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domingo, 3 de abril de 2011

MENINA DAS TRANÇAS PRETAS

Acordara com esta canção-fado, ou fado-canção, ou só fado, "A Moda ou a Menina das Tranças Pretas", interpretada pelo Vicente da Câmara

"Como era linda com seu ar namoradeiro..."  e por aí fora.

Ficou-lhe na cabeça, persistente, o "Como era linda..." e, como não sabia a letra toda de cor, quando esta lhe falhava, trauteava um lálálálá...

Tão insistentemente e tão fortemente esta menina lhe preencheu a cabeça que não resistiu... e foi ao Chiado!

Manhã cedo, de um dia que acordou fresco, meio coberto de nuvens cinzentas, mas bom para se passear. Desceu desde o Largo de Camões até ao Rossio, meteu-se no Elevador de Santa Justa até ao largo do Carmo e depois lá se enfiou pela escadaria íngreme do Metro do Chiado, e regressou a casa.

Neste desce e sobe, parou na Brasileira, cumprimentou o Pessoa de bronze ali sentado à mesa, bebeu a bica ao balcão e lá foi, rua abaixo, a trautear a Menina das Tranças Pretas... mas não a viu, assim como não viu tranças pretas, nem violeteiras. Também não viu meninas de alta roda e, muito menos, de cabelo comprido e nem, sequer, uma violeta, seja no cabelo, seja num vaso a uma janela.

Àquela hora o Chiado estava ainda meio adormecido, vazio de pessoas, sem vida, a acordar de uma manhã de domingo. Que adiantava, então, andar a vender flores àquela hora, sem ninguém nas ruas? 

Pois é, também, segundo a letra, foi-se embora e deixou saudades. Por onde andará ela agora?  Casou? Terá filhos? Ainda vende violetas?

(aguarela de Jorge Alexandre)


"Como era linda com o seu ar namoradeiro
Até lhe chamavam menina das tranças pretas
Pelo chiado caminhava o dia inteiro
Apregoando raminhos de violetas

E as meninas da alta roda que passavam

Ficavam tristes ao olhar o seu cabelo
Quando ela olhava, com vergonha o disfarçavam
E pouco a pouco todas deixaram cresce-lo

Passaram dias e as meninas do chiado

Usavam tranças enfeitadas com violetas
Todas gostavam do seu novo penteado
E assim nasceu a moda das tranças pretas

Da violeteira já ninguém tem esperança

Deixou saudades foi-se embora e à tardinha
Está o chiado carregado de mil tranças
Mas tranças pretas ninguém tem como ela as tinha."

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