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sábado, 30 de abril de 2011

A TEIA

Nem reparava nela se não tivesse orvalhado e as gotas de água não tivessem ficado aprisionadas na teia que uma minúscula aranha, tão engenhosamente, construiu.



Era para ficar invisível mas o orvalho traiu-a, pô-la a descoberto, tornou-a visível ao olhar. Mas esta visibilidade é de curta duração:  mal os raios de sol comecem a despertar e a incidirem sobre as gotículas de água esta, sem deixar de o ser, muda de estado, evapora-se e, tal como a teia, também se torna invisível.

Num momento sabemos que estão lá, a teia e a água, porque as vemos mas, logo a seguir, como num passo de mágica, deixam de se ver, criando uma ilusão no olhar.

E quantas teias, quantas armadilhas não estarão na nossa frente e nós, pura e simplesmente, não as vemos?  Quantas vezes  esbarramos nelas, caímos e tropeçamos, só porque não damos conta da sua existência? Mas elas estão lá e, às vezes, basta uma coisa tão simples, como um orvalho da manhã, para nos abrir os olhos e evitar quedas e tropeços.

Acho que vou passar a andar com um borrifador de água sempre que me aventurar em passeios desconhecidos, sempre que andar por caminhos complicados, sempre que quiser ir mais além do que conheço e sei. Basta um borrifo e as teias e armadilhas ficam visíveis e as aranhas completamente frustradas...

Simples, não é?

Tomara que fosse...


sexta-feira, 29 de abril de 2011

NATUREZA

Com a Natureza nada é certo. Os dias de sol da outra semana quase se transformaram em catástrofe na tarde desta sexta-feira.

Lisboa ficou um caos, chuva a mais, ruas alagadas, torrentes de lama e aquela saraivada assustadora que cobriu tudo de branco, partiu vidros, amolgou a chapa dos carros e ajudou a entupir as sarjetas.



Assim se acaba, quase, o mês de Abril, o das "águas mil..." a dar razão ao provérbio!

E agora, Maio vai brindar-nos com as trovoadas?

É que para barulhos, gritarias, confusões, agressões, já nos vai bastar a campanha eleitoral... bem que se dispensavam os raios, coriscos e trovões da Mãe Natureza!



quinta-feira, 28 de abril de 2011

A HORA DA PARTIDA

À despedida de uma Senhora, de uma Mulher, de uma Mãe, de uma Amizade que dura o tempo de uma existência, que demora o tempo de uma vida.

Dona Iza, de certeza que o São Pedro já lhe abriu as portas e lhe guardou um lugar especial.

Não é um Adeus mas apenas uma despedida, só porque chegou a Hora da Partida.

"A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida."


Sophia de Mello Breyner

quarta-feira, 27 de abril de 2011

OBRIGADO SOPHIA



"Abraça-me.

Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos.

Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas."

Sophia de Mello Breyner

Do livro a publicar, ANO COMUM - Dia 342.

terça-feira, 26 de abril de 2011

REBUÇADOS DE MENTOL

Andava há uns dias com uma grande catarreira, com tosse, expectoração, dor no peito de tanto tossir e aquela sensação de febre.

Quase nem deu pela Páscoa, nem tocou nas amêndoas e nem provou do folar... as amêndoas foram substituídas pelo antibiótico, o espumante pelo xarope, o folar da Páscoa pelo anti-inflamatório, o doce de ovos pelas papas de linhaça que colocava no peito, ao deitar...

O aperto no peito dificultava-lhe o respirar, acelerava o bater do coração, e a tosse doía-lhe a garganta, enrouquecia-lhe a voz... aquela voz baixa, quase segredante, avinhada... 

Não havia maneira de passar, nem xarope, nem antibiótico, nem as papas de linhaça, nem o anti-inflamatório faziam desaparecer a tosse, agora seca, e a rouquidão que quase o não deixava ouvir-se a ele próprio.

Descobriu numa gaveta um velho pacote de rebuçados de mentol, daqueles verdes, embrulhados em papel de alumínio, com sabor inconfundível... 


A tosse foi, a rouquidão passou, e ficou quase bom ao fim de chupar dois daqueles rebuçados de mentol... 

Porque é que não lhe deu para abrir a gaveta mais cedo?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O 25 DE ABRIL E A CLASSE POLÍTICA

Acho que em Portugal não há. 

Há deputados, há governantes, há quem viva da política, mas classe política não há.

E, muito menos, políticos com classe.

Há uns tipos a quem o povo, desgraçadamente confiou o poder e a governação e que foram deixando este país afundar-se completamente, aliás foram abrindo os buracos para que submergisse mais depressa.

A maior parte destes fulanos enriqueceu muito, mesmo muito, à custa de truques da bolsa, de parcerias públicas e privadas, de desfalques, de subornos, de extorsão de dinheiro. Boas cunhas, licenciaturas feitas à pressa, engenheiros e doutores de pacotilha e de fax, pagamentos de favores, bons lugares de administração, bons carros, tudo do bom e do melhor. São alguns milhares, mas estão descansados porque têm 10 milhões a pagar por eles e para eles.

É isto a democracia desta gente! Gente?, Classe política? não... não merecem  ser assim chamados. Antes escumalha, podridão, escroqueria, vigarice, ladroagem...o que se quiser!

Por isso já nem querem comemorar o 25 de Abril na Assembleia da República. Não precisam. Já se encheram e agora, com o FMI à porta, tratam de resguardar o que foram "roubando" ao povo, ao povo que neles confiou com o seu voto.


Uns fugiram já para Cabo Verde, outros ancoraram as contas em Angola, grande parte tem ainda os paraísos fiscais onde guardam o "papel"... um desaforo.

Quando se trata da salvaguarda do país, quando é imperioso que os portugueses se entendam, quando é preciso que haja um modo de governar e gerir da melhor maneira este país, os "senhores" deputados não se querem entender... é que, se se entenderem, já ninguém mete dinheiro ou benesses nos bolsos, já ninguém vai mais para administrador das PTs ou das EDPs, para CEO das Mota-Engis, nem para Vice-Presidente dos BCP, nem beneficia dos Mercedes dos Godinhos das sucatas, nem das falências dos bancos privados, nem da força do avental maçónico, nem dos compadrios, nem nada disso.

Se houvesse justiça neste país, o deficit ficava muito reduzido porque muitas fortunas do pós 25 de Abril teriam que ser devolvidas ao Estado e ao Povo, de novo nacionalizadas, e os senhores do FMI já não teriam que emprestar os tais milhares de milhões mas, provavelmente apenas alguns milhões.

O 25 de Abril não foi feito para isto, mas a ambição e cegueira de alguns não deixou. O resultado, agora passados estes 37 anos, mostra que o 25 de Abril apenas permitiu que, em nome de uma democracia (a do demo = diabo), se fizesse isto tudo, as asneiras, os roubos, os descalabros. Quem se preocupou com a cultura da honestidade?, com o servir este país?, com o progresso correto desta terra?, com altruísmo?, com espírito de estado (como diz o sócrates - que só diz mas não pratica), com o verdadeiro espírito democrático? 

Poucos, muito poucos, mas não os suficientes para poderem dar a volta ao podre que se escreve com as mesmas letras de poder.

Classe política? Querem o meu voto?

TOMEM...

 

domingo, 24 de abril de 2011

DOMINGO DE PÁSCOA

São João, o Apóstolo, aquele que Jesus amava, faz, numa descrição simples, o relato da ressuscitação de Cristo, da Passagem da morte para a vida. 

"...Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro.

Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram».

Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. 
Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.

Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte.

Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou.

Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos".

sábado, 23 de abril de 2011

OVO DE PÁSCOA

Há lendas, com ovos, com lebres e coelhos, com histórias chinesas, egípcias e europeias. O chocolate entra mais tarde, depois da descoberta das civilizações Maias e Aztecas.

Há, também, as amêndoas, como se fossem ovos pequenos, em ninhos de pássaros...

A Páscoa dos ovos, a Páscoa do chocolate, a Páscoa das amêndoas não reflecte nada do que é, na realidade, a Páscoa.

A Páscoa é a festa anual dos Judeus em memória da sua saída do Egipto e comemora a PASSAGEM ou travessia do mar Vermelho e também a PASSAGEM do anjo exterminador, que, na noite em que os Judeus partiram do Egipto, matou todos os primogénitos dos egípcios.

Entre os Cristãos, esta festa celebra-se em comemoração da Ressurreição de Jesus Cristo, isto é, da sua PASSAGEM da morte para a vida.

Os gregos ortodoxos também comemoram a Páscoa, como PASSAGEM morte para a vida.

Os ovos parece que caem aqui de uma forma inesperada, mas a verdade é que depois da morte de Jesus Cristo, os cristãos consagraram esse hábito como lembrança da Ressurreição e no século XVIII a Igreja adoptou-o oficialmente, como símbolo da Páscoa. Desde então trocam-se os ovos enfeitados no domingo após a Semana Santa.

(Monsaraz - Telheiro - Restaurante Sem Fim - 2006)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

AGNUS DEI

Hoje, nesta Sexta Feira da Paixão, fica este "Agnus Dei" de Samuel Barber, cantado pelo "The Mormon Tabernacle Choir" (Basílica El Escorial).


quinta-feira, 21 de abril de 2011

PRISIONEIRA

Lembrou-lhe a caravela de cristal, prisioneira dentro de uma garrafa, também de cristal, que tinha lá por casa.

Mas esta era enorme, a encher um dos cantos da praça. Uma caravela de aspecto oriental, tailandesa, seria (?), de forma esguia e elegante e com um colorido variado nas suas velas. Cheia de tantos pormenores que só faltava, agora, a imaginação deixar ver homens liliputianos a navegaram naquele barco; numa viagem parada, sem ondas, sem ventos, sem chuva e sem tormentos, ali, dentro daquele invólucro de vidro que não deixava ir a lado nenhum.

Nessa noite, ao jantar, junto com o café, e ao lembrar-se da caravela engarrafada, apeteceu-lhe, de forma irresistível, beber uma aguardente de pêra, daquela que vem numa garrafa com a pêra prisioneira lá dentro.


(Londres - Trafalgar square - 2010)

quarta-feira, 20 de abril de 2011

FIM DE TARDE

Escolheram o fim de semana certo. Com sol, algum calor, uma brisa suave...

Faz tempo que não iam a Viana.

Já nem se lembravam da última vez... Tinham ideia da ponte Eiffel, estreita, em ferro, do edifício Coutinho, grande, na entrada da cidade, do porto e dos estaleiros navais, do hospital, do Monte de Santa Luzia e do seu funicular, do templo lá no alto, a lembrar o Sacré Coeur  de Paris e, sobretudo, da vista, uma vista única, que concilia o mar com a terra e o vale do Lima com todo um complexo montanhoso.

Lembravam, sobretudo, a pousada, o quarto enorme e a varanda a permitir este avistar único, num fim de tarde inesquecível. 

E assim foram, acompanhados com o "Havemos de ir a Viana" do Pedro Homem de Mello


"Entre sombras misteriosas
em rompendo ao longe estrelas
trocaremos nossas rosas
para depois esquecê-las


Se o meu sangue não me engana
como engana a fantasia
havemos de ir a Viana
ó meu amor de algum dia
ó meu amor de algum dia
havemos de ir a Viana
se o meu sangue não me engana
havemos de ir a Viana



Partamos de flor ao peito
que o amor é como o vento
quem pára perde-lhe o jeito
e morre a todo o momento

Se o meu sangue não me engana


Ciganos verdes ciganos
deixai-me com esta crença
os pecados têm vinte anos
os remorsos têm oitenta"

(Musicado por Alain Oulman,  cantado por Amália Rodrigues, álbum "Com que voz".)



(DO AUTOR - Viana do Castelo - Santa Luzia - Basílica do Sagrado Coração de Jesus - 2003)

terça-feira, 19 de abril de 2011

A GRADE

Quando comprou a casa já lá estava!

No meio daquele muro de pedra, uma janela rasgada, sem vidros, sem portadas, mas com uma grade de ferro, bem sólida e bem fixada.

Para lá da janela, um pequeno pátio e, depois, mais nada, só uma paisagem, sem fim, a perder-se na linha do horizonte.

O tempo foi deixando que a vegetação invadisse e ocultasse parte da quadrícula desenhada por aquelas varas de ferro.

Nunca lhe quis mexer, deixou que aquelas plantas, umas vezes cheias do verde das folhas, outras prenhes de flores brancas, miúdas, constituíssem uma moldura, como um cortinado,  que amenizava a rigidez da geometria que lhe aprisionava o debruçar.


(Monsaraz - 2006)

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O CAIS

Já fora de grande utilidade. Num tempo em que a travessia para o outro lado se fazia apenas de barco, num tempo em que a pesca artesanal garantia o sustento do povo ribeirinho.

Tempos em que os barcos de transporte, auxiliados por um motor fumegante, ruidoso e pouco eficiente, seguiam na sua lentidão, quase sempre cheios de gente, na ida para os mercados, para as escolas, para os negócios, ou ainda só para passeio. Eram de meia em meia hora, todos pintados de azul. 

Com a ponte a ligar as duas margens, com as carreiras de autocarros, com a democratização do transporte individual foram perdendo a importância até que pararam definitivamente.

Também tempos em que quase cada um saía ao fim da tarde, ou cedo pela manhã, no seu pequeno barco de pesca e ia lançar as redes no meio da baía voltando de madrugada ou ao cair da noite com o peixe que garantia o alimento e o sustento económico da família.

Também, os sistemas de mercado da compra e venda de peixe, as lotas, as modernices, obrigaram ao abandono desta arte.

Parecia que ia ficar sem utilidade. Mas não. Ali continua, arranjado, de guardas pintadas de um amarelo vivo, com bancos novos e chão cimentado.

Esteve uns tempos ao abandono, até se falou em demolição, mas não!

Alguém pensou que é melhor conservar que destruir, que é melhor utilizar que deixar morrer...


(Ribeirinha - Salvador . Bahia - 2007)
E ali está, orgulhoso e jovem, a permitir o passeio dos namorados, o saltos dos miúdos para a água, a pesca à linha e ainda a servir de cais de embarque e desembarque para um passeio por aquela baía que se estende à sua frente, a perder-se de vista.

domingo, 17 de abril de 2011

SINGELAS

Começaram a aparecer agora, a quererem tapar o muro de pedra que separa a horta da figueira grande, a estenderem-se ao longo do caminho que ladeia a pequena mata, com muita ramagem verde e flores brancas, azuis e vermelhas. 

São as hortênsias, ou hidrângias, a despontarem para a vida, na altura certa.

(Açores - São Miguel)
Fazem sebes lindas, volumosas, viçosas de verde, e cheias de  cachos de flores. A maior parte são compostas, as que habitualmente aparecem. 

É, talvez, o arbusto mais típico dos Açores, as sebes dão para separar os pastos e, a partir de agora, os campos começam  a ficar lindos com aqueles muros coloridos do verde da ramagem e do azul, vermelho ou branco das flores.

Mas existe um tipo, com flores mais simples, de quatro pétalas, e outras que nunca chegam a abrir, que são conhecidas por singelas.

Chamam a atenção por isso mesmo, por serem diferentes e menos frequentes de encontrar, as singelas.


(Açores - São Miguel)

Ficam aqui estas, agora alentejanas, mas vindas dos Açores, de São Miguel, e que agora começam a abrir sob o sol forte desta primavera linda.

sábado, 16 de abril de 2011

JOGAR AO ARCO

Ao ver o quadro lembrou-lhe a sua infância, a sua meninice passada na aldeia, num tempo sem televisão, sem computadores, sem telemóveis, sem câmaras digitais.

Difícil, agora, imaginar-se a viver, numa altura, sem estes objectos todos que fazem parte, imprescindível, da sua vida!

Mas, ao ver o quadro, as lembranças saltaram de imediato para aquele tempo em que, de calções coçados, botas de carneira e um boné, sempre, por causa do sol, andava a correr, no terreiro da aldeia, atrás do arco de ferro que o seu avô lhe oferecera...

(Salvador da Bahia - 2008)

sexta-feira, 15 de abril de 2011

AMÊNDOAS

Foram as primeiras que lhe ofereceram.

Numa caixa redonda, com quatro divisões, umas clássicas, às cores, e com miolo de amêndoa, outras muito parecidas, mas com miolo de chocolate, outras só de chocolate e as de tipo Milão, com açúcar queimado a envolver o núcleo de amêndoa.

Há muitas variedades, cada vez mais, com o chocolate quase a sobrepor-se à própria amêndoa. Algumas, mesmo, já não têm nada a ver com a amêndoa, nem na forma, nem no sabor.


Mas a verdade é que, mesmo disfarçadas, mesmo já sem saberem ao que deveriam, toda a gente continua a chamar-lhes de amêndoas! E o nome persiste!

É como esta democracia de pacote, que nada tem de  verdade, esta mentira em que vivemos... estes sócrates, estes varas, esta gente toda, "amêndoas" de m...entira ou de outro m... qualquer!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

LAGARTEANDO

Fora uma semana de muito trabalho, com reuniões, os planos de trabalho a discutir, as apresentações e, para terminar, a deslocação inesperada a Barcelona.

Barcelona que, para ela, sempre fora uma cidade mágica. Foi aí que se descobriu para o amor, aí namorara com o seu marido, aí tivera a sua lua de mel; mas também conhecia a cidade dos múltiplos passeios a pé que então fizera, as mais famosas casas de Gaudi, a Sagrada Família, o Parque Güell, as Ramblas, ah! as Ramblas, sempre cheias de vida, os mini-mercados de rua, as estátuas vivas, os pintores de chão, as esplanadas, o Lyceo, o Mercat de la Boqueria, as cores... tudo a fascinava!

Desta vez veio só, sem namoro, sem lua de mel, antes de lua nova, com reuniões marcadas e horas apertadas, tudo dentro de um hotel junto ao porto olímpico.

Mas conseguiu uma tarde, só para si. Largou o fato de executiva, soltou os cabelos, calçou as sandálias e foi ao encontro de um dos seus locais de eleição.

Foi a pé, aproveitando o sol descoberto daquela tarde; os dois dias de luz artificial pediam sol e exigiam ar fresco e não renovado. Meia hora até chegar a Santa Maria del Mar. De portas fechadas, em reabilitação, só as voltava a abrir dentro de uma semana.

Sentou-se nos degraus de pedra da escadaria e deixou-se ficar, indiferente ao burburinho  local, aos passantes, às fotografias, aquecendo-se naquele sol forte, retemperador e benéfico, como um lagarto sobre uma pedra, ao sol!


(Barcelona - Santa Maria del Mar - Maio de 2009)

quarta-feira, 13 de abril de 2011

CASCO DE CARVALHO

Avistou-as ao longe, abandonadas, esquecidas, num monteco, não muito longe da estrada.

Estavam encostadas uma à outra, a acompanharem-se na solidão daquele ermo.

Vira-as da estrada e não resistiu. Parou o carro, pegou na máquina fotográfica, passou a cerca de arame e atravessou o campo verde e florido. Uns trezentos metros de distância. Durante o tempo que demorou até se aproximar, um pássaro aproveitou para descansar no alto da travessa de madeira mas rapidamente fugiu, assim que a distância se encurtou. 

Eram de carvalho francês, duas belas pipas, uns bons almudes de capacidade, que devem ter guardado muito vinho, tinto,  provavelmente das castas Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Trincadeira... as  daquela região!

Cumpriram a sua obrigação, viveram o seu tempo útil a enriquecer e apurar o vinho, em estágios de meses, provavelmente no sub-solo da adega do monte ali ao lado, com luminosidade ténue e temperatura e humidade  constantes.

Agora, estavam ali, expostas, desabrigadas, à mercê dos frios e dos calores, das chuvas e das secas, enferrujando os arcos, envelhecendo as aduelas, sem préstimo!

(Proximidades de Portalegre - Março de 2010)


À medida que se ia aproximando, sob o sol forte desta primavera luminosa e quente, imaginou-se num encontro com Diógenes, o Cínico, sempre de lamparina acesa, à procura de um homem honesto na cidade onde habitava.

Diógenes, que vivia numa barrica, e que acreditava que a virtude era melhor revelada na acção e não na teoria, fez da sua vida uma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta. Tanto trabalho que iria ter por aqui!

Mas o Diógenes não estava lá! Teria partido porque, de facto, não encontrou ninguém honesto, também por ali? Ou ficou com receio que lhe viesse a tapar o sol e lhe tirar aquilo que ninguém lhe pode dar?


terça-feira, 12 de abril de 2011

ESTÁTICO

Colocou a câmara no parapeito do muro, deu-lhe uma boa pose, o diafragma em meia abertura, para que a luz do fim de tarde ainda lhe desse muita cor, alongou até onde pode a profundidade do campo de visão, e disparou. Quase um longo segundo, quase uma eternidade em termos de disparo.

Mas saiu a fotografia que queria. As cores da Tuscânia, os telhados, a cúpula lá ao longe...  e a ponte, com aqueles longos arcos abatidos, de enorme elegância, a espelharem-se nas águas tão lisas e tranquilas do Arno...

Aqui, uma Florença sem estátuas, sem praças monumentais, quase sem gente, quase em silêncio.

Mas uma Florença que também sabe estar a sós, com o seu rio, as suas margens e as suas pontes...

(Florença - 2010)

segunda-feira, 11 de abril de 2011

FAZ TEMPO

Juntou uma folga a um feriado, mais o sábado e o domingo, e conseguiu um fim de semana prolongado.

Apanhou um daqueles voos "low cost", ida e volta, sem direito a bagagem de porão, por umas poucas dezenas de euros, com hotel no centro da cidade, um três estrelas de bom aspecto, que tinha visto no site do "booking.com", e lá foi.

Já conhecia a cidade. Já lá tinha estado antes, há já uns  anos. Ficara fascinada na altura. Tinha gostado da vida, do movimento, da animação. Ligara pouco aos monumentos, aos museus.

Agora, mulher adulta, com vida organizada, permitiu-se a voltar de novo, a ir a seu gosto, fazer um fim de semana, à sua maneira. Queria ver a cidade com outros olhos, percorrer a pé as ruas, atravessar os parques, ver, especificamente, o museu de arte moderna e apreciar, também, a vida nocturna.

Faz tempo que estava ali encostada! Chegara cedo demais! Mas era ali, naquele sítio, que tinha marcado encontro, junto às escadas de acesso ao parque que fica mesmo ao lado do edifício do museu.

Tinha combinado com um amigo que vivia na cidade. Ele era especialista em arte moderna e prometera fazer-lhe uma visita guiada ao museu, levá-la a um musical, depois um jantar num restaurante que ela, certamente, iria gostar e o resto da noite a prometer animação.

Detestava esperar mas, desta vez, não teve outro remédio. Não ia sair dali, do ponto de encontro. E, assim, enquanto esperava, para não perder tempo, ia pondo a conversa em dia...



(LONDRES - JUNHO 2010)

domingo, 10 de abril de 2011

ÚNICA

Estava ali! Solitária, no meio de uma terra de areia meia estéril. Sobressaindo de um tufo de plantas feitas de hastes, algumas com folhas verdes, outras, poucas, com gomos de flores quase a rebentar. Mas ela era única|

Amarela, luminosa, cada pétala com um olho escuro, cinco, como se estivessem a olhar a objectiva, a preparar a pose para a fotografia.

Quase vaidosa! A sorrir!


(Parque Donãna - 2010)

sábado, 9 de abril de 2011

CHEGADA

Vinha carregada, cheia de peixe.

Uma noite de faina, as redes pesadas, o sustento daqueles homens... e agora o regresso a casa, antes da alva. 

A caminho da lota!

E, à medida que a chegada se aproxima, o sol, de frente, começa a iluminar o dia, a acordar a vida, a despertar as aves marinhas que, atrás do cheiro, na cobiça do peixe grátis, se juntam às dezenas, depois às centenas, agora aos milhares... a deixar uma cauda imensa, agitada, esvoaçante.

Milhas e milhas assim, de voar constante, de mudanças de posição, como se fora um cardume aéreo, de peixes voadores...

(Vilamoura - Algarve - 16/09/2008)
  

sexta-feira, 8 de abril de 2011

PRIMAVERA

Em pleno!

Com sol! Com calor! Com muita luz! Com imensa cor!

Hoje o dia foi assim, com a natureza a vibrar de vida, os pássaros em pleno namoro, as cegonhas a baterem intensamente os bicos, as flores a encherem de cor a paisagem.

(Barragem de Belver - 08/04/2011)

De todas as fotos tiradas naquele bocado de tarde, junto à barragem, escolheu esta. Pela singeleza? Pelo branco quase imaculado? Pelo verde das folhas? Pelo azul do céu?

Coisas simples que, sem alardes e sem mentiras, sabem construir tanta beleza!

Quem dera os homens o soubessem, também, assim fazer!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

OS PINGOS DOS OLHOS

Começou com aquela irritação nos olhos, a quererem chorar, como se tivessem areia, a pedirem para serem coçados.

Acordara com os olhos vermelhos, chorosos, irritados e, ainda por cima, com o nariz a pingar.

Não sabia se tinha sido da discussão de ontem - já não suportava aquela relação! - ou se do início da primavera que, este ano, se tem mostrado muito agressiva.

Pelo sim, pelo não, resolveu tomar o ansiolítico, pôr o spray do nariz e colocar os pingos nos olhos.

Passou o resto da tarde melhor, com os olhos menos vermelhos, o nariz mais seco e mais tranquila.

Só não conseguiu acabar com a angústia de alma!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

HELP

Finalmente o primeiro ministro, o sócrates, não teve outro remédio se não solicitar o pedido de ajuda financeira.

Depois de tanta mentira ao povo, de tanta arrogância governativa, de tanto disparate e de tanto dislate, o homenzinho não teve outra alternativa. Mas mentindo sempre: até na saída do Conselho de Estado mentiu; é que aquilo é superior às suas forças.

Mas agora, mesmo acusando os outros, a oposição, da culpa de a dívida pública ter aumentado mais do dobro nestes últimos tempos, quando teve tempo mais que suficiente de governos de maioria para equilibrar as finanças, não teve outra solução se não subjugar, mas com arrogância e peneirice, apenas para salvaguardar a imagem, porque nada mais existe naquela cabeça (Dorian Gray no seu melhor?).

Vale a pena ver este extracto:

http://www.youtube.com/watch?v=Z7DY4G4QQPU&feature=player_embedded

É a crise num dos seus momentos hilariantes... 

"Ahahahahahh... gargalhou o cínico", como dizia um comediante brasileiro, Agildo Ribeiro, no programa Planeta dos Homens: aquele da Bruna Lombardi e do "Pára com isso, múmia paralítica! Coisa horrorosa!".


TLIM, TLIM, TLIM!
 

terça-feira, 5 de abril de 2011

O LUÍS DA ROCHA

É um ícone de Beja.

Café super clássico, com uns salgados e doces maravilhosos! 

A deslocação a Beja, o tempo curto de estadia, deu ainda tempo para lá ir: ver a montra com o porco preto de chocolate, as trouxas de ovos, as queijadas de queijo de Serpa, as trouxas e as famosas empadas de galinha, em forma de copo, de sabor único.

A tarde quente, abafada mesmo, a lembrar aquelas tarde do fim de Verão, de um Setembro a pedir trovoada, anunciou-se, assim, neste dia de primavera. Por isso, soube bem o sentar na esplanada a deliciar-se com a célebre da empada.

Há sítios que nunca se esquecem, que se recordam sempre e que nunca deveriam acabar. 



Além do mais, Beja está linda, a pedir uma visita, e o café Luís da Rocha está como sempre esteve, excelente.

Recomendo!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

VER AS MONTRAS

Chegara atrasada à Consulta!

Não era de admirar, naquela manhã o sindicato dos trabalhadores da Soflusa resolveu, mais uma vez, fazer greve, e lá ficaram parados os barcos do Barreiro e, por uma terrível coincidência, o sindicato dos trabalhadores do Metro, idem idem, aspas aspas.

São os sindicatos dos trabalhadores dos transportes a tramarem a vida aos outros trabalhadores. A não devolverem o dinheiro do passe e dos bilhetes, a não pagarem o subsídio dos transportes que é cortado aos outros trabalhadores - que se vêem obrigados a chegar atrasados ao trabalho, apesar de se terem levantado duas horas mais cedo que o habitual -, a diminuírem a produtividade empresarial, a lixarem, ainda mais, os que trabalham e que, se não fossem estes a usar os transportes públicos e a pagarem mensalmente o passe, aquela gente nem sequer emprego tinha.

Claro que tudo é feito em nome do povo que trabalha, na defesa dos interesses da classe operária, contra o patronato, o capitalismo, o imperialismo americano, e aquela conversa toda de cassete estafada de tantos anos desde 1974.

A dona Maria Isabel, essa, como também já está na pré-reforma, aproveitou  facto de haver greve para ir, no tempo que lhe resta para que acabe a paralisação dos barcos e do metro e regressar a casa, dar uma volta pelos Centros Comerciais, só para ver as montras, porque dinheiro, esse, tem pouco e está caríssimo!

domingo, 3 de abril de 2011

MENINA DAS TRANÇAS PRETAS

Acordara com esta canção-fado, ou fado-canção, ou só fado, "A Moda ou a Menina das Tranças Pretas", interpretada pelo Vicente da Câmara

"Como era linda com seu ar namoradeiro..."  e por aí fora.

Ficou-lhe na cabeça, persistente, o "Como era linda..." e, como não sabia a letra toda de cor, quando esta lhe falhava, trauteava um lálálálá...

Tão insistentemente e tão fortemente esta menina lhe preencheu a cabeça que não resistiu... e foi ao Chiado!

Manhã cedo, de um dia que acordou fresco, meio coberto de nuvens cinzentas, mas bom para se passear. Desceu desde o Largo de Camões até ao Rossio, meteu-se no Elevador de Santa Justa até ao largo do Carmo e depois lá se enfiou pela escadaria íngreme do Metro do Chiado, e regressou a casa.

Neste desce e sobe, parou na Brasileira, cumprimentou o Pessoa de bronze ali sentado à mesa, bebeu a bica ao balcão e lá foi, rua abaixo, a trautear a Menina das Tranças Pretas... mas não a viu, assim como não viu tranças pretas, nem violeteiras. Também não viu meninas de alta roda e, muito menos, de cabelo comprido e nem, sequer, uma violeta, seja no cabelo, seja num vaso a uma janela.

Àquela hora o Chiado estava ainda meio adormecido, vazio de pessoas, sem vida, a acordar de uma manhã de domingo. Que adiantava, então, andar a vender flores àquela hora, sem ninguém nas ruas? 

Pois é, também, segundo a letra, foi-se embora e deixou saudades. Por onde andará ela agora?  Casou? Terá filhos? Ainda vende violetas?

(aguarela de Jorge Alexandre)


"Como era linda com o seu ar namoradeiro
Até lhe chamavam menina das tranças pretas
Pelo chiado caminhava o dia inteiro
Apregoando raminhos de violetas

E as meninas da alta roda que passavam

Ficavam tristes ao olhar o seu cabelo
Quando ela olhava, com vergonha o disfarçavam
E pouco a pouco todas deixaram cresce-lo

Passaram dias e as meninas do chiado

Usavam tranças enfeitadas com violetas
Todas gostavam do seu novo penteado
E assim nasceu a moda das tranças pretas

Da violeteira já ninguém tem esperança

Deixou saudades foi-se embora e à tardinha
Está o chiado carregado de mil tranças
Mas tranças pretas ninguém tem como ela as tinha."

sábado, 2 de abril de 2011

NOSTALGIA

Resolvera, naquela tarde, ir pela estrada nacional número 4.

A estrada que sempre fizera nas suas deslocações semanais. Agora toda arranjada, mais larga, de bom piso, bem sinalizada. Uma boa alternativa à auto-estrada.

O caminho até Pegões, desta vez pela Atalaia,  depois a Marconi com a sua igreja a lembrar as chaminés de "mãos postas" da ilha Terceira, o Bombel e aquela recta longa ladeada de casas, tascas e cafés, e a chegada às Vendas Novas.

Aqui com paragem, obrigatória, no café Boavista, a Casa das Bifanas.




Quase na mesma, como se fora uma paragem no tempo: a mesma sala, o balcão corrido, com a enorme colecção de garrafas miniaturas lá por detrás, o mesmo empregado, careca, mas com mais 30 anos em cima, e as bifanas! O mesmo tipo de pão, aquela carne de porco bem batida, espalmada, a escorrer molho, aquele sabor único, e ainda a mostarda, a cerveja... e, as queijadas de requeijão, uma delícia.

Foi mesmo um regresso ao passado. As primeiras vezes que ali fora com um médico seu amigo, um grande amigo, e depois, quase semanalmente, o passar ali,  manhã cedo, a tomar o pequeno almoço de bifana e bica, ou à noite, a jantar a bifana, a imperial, a queijada e a bica. 

Foram anos seguidos de passagem, de paragem, de guardar sabores, que agora voltou a recordar.

A verdade é que, depois das bifanas e da nostalgia dos sabores, o resto da viagem, já foi feita na velha Dyane, na estrada estreita, cheia de curvas e de lombas, ladeada de mimosas, agora bem amarelas... 

sexta-feira, 1 de abril de 2011

PRIMEIRO DE ABRIL

Eu hoje acordei a falar bem do sócrates, a elogiar o trabalho que o governo socialista tem feito em prol do deficit, a achar que os "boys" do primeiro ministro deveriam ganhar o dobro e, em vez de mercedes e audis, deviam andar de porsche  ou jaguar para poderem andar mais rapidamente, de fundação em fundação e de instituto  em instituto, a sacar os dinheiros do cofre público, a concordar que o partido socialista tem feito o melhor papel do mundo em defesa dos menos afortunados e dos idosos,  a contrariar todos os que dizem que ele é um mentiroso, a insurgir-me contra os que dizem que nunca irão votar socialista.

Ainda bem que hoje é o dia 1 de Abril, o dia das mentiras... é que podiam pensar que eu estava a falar verdade!

Só vejo uma explicação para a mentira fazer parte das verdades do sócrates: acho que  a mãe dele, por falta de papel higiénico, deve ter-lhe limpado o rabo com a folha de um calendário de um dia 1 de Abril e, assim, a mentira entrou-lhe, por osmose. Faz lembrar a história do Obelix que caiu no caldeirão com a poção mágica, mas este ficou com força sobrenatural, ao passo que o outro ficou um mentiroso compulsivo... E em vez de ser primeiro ministro devia era ser primeiro de Abril.