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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ATRACÇÃO

No meio de um tufo enorme de verdura aquela flor, grande e colorida, chamava a atenção.

Era apenas uma flor mas que despertava uma atracção forte, não só por causa da cor e do tamanho mas, sobretudo por causa do aroma adocicado que exalava.

A todo o instante era visitada pelos mais diversos insectos alados, desde abelhas à procura de pólen e néctar, a outros, de outras espécies, que eram atraídos, provavelmente, por aquele amarelo forte, pelo cheiro agradável e, também, pelo néctar que se apresentava nos seus estames, em apelativas gotas brilhantes de sol.

Chamava a atenção, atraía olhares, esta mancha de cor no verde esborratado daquele campo 


(Monte da Guia - Faial - Julho de 2011)

 


terça-feira, 30 de agosto de 2011

ACORDAR

De novo a acordar na cidade e a sentir, agora que Agosto está a terminar, a frescura do amanhecer a entrar pela janela do quarto.

O trabalho a recomeçar, o dia a dia que se recicla. É o verão, no seu declínio, a abrir as portas ao outono. Qualquer dia as aulas vão recomeçar, o trânsito vai amanhecer mais cedo e o encanto desta cidade, nesta altura do ano, começa a desaparecer para se tornar num caos de pessoas, de carros e de outras confusões.

Por enquanto, no seu silêncio de verão, sabe bem acordar na cidade que nos acolhe.


(LISBOA AO ACORDAR - AGOSTO DE 2011)



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A DESPEDIDA

Começou o regresso, lento como convém, para que deixe ficar as saudades bem calcadas e bem empacotadas.

Como o empacotar das roupas nos sacos, o arrumar do computador na pasta, o guardar da máquina fotográfica no estojo, o fechar da "Cidade de Ulisses" com o marcador na página 29, o encerrar das escotilhas do barco. 

Depois, a última verificação às velas e aos cabos, o assegurar da boa colocação das defensas e, de sacos às costas, deixar o último olhar.

O caminhar lento pelo cais, o arrumar da tralha no carro, um café, agora saudoso, na esplanada do Aqvavit e o partir.

O sol, também, a não querer ir embora, a não querer mergulhar na noite e deixar-se ficar, quase quieto, quase parado, como que a despedir-se, também...

(Vilamoura - Agosto de 2011)




mnmn

domingo, 28 de agosto de 2011

MARÉ BAIXA

Fruto da conjugação dos astros e, em especial, da fase da lua, a maré estava particularmente baixa.

O mar tinha recuado o suficiente para deixar à mostra rochas que há muito não eram avistadas, para deixar que o areal se alargasse quase a perder de vista, para se deixar entrar por ele dentro, algumas centenas de metros, sem que se perdesse o pé, e para deixar a orla da praia cheia dos mais variados objetos: de conchas a plásticos, de pedras, bizarras na forma, a latas de refrigerantes, de alforrecas adormecidas a restos de algas castanhas...

No seu passeio à beira mar quase que ia tropeçando naquele bocado de madeira, velho de idade, certamente, e velho, também, de gasto e de carcomido pelo mar, pelos ventos e pelo sol. 

Resto de um tronco de árvore, quase desfeito, trazido pelas marés, pelos ventos e pelas correntes. Jazia agora, inerte, na praia, à espera do encher da maré para ser levado, de novo, para outras costas, outras praias, na sua viagem sem destino e sem fim.

 
(Deception island - Antártida - 2009)

Aquele nó na madeira corroída, fez-lhe parecer um olho, um olho que o olhava fixamente, com um olhar penetrante, perscrutador, como se fosse o olhar petrificado de algum ser marinho, ou de algum ente da mitologia marítima que tivesse vindo, da profundeza dos oceanos, até àquele lugar, para respirar o ar puro e sereno daquela manhã especial e diferente.





sábado, 27 de agosto de 2011

O MOJITO

Coloca num copo de base larga muito gelo picado, junta bastante hortelã da ribeira, cortada não muito miudinha, adiciona açúcar mascavado, quanto baste, uma porção de rum branco, sumo de limão, uma colher de chá de polpa de maracujá e um pouco de nada de soda para dar o "pico-pico" à bebida final.

Enfeita com duas ou três folhas de hortelã, espeta duas palhinhas e pode começar a beber!


Melhor, em vez de beber, aprecie! Melhor ainda com uma boa companhia!

Arranje uma mesa sossegada, um ambiente calmo, uma noite sem vento e com boa temperatura, e deixe a conversa escorrer ao bebericar do mojito, ao escutar de um tango argentino, ao crepitar da "parrilla" onde o bife do lombo, que entretanto encomendara, está a ser grelhado - em sangue, como tinha pedido -.

Depois, acompanhe aquele naco de bife, aquela carne de deuses, com um tinto do Douro - Passadouro de preferência - e aprecie o sabor a soltar-se na boca, a textura a desfazer-se com a mastigação, os sucos a humidificarem os prazeres daquela comida "gourmet".

Mantenha a conversa boa, recorde momentos passados, ria com satisfação, brinde ao presente e ao futuro, esqueça mágoas e, depois, peça a sobremesa. Dê preferência a uma "mousse" de chocolate cozida, a fazer contraste com uma bola de gelado de nata. 

Termine com um café com toques de canela.

Deixe a conversa arrastar-se lentamente, deixe a noite prosseguir tranquila, e só se levante da mesa quando o último tango os convidar a saírem...   
 

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

SU DOKU

Nunca acerta com o nome!

Troca o O com o U, o K com o D e, a verdade, é que nunca diz o nome de forma correcta.

Aquilo é simples, basta preencher os quadradinhos com algarismos diferentes, de 1 a 9, dispostos em linhas e colunas diferentes, e já está! 

Já estaria! Porque, se fosse simples, nem valia a pena jogar. O problema é que, quase sempre, é difícil de completar. 

São 81 quadradinhos, num quadrado maior de 9x9, subdividido em 9 quadrados menores de 3x3. Já vem com alguns algarismos colocados e, depois, basta pôr, no sítio certo, os que faltam. Aí é que está o problema! O colocar no quadradinho certo o algarismo correcto.

Os fáceis já vêm com muitos algarismos e, com alguma prática, aquilo faz-se com uma perna às costas. O problema é quando os algarismos são poucos e a sua disposição nos quadrados não é das mais facilitadoras, o que torna a solução do problema muito difícil: nesses casos, a perna já não vai para as costas, já não sai do mesmo lugar e, o problema fica por solucionar.

Dizem que faz bem ao cérebro porque mantém a vitalidade das células, impede o Alzheimer e torna mais lúcido o raciocínio. É possível, nunca se deu por nada escrito mas, a verdade, é que se ouve muito dizer.

Pelo menos tem algumas vantagens: prende a atenção, põe os neurónios a trabalhar, dá gosto quando se completam os quadradinhos e, enquanto se está para ali, de caneta ou lápis em punho, não pensa na crise, na troika e na falta do dinheiro ao fim do mês. 

Mas, para ele, a maior dificuldade, o maior problema é acertar com maldito do nome: So Kudo? Su Doko? Su Kodu? So Duko? ou Su Doku?



Já agora, que tal um joguinho? A ver quem acerta?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

BARRIGAS DE ATUM

Comera-as, pela primeira vez, em Cabo Verde.

O dono de uma fábrica de conservas de atum, na Ilha do Sal, convidara-o a prová-las na sua casa; uma casa virada ao mar, mesmo  em cima da praia.

Um convite especial para provar uma iguaria que era desconhecida de todos os que foram convidados naquela noite de ambiente quase tropical, com música feita de mornas e de coladeiras.

Apreciava bastante a carne do atum, embora lhe apontasse, como maior defeito, o facto de ser um pouco seca e a enrolar-se na boca quando era comida em bocados maiores. Daí dar a sua preferência aos bifes de atum em cebolada, por a untuosidade da cebola lhe dar a sensação de mais humidade e libertar mais os paladares.
  
A verdade é que, e já lá vão quase duas dezenas de anos, aquela experiência gastronómica o deixara totalmente rendido: cortadas em tiras, quase como "bacon", e postas a grelhar, iam libertando a gordura que estava entremeada na carne, impregnando de sabores aqueles nacos que eram comidos a sair da grelha, acompanhados de uma simples batata cozida, para que nada mais fosse macular aquele sabor tão especial.

As barrigas e as cabeças, eram consideradas quase um desperdício, a parte menor do atum. Para as conservas o mais valioso eram os lombos, o chamado atum em posta, aquela carne branca, que se separa facilmente, e que se junta às saladas, ou se prepara, na cozinha, em pratos mais elaborados. A pasta de atum e o sangacho, eram feitos com a carne mais escura, mas mais saborosa, e que não era aproveitada para a tal posta de atum.

Hoje voltou a comer as barrigas de atum!

Ao passar junto a um restaurante de peixe viu, na montra, duas barrigas, ainda inteiras, de pele lustrosa, acinzentada, de carne rosada, bem entremeada de tiras esbranquiçadas, a garantirem, se fossem bem cortadas e bem grelhadas, um manjar especial.



Entrou e falou com o homem da grelha que garantiu a frescura, assegurou da qualidade e não deixou dúvidas em relação à maneira como seriam grelhadas. Que já não eram baratas. Que já foi o tempo, agora são mais caras que os bifes do mesmo, e que vem gente de longe para as vir comer.

Nem quis saber dos outros pratos da lista, encomendou ali mesmo, no balcão, e sentou-se à mesa que ficava perto da janela, coberta por toalha de papel branco, a olhar a ria, a deixar que o fim de tarde, cheio de rosas nas nuvens e de ouro nas águas paradas da maré vazia, lhe trouxesse as saudades, agora revividas, daquele jantar na Ilha do Sal.




quarta-feira, 24 de agosto de 2011

NOSTALGIA


(De Marvão - Maio de 2010)


"Nostalgia sem nome da paisagem,
Secreto murmurar de cada imagem,
Que na escuridão se ergue e caminha."

Sophia de Mello Breyner - Obra poética

terça-feira, 23 de agosto de 2011

CURIOSO

Desaparecera da sua vista fazia um bom par de dias.

Nunca mais fora vista e nunca mais se deixou ver!

Deixou de aparecer debaixo da janela, deixou de pedir pela comida, deixou de se atravessar diante dos seus pés nas suas caminhadas pela serra.

Deve ter arranjado novos companheiros de brincadeiras ou de caçadas, ou terá partido para outro lado, assim pensou.. 

Mas, se desapareceu,  não deve ter morrido! A verdade é que devia andar a rondar por ali, o prato da comida esvaziava-se todos os dias, e não eram as imensas formigas que iam aos restos que comiam aquilo tudo, os peixes do tanque iam diminuindo em número e o capô do carro, por vezes, aparecia sujo da terra do chão com as pegadas, bem assinadas, das suas patas.

Eram os únicos indícios de vida e da sua presença.

E foi no outro dia que, quando andava pela quinta com a sua mania de fazer fotografia, ao ver as mesmas com mais pormenor, se deu conta que, por detrás da porta velha da casa dos arrrumos, um olhar bem aberto o espreitava, o seguia, o olhava curioso, mas em silêncio, escondido, misterioso...


(Portalegre - 2003)
Voltou lá, abriu a porta com cautela, entrou lento e, no meio daquela escuridão silenciosa, começou a perceber uns vagidos, uns miados frágeis mas repetidos. Deixou que os olhos se adaptassem àquele escuro e viu, por detrás de um fardo de palha, no meio de uns sacos de serapilheira, a causa da sua ausência.

Ela deitada, a olhá-lo silenciosa, e a deixar-se mamar por cinco crias com poucos dias de vida.

Assim como entrou, assim saiu, lentamente, cauteloso, em silêncio, a não querer interromper ou interferir naquele quadro de intimidade familiar!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A NOITE

(Serra de São Mamede - Agosto 2011)
   
"Devagar no jardim a noite poisa
E o bailado dos seus passos
Liberta a minha alma dos laços
Como se de novo fosse criada cada coisa."

Sophia de Mello Breyner - Obra poética

domingo, 21 de agosto de 2011

EU NÃO EXISTO SEM VOCÊ



Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você
 
VINICIUS DE MORAES

sábado, 20 de agosto de 2011

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.


Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, "il faut" além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor. 
 
Vinicius de Moraes
 
Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor - Crônicas e Poemas" de Vinicius de Moraes,  - São Paulo - Companhia das Letras, 1991.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

OCRE

Finalmente deixou de ser só branca.

Agora, depois das pinceladas ocre que circundam as portadas e as janelas, ganhou uma vida nova, um sorriso mais rasgado, uma jovial alegria. 

Ficou mais apelativa, mais atrativa, de fazer virar olhares curiosos, a despertar desejos gulosos e, agora, vaidosa, como a esperar que o fotógrafo diga: - "Olha o passarinho" ou, então, "sorria"! -, passa o tempo a pôr-se em pose, para a fotografia.


(Parati - 2003)



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

NINHO

Agora, que o ciclo se cumpriu, que os ovos deram vida, que os piares de fome se calaram, que os primeiros voos libertaram, o ninho ficou ali, vazio, desabitado, solitário.



(Almancil - 2010)

A esperar um novo ano para ser reconstruído, para se voltar a encher de vida, com mais voares à sua volta, mais piares e novos voos libertadores.

Sempre a vida a girar como uma roda que gira e avança, mas nunca voltado ao mesmo lugar.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O MAIS QUE PERFEITO

                                         Ah, quem me dera ir-me
                                       Contigo agora
                                         Para um horizonte firme
                                          (Comum, embora...)
                                            Ah, quem me dera ir-me!
(Arraiolos - 10/12/2004)



  Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
  De alguém em algum lugar
  Que não presumes...
   Ah, quem me dera amar-te!

Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado...
Ah, quem me dera ver-te!

Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te!

(Para Viver um Grande Amor - Crónicas e Poemas - Vinicius de Moraes)


terça-feira, 16 de agosto de 2011

ANTECIPAÇÃO

Parece uma imagem de outono.

(Sintra - 7/8/2011)
Mas não é!

Talvez uma folha que estava cheia de pressa de viver, ou uma folha que não aguentou a pressão do calor, ou, então, a culpada pode ter sido a árvore, que não lhe deu a seiva suficiente para que pudesse continuar no seu viço verde.

A verdade é que estava ali, amarela, castanha, e com pedaços de vermelho, como uma folha de outono a antecipar-se à estação, a chamar a atenção que, apesar da sua agonia, da sua morte já definida, a vida não pára, a vida continua e que, quando a folha se soltar da árvore, quando for levada pelo vento, lá para longe, a árvore vai continuar carregada de folhas verdes, e de outras a amarelecer, e de frutos a amadurecerem e outros a cair de maduros, a prosseguir e a cumprir o seu destino vegetal.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A VOLTA A PORTUGAL

A 73.ª Volta a Portugal em bicicleta, desta vez, foi mais curta e não deu a volta ao país todo.

(Google Images)


Andou pelo norte e pelo centro de Portugal e, pelo que parece, não teve pernas (ou dinheiro) para ir até ao sul, não passando pelo imenso Alentejo, nem chegando ao turístico Algarve.

Curiosamente quem ganhou a corrida, quem ganhou a Volta, o camisola amarela, foi um algarvio, um homem de e do Clube de Ciclismo de Tavira. E também foi o Tavira, o clube que ganhou, por equipas, esta Volta a Portugal.

Não acompanhei a Volta, apenas ia sabendo o que se passava pelos jornais televisivos mas, hoje, porque me deixei ficar em casa, porque é feriado, porque Lisboa ficou "partida" ao meio por causa da Volta e, também, porque está muito calor, fiquei a ver o final desta corrida "refrescado" pela benesse do ar condicionado.

E ainda bem!

Não para ver o esforço daqueles homens em cima da bicicleta a correrem por momentos de glória, nem sei bem quem ganhou a etapa, mas porque a reportagem da televisão proporcionou vistas e paisagens soberbas desta cidade linda, cheia de sol e imensamente colorida. O Tejo e as pontes, os barcos no rio, o castelo, os monumentos, as ruas e os jardins, em imagens tomadas do ar, deixaram-me pregado ao televisor.

(Google Images)
 
Passaram também uma reportagem sobre outras paisagens de Portugal, locais únicos e quase desconhecidos. Um país que tem muito a mostrar, um país bonito e que precisa de ser mais conhecido.

Outra imagem que gostei de ver foi a da consagração do camisola amarela, Ricardo Mestre, que foi para o palco, não com o "Champagne", nem com a "coroa de louros", mas com a filha ao colo, uma bebé de oito meses, a querer chamar a atenção para a importância dos valores e da força da família, até para correr e ganhar a Volta a Portugal.




domingo, 14 de agosto de 2011

COR DE ROSA

A tarde findava, o crepúsculo anunciava um amanhã tranquilo e quente, e os dois, sentados naquela mesa redonda na varanda da Quinta, pegaram nas taças e brindaram, com verdadeiro Champagne Rosé, ao presente, ao amanhã, a um futuro cor de rosa, a um futuro da cor da nuvem que se formou diante deles enquanto se olhavam olhos nos olhos e se prometiam.
(Fim de tarde no Alentejo - Agosto de 2011)


sábado, 13 de agosto de 2011

ESBURACADO

Avistava-se bem, ao longe.

No alto do cerro, no alto da vila, de presença marcante, a impor a sua força, a guardar território, a defender-se dos mouros, dos castelhanos, dos invasores, dos assaltantes.

As ameias bem recortadas, a porta imponente, os muros grossos e altos deixavam antever uma praça-forte importante, cheia de história, a recordar batalhas, invasões, cercos... 

E o terreiro interior a deixar a imaginação a recriar vidas, vivências, mercados medievais, lojas de artesanato, prontas a chamar e a cativar os turistas (poucos!) que o visitassem.

Mas a imagem do que viu transportou-o, não para uma feira medieval, junto a uma banca de queijos, mas para dentro de um, daqueles bem esburacados, com o cheiro forte, apelativo, mas quase sem nada para comer, só com a casca de fora.

(Castelo de Mourão)
 Pobre castelo, pobre país!



sexta-feira, 12 de agosto de 2011

ARITMÉTICA

As operações principais (e únicas?) da Aritmética eram quatro: de Somar, de Subtrair, de Multiplicar e de Dividir. 

Na Escola, a Aritmética aprendia-se com a Tabuada que, para melhor a saber e decorar, era cantada: "um e um dois", "um e dois três", "cinco vezes quatro vinte", "oito vezes sete cinquenta e seis"... era assim, numa cantilena cadenciada e soletrada por todos, com a professora ou o professor a servirem de maestro, de batuta ou cana em riste a marcar o ritmo e a bater na cabeça das crianças, quando estas falhavam a "rima".

 


Ficou para a vida de todos: a Tabuada!




Quem não a sabia tinha que contar pelos dedos, não havia máquinas de calcular, não havia ábacos... e, de certeza que, quem não a soubesse, não passava de classe.




Vieram os novos métodos de ensino, apareceram as calculadoras e acabou-se com a cantiga da tabuada... que isto de decorar é antipedagógico e os professores não podem exigir que os alunos saibam a tabuada de cor e, muito menos, dar-lhes com a batuta na "mona".

Mas, apesar de tudo, sempre ficaram as quatro operações fundamentais: Somar, Subtrair, Multiplicar e Dividir.

Hoje dei-me conta que este Governo e a Troika introduziram mais uma operação aritmética no nosso quotidiano: a das contas de Sumir

É que com todos os cortes salariais e de pensões, com os aumentos dos transportes, com o galopar do IVA, com os custos do gás e da electricidade a subirem em flecha, com os impostos a crescerem de forma desmesurada, e com tudo o mais que irá aparecer, já não há Aritmética que aguente: não há soma que chegue, multiplicação que aumente, subtracção que diminua ou divisão que reparta.

Agora é só a SUMIR: o dinheiro dos bolsos, os depósitos nos bancos, a comida à mesa...

Até parece que só quem trabalha é que tem que ASSUMIR com a responsabilidade que outros não quiseram ASSUMIR.





quinta-feira, 11 de agosto de 2011

DESPEDIDA

Está quase a chegar a hora!

Hora de partir, de dizer adeus ao lugar onde nasceu, de seguir o instinto, de ir atrás do destino. Vai procurar o calor no inverno que não vai tardar.

Norte de África? Ou mais a sul?

A quase certeza que na próxima primavera vai estar de volta, aqui, ao mesmo lugar, aos restos do mesmo ninho que irá reconstruir, com a mesma companhia, a cumprir o mesmo ritual.

Por enquanto, e enquanto o calor o permitir, por aqui fica a vigiar do seu ninho, do seu poste, como sentinela atenta, pronta a levantar ao menor sinal.



(Cegonha - Norte Alentejo - 2011)
Enquanto não vai, esvoaça, abra as asas longas e deixa-se deslizar neste ar quente, contrastando o seu branco e preto com o azul forte do céu de estio.



quarta-feira, 10 de agosto de 2011

PERNAS

São elas que nos fazem deslocar de um lado para outro, que fazem com que um futebolista marque golos, que um ciclista suba até ao alto da Senhora da Graça, que o Bolt corra os 100 metros em 9,58 segundos ou façam (ou fizessem) a Rosa Mota correr a Maratona e ganhar medalhas de ouro nas Olimpíadas.

As pernas, as nossas, são duas. Já as mesas, as cadeiras e as camas têm quatro pernas, tal como os elefantes, as vacas e os cães. As centopeias, essas, pelo nome, devem ter, pelo menos, cem. E, sem pernas, há animais como as baleias e os golfinhos, entre muitos outros, para não ter que falar de cobras (mas elas andam e "cobra que não anda, não come sapo").

Há pernas de várias formas e feitios: curtas, longas, grossas, finas, peludas, sem pelo, direitas ou tortas...

Há quem tenha uma perna mais curta que a outra, e outros, pelo contrário, uma perna mais comprida do que a outra... Quando andam são conhecidos pelos "sobe e desce".

Se há quem ande, por aí, a arrastar a asa, há muitos mais, também por aí, a arrastar a perna...

As pernas estão associadas a algumas expressões populares como "pernas para que te quero" que valem o mesmo que "dar às Vila-Diogo" ou "fugir a sete-pés", "quem não tem cabeça para pensar, tem pernas para andar", "meter os rabo entre as pernas", "a perna não faz o que o joelho quer", "mentira tem perna curta"... 

Há quem se queixe de peso nas pernas, de pernas inchadas, de pernas dormentes, de pernas cansadas, ou de varizes nas pernas...

No corpo de uma mulher, as pernas fazem virar olhares masculinos - e femininos -, principalmente se são bem feitas, se são elegantes, se dão graça ao andar...

Há quem diga que as pernas da Julia Roberts são das mais bonitas, e há outros que eram capazes de pagar uma fortuna pelas pernas "tortas" do Garrincha, porque nenhumas fintavam tão bem a bola de futebol.


As pernas douradas da Pietrina, essas, sugerem descontração, relaxe, descanso, férias, sensualidade e, também, porque não (?), erotismo.

(Pernas - Colecção particular de Pietrina - Rio de Janeiro  - Junho 2011)

Juca Chaves, com o seu espírito de humorista e de contradição, resolveu destruir este mito das pernas, ao dizer: "perna, perna, para quê dar tanta importância à perna de uma mulher, se é primeira coisa que a gente põe para o lado?".




terça-feira, 9 de agosto de 2011

ALDEIA DA ROUPA BRANCA E DE COR

(Cidade da Horta - Ilha do Faial - Julho de 2011)

Haverá alguma imagem mais portuguesa? E mais colorida? 

Lembrou-se do filme "Aldeia da Roupa Branca", lembrou-se da Beatriz Costa e da canção tema do filme:


Aldeia da Roupa Branca

Beatriz Costa

(Composição: Raul Portela, G. Chianca, A. Curto)


Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Roupa num monte a corar:
Vê lá bem tão branca e leve!
Dá ideia a quem olhar,
Vê lá bem que caiu neve.

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol.

Ai olha o enxoval,
Ai feito de urzes brancas!
Ai parece um pombal,
Ai só de pombas brancas


Um lençol de pano cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormindo nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.




segunda-feira, 8 de agosto de 2011

NO BEIRAL

Aguardava ansioso a vinda da mãe.

Sempre com fome, de boca escancarada, num piar famélico, desesperado.

E ela da bico fechado, de costas voltadas sem uma mosca, uma libélula, ou um mosquito para lhe dar.

O dia quente, o sol inclemente, o vento seco, não davam tréguas... Nem um insecto!

E o filhote a piar, a implorar, de goela aberta, de papo vazio, da fome imensa.

(Num beiral à espera da comida - Alentejo - Agosto de 2011)
Agora, só mais logo, só mais ao cair da tarde, só quando o lusco-fusco os libertar dos seus esconderijos e se soltarem em nuvens pelos ares. E, então, começa o frenesim,  a corrida louca, as voltas e reviravoltas, os voos picados, o encher do papo daquele alimento, daquela dádiva dos céus.

E ei-la que volta, que torna ao beiral, e lhe enche o papo, lhe satisfaz a fome, lhe cala o pio, lhe fecha o bico...

E amanhã tudo se repete neste afã do cumprimento da vida, do instinto da sobrevivência, da conservação e continuação da espécie.

Vida dura, implacável, vida que é assim! Mas também, aqui, a vida tem poesia!






domingo, 7 de agosto de 2011

PALÁCIO DA PENA

O domingo em Sintra é sempre um domingo em cheio!

Cheio de carros e de autocarros, cheio de pessoas, a maioria turistas.

Cheios os palácios, os museus, as exposições permanentes e temporárias.

Cheios os jardins, os parques, cheias as esplanadas.

Cheio estava, também, o Palácio da Pena, lá no alto, dominando o Monte da Lua.

O dia, que hoje estava límpido e particularmente brilhante, atirava os olhares para o Palácio, para as suas cores fortes, para as suas formas bizarras, para a sua ecléctica e exótica expressão de Romantismo, com os seus arcos ogivais, as torres medievais e elementos de inspiração árabe. 

(Palácio da Pena - Sintra - 7/Agosto/20111)
O Palácio da Pena é um bom exemplo da expressão máxima do Romantismo na vila mais romântica de Portugal.





sábado, 6 de agosto de 2011

QUARTO CRESCENTE

A noite veio depressa.

O pôr do Sol avermelhado, a anunciar um dia quente, deixou que os astros da noite começassem a mostrar-se e, mal a luz de fogo do ocaso desapareceu, a Lua começou a reinar na noite.

Por enquanto, meia envergonhada, na sua fase de lua em quarto crescente, a deixar adivinhar, neste seu mostrar adolescente, o esplendor da sua forma, na noite em que aparecer como Lua Cheia.

 

(QUARTO CRESCENTE - NO ALENTEJO -  5/AGOSTO/2011)



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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

GOTA DE SOL

Mais outro madrugar, mais outro acordar, mais um sol que nasce, mais outro dia que começa.

Desta vez o sol quis dar-lhe um presente. O sol, a quem ele tantas vezes dá os bons dias, quis que guardasse, nos seus recordares, esta imagem que lhe fez parecer a transfiguração de uma gota de orvalho numa gota de sol! 

(Uma alvorada perto de Coruche - Agosto de 2011)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ABRAÇO DE AMANHECER

Naquele dia, ele e o Sol acordaram bem dispostos!

Tinha-se levantado cedo, acabou os trabalhos que deixara de véspera, arranjou-se, até fez a barba que tem sempre relutância em fazer e, antes de sair de casa, foi até à janela cumprimentar o dia.
 
Nunca se tinha apercebido o quão perto o Cristo Rei lhe parecia estar, não propriamente a entrar-lhe pela janela mas, mesmo assim, com uma grande sensação de proximidade.
 
Parecia que Ele tinha atravessado o rio e que queria estender o seu abraço daquela manhã ao abraço que ele lhe enviava, daquela janela, no amanhecer de cada dia!

(Lisboa - Agosto de 2011)


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

TIRO DE PARTIDA

Quieto, tão quieto que nem parecia um pássaro no cimo daquele varão de ferro espetado no meio de nada.


Serviria de poiso, ou de posto de observação?


A verdade é que raramente estava desocupado. No seu trajecto de aproximação, numa campina de chão de areia, quase estéril, rodeada de vegetação, com aquele ferro ali espetado, foi notando que, sempre que um pássaro abandonava aquele pedestal, passado pouco tempo vinha outro, que poisava, sacudia as asas, olhava em várias direcções, quase saltitava, e logo partia... Mas este não! Há já bastante tempo que ali estava, quieto. Viu-o chegar, viu-o repetir os mesmos gestos dos outros e depois, quando estava à espera do impulso e do bater de asas, deixou-se ficar, quase imóvel, como que petrificado.

Um solitário!

De que pássaro se trataria? Seria um pardal? Um verdilhão? Uma toutinegra? Não era, de modo algum, perito em aves. Mas também não tão ignorante como ir ao cúmulo de classificar as aves nas categorias de: pássaros, passarinhos, passarões, aves de capoeira e cucos.

E veio-lhe à lembrança aquela história-anedota, passada num exame, em que o professor de Biologia, acentuadamente estrábico, pergunta ao aluno a classificação das aves, e este lhe respondeu da forma acima, e o professor, perante aquela resposta tão disparatada, diz ao aluno, inquirindo: "E um chumbinho para matar aquela passarada toda"? Ao que o aluno respondeu: "E um olhinho vesgo para falhar a pontaria"?

(PARQUE DOÑANA - ESPANHA - OUTUBRO DE 2010)
Não sabe se o pássaro "ouviu" o que lhe ia no pensamento, certamente que não, mas a verdade é que ao aproximar-se mais um pouco, ao quedar-se para a fotografia apetecida, no momento do disparo, o "clic" da câmara mais pareceu um tiro de partida para um voo determinado, como a fugir de um chumbinho imaginário.

Só que, desta vez, o fotógrafo foi mais rápido.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

QUALQUER DIA COMPRO UMA

Agora, com a crise, com a "força" da ecologia, com a necessidade de fazer exercício, talvez me decida. 

Nos Países Baixos deve haver uma bicicleta por habitante, ainda não tantas como de telemóveis por cada português; claro que são países planos, sem subidas, com planos inclinados relativamente suaves e onde os ciclistas são respeitados e têm pistas próprias.

Por cá já se vão vendo pistas e ciclistas, muitos aos domingos, aos magotes, a causarem, por vezes, perigo à circulação por nem sempre respeitarem os códigos da estrada e da civilidade.

Durante a semana nem por isso se vêem muitas bicicletas, são mais as scooters e as motos: não há dúvida que facilitam o trânsito, reduzem o número de automóveis nas ruas, não entopem os locais para estacionar e são mais rápidas nas deslocações.

Mas a verdade é que as bicicletas não poluem, são silenciosas e não deixam a tal pegada ecológica.

Mas têm um senão, ao não deixar a tal pegada, quer dizer que precisam de pedalada, e será que a vou ter para subir as colinas desta cidade? A descer ainda vai que não vai... todos os santos ajudam... mas, e a subir, será que me empurram?

(Canal de Ghent - Bélgica - Maio de 2011)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

REFLEXOS

Gosto das noites tranquilas, sem vento, sem muito calor ou muito frio, sem mosquitos e melgas, sem barulhos, noites de paz.

Já basta o dia agitado, já chega o stress.

Sabe bem estar sentado a olhar a noite...

(Ria de Olhão frente à Ilha da Culatra - Algarve - Julho 2011)