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domingo, 19 de fevereiro de 2012

PIÃO

Teve vários, todos de madeira e com a ponta de ferro.

Tinha o hábito de, no intervalo do recreio da escola, jogar ao pião! Mas também jogava ao berlinde, e à bilharda e, quando era mais pequeno, jogava ao arco fazendo gincanas imaginadas a empurrar aquela roda de ferro, aconchegada por uma haste de metal com uma curva na ponta!

Para ele o pião era, de todos, o jogo que requeria mais habilidade e destreza: depois de bem enrolado com um cordel comprido era lançado com força, e com jeito, para dentro da área do círculo desenhado no terreiro frente à escola. Formava-se uma volta de rapazes que tentavam lançar, cada um, o seu pião de modo a atirarem para fora os piões do outros. E só podia haver um vencedor.
  
Havia, também, o concurso de lançar o pião para o ar e de o apanhar na palma da mão com ele sempre, sempre, a girar. Os mais habilidosos passavam-no de mão em mão e deixavam-no girar nas pontas dos dedos, ou do nariz, ou no meio da testa.

Havia quem o conseguisse atirar para o ar e apanhá-lo, de seguida, na mesma, com o cordel... Isso nunca fora capaz de o fazer, a habilidade nunca lhe chegou a tanto; apanhava-o do chão com a mão, passava-o de uma mão para outra, punha-o a girar na polpa dos dedos das mãos e não mais do que isso. No nariz e na testa nunca tentou, sequer, não fosse haver o azar de partir os óculos ou as lentes e, certamente, teria de ouvir sermão e missa cantada de ralhetes...

Ao passear, naquela tarde de sol, pela feira de antiguidades e de artesanato deu de caras com uma banca repleta de piões de madeira, de rapas, de giroscópios e de piões mágicos de lata, aqueles que se punham a girar por meio de uma haste que se empurrava para dentro e produziam um som cavo, ondulante, como se fosse uma sirene rouca e distante.

Agora, que sabia do efeito giroscópico, que aprendera o que era a força centrífuga e outras leis da física, entendia, perfeitamente, o equilíbrio daqueles objectos que giravam, giravam e se mantinham estáveis na ponta do dedo... Mas, naquela altura, no tempo em que o fascínio desconhecia leis, no tempo em que estes fenómenos eram quase magia, os piões eram uma forma de encantamento e de ilusão que o atraíam de forma irresistível...

2 comentários:

Anónimo disse...

Que delícia de crônica! Quantas saudades! Muito obrigada pelo envio. Beijinhos, lola

Anónimo disse...

Brinquedos de outros tempos e de outras vivências.
Beijos
Berta