordou, também, as inúmeras notícias de assaltos a igrejas e do roubo de peças de arte sacra que se têm perpetrado por esse país fora.

  
  Saiu, deixando o olhar pregado num Cristo que, na cruz pregado, o olhou com um olhar sofrido e doce, como que a pedir o tirasse daquele Calvário... mas, por esse, ele pedia 500 euros!





quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

PASSAGEM

"O êxtase do ar e a palavra do vento
Povoaram de ti meu pensamento"

Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética - Passagem

Meu pensamento, de ti
Em recordação intensa
Meu vento que passa 
Na saudade imensa.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

MEIO DA VIDA

"Porque as manhãs são rápidas e o seu sol quebrado
Porque o meio-dia
Em seu despido fulgor rodeia a terra


A casa compõe uma por uma as suas sombras
A casa prepara a tarde
Frutos e canções se multiplicam
Nua e aguda
A doçura da vida"

Sophia de Mello Breyner Andersen - Obra Poética - Meio da Vida

A casa a preparar-se para a tarde em que ela ia chegar,
A tarde que ele tinha preparado para ela,
A tarde que se iria preparar para a noite...


Ela veio,
Ficou um pouco,
E partiu... 
Deixou as sombras,
Deixou a casa nua e aguda,
Amargando, mais uma vez,
A doçura da vida!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

TENTAÇÃO

Foi resistindo à tentação!

Aquilo era uma verdadeira bomba calórica! A gema de ovo com açúcar, o açúcar glaceado a envolver aquela bola bem amarela e redonda, como se fosse um ovo. E, por fora, o papel branco, de pontas retorcidas, a lembrar um rebuçado grande.

Ficara ali, o último, naquela caixa de vidro com tampa, na prateleira escura do armário. Cada vez que abria a porta para tirar um pacote de chá, ou o frasco da canela, ou a cápsula do café, olhava-o com olhos gulosos. Ele, quieto, parecia, também, olhar para ele! 

E, assim, durante semanas, a troca de olhares, foi-se trocando... até hoje!

Não resistiu: levantou a tampa de vidro, pegou pela ponta de papel, pareceu-lhe que o sentiu a estrebuchar, mas não ligou, desembrulhou-o e, antes que se arrependesse, meteu-o, de uma só vez, na boca. 

Deixou que a capa de açúcar branco se derretesse lentamente e, depois, quando sentiu que já só havia aquela massa de gema bem doce, trincou-a suavemente, deixando que o paladar único do rebuçado de ovo se liquefizesse na boca a perdurar sabores conventuais.

Não resistiu à tentação! Abençoado pecado!


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

REI NA BARRIGA

Hoje estava como um camaleão!

Não porque tivesse a capacidade da mímica ou do disfarce - o Carnaval ainda vem longe e também não haverá tolerância de ponto para se disfarçar -, ou porque conseguisse alcançar a comida com a ponta língua, mas porque, quase, só podia mexer os olhos.

Começou o dia por sentir uma impressão no pescoço, como se tivesse agulhas muito finas a espetarem-se ao menor movimento, agulhas suportáveis, é certo, do tipo das da acupunctura, depois foi o aparecimento de um ranger dos músculos daquela zona, como se fosse o das velhas botas de couro quando se esquece de as ensebar, até que, finalmente, a rigidez e a dor se instalaram, de tal maneira, que quase imobilizaram os movimentos do pescoço. Como se lhe tivessem colocado um daqueles colares que usam os traumatizados da coluna cervical: cabeça direita, imóvel, a olhar em frente, num bloco rígido da cabeça e do tronco.

Foi tomando analgésicos, anti-inflamatórios, relaxantes musculares, fizeram-lhe massagens, aplicaram-lhe cremes e gel mas, nada! Aquele pescoço resolveu teimosar, emburrou, e não quis ceder!

Passou o resto do dia a olhar em frente, sem olhar ao que se passava ao lado, numa atitude quase de sobranceria, como se tivesse um rei na barriga!



domingo, 5 de fevereiro de 2012

O CAPUCCINO

Chegaram, quase, ao mesmo tempo! 

Um encontro feito de dias de ausência, um encontro quase inesperado, mas um encontro imensamente ansiado!

Ela com um mundo de coisas para contar, com um desejo imenso de o ver, e ele com necessidade de a abraçar, de a escutar, de a olhar.

Ela pediu, determinada, um Capuccino, ele hesitou entre um café cheio e um chá. Decidiu-se pelo chá verde, de menta.

O tempo curto não deixou lugar para muitas coisas, mas foi suficiente para se olharem, para falarem, para se escutarem, para darem as mãos... 

Naquele fim de tarde, gelado, o Capuccino quente e o chá verde de menta, a fumegar, foram um bom motivo para um encontro em que os dois aqueceram a alma e o coração!


sábado, 4 de fevereiro de 2012

FRIEIRAS

Fazia anos que não tinha freiras, nem nas mãos nem no nariz.

Este frio brusco, seco, fez com que elas aparecessem de novo: as mãos a ficarem inchadas, com um tom mais avermelhado, ásperas, os dedos e o dorso secos, quase doridos, com gretas minúsculas, o nariz de ponta vermelha, com um pingo persistente, frio - gelado! -, quase insensível.

Já nem se lembrava! Mas hoje apareceram, e fizeram-lhe vir à memória os invernos frios em que as frieiras eram uma constante: a dificuldade em pegar na caneta para escrever a cópia ou o ditado, o berlinde que se escapava das mãos por causa do frio e dos dedos com menos sensibilidade, as luvas de lã, tricotadas pela avó, já cheias de buracos, as mãos a aquecerem-se na lareira, o creme gordo com que a mãe lhe besuntava as mãos, o ardor áspero...

Era um frio horrível, seco, cheio de vento, que cortava como lâmina de faca...

Hoje o dia foi quase assim! Deu para recordar, para besuntar as mãos de creme hidratante e para ficar quieto, sentado no sofá castanho, diante da lareira, a escutar o frio que lhe batia na porta das recordações.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O (DES)ACORDO

Vasco Graça Moura, recentemente empossado presidente do Centro Cultural de Belém (CCB), deu ordem aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico (AO).

Este linguista, escritor e tradutor, tem sido um dos intelectuais portugueses que mais se tem batido contra a aplicação do acordo.

Assim, e com o acordo e apoio unânimes da nova administração do CCB, os conversores informáticos, que faziam a "tradução" automática do português tradicional para o português do AO, foram desinstalados.

É a polémica da introdução do AO a voltar ao de cima: um AO que foi metido "à pressa" pela anterior legislatura, sem acordo final e assinatura de todos os países de língua portuguesa, sem a elaboração de um vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa e, ainda, porque, segundo a opinião de alguns, "viola os artigos da Constituição que protegem a língua portuguesa, não apenas como factor de identidade nacional mas também enquanto valor cultural em si mesmo".

A Casa da Música, no Porto, essa, nunca chegou a permitir a entrada do AO dentro das suas portas. Também um grupo de deputados da Assembleia da República elaborou um documento dirigido ao Governo a perguntar se "de imediato encara a possibilidade de suspender a aplicação do AO em Portugal".

Dou o meu total apoio! Não só porque a decisão da obrigatoriedade, em particular nas escolas, foi meramente política - mais um devaneio socrático e da maioria de então -, ignorando pareceres científicos e de organizações idóneas, quer no campo da investigação quer da análise linguística, optando, nas palavras do professor Luís Lobo, "por um brutal empobrecimento da língua portuguesa, ao não respeitar a origem etimológica dos seus vocábulos, a sua extraordinária e única sonoridade e a própria estética da escrita?".

A riqueza de uma língua assenta, essencialmente, na sua diversidade e na sua universalidade, no facto de cada país saber adaptar a escrita às suas tradições, à sua sonoridade, à sua linguagem.

Por isso me entendo tão bem com os meus amigos brasileiros, como com os cabo-verdianos, ou moçambicanos ou goeses...  sem outros acordos ou entendimentos que os da universalidade, diversidade e riqueza da língua portuguesa.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A D. OTÍLIA

No meio da sua escoliose bem torcida, das sequelas da sua tuberculose curada em sanatórios, da sua bronquite crónica e do enfisema, da sua hipertensão arterial, da gastrite e da colite e, ainda, dum reumatismo tramado que lhe tem tolhido os movimentos das mãos e do andar, tem sabido resistir à vida.

Mas, a verdade é que, neste último ano, a doença tem vindo a dar cabo dela, tem-na atravessado de forma tão assanhada e tão marcada: é a falta de ar com o cansaço, são as palpitações, as infecções urinárias repetidas, a azia que lhe sobe até à boca, a tosse com farfalheira, a expectoração abundante e de cor não recomendável... Febre, isso não, nunca teve! Nem no tempo do sanatório! Nunca fui mulher de febres, diz!

E, o pior é que, ultimamente, já não é capaz de tomar conta da sua vida sozinha. Já só vem às consultas acompanhada com uma das filhas, que lhe vão carregando os sacos dos exames e dos remédios, e a ajudam a tirar o casaco e as camisolas com que se encebola em demasia, por causa do frio deste inverno.

Mas hoje, não!, apareceu-me sorridente, bem disposta, a contar histórias de África, da sanzala, da visita de um leão esfomeado, das pacaças trazidas pelo pai quando ia à caça, do sol diferente, dos dias longos e da paisagem sem fim... Desde há uns dias que se libertou da tosse que parece, mesmo, ter ido embora, da canseira que já quase não existe, da tensão que normalizou, das dores que atenuaram, da angústia de viver que, quase, desapareceu...

E não se conteve, não quis calar a sua alegria, a felicidade que sentia, a satisfação imensa de ser bisavó dum bisneto que lhe nasceu há dias,  o seu último desejo de vida... Ter a felicidade de ver um bisneto!

Olhe lá doutor, e será que a felicidade cura? Perguntou ela...






quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O CAFÉ DA MANHÃ

Sabe bem!

Quente, a fumegar, com aroma forte e um toque da canela!

O desta manhã bebi-o assim, em chávena grande, em dose dupla, com as mãos a aquecerem-se no bojo do recipiente e a cheirá-lo antes de cada gole.

Soube tão bem!