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terça-feira, 31 de julho de 2012

MÁ LÍNGUA

Podia falar-se mal, à vontade, sem segredos, sem mãos em concha nos ouvidos, sem o "não contes nada para ninguém", sem restrições, sem voz baixa, sem cicios...

Podia-se falar mal do governo, do desgoverno, da assembleia, dos autarcas, da vizinha, do colega de trabalho, da chefe, do patrão, da empregada de limpeza, do senhor da loja que quis vender gato por lebre, da comida do restaurante, das medidas de austeridade...

Os ingleses, em Londres, num dos cantos do Hyde Park, em Marble Arch, mesmo junto à Oxford Street, têm um "Speakers Corner" onde as pessoas, abertamente, podem falar do que quiserem, durante um período de tempo considerado razoável, e desde que não sejam ofensivos para a família  real ou o governo. Devem fazer o discurso, ou a conversa, em cima de um caixote ou um tablado para, assim, não estarem em solo inglês e, deste modo, não ficarem sujeitos às leis e tradições britânicas.

(DO AUTOR)

Mas, naquela Sala da Má Língua, bem ao estilo nacional, a conversa é à porta fechada, num diz que se disse, numa conversinha feita com língua de prata, não assumida, escondida, segredada, naquele "dizem para aí para não passar daqui"...


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segunda-feira, 30 de julho de 2012

RENASCER

O fogo tinha devastado quase tudo. O pinheiro quase virara carvão no sufoco daquele incêndio de pavor. Tudo, ou quase tudo, tinha ardido em seu redor.

E só, no meio daquela cor sem cor, daquele uniforme cinza que enchia a paisagem de monotonia, aquele ramo, qual flor feita de uma pincelada colorida, numa atitude erectamente ao céu dirigida, afirmava a sua presença, proclamava vida...


(DO AUTOR - NO CORAÇÃO DO ALENTEJO)
... como uma Fénix, das cinzas renascida! 

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domingo, 29 de julho de 2012

VIDA DE GATO

Deixou-se ficar em cima do muro, pachorrento, naquela modorra que a tarde quente exigia! 

Apenas abriu um olho no momento do disparo da fotografia.

(DO AUTOR - GATO ALENTEJANO)
E por ali ficou o resto do dia, com ar de fidalgo, com ar de quem gosta de olhar de cima, em completa mordomia...

Vida boa, a vida de gato... 

sábado, 28 de julho de 2012

TRINADOS

Acordou, manhã cedo, com um trinado mesmo perto da janela que deixara entreaberta.

Ainda meio estremunhado levantou-se e, com as devidas cautelas, foi-se aproximando daquela fresta que deixava entrar a luz, acordando a manhã, escutando o som melodioso do pássaro, que o despertara para o dia.

(DO AUTOR - NA SERRA ALENTEJANA)

Espreitou e lá estava ele, na ponta do ramo, num equilíbrio estável e seguro, a gorjear ao dia, a saudar o sol, a marcar posição na sua área de influência, a lembrar aos outros pássaros que as moscas, as libelinhas, as larvas e os frutos das árvores ali à volta lhe pertenciam e, por isso, teria a primazia na hora de satisfazer o papo. Cantava, assobiava, parava o cântico, mudava, num pulo quase sem bater as asas, para outro galho, e assim se entretiveram os dois... o pássaro nas suas cantoria e ginástica matinais, e ele no encanto da escuta e da visão!

Apetecia-lhe ficar assim, sossegado, a observar a natureza nos seus acordares... mas tinha que ir trabalhar e não podia estar ali, naquele remanso... o pássaro deve ter entendido as suas lucubruções e, também porque teria ainda muito mais que fazer, depois de mais um gorjeio, de mais um pulo, deu um bater de asas e partiu...


sexta-feira, 27 de julho de 2012

CÉU CARREGADO

Hoje, o dia acordou meio cacimbado, enevoado, quase frio, com um chuveirinho miudinho,  incapaz de molhar o que quer que fosse, mas exigindo um agasalho mais consistente...

Com o correr do dia, o calor foi-se afirmando com mais convicção, mas o céu nunca se libertou das nuvens carregadas e ameaçadoras de chuva e de trovoada...

(DO AUTOR - O CÉU CARREGADO)

Agora, com o dia quase a despedir-se, com o sol a desaparecer lá no fundo do mundo, hoje invisível, as nuvens começaram a despejar as ameaças do dia... caiu a chuva feita de gotas grossas, depois o ribombar longínquo dos trovões e, sem se anunciar, um raio forte, estalado, metálico iniciando a trovoada.


Um céu de Verão português a querer imitar o céu londrino na comemoração deste dia de abertura dos Jogos Olímpicos. 

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A PONTE

Era a única ponte da aldeia! 

Ligava as duas margens de um riacho de águas soltas e rápidas formadas, mais acima, a partir do degelo da muita água, feita de chuva, neve e granizo, solidificada e compactada pelos frios constantes daquelas altitudes.

(DO AUTOR - BULNES LA VILLA - PICOS DA EUROPA - ESPANHA)
Era uma ponte de madeira,  sólida,  secular e romântica. O chão, feito de enormes barrotes, estava coberto por um tapete de cascalho fino trazido pelo rodado dos carros e nos pés dos passantes e que, com o tempo, se foi infiltrando naquele lenho. A largura estava dimensionada à dos carros de bois, permitindo a passagem de um da cada vez... Nas guardas, também de madeira, havia uma placa metálica, mesmo no meio da ponte, a indicar o nome do ribeiro cujas águas ela deixava passar por debaixo.

Nos anos de mais inverno, de mais chuva, ou de mais degelo, as águas engrossavam e, quantas vezes, excediam as margens e cobriam a ponte com a sua impetuosidade... As águas, nessas alturas, vinham cheias de força, volumosas, tormentosas e assustadoras... A aldeia ficava isolada o tempo que as águas, assim, o impunham mas a vida sempre se foi fazendo, as pessoas trabalhando e a aldeia vivendo.

Até ao dia em que, na ânsia de uns votos fáceis, para a conquista de um lugar na câmara de deputados, o candidato prometeu uma ponte nova, mais larga, mais alta, mais sólida, acenando mais progresso com cimento e ferro, com mais trânsito, com mais urbanismo... 

E, à medida que a nova ponte era construída, a velha ia sendo desmantelada a golpes de machado, de serras eléctricas, ferindo de morte e aniquilando aquela velha passagem. E a nova ponte foi inaugurada com pompa e circunstância, com direito a corte de fita e a uma placa.

A pouco e pouco a aldeia foi-se descaracterizando, a sua ruralidade morrendo e arrastando consigo algumas das pessoas que a habitavam, levando outras para outros lugares e agora a aldeia está vazia, uma aldeia feita de casas abandonadas, fria e morta, mas com uma ponte nova, grande, de cimento e ferro, uma ponte que, afinal, abriu o caminho para que as pessoas se fossem embora e permitindo a passagem do enterro da própria aldeia.

O deputado, esse, continua lá, na câmara, dormitando durante as sessões, mas com o seu nome eternizado numa placa de metal na entrada de uma ponte que, agora, não leva a lugar nenhum!




quarta-feira, 25 de julho de 2012

TROTE APRESSADO

Saiu do estábulo, a passo, a caminho do campo de treino... mal chegados começou com um trote curto, deu duas voltas e, depois, soltou-se num trote mais apressado para ir desenvolvendo e libertando os músculos tensos, e ainda levemente doridos, do animal.

Parado duas semanas, para tratamento de uma entorse na pata traseira esquerda, foi com todas as cautelas que iniciou a recuperação. O veterinário fora categórico: duas semanas parado, massagens locais três vezes por dia, faixa de contenção permanente, anti-inflamatório três vezes por dias disfarçado na água de beber.

Estava praticamente bom, a venda estava acordada e a entrega seria amanhã...

Ia ser dolorosa a separação... Ela que o vira nascer, que o criara a biberão, pois a mãe morreu durante parto, que sempre cuidou dele, ela que o desbastou, e que nunca deixou que outra pessoa o montasse naquela fase...

(DO AUTOR - VILAR DE MOUROS)

Constituíam um binómio quase perfeito, criaram uma cumplicidade única, uma ligação simbiótica... o cavalo e a tratadora! 

Passou a semana toda em preparação para a entrega e estava totalmente recuperado; por isso, naquela tarde, por ser a última, prolongou o treino e deu, com ele, um passeio mais longo, naquele trote apressado que ele tanto gostava...

terça-feira, 24 de julho de 2012

PIRATAS

Este mar está estranho... anda com pouco peixe, tem golfinhos onde menos se espera, venta onde não costuma, está calmo onde devia estar nortada, tem onda quando devia estar liso, fica um mar de azeite quando se esperava que tivesse carneirada...

(DO AUTOR - AO LARGO DE PORTIMÃO)
... e tem piratas!

Verdade!

Tem piratas, mas sem perna de pau, sem olho de vidro, nem cara de mau!  Piratas que não assaltam, não roubam e não matam... apenas vão aos bolsos de ansiosos turistas desejosos de ver as grutas, o fundo do transparente mar azul feito de areias brancas e o recorte esculpido da costa.

Piratas que colocam a bandeira com caveira e tíbias mas, em vez de ser negra como a cor da morte, é azul como a cor do mar e do céu...

Melhor um assalto destes piratas - um assalto doce e tranquilo em que a única agitação e emoção é feita no momento em que é dado o tiro... de partida para mais um passeio às grutas! - do que aquele que é feito diariamente aos bolsos dos contribuintes, aos salários de quem trabalha, aos subsídios de férias de quem as merece...  



segunda-feira, 23 de julho de 2012

EM SOLITÁRIO

A viagem fora longa, dezasseis horas no mar, sem ninguém à vista, nem um barco, apenas uma vela no horizonte, no mesmo rumo, sempre atrás, à mesma distância...

No meio do mar imenso três golfinhos passaram perto, ao lado do barco, num saudar rápido, num salto fora de água de curiosidade e, no mesmo instante, partiram na continuação do seu destino...

E mar e mar, aquela monotonia feita azul dos dois lados, escuro e denso em baixo, azul e solto, em cima...

(DO AUTOR - OCEANO ATLÂNTICO AO LARGO DA COSTA PORTUGUESA)
E só, de tempos a tempos, uma gaivota aparecia e fazia um pouco de companhia, dava o seu grito de presença, surfava sobre as ondas com destreza, e lá partia, no seu voo desatinado, feito de constantes virares e voltares, de olhos pregados na superfície do mar tentando descobrir um peixe...

Agora, em terra, no meio do barulho, da confusão e  de tanta agitação lembra os bons momentos de paz, de silêncio e de encontro que o mar imenso e envolvente lhe proporcionou...


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domingo, 22 de julho de 2012

ALMAS PENADAS

Afinal elas andam por aí... algumas ainda acompanhadas dos cadáveres, mas a verdade é que andam! E não se escondem: têm casa própria, no número 78 de uma rua qualquer, em Sines.

E devem ser muitas, ou muitos, porque entram e saem, a qualquer hora do dia, como se fosse uma garagem ou um parque de estacionamento, em que os veículos estão sempre a entrar e a sair... Daí o aviso, em letras bem gordas e bem explícito, a não deixar estacionar... 

Até dá para assustar aquelas pessoas mais sensíveis, que não gostam de mortos, de cadáveres que entram e saem e, muito menos, de almas penadas. Imagine-se o que possa acontecer a uma pobre pessoa, distraída, que vai a passar em frente da porta do número 78, da tal rua qualquer coisa, em Sines e, de repente, lhe surge um cadáver a pedir licença porque quer entrar... - Permite?, diz com aquela voz gutural e arrastada que deve ser própria dos mortos e das almas penadas... Morre de susto, a pobre coitada... 

E, se é um cadáver deve ter que levar chaves para poder entrar, ao passo que as almas penadas não devem precisar, devem passar através da porta, num fenómeno de transposição, porque já perderam a matéria.

Fica a dúvida se, ao se fotografar a porta com o aviso, não estaria por ali uma alma penada, a entrar ou a sair, e que tenha ficado, invisível, na fotografia. Por isso será bom não se olhar durante muito tempo e fixamente para a fotografia, não esteja por lá, a imatéria de uma alma penada e a pessoa, de olhar, fique com algum mau-olhado!



(DO AUTOR - EM SINES)



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sábado, 21 de julho de 2012

PELA LUZ DOS OLHOS TEUS




(DO AUTOR - CABO DE SÃO VICENTE)
"Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só para me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos meus olhos já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar."

Vinícius de Moraes - Pela luz dos olhos teus.






sexta-feira, 20 de julho de 2012

A FRENTE DO FOGO

Quase pareciam uns palonços, de pasmados, que estavam a olhar o céu, não para ver os aviões, nem por terem nada que fazer mas, antes, porque nada podiam fazer...

A linha da frente do fogo avançava, inexoravelmente, o vento forte era o seu melhor cúmplice e a pouca acessibilidade do terreno ajudava, também. Os bombeiros, impotentes, olhavam de longe... e, a frente do fogo, lá ia avançando, metro a metro, queimando hectares e deixando no ar, a ser vista bem longe, uma nuvem negra e avermelhada que punha cabeças no ar, não como as dos palonços a ver os aviões, mas a calcularem distâncias, a adivinharem extensões, a preocuparem-se com o mal dos outros, a pensarem que, de ameaças destas, ninguém se livra...

(DO AUTOR - FOGO NAS MATAS ENTRE PONTE DE SÔR E GALVEIAS)








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quinta-feira, 19 de julho de 2012

OS PALONÇOS

Passam o dia a olhar para o ar... a ver os céus... Ali, no redondo de uma praça, estes, estáticos e empedernidos estão a ver os aviões... os que levantam, os que aterram ou, simplesmente, os que passam...

(imagem do Google)


Parecem uns palonços, estes bonecos de pedra, da escultora Teresa Paulino, a imitarem a atitude de tanta gente... de gente de carne e de osso, como as pessoas, mas que se deixam ficar, assim, quietos, parados, expectantes, imbecilmente à espera da vida, parvamente aguardando alguma coisa, ou alguém, mas não fazendo nada para a atingirem...

Não vivem, mas vegetam, não têm trabalho, nem profissão (ser deputado, ser ministro, ser político, também não é profissão)... mas sabem viver de subsídios, ou viver à custa dos outros, ou sabem procurar expedientes...

Ou palonços serão os outros, os que trabalham, os que não têm tempo  para olhar para o ar, nem (quantos?) dinheiro para andar nos aviões, os que pagam impostos para alimentar os outros palonços, os de cima?


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quarta-feira, 18 de julho de 2012

ELEVADOR DA GLÓRIA

(DO AUTOR - ELEVADOR DA GLÓRIA - LISBOA)


À noite o elevador, quando sobe no seu vagar a ladeira da Glória, traz, lá de baixo, um mundo de gente ansiosa por mergulhar nas ruelas estreitas do Bairro Alto...

Sobe lento, com um ruído feito pelo chiar das rodas nos carris, a meio do percurso cruza-se, invariavelmente, com o seu gémeo que lhe serve de contra-peso e, ao chegar ao topo, parece que vai beijar os degraus gastos daquela íngreme calçada.

Anda, assim, neste sobe e desce constante a transportar pessoas, desde 1885.

Os "Rádio Macau", em 1988, levaram-o até ao mundo das canções:

O Elevador da Glória:

" Daquilo que está por baixo
Até ao que fica no alto
Vão dois carris de metal
Na calçada de basalto
Desde este lugar sem história
Até um lugar na história
Vão apenas dois minutos
No elevador da glória

Duma existência banal
Até às luzes da ribalta
Há dois carris de metal
Desde a baixa à vida alta
Desde o triste anonimato
Desde a ralé e escória
Até à fama e ao estrelato
Há o elevador da glória"

terça-feira, 17 de julho de 2012

PELA MAGIA DUM RISCO


(DO AUTOR - O MAR AO ENTARDECER)


No fim da tarde
Que morre
A cor do oiro percorre
As águas quase quietas
Deste mar
Onde uma brisa
Em breves sopros desliza.


E quando as águas
Se ondulam
- Pela magia dum risco -
Soltam-se os tons que azulam
As espumas inquietas
Que na pressa de chegar
Se esgotam na beira do mar.

 


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segunda-feira, 16 de julho de 2012

ROSA TARDIA

(DO AUTOR - COVADONGA - PICOS DA EUROPA - ESPANHA)


"Como uma rosa jovem, a minha amada...
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.

Ah, porque não a deixas intocada
Poeta, tu que és pai, na misteriosa
Fragância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa...

Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste

Tão dolorosamente pela vida?
Ela é rosa, poeta... assim se chama...
Sente bem seu perfume... Ela te ama..."


Vinícius de Moraes, in Soneto da Rosa Tardia



domingo, 15 de julho de 2012

CAMINHANDO SOBRE FACES

O projecto começou por uma série de fotografias de rostos de voluntários, 1870 mais precisamente, aos quais era pedido que imitassem uma de três expressões propostas, todas com os olhos fechados.

Fizerem-se outras tantas fotografias a preto e branco, impressas em quadrados de madeira, que ficaram dispostos no chão da Sala Gótica.

Caminhando sobre Faces é um trabalho artístico, reflectivo, cheio de força, em que o autor - Bernardi Roig - pretende dar uma visão horizontal, neste caso de cabeça baixa, num espaço enorme, de uma sala gótica, onde o que domina é uma visão vertical feita de colunas, janelas e portas e que, quase imperativamente, obriga as pessoas a olharem para cima.

O desafio proposto era, precisamente, modificar a forma de olhar, ou seja, ao entrar naquele local, em vez de se olhar para cima - para as colunas, para o tecto, para as portas e janelas -, sugestionar a visão a dirigir-se para baixo, de modo a olhar o chão e caminhar sobre aquelas caras, fazendo caretas, de olhos fechados...

(DO AUTOR - LA LLOTJA - WALKING ON FACES - BERNARDI ROIG)
(DO AUTOR - LA LLOTJA - WALKING ON FACES - BERNARDI ROIG)
 Não são mais do que uns que olham de cima para baixo, como se olhassem os seus próprios pés, de olhos bem abertos, num olhar horizontal, que olha caras de olhos fechados que, por não verem, não podem olhar...

O desafio foi conseguido!

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sábado, 14 de julho de 2012

VENDE-SE

Nem soube bem o que lhe chamou mais a atenção, se o "VENDE-SE" escrito em maiúsculas grandes, de cor azul, na parede branca sem janelas daquela casa, se o "graffiti"  criativo que preenchia a fachada de todo o prédio ao lado.

Um chamou-lhe a atenção pela pluralidade e frequência com que o "VENDE-SE", agora, se vê por todo o lado seja, assim, escrito nas paredes de uma casa ou de um muro, seja em cartazes pendurados nas janelas, geralmente associados ao nome de uma firma de compra, venda e arrendamento de imóveis ou, então, um simples papel branco com um VENDE ou TRATA e um número de telefone, por baixo, apostado por detrás do vidro de uma janela. Tudo isto é, certamente, fruto destes tempos de crise geral.

O outro despertou-lhe o interesse pela originalidade e qualidade do desenho pintado em toda a superfície do prédio. Uma casa comercial com o negócio a parar-se cada vez mais, as vendas a anularem-se e com poucas perspectivas de melhorar o negócio. Também isto, certamente, fruto destes tempos de crise que toca a todos, ou a quase todos.

(DO AUTOR - PONTA DELGADA - ILHA DE SÃO MIGUEL - AÇORES)
Enquanto uns, para resolverem o problema, não encontram outra solução que entregarem o bem a um outro que trata de vender ou arrendar, dentro de valores pré-estabelecidos, e condicionados pelo mercado da altura, outros, vão imaginando e descobrindo maneiras originais e ardilosas de não perderem o negócio e despertarem o interesse de potenciais clientes: as pessoas que passam param, olham, tiram fotografias, interrogam-se sobre o significado de tal desenho,  e vão entrando pela porta aberta, movidos por uma curiosidade quase infantil.

Ambos vendem, ou tentam vender: mas, enquanto uns escarrapacham o VENDE-SE, sem mais nada,  numa parede branca, e ficam à espera que alguém diga alguma coisa, outros, sem colocarem o VENDE-SE em lado nenhum, vão enchendo a loja de curiosos e vendendo, de forma regular, os seus produtos, e a tornarem o negócio num sucesso. 

Uns a fazer pela vida, outros a deixar que a vida lhes aconteça... 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

ROUPA LAVADA

(DO AUTOR - ROUPA A SECAR - PONTA DELGADA)

Depois da festa arruma-se tudo, limpa-se a casa, coloca-se o que está fora do sítio no local certo e, por fim, lava-se a roupa que se foi sujando no meio daquela confusão toda.

E nada melhor que fazer uma  boa barrela, daquelas à moda antiga, com uma boa saponária e  esfregando-se o sabão em cada peça de roupa, até ficarem desencardidas, passando-se, depois, por várias águas até estas sairem límpidas. 


Se a roupa é de cor convém que a lavagem seja feita em separado, permitindo que cada peça tenha a possibilidade de ficar, além de bem lavada, sem as cores e as influências das outras.


Depois é pôr a roupa a corar e a secar ao sol, deixando-a, como nova, sem manchas e sem nódoas.


Sem reminiscências de dias antigos, sem lembrar  máculas passadas, esquecendo o sujo que ficou para trás e olhando o brilho e a cor de uma roupa que acabou de ser lavada.


Será sempre melhor dar uma passagem com o ferro de brunir. É que, assim, a roupa fica sem as rugas e sem os vincos da roupa acabada de lavar. E, quando voltar a ser usada, vai ser vestida com outro gosto, como se fosse roupa nova, acabada de estrear!







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quinta-feira, 12 de julho de 2012

RASGÃO



(DO AUTOR)

Foi-se rasgando com o correr do tempo, com o sol que a foi queimando, com o vento que, um dia, a abanou com mais força, com o passar de alguém, com a idade...

E, também, à medida que foi passando do verde forte para este amarelo e castanho, foi perdendo a elasticidade, foi ficando mais rígida e, ao mesmo tempo, mais frágil.

De cores, foi ficando significativamente mais bonita!

Anteontem, foi um golpe e uma fractura, ontem, um rasgo maior com afastamento dos bordos e, hoje, o rasgão definitivo, a libertar a folha daquele berço do ramo que a prendia, a agarrava, deixando-a solta ao vento, e à liberdade de vida que ansiava e desejava...     




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quarta-feira, 11 de julho de 2012

ESPERA

(DO AUTOR - À ESPERA EM GHENT, NA BÉLGICA)


"Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim


Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor


Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais


Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim


Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguém chamar por mim..."


Vinícius de Moraes - Ai quem me dera





terça-feira, 10 de julho de 2012

OU ISTO OU AQUILO


(DO AUTOR - VULCÃO DOS CAPELINHOS - ILHA DO FAIAL - AÇORES)
"Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

(DO AUTOR - NOS CÉUS DE CORUCHE)

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

(DO AUTOR - GHENT - BÉLGICA)
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
vivo escolhendo o dia inteiro!

(DO AUTOR - ESCULTURA DE GIGANTE)


Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo."



Cecília Meireles - Ou isto ou aquilo.





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segunda-feira, 9 de julho de 2012

O QUE AMAMOS ESTÁ SEMPRE LONGE DE NÓS

(DO AUTOR - PONTA DELGADA - SÃO MIGUEL)
 

"O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos - que não sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exacto jaz.

Não necessita de nada o que em si tudo ordena:
que tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira
com setas negras na escuridão."



Cecília Meireles - O que amamos está sempre longe de nós, in "Solombra"

domingo, 8 de julho de 2012

O CORTEJO

O ruído que domina é o chiar monótono e prolongado dos carros de bois. Como um lamento profundo, um gemer agudo e angustiante... Mas não passa disso!

(DO AUTOR - O CORTEJO)

O que se vê é um povo a sorrir, a oferecer o que tem: as sopas, a carne, as couves, o milho cozido nas furnas vulcânicas, o vinho, a água, a massa sovada, o arroz doce... Tudo!  Numa imensa alegria e satisfação de partilhar...

(DO AUTOR - A DÁDIVA)
Nesta Festa da Partilha, da dádiva, da entrega, aconteceu o Cortejo dos Carros Alegóricos das 24 Freguesias de Ponta Delgada. Um Cortejo imenso, que demorou horas a passar, ao longo de toda a avenida que olha o Atlântico, cheio de cor, de alegria, de gente a dar e de gente a receber, de muita música, de cantares, de trajes típicos, das Folias do Espírito Santo, de grupos de bailação...

(DO AUTOR - O VINHO DE CHEIRO)


(DO AUTOR - A MASSA SOVADA)

(DO AUTOR - AS FOLIAS DO ESPÍRITO SANTO)
(DO AUTOR - O CAPOTE AÇORIANO)


(DO AUTOR - DIÁLOGO MÚUUUDO)

(DO AUTOR - A RABECA)

 Desta vez só não se viu dançar a Chamarrita!


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sábado, 7 de julho de 2012

A COROA

Estamos em plenas Festas do Espírito Santo!


E a coroa, esta noite, vai brilhar no seu esplendor... 

(DO AUTOR - COROA DO ESPÍRITO SANTO - PONTA DELGADA)
... a Charanga dos Bombeiros já desfila no Centro Histórico, a Bandeira do Divino Espírito Santo parte, em procissão, do Centro de Cultura para os Paços do Concelho, onde vai ficar em exposição juntamente com os pendões e as coroas das diferentes freguesias...


(DO AUTOR - BANDEIRA DO ESPÍRITO SANTO - PAÇOS DO CONCELHO DE PONTA DELGADA)
... a Massa Sovada vai a concurso, para se eleger a melhor e ser leiloada ao melhor preço, as mostras de artesanato, em pequenas barraquinhas, estão espalhadas pela Cidade, e no Coreto da Praça são apresentadas as Folias do Espírito Santo; sim, que este Espírito Santo não é banqueiro, este, tem humor... sabe sorrir e é folião!

(DO AUTOR - FILARMÓNICA MINERVA)
Depois, será a Partilha Popular das Sopas do Espírito Santo no Campo de São Francisco, mesmo ao lado onde está o Senhor Santo Cristo e, logo a seguir, partirá o Cortejo Etnográfico pela avenida que olha o Atlântico...

É um povo em festa, numa cidade que brilha e regozija.

E, por favor, por aqui, nestes dias, ninguém fale da crise, de coelhos, de relvas, de troykas, do BES ou de outras quejandices porque aqui, este Espírito Santo não cobra juros, não aniquila famílias, não rouba ordenados, não tira subsídios...


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sexta-feira, 6 de julho de 2012

CONCERTO

Foi na Igreja de São Sebastião - a Matriz -, naquele templo com cinco séculos de história, mesclado de estilos, mas de porta Manuelina, única, que combina o seu branco, de um imaculado calcário, com o negro do basalto vulcânico das outras duas portas, que a ladeiam, que se realizou o Concerto da Orquestra de Câmara de Ponta Delgada.

(DO AUTOR - A IGREJA MATRIZ DE PONTA DELGADA - DE SÃO SEBASTIÃO)
Lá dentro a luz e a cor fascinavam e acentuavam a grandeza daquele espaço; o silêncio impunha-se naturalmente, e o São Sebastião, de setas  de prata cravejado e túnica bem vermelha, da cor do sangue por ele jorrado, numa atitude e pose bem estudadas,  quase de espavento, resplandecia no alto do seu pedestal presidindo, como um Maestro, a todo aquele acontecimento. 

(DO AUTOR - SÃO SEBASTIÃO - IGREJA DA MATRIZ)

E cá em baixo, humilde, a Orquestra, quase mimetizada pela assistência atenta e entusiasmada, com os seus acordes de música e de magia, nuníssono e harmonia do vibrar tímido das cordas dos violinos e do gemer rugoso do enorme contrabaixo, encheu, durante longos momentos, aquele lugar de uma intensa e imensa melodia!


(DO AUTOR - NA IGREJA MATRIZ DE PONTE DELGADA)




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quinta-feira, 5 de julho de 2012

AÇORES SEM CORES

O dia, hoje, acordou, total e definitivamente, cinzento!

Amanheceu na hora certa. E lá no alto dos céus, acima das nuvens, o sol brilhava e encantava.


Mas, assim que o avião iniciou a descida, começou a penetrar, de forma suave, num capacete feito de nuvens cinzentas que resolveram não abandonar esta parte sul da Ilha. Do outro lado, a norte, chovia, para o nordeste, ameaçava, e só na zona dos Mosteiros e das Sete Cidades é que o sol, dizem, ia brincando às escondidas com o colorido das lagoas e com o azul do mar bravio, que se ia desfazendo em espumas brancas nas suas investidas contra os pilares de rochas.

De nada valeu a prece ao Arcanjo protector da Ilha... nem ao Espírito Santo, muito provavelmente distraído na preparação das suas festas.


A verdade é que o dia não quis saber do sol, nem  de mais nada, e embicou naquela bruma cinza, negando a cor ao dia, e o calor que lhe devia!

(DO AUTOR - SANTA BÁRBARA, ESCONDIDA)

E só mesmo no fim da tarde, quando o dia já quase se despedia, é que o Sol conseguiu, quase num último esforço, romper o manto cinzento, que tudo envolvia, e permitir a visão, a cores, de um pachorrento mar azul e a acabar com aquela cor cinza da monotonia.

(DO AUTOR - AO LARGO DE PONTA DELGADA)



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quarta-feira, 4 de julho de 2012

LIVRARIA

(O Sítio da Prosa)
Livro a livro, tema a tema, autor a autor, mas sempre por ordem alfabética:

De A a Z!

Tudo numa sequência, numa lógica de arrumação e de procura...

E há temas e livros para todas as letras, autores, talvez, também! 

E, assim, os foi arrumando:

as enciclopédias e os dicionários no mesmo sector;

as edições especiais dos Lusíadas, do Dom Quixote, da Peregrinaçam, os Fac-Simile, e os livros antigos, também acantonados em local próprio;

os livros de poesia, separando os poetas portugueses dos outros;

os romances de autores estrangeiros pela ordem alfabética dos títulos;

os que têm grande obra, esses, ficam à parte: Eça, Florbela, Pessoa, Sophia, Torga...

As fotobiografias, quase dos mesmos, também separados: Ary, Eça, Florbela, Natália, Pessoa, Sophia, Vitorino...

Os livros ligados à profissão, os de pedagogia, os de literatura, os das formações...

Não esqueceu os livros de cozinha, nem os das viagens e, muito menos, os da fotografia...

E nem só os livros!

A mesma coisa em relação aos CDs, separados por temas: fado, jazz, música clássica... os solistas separados dos conjuntos, os nacionais dos estrangeiros, tudo por ordem alfabética, seguindo a regra do abecedário...

Deixou uma prateleira só de músicas para dançar: foxtrote, as kizombas, as polcas, a salsa, os tangos, as valsas, ... 

O mesmo para os DVDs: os de música, dos concertos da Diana Krall, separados dos de cinema, nacionais e os outros mas, desta vez, pela ordem alfabética do nome dos filmes...

Sempre por ordem alfabética... A, depois B, depois C ... assim por diante... 

O Sítio da Prosa a ganhar vida, a instalar-se, e os livros e a leitura, a terem espaço... em ordem.

À espera!

De A a Z!



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terça-feira, 3 de julho de 2012

LUA CHEIA


(DO AUTOR - A LUA CHEIA HOJE)




"Amor! Anda o luar, todo bondade
Beijando a Terra, desfazendo-se em luz...

..."


(Florbela Espanca - Nocturno)



"Sou eu, Florbela! Aquele que buscaste.
Falam de mim Teus versos de Menina.
Tua boca p'ra mim se abriu, divina,
mas foi só o Luar que Tu beijaste.

..."

[Sebastião da Gama - Florbela (Em sua memória)] 




"...
 Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho..."

(Florbela Espanca - Nocturno)




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segunda-feira, 2 de julho de 2012

AO LONGE O MAR

(DO AUTOR - ALGARVE)



Porto calmo de abrigo
De um futuro maior
Inda não está perdido
No presente temor

Não faz muito sentido
Já não esperar o melhor
Vem da névoa saindo
A promessa anterior

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parad(o) a olhar

Sim eu canto a vontade
Canto o teu despertar
E abraçando a saudade
Canto o tempo a passar

Quando avistei
Ao longe o mar
Ali fiquei
Parad(o) a olhar

Quando avistei
Ao longe o mar
Sem querer deixei-me
Ali ficar


Madre de Deus - Ao longe o mar





http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=hCUOQYruotI


domingo, 1 de julho de 2012

LISBOA E O TEJO

"Digo:
'Lisboa'
Quando atravesso- vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com o seu nome de ser e de não-ser
Com os seus meandros de espanto insónia e lata
E o seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver."


Sophia de Mello Breyner Andresen - Lisboa.



(DO AUTOR - LISBOA VISTA DO TEJO)