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quarta-feira, 13 de abril de 2011

CASCO DE CARVALHO

Avistou-as ao longe, abandonadas, esquecidas, num monteco, não muito longe da estrada.

Estavam encostadas uma à outra, a acompanharem-se na solidão daquele ermo.

Vira-as da estrada e não resistiu. Parou o carro, pegou na máquina fotográfica, passou a cerca de arame e atravessou o campo verde e florido. Uns trezentos metros de distância. Durante o tempo que demorou até se aproximar, um pássaro aproveitou para descansar no alto da travessa de madeira mas rapidamente fugiu, assim que a distância se encurtou. 

Eram de carvalho francês, duas belas pipas, uns bons almudes de capacidade, que devem ter guardado muito vinho, tinto,  provavelmente das castas Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Trincadeira... as  daquela região!

Cumpriram a sua obrigação, viveram o seu tempo útil a enriquecer e apurar o vinho, em estágios de meses, provavelmente no sub-solo da adega do monte ali ao lado, com luminosidade ténue e temperatura e humidade  constantes.

Agora, estavam ali, expostas, desabrigadas, à mercê dos frios e dos calores, das chuvas e das secas, enferrujando os arcos, envelhecendo as aduelas, sem préstimo!

(Proximidades de Portalegre - Março de 2010)


À medida que se ia aproximando, sob o sol forte desta primavera luminosa e quente, imaginou-se num encontro com Diógenes, o Cínico, sempre de lamparina acesa, à procura de um homem honesto na cidade onde habitava.

Diógenes, que vivia numa barrica, e que acreditava que a virtude era melhor revelada na acção e não na teoria, fez da sua vida uma campanha incansável para desbancar as instituições e valores sociais do que ele via como uma sociedade corrupta. Tanto trabalho que iria ter por aqui!

Mas o Diógenes não estava lá! Teria partido porque, de facto, não encontrou ninguém honesto, também por ali? Ou ficou com receio que lhe viesse a tapar o sol e lhe tirar aquilo que ninguém lhe pode dar?


1 comentário:

Anónimo disse...

Diógenes de Sínope ostensivo e irónico, desprezando os homens.Foi com os animais, que aprendeu a viver "segundo a natureza".Foi no séc. IV,terá tido os seus motivos, mas há quem prefira a simplicidade socrática. Onde a sua original fotografia nos levou...