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terça-feira, 31 de agosto de 2010

MIGRAÇÕES DE VERÃO E AS OUTRAS

A cidade começou a encher-se, os carros a entupirem as ruas, a preencherem os espaços livres para estacionar, a ocuparem os passeios destinados aos peões.

É a altura do regresso das férias, o retorno do grosso da população, o fim da migração estival.
As aulas vão começar e, com elas, as compras dos cadernos, dos lápis, das canetas, das mochilas, fazem-se as encomendas dos livros e dos manuais,  e volta-se, de novo, ao ter que levantar cedo e  ao cumprir do ritual do ritmo escolar.
O tempo, esse, não quer colaborar... atafulha-nos de calor sufocante, dificulta-nos o caminhar, obriga-nos à procura de sombras, pede mais ingestão de água.
Altura de mudar de ares para quem passou o tempo de verão na cidade quente, mas tranquila, uma cidade de espaços e de pouca gente.

Altura de migrar para o litoral, para junto do mar, das praias mais vazias de gente, de restaurantes com lugar, de noites mais frescas. Altura de passear e de descobrir, de procurar sítios, de encontrar locais.

São as migrações de verão, migrações de lazer, migrações feitas na procura de algum prazer. 

Nada a ver com as migrações dos Gaibéus, dos Avieiros, dos Caramelos ou dos Ratinhos, também de deslocação interna, mas à procura de trabalho,  do pão, da subsistência.

Os Gaibéus eram jornaleiros do Ribatejo e da Beira Baixa que, durante a época das mondas, se deslocavam de forma temporária para as Lezírias do Tejo, regressando às suas terras assim que acabava o trabalho.

Já os Avieiros constituíram uma forma de migração mais permanente para a mesma zona da Lezíria do Tejo e zona do Sado; vinham do litoral, de barco ou de carro de bois, desde Espinho a Vieira de Leiria, fugindo do mau tempo da costa atlântica durante o inverno e, com o correr dos anos, foram-se fixando naquelas terras pois no verão, devido à escassez do peixe pescado pela arte da xávega, também não dava para alimentar as bocas da família. E, assim, se foram deixando ficar na Lezíria do Tejo e no Sado dedicando-se à agricultura e à pesca, muitos vivendo, de início, nos barcos que trouxeram do mar para o rio. 

Depois foram construindo casas e estabelecendo comunidades peculiares.

Estas aldeias avieiras distinguem-se pela construção de habitações palafíticas, edificadas sobre estacas, de modo a que as habitações se mantivessem sempre acima da linha das águas, aquando das cheias.
 
Os Caramelos, também oriundos do litoral, entre Aveiro e Leiria, deslocavam-se para o sul do Tejo, para as zonas de Azeitão, Palmela e Pinhal Novo e foram os responsáveis pela expansão vinícola naquele local. Se de início a migração era sazonal, mais tarde, com a grande quantidade de charnecas e sesmarias, disponíveis para arroteia de conta própria, fixaram-se naquela zona deixando significativas marcas culturais e paisagísticas.

Da Beira Interior partiam, anualmente, milhares de camponeses, rumo aos campos do Ribatejo e do Alentejo para trabalharem na ceifa e na apanha da azeitona e que ficaram conhecidos como Ratinhos.

Com a entrada da década de 60 e com os fenómenos do urbanismo e do sub-urbanismo, este tipo de migrações quase desapareceu e criou uma nova forma de migração para as grandes cidades, principalmente do litoral, criando uma profunda desagregação da ruralidade das populações do interior.

Por isso se vivem os problemas, quase diários, oriundos dos bairros da periferia das grandes cidades, com conflitos económicos, sociais e étnicos a que se junta todo um submundo ligado ao consumo e distribuição de drogas e a todas as formas de criminalidade.


Quem sabe um dia se dará o regresso às origens, à terra dos pais, dos avós, e se volta a trabalhar a terra para o sustento do dia a dia, se plantam couves, se semeiam as batatas, volta a haver criação de animais, garantindo o bem-estar das pessoas, das famílias. Sem miséria como no antigamente, mas com a dignidade que se exige. Acho que já faltou mais...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O CLIPE

Usamo-lo todos os dias e nem lhe damos valor.

É definido como uma pequena peça usada para prender papéis e, a maior parte das vezes, utilizamo-lo precisamente para isso.



Mas, tenho a certeza, não existe pessoa neste mundo, dito civilizado, que não o tenha usado para outras funções, as mais variadas.

Sob o ponto de vista de design é perfeito, tão perfeito que nunca precisou de ser alterado; há quem o vista de plásticos coloridos, lhe dê uma forma mais heterodoxa, mas, na sua essência, o formato mantém-se.

Muito se pode falar do clipe e das suas milhentas formas de utilização. Podia deixar aqui um roteiro de utilidades e de utilizações. Mas estaria sempre desactualizado e, por isso, deixo à imaginação de cada um o que pode fazer, ou já tem feito, com um clipe, para além de prender papel.

Para mim é, talvez, uma das peças mais úteis que existem!

Mas também me é útil o computador em que escrevo, o telemóvel que utilizo, o carro de que me sirvo, a caneta com que anoto as minhas coisas, os óculos com que vejo, e um imenso e quase inesgotável etecétera de coisas e objectos que fazem parte do meu dia a dia, da minha profissão, dos meus lazeres, da minha vida.

A teoria da relativautilidade!

Mas úteis não são só os objectos... quem vive sem amigos? E estes, os verdadeiros, não são só úteis, são imprescindíveis!




domingo, 29 de agosto de 2010

O C1

Vieram-lhe propor um... em muito bom estado, quase novo, a um preço de pechincha.
Era de alguém que não andava com o carro, que o tinha sempre na garagem e que, por isso, e por medo da crise, resolveu vender.



Nem hesitou na compra! Um carro pequeno, ideal para o dia a dia, de seguro barato, pouca oficina e capaz de fazer viagens grandes mas com a velocidade adequada ao tamanho do carro e do motor.

De quatro portas e quatro lugares. A mala, ridícula!

Mas é o carro ideal para a cidade ou, então, para deixá-lo na quinta, como carro de reserva,  para as voltas quando chega, a meio e ao fim de semana. Melhor que o carro grande, que se sente apertado nas ruas estreitas da cidade velha, ao passo que um carro pequeno como este, certamente, está mais à vontade e à larga nas gincanas e no estacionamento daquelas ruas acanhadas. Além do mais gasta, apenas, "um dedal" na subida imensa das curvas da serra.

Foi buscá-lo há dois dias e tem-se deliciado. 

Lembrava-lhe os carrinhos de choque, nas feiras de diversões, pelo tamanho e pelo gozo que lhe tem dado.

Será que durante a semana não vai ficar triste de sozinho?


sábado, 28 de agosto de 2010

ANDORINHAS

"...
Cahia mansa a noite; e as andorinhas aos pares
Cruzavam-se voando em torno dos seus lares
Suspensos no beiral da casa..."          -          Guerra Junqueiro - Aos simples.

Vêm com a primavera e partem com o Outono. 
Vêm em bandos e assim se vão.
Quando chegam voltam ao ninho onde nasceram ou onde ficaram pela última vez. São fiéis aos lugares.
Hábeis na recolha de insectos no ar, realizam verdadeiras proezas acrobáticas, com grande capacidade de voo, bastante agitado e rápido, o que lhes permite fazer voos rasantes, quase assustadores, de precisão.
A sua ligação à primavera está bem contextualizada em Aristóteles (na obra Ética a Nicómano) que refere "... tal como uma andorinha ou um dia não faz a primavera, um dia ou um curto espaço de tempo não faz um homem afortunado ou feliz", no provérbio "uma andorinha não faz a primavera" ou no fado canção de Carlos do Carmo "Por morrer uma andorinha  - ...  Se deixaste de ser minha, Não deixei de ser quem era, Por morrer uma andorinha, Não acaba a primavera..."

Mas há uma história entre um gato e uma andorinha: é uma história de amor do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá. 

"...
Chegava então a Primavera. O Gato Malhado, o preguiçoso e solitário era mal visto e temido por todos. Não falava para quase ninguém. Havia também uma jovem andorinha risonha e despreocupada que fazia palpitar o coração em todos. Além de bonita, um pouco louca também; e como o Gato Malhado nunca lhe tinha falado pois era um orgulhoso provocou-lhe uma certa curiosidade e admirava-o.
Um dia, quando todos haviam fugido do Gato, a Andorinha foi rindo para ele e chamou-o de feio. Ao fim de algumas brincadeiras destas, das quais os pais da Andorinha nem os habitantes gostavam, eles foram brincando e conversando às escondidas. Depois de muitas confianças o Gato Malhado ia ficando apaixonado e com ciúmes, pois o Rouxinol era muito amigo da Andorinha e dava-lhe aulas de canto.
No fim do Verão, O Gato Malhado disse-lhe que se não fosse gato casaria com ela. Depois pouco se falaram. E Começaram a haver rumores de que o Gato namorava com a Andorinha e os pais dela não gostaram de saber… Então apressaram-se a marcar o casamento da Andorinha com o Rouxinol.
Chegou o Outono e o Gato sozinho escrevia poemas para a Sinhá e assim se passou… E chegou o Inverno, realizou-se o casamento do Rouxinol com a Andorinha Sinhá apesar de ela gostar do Gato, e de já lho ter dito; mas sabia que não podia casar com um Gato.
O Gato Malhado no seu sofrimento saiu caminhando em direcção à confusão do fim do Mundo. Viu por ultima vez a Andorinha na sua festa, onde também ela o viu, triste sabia para onde ele ia e deixou escorrer uma lágrima de tristeza e de adeus. O ultimo adeus que o iluminou no seu caminho". (Jorge Amado).
 


 

 

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O ESPADARTE

Foi como uma aventura. Alucinante!

O barco, uma aiola de Sesimbra, dois homens, o remador e o pescador. Dez milhas da costa, zona dos grandes fundos, bem ao largo.  Como isco, a xaputa, o alimento preferido dos espadartes, e duas canas, com carretos, linha e anzóis apropriados.

Uma espera de três horas, o rabo dormente de sentado naquele banco de pau que balouçava insistentemente. O peixe que pica, mordisca o isco, a linha que mexe a despertar atenções  e a libertar emoções, de novo  a calma por segundos e, num instante, o enorme espadarte ataca a xaputa, engole-a. 

A linha a libertar-se, o carreto a girar vertiginosamente, quase a fumegar, até que pára. Depois o enrolar e o largar, o puxar e o largar, os esticões, os sacões, numa luta quase sem fim, acesa, sacudida, esgotante, determinante.

Um peixe enorme, aos saltos, ao longe, quase arrancando o pescador da cadeira. Três horas de  luta. 


Até que o peixe, esgotado,  afunda. Segue-se o tirá-lo de uma profundidade de 700 metros, com o barco a andar avante e à ré, em mais quatro horas, até trazê-lo à superfície - ah, se o Ernest Hemingway estivesse ali, naquele momento, ia ficar cheio de inveja -.

Finalmente, as fotografias, o medir do animal majestoso, de um azul intenso e de espada magnífica, o tirar do anzol e o libertá-lo para o mar que lhe pertence.


A satisfação de um dia único e, porque foi único, foi diferente, especial, irrepetível.





quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CALOR

Voltou de novo, como uma vaga invisível mas sentida, a insuportar os estares, a incomodar os corpos, a obrigar a procura do fresco provocado por uma ventoinha, a fazer rodar o botão do ar condicionado para o máximo do frio.

Nesta altura do ano, pelos dias 24/25 de Agosto, até costuma chover. Quase sempre é assim, com ou sem trovoada! Mas este ano não. Choveu e nevoou na véspera e deu um acidente, dos grandes, como na América.

Estranho, este calor que, como dizia o Régio "esfarela os ossos", facilita incêndios, dá mal estar e pede, de novo, a praia com águas frescas.

Mas, como ainda estamos de Verão, não deve haver lugar a queixas, só se o tempo estivesse frio.

E que tema de conversa, ou de desconversa é mais cobiçado se não o do tempo? É porque está frio ou está calor, porque chove ou porque faz sol, porque venta ou porque o ar está parado...

E já agora, será que não estou para aqui a desconversar?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

A RIMA

Procurava desesperadamente uma rima. 
Tinha várias palavras que pediam rima.

Uma era a palavra fácil... difícil de encontrar uma com que rimasse!
A outra era diácono... depois de muito procurar só encontrou um subdiácono, tem jeito? 
E quando procurou rima para África, não encontrou continente com que se comparasse!

E para bárbaro? Será que alguém encontra uma rima a preceito?

Nem Oásis, nem Lázaro, nem Sogra, nem Fisga, que chatice!
Para o Euro,  não há Libra, nem Dollar, nem Franco Suíço que dê rima certa, só se a cotação o garantisse.

Em contrapartida ministro rima com sinistro,
político com paralítico,
deputado com afilhado, renegado e safado.

Bolas, está difícil poetar.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

MALMEQUER

É uma homenagem ao Raul Solnado
o maior humorista sério da minha geração.
Fazia rir e fazia pensar.
Deixou muitas histórias, muitos filmes, muitos programas de televisão.
Fez revista, teatro e deixou-nos um teatro - o Villaret.
Tinha uma voz inconfundível, cantava mal mas deixou uma canção, um hino, uma ode, na Revista "Prá frente Lisboa", em 1972, em plena época de censura.

MALMEQUER

Apropriada para a época de então e para a de hoje.

Atentem na letra.         Totalmente contemporânea.

 
   Refrão
 
P
ortuguês, ó malmequer
Em que terra foste semeado?
Português, ó malmequer
Cada vez andas mais desfolhado

Malmequer é branco branco
Que outra cor querem que escolha
Se te querem ver bonito
Por que te arrancam as folhas?
Por muito humilde que sejas
Malmequer ó meu amigo
Lá vem o dia da espiga
Que tens honras de trigo

   Refrão

Malmequer tens pouca flor
Mesmo assim és um valente
Antes ser dez réis de flor
Do que ser dez réis de gente
És uma flor do povo
Vem do povo a tua força
Estás bem agarrado à terra
Não há vento que te torça

   Refrão

Malmequer ou bem-me-quer
És a flor mais desprezada
Uns com muito, outros com pouco
E a maioria sem nada
És branco da cor da paz
Mas seja lá por que for
Há para aí uns malmequeres
Que andam a mudar de cor

   Refrão

Regam-te a seiva com esperança
Mesmo assim não és feliz
Há muitas ervas daninhas
Que te atacam a raíz
Malmequer se fores regado
Num dia de muito Sol
Cresce, cresce, cresce, cresce
Para seres um girassol


   Refrão








OBRIGADO RAUL

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A CAÇADA


Estava tudo combinado!
Encontro às cinco e trinta. O carro, já com o motor a trabalhar, parecia aguardar, com impaciência, a chegada dos caçadores, mais o cesto do pequeno almoço, os bancos de armar, os sacos com os costilos e as costelas, e os frascos com as agúdias. 
Partida na hora, viagem curta.
À chegada é noite ainda, mas tudo tem de estar pronto antes do sol aparecer. É tempo de colocar as armadilhas. Os sítios são os do costume, os que vão receber os primeiros raios rasteiros do sol. Limpa-se o local, arma-se a costela, ou o costilo, prende-se a agúdia, escondem-se as armadilhas com folhas secas e terra, e passa-se ao local seguinte.
As madrugadas, na serra, começam a esfriar e apetece bem, depois de dada a volta, sentar no banco ao calor das brasas que aquecem a água para um café.  A cafeteira chia, a água começa a borbulhar e deitam-se cinco ou seis colheradas de pó cheiroso de café, duas mexedelas, já com a cafeteira fora do lume, uma espera de meio minuto e, depois, o colocar da brasa incandescente para que as borras assentem bem no fundo. Cada um, entretanto, foi colocando o pão em cima das brasas, e preparando as suas torradas, bem barradas de manteiga. Café servido sem pressas, mas a olhar o horizonte, à espera dos primeiros raios de sol.
 Seis horas e vinte minutos e eis o sol, vermelho laranja, a despontar, a saudar e a prometer um dia quente. A tranquilidade do bosque, feito de pinheiros e de carvalhos, agita-se. Piados, trinados, chilreios, assobios, enchem de melodias aquele lugar. A cada estalo de armadilha que se fecha, um silêncio significativo mas, logo de seguida, a sinfonia recomeça.
É altura de ir dar a volta, recolher os pássaros apanhados e rearmar as armadilhas. 
O sol já subiu suficientemente alto e é altura da segunda e última volta.
A contabilidade final não foi má. Promessa de um bom arroz.
Regresso de uma alvorada sempre emocionante e sempre esperada em cada fim de Agosto de férias.

domingo, 22 de agosto de 2010

O QUE ME DÓI

"  O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão..."
  - Fernando Pessoa, 5/9/1933




O que me dói é
Tudo aquilo que não conheço,
A dor que sinto é
Por tudo o que não chegarei a conhecer
Por tudo a que não saberei dar apreço
Por tudo o que não sei se vive,
Ou se vai morrer.

O que me dói é
A dor que sinto e não entendo,
A dor de ver sem perceber,
A vida que vivo sem ir vivendo,
E tudo aquilo que não quero esquecer...

sábado, 21 de agosto de 2010

INTEMPORALIDADE


"... 
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz."
- Fernando Pessoa - O guardador de rebanhos.

Deitou-se ao comprido,
Ficou quieto,
Imóvel,
Parado,
E, assim deitado,
Pôs-se a pensar que,
Às vezes,
Faz bem ficar assim:
Quieto,
Imóvel,
Parado,
Deitado a pensar...
A pensar verdade,
A pensar felicidade.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

FOI NUMA DAS MINHAS VIAGENS...

"... Ah, quando nos fazemos ao mar
Quando largamos terra, quando a vamos perdendo de vista,
Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,
Quando a costa se torna uma linha sombria,
Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer..." Álvaro de Campos

Então a vida muda,
Deixam-se de lado as razões,
Acabam-se os amores, as fúrias, as mágoas,
As ilusões,
Entra-se no Mundo Abstracto
Do movimento das águas,
Das ondas causando um balancear desencontrado,
Das brisas perfumadas por diferentes oceanos,
Das brumas surgindo como que do nada,
Das noites escuras, dos dias claros,
Dos ventos enchendo velas
Que nos empurram para longe, para longe...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

AO VOLANTE...

"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo..." (Álvaro de Campos)

E ao volante do Chevrolet lá ia,
Conduzindo com calma, sem parar,
Escolhendo um trajecto que lhe permitisse,
Sem pressas,
Levar os seus sonhos a passear.

E sem ninguém que os visse,
Escolheu a estrada
Que atravessava, na serra, o Monte da Lua,
Um cabeço, quase sem árvores,
De paisagem nua,
Só ele, sem mais alguém,
Imaginando que seguia outro caminho,
Percorrendo outro mundo,
Tentando levar os sonhos mais além...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

PASSAGEM DAS HORAS

"...
Colhe no giro do teu volante vertiginoso e pesado
Os corpos de todas as filosofias, os trapos de todos os poemas,
Esfrangalha-os e fica só tu, volante abstracto nos ares, ..." (Álvaro de Campos).

Vertiginosamente corria,
com a pressa de quem corre atrás de alguém.
Nas mãos, o volante pesado
dava-lhe um correr desajeitado
mas ia correndo sempre
atrás dos corpos de todas as filosofias,
tentando apanhá-los,
esmagá-los,
soltando os pensares
e atirando-os aos ares
assim  como aos trapos dos poemas,
esfragalhando-os em tiras 
libertando fonemas,
libertando-os das algemas,
ficando só,
aquela roda,
abstracta,
a girar,
a girar,
pelo ar...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

PASSAGEM DAS HORAS

"Ver as coisas até ao fundo...
E se as coisas não tiverem fundo?" (Álvaro de Campos)

Ele bem olhava,
deitou-se mesmo na borda daquele poço,
esteve ali horas,
a olhar e sem ver nada,
sem ver o fundo,
só o escuro, só o breu.

Mas tinha,
tinha fundo,
estava lá,
só que ele não o via.
Esqueceu-se,
ou não sabia,
que se houvesse luz,
ou se fosse de dia,
o fundo aparecia.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O CARRO

Precisava desesperadamente de um.

O outro, avariara, o conserto era caro, não tinha dinheiro para o pagar. E decidiu vendê-lo.  Encontrou quem o comprasse, mesmo com defeito, e sempre ficava com algum dinheiro para as despesas mais curtas.

Podia ser que ainda sobrasse algum dinheiro para o imposto, aquela anormalidade que tinha que pagar todos os anos e que sempre lhe custara, não só pelo dinheiro, mas pela injustiça que  se achava estar a ser vítima.

Agora andava mais a pé, não tinha outro remédio! Fazia o seu "footing" obrigatório e começou a notar que o peso ia diminuindo, as roupas a ficarem folgadas, as calças a terem espaço na cintura, o cinto a ter que ser apertado um ou dois furos abaixo, com mais roupa e menos corpo.

Para quem andara durante anos a tentar perder peso, a comer menos mas mal, a fazer caminhadas inglórias por não regulares ou não persistentes, a comprar todos os tipos de dietas que prometiam perder este peso e o outro, a tomar chás verdes, brancos, oolongs, agora, apenas pelo facto de ter ficado sem carro, a perda de peso tornou-se consistente, a alimentação passou a fazer-se de maneira mais racional, o humor melhorou, voltou a alegria, deixou de ter depressões e até voltou a usar roupa que colocara de lado porque  tinha deixado de caber lá dentro.

E pôs-se a fazer contas: não mais gastos com combustível, nada de seguros, fim às revisões e reparações, sem suplementos dietéticos caríssimos, sem ter que comprar roupa nova, talvez que tudo poupado desse para pagar o que devia. 

Agora anda mais confortável na vida, sem aflições, com menos peso e com mais auto-estima.

Afinal para que precisava de um carro? 

  

domingo, 15 de agosto de 2010

SENHORA DOS NAVEGANTES

Hoje vais andar a passear de barco, em tudo que é comunidade piscatória. 
Tudo começou no século XV, com as descobertas dos portugueses. Eles pediam-te a protecção das tempestades e de todos os perigos que o mar encerra. Pediam também ajuda para regressarem à casa que os viu partir.

O próprio Pedro Álvares Cabral andava sempre com uma imagem para proteger e ajudar na sua navegação.

Hoje vai haver festa, procissões no mar. Uma tradição associada ao feriado de 15 de Agosto, dia dedicado à Mãe de Cristo.

Um bom dia, para ti, Senhora!



sábado, 14 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (6)

"... Quero nos cais me deixar e me repartir
Se nesse mar me criei, eu sei de voltar...
Quantas as amarras desfiz, para me ver partir
Em quantos pontos deitei
E sonhei demais
Foram momentos de paz
E outros que eu não quis
Sei que esse mar me ensinou,
Tudo que aprendi..."   (Sonekka e Caito Spina).

Ei-lo, senhor de um mundo que não é dele. 

Espreitando horizontes, desconhecendo o fim ou o começo, escutando silêncios negando razões, julgando saber do destino, do amanhã.

Desfazendo nós, criando amarras, partindo longe e ficando aqui, sempre indo e sempre voltando, como  marés que se enchem e que se vão.

Aprendendo sempre, esquecendo logo, coerente e  inconstante, ardendo calmo como  fogo lento, arrastando tudo como tsunami de paixão.

Procurando paz no encontro da guerra, soltando âncoras agarrado ao cais.

Nesse o mar que o ensinou, nesse mar que aprendeu, o balançar da vida, o sobe e desce da ondulação, o vai e volta da maré...


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (5)

"Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...
" (Antero de Quental - Sonetos).

De repente, ainda com o nevoeiro persistente, a tristeza apareceu e ele, tristemente, sentou-se na amurada, perscrutando a vida, interrogando a alma, ouvindo um lamento que parecia vir daquele céu cinzento e nevoento, um lamento surdo, quase imperceptível, vago, mas que lhe fazia dor no peito, no coração, na alma?

Seria a solidão? O sentir-se só no meio dos outros? O querer isolar-se porque assim sentia a sua própria companhia?

E ao escutar o céu pesado e nevoento que via de diferente? A visão de um grito ou o escutar de um lamento? Um grito forte, arrasador, perturbante, qual raio de tempestade alucinante? Ou um lamento que vagamente lhe aparecia, saindo das coisas, saindo do nada?

Escutava também o tempo que ia passando lento, vagaroso, agarrado a si a aconselhar a sabedoria da espera, da paciência. O tempo que lhe aconselhava paz, que lhe dizia: espera! porque sempre alcança!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (4)

"Neste dia de mar e nevoeiro... são os longos horizontes, os ritmos soltos dos ventos e aquelas aves... voam sempre dentro do teu sonho como se o teu olhar as sustentasse"  (Sophia, 1950).

E veio um nevoeiro inesperado, súbito e manso, silencioso, como é sempre o nevoeiro; os horizontes perderam-se  do limite do mar - mais perto? mais longe? -, mas na certeza de que estão lá, sem distância, sem tempo, mas ao dará que ele concede.

O vento, esse, acomodou-se, parou de correr e começou a cirandar, a passar na peneira do nevoeiro, a soltar-se em ritmos dispersos, em brisas momentâneas, inconstantes, flanantes.

E as aves a voarem, em círculos, para dentro da imensidão  dos sonhos feitos de bruma, de olhares distantes, e a sustentarem-se nessa visão inquieta de certezas inconcretas de que são feitos esses mesmos sonhos.



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (3)

"Oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal?" (Fernando Pessoa).

Não sabia quanto, mas sabia que tem bastante... sal e lágrimas... de dor, de sofrimento, de saudades, de morte, mas também de alegria, de risos saudáveis, de desejos de ambição, de consolo de metas atingidas.

Mais umas horas, depende do vento, e a meta está quase à vista.

O brinde ao sucesso, ao destino, ao finalmente de um sonho, dos quatro.

Lágrimas de esperança, lágrimas de alegria, lágrimas de satisfação, lágrimas de emoção!

Valeu a pena?

Sim, tudo vale a pena.

Depende, sempre, do tamanho da alma!

E ela é grande!



terça-feira, 10 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (2)

A noite foi tranquila, um ou outro barco de pesca, ao longe, e o amanhecer amaciado por um véu de nuvens rubras, cheias de poeira do deserto, que despejaram uma chuva branda rica de um pó avermelhado que ficou agarrado na superfície do barco e das velas, que se tingiram de rosa!

Onda larga, cavada, a permitir uma viagem "soft". Pequeno almoço substancial a tornar-se na principal refeição do dia. O resto do dia perdeu-se no afinar das velas, sem necessidade de mudança de rumo, em apanhar sol, dormir, ler, e muita conversa. O banho de mar, a mais de 50 milhas da costa foi espectacular. Uma sensação estranha de solidão e companhia, de poder sobre as águas e de fragilidade frente à enormidade do oceano.

A pesca ao corrico não deu nada. O peixe deve ter fugido destas águas tranquilas e quentes.

Preparação para a noite, com distribuição dos quartos, de 2 horas cada. 

Ligação ao satélite para ler os mails, enviar correspondência imprescindível e esta crónica.

A noite arrefece sempre bastante.

É a máxima: o mar é frio, húmido e salgado!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

DIÁRIO DE BORDO (1)

Estava tudo preparado.

O barco abastecido de água e gasóleo, as baterias totalmente operacionais, os instrumentos de bordo a funcionar - radar, GPS, piloto automático, VHF, comunicação via satélite. Coletes salva-vidas, arneses, luvas, casacões impermeáveis, botas de borracha, barretes, tudo em ordem.

O frigorífico abastecido, a geleira cheia de comida pronta a passar pelo forno ou pelo microondas, e uma despensa cheia de bolachas, pão, café em pó, e todo um etc. feito de tudo.

Aproveitando a maré,  saída prevista para as 4h 30m, sem atrasos, tirados os cabos, defensas arrumadas, partida e, mal a barra saída, aproveitar o vento constante que se tem feito sentir, vela grande aberta, genoa desfraldada tomando o rumo certo para as próximas 72 horas, de mar aberto, com previsão de bom tempo para os próximos três dias.

A equipa constituída por quatro amigos, de longa data e muita marinhagem à vela, com promessa de viagem tranquila.

E o mar alguma vez foi tranquilo?

domingo, 8 de agosto de 2010

O FOGO

Quase lhe rondou a porta.

De início era aquele cheiro no ar, a atmosfera um pouco embaciada e o céu a acordar com um vermelho alaranjado intenso. Depois, à medida que o lusco-fusco ia embora e o dia clareando,  que o vento ia crescendo e o calor começava a aumentar, começou a aperceber-se de um fumo ao longe, que subia por detrás do monte na direcção das antenas. Depois  cheiro a lenha queimada, o estalar próximo dos pinheiros e as aves a passarem na mesma direcção, a fugir à nuvem de fumo que se ia aproximando.

Meteu-se na moto e foi tentar aperceber-se do que se estava a passar. Quando chegou ao cruzamento com a estrada nacional, não foi preciso olhar... as chamas lambiam o restolho dos campos a menos de 100 metros, o vento espalhava as labaredas, como se estivesse a pôr manteiga no pão.

Voltou para trás e accionou os mecanismos. Os bombeiros já estavam avisados e esperavam que o dia raiasse com mais luz para que o helicóptero pudesse levantar.

Ligou a rega, colocou as mangueiras em ordem e começou a molhar tudo em volta da casa, a deixar que a aquela chuva tivesse tempo de aguar bem os terrenos, as árvores, as sebes e o pedaço de mato que religiosamente conservava na sua estrutura original.

As chamas apareceram ao fim de pouco tempo, empurradas pelo vento que se fazia sentir, mais forte agora, e a incendiarem as copas dos pinheiros.

Como do nada o helicóptero apareceu e largou aquele balde enorme de calda retardante, no sítio exacto, no momento oportuno.

As chamas não passaram e aquele bloco de mato, humedecido, serviu de barreira ao evoluir das chamas.

Não passou do susto. Grande, um susto de impotência e medo.

Os bombeiros por lá ficaram, no rescaldo.

Arrumou as mangueiras e, pelo sim pelo não, deixou a rega a funcionar o resto da manhã.

Ficou o cheiro a fumo, a lenha ardida.

Os pássaros voltaram e ficaram por ali, a banquetearem-se de figos, de ameixas e das groselhas que ainda restavam.

O chilrear de boa disposição quase fez esquecer o acordar emocionante daquele dia.

sábado, 7 de agosto de 2010

SIMPLICIDADE

"... corta o tomate em pedaços de tamanho médio, junta-se ao azeite e à cebola cortada às rodelas, que já estão a refogar na panela e deixa, assim, o estrugido uns dois a três minutos, com a tampa, para que o tomate sue convenientemente.

Nessa altura, junta a água que, entretanto tinha a ferver, assim como uma pitada de sal e pimenta acabada de moer.

Deixa tudo novamente a ferver, lentamente, uns cinco a seis minutos.

Está na altura de adicionar os ovos. Pode colocá-los inteiros ou levemente batidos com uma varinha que depois adiciona, em fio, no caldo fervente, mexendo com uma colher de pau.

Veja se está bom de sal e pimenta.

Depois, é só servir em pratos fundo, nos quais coloca uma fatia de pão duro..."

Foi assim que lhe ensinaram a receita.

Resolveu, alterar um pouco e, em vez do pão e do ovo, meio escalfado, colocou no prato figos, previamente descascados, já cortados aos quartos. 

A sopa estava deliciosa. O quente daquele caldo balanceava com o frio do figo, que tinha estado umas horas no frigorífico, o acídulo do tomate era anulado pelo adocicado do figo, tudo num equilíbrio de sabores, de texturas, de aromas muito agradável ao paladar.

Ficou bem! Já não precisou de comer mais nada.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A BARRAGEM

Saiu cedo da quinta, de carro, porque ela não queria que ele andasse na moto. Tinha muito medo da moto e achava que era um meio de transporte perigoso e aquilo da obrigatoriedade de usar capacete com o calor, neste Verão quente, era insuportável. Depois as quedas... Tinha mesmo medo que algo acontecesse!

Para que ela ficasse tranquila ele lá foi de carro. E tinha razão, era mais confortável, tinha ar condicionado e era, seguramente, mais "seguro".

Tinha decidido ir à barragem. Havia lá um local bom para tomar banho, quase uma praia feita de um relvado natural até junto àquela água muito transparente, com boa temperatura e com a vantagem de, raramente, haver alguém.

Por um lado era bom, gostava de se sentir só naqueles locais que pediam sossego, por outro, não havendo ninguém, poderia ser perigoso se houvesse um acidente. O telemóvel não valia de nada porque ali não havia rede.

Mas os azares só acontecem aos outros e o Euromilhões também nunca lhe ia sair. Era uma boa máxima: azar aos jogos, quem sabe!, sorte ao amor?

Onze horas. Tinha levado uma cadeira de praia, mais uma vantagem de levar o carro, uma boa leitura, a garrafa de água e mais nada. Todos os ingredientes para uma manhã tranquila e uma boa natação até à outra margem. Precisava de fazer exercício e a piscina que tinha na quinta não era mais do que um tanque.

Um carro que se aproxima, um casal com duas crianças, barulhentas, gritantes e jogadoras de bola a esbarrar quase sempre no jornal que, ostensivamente, tinha aberto, bem de frente, para aquela família incomodativa.

Sem paciência para mais, arruma a trouxa, regressa a casa, toma um banho de piscina, e resolve ir almoçar uma sopa de peixe, junto ao rio.

Para enganar a sorte, desta vez, levou a moto...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DA VARANDA

... e arranjou uma daquelas cadeiras que quase se deitam, e deixou-se ficar.

Tinha levado consigo os jornais, um livro e o MP 4, com a esperança de passar uma manhã tranquila, com boa leitura, boa música, a deixar-se espreguiçar no dia que se adivinhava quente.

A piscina, logo ali em baixo, limpa de um azul transparente, com uma boa temperatura de água, uma sombra de medronheiro a garantir a protecção do sol, proporcionava-lhe um arrefecer de corpo sempre que o calor apertasse.

Os cães, aquietados pelo calor de Agosto, faziam-lhe companhia, eram-lhe fiéis e gostavam da sua presença.

As horas foram passando, lentas, porque não havia pressa para nada. Não tinha planos para o dia. Nem fazia tenção de sair. Já fora beber a bica, já comprara os jornais e a revista dos clássicos.

O calor não lhe dava fome. Sede sim! Mas tinha-se prevenido com uma garrafa de água do Luso.

Precisava daquele tempo. Precisava de pensar na vida. Precisava de tomar decisões ou, pelo menos, pensar o que decidir. 

De vez em quando um pássaro de voz roufenha saltava de ramo em ramo e, ao longe, escutava o bater ritmado de um pica-pau. 

Pouco mais. 

O silêncio emoldurava o ambiente. O cenário ideal para a procura de paz, de descanso e de tranquilidade.

Uma forma de carregar baterias e as suas estavam mesmo por baixo...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A SARDINHADA

Ela disse que ia telefonar, que tratava de tudo, que ficassem descansados.

Todos os anos, por esta altura, o grupo costumava reunir. Amigos de longa data, tinham este encontro todos os anos. No mesmo restaurante, a mesma mesa, quase os mesmos lugares.

A sardinha assada era o motivo. Todos gostavam de sardinha. Todos menos ela. Todos gozavam com isso mas ela não se importava. Ficava-se pelas lulas grelhadas, bem cortadinhas, em anéis, com aquele molho de manteiga e alho a cheirar a delícia. Os outros lambuzavam os dedos nas sardinhas assadas e ela, de faca e garfo lá se ia deliciando. E os outros a meterem-se com ela, por não gostar daquelas deliciosas sardinhas, bem assadas com a pele a saltar, regadas com um fio de azeite, acompanhadas de pimentos verdes assados e daquelas batatas com azeite e alho... Havias de gostar, diziam. Também nunca provaste!

Chegaram a horas, a mesa não era a mesma, a do costume, arrumada a um canto, sem vistas, o empregado não era o habitual.

Que já não havia ameijoas de entrada, tinham acabado.

Sardinhas? Acabaram de servir as últimas, para a mesa ao lado (a deles, a do costume!).

O que havia? Só frango assado, com batatas fritas e uma salada montanheira... é tudo o que há.

Desilusão!

Sem solução e que venha o frango. 

Há ainda quatro sardinhas. Vou experimentar, disse ela. Estavam uma delícia!
E o frango estava bom?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

PORTO SEGURO

O vento era de leste, um levante forte, de força 4 a 5, a carneirar a superfície de um mar azul carregado, com ondas cavas, que obrigavam a um "surfar" prolongado e perigoso. Às vezes, o barco atravessava-se naquele baile de vento e água e comprometia a navegação e o rumo determinado. As velas aproveitavam bem o vento quente e retesavam os cabos, sentindo-se uma tensão enorme em toda a estrutura.

Ao longe, um veleiro, numa bolina afirmada, quase deitado, afrontava o vento, as ondas e os carneiros deste mar forte e poderoso.

Não havia momentos para descanso, a atenção ao leme era constante, aos panos, sempre a corrigir, e o barco a ondular ao sabor dos movimentos das águas e do fragor do vento.

A tarde a fugir, as luzes de costa a adivinharem-se ao longe, o farol do cabo, na sua intermitência ritmada, dizia faltarem cerca de 15 milhas para chegar.

Mais uma hora e meia, por aí.

O aproximar difícil, o retirar do pano, o enrolar das velas, a noite escura e uivante, e as luzes da entrada a confundirem-se com as da marina, logo por trás. 

O motor em potência máxima a tentar equilibrar o barco num mar todo desequilibrado, desorientado, com ondas de mar e de ricochete a fazerem parecer estar-se numa casca de noz, qual caravela em pleno Cabo das Tormentas. Só faltava o Adamastor!

Depois a entrada e, quase por milagre, o vento abrandou, a água alisou, e o "rom rom" do motor a dizer, como um gato,  que se chegou a porto seguro!

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

ZÉ MANEL

Partiste, como querias, sem despedidas, sem sofrimento, sem dares maçadas. 

Apenas um discreto  mal estar no peito, quase um ai, e foste.

Não querias incomodar, nem incomodar-te e  conseguiste.

Discreto neste teu fim de vida.

Emotivo e exagerado nas histórias e aventuras que gostavas de contar, principalmente as acontecidas em Moçambique, dos percursos em automóvel, das praias imensamente bonitas.

Foste sempre um homem prático, amigo do amigo.

A pêra branca, a exagerar o queixo, tornava-te inconfundível, a voz arrastada era só tua, os gestos traíam-te, eras único, Zé Manel.

Agora deixas a saudade, deixas as boas recordações da tua  vida e dos bons momentos que passámos juntos.

Até sempre!

MAR CHÃO

O mar estava liso, completamente horizontal, o vento parado e o silêncio preenchia a solidão em que ele se encontrava.

No meio de um mar imenso, só. Não perdido mas desencontrado da vida, com a alma cheia de pesares carregados, com o coração a bater lento, descompassado, e o pensamento calado.

Assim ficou, quieto, imóvel.

Ao fim da tarde, quando o sol a começou a esconder-se por de trás daquele mar chão, a brisa suave, vinda não se sabe donde, empurrou-o lentamente, traçou-lhe uma rota inesperada e o barco foi, tranquilamente, sem horas nem esperas, a navegar... por aí!

domingo, 1 de agosto de 2010

SÃO HORAS, QUERIDO

Horas de ires embora, de partires para fora da minha vida.

Horas de ternura que tivémos, de encontros que realizámos, de amor que amámos.

Mas agora é hora!

Hora do adeus, hora de despedida, hora de separação.

Eu quero ter, agora, a minha hora, as minhas horas, sem pressas de respostas, sem pressões ou interrogações.

Quero orar para que a hora seja boa, seja reflectida, seja amadurecida.

Mas também quero a hora para rir, para me divertir, para gozar e, quem sabe, amar!

Por isso, quero a minha hora.

Querido, são horas...