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quinta-feira, 26 de julho de 2012

A PONTE

Era a única ponte da aldeia! 

Ligava as duas margens de um riacho de águas soltas e rápidas formadas, mais acima, a partir do degelo da muita água, feita de chuva, neve e granizo, solidificada e compactada pelos frios constantes daquelas altitudes.

(DO AUTOR - BULNES LA VILLA - PICOS DA EUROPA - ESPANHA)
Era uma ponte de madeira,  sólida,  secular e romântica. O chão, feito de enormes barrotes, estava coberto por um tapete de cascalho fino trazido pelo rodado dos carros e nos pés dos passantes e que, com o tempo, se foi infiltrando naquele lenho. A largura estava dimensionada à dos carros de bois, permitindo a passagem de um da cada vez... Nas guardas, também de madeira, havia uma placa metálica, mesmo no meio da ponte, a indicar o nome do ribeiro cujas águas ela deixava passar por debaixo.

Nos anos de mais inverno, de mais chuva, ou de mais degelo, as águas engrossavam e, quantas vezes, excediam as margens e cobriam a ponte com a sua impetuosidade... As águas, nessas alturas, vinham cheias de força, volumosas, tormentosas e assustadoras... A aldeia ficava isolada o tempo que as águas, assim, o impunham mas a vida sempre se foi fazendo, as pessoas trabalhando e a aldeia vivendo.

Até ao dia em que, na ânsia de uns votos fáceis, para a conquista de um lugar na câmara de deputados, o candidato prometeu uma ponte nova, mais larga, mais alta, mais sólida, acenando mais progresso com cimento e ferro, com mais trânsito, com mais urbanismo... 

E, à medida que a nova ponte era construída, a velha ia sendo desmantelada a golpes de machado, de serras eléctricas, ferindo de morte e aniquilando aquela velha passagem. E a nova ponte foi inaugurada com pompa e circunstância, com direito a corte de fita e a uma placa.

A pouco e pouco a aldeia foi-se descaracterizando, a sua ruralidade morrendo e arrastando consigo algumas das pessoas que a habitavam, levando outras para outros lugares e agora a aldeia está vazia, uma aldeia feita de casas abandonadas, fria e morta, mas com uma ponte nova, grande, de cimento e ferro, uma ponte que, afinal, abriu o caminho para que as pessoas se fossem embora e permitindo a passagem do enterro da própria aldeia.

O deputado, esse, continua lá, na câmara, dormitando durante as sessões, mas com o seu nome eternizado numa placa de metal na entrada de uma ponte que, agora, não leva a lugar nenhum!




4 comentários:

Anónimo disse...

Como sempre, excelente texto!

Ana Hertz.

H. Nascimento Rodrigues disse...

Ouvi, outro dia, um comentário de um político que tem que ver com "A Ponte". "O mundo agora é urbano"...
Para que assim seja, as velhas pontes seculares têm de ser desmanteladas...

Manuel Poppe disse...

Terrível e tristemente desastre comum de muitas terras! Bela foto!

Um excelente fim de semana para si, caro amigo.

Anónimo disse...

Mais uma bela prova de sua sensibilidade, talento literário e fotográfico. Muito obrigada pelo envio.

Beijinhos, lola