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quarta-feira, 31 de março de 2010

FACE OCULTA (DA LUA)

Ela: Sabias que quando um pinguim encontra sua companheira, eles vivem juntos para sempre? Queres ser o meu pinguim?

Você é um homem surpreendente. Em consequência disso eu estou presa a ti em pensamentos... o primeiro e o último do dia é  sobre você. Não desse pouco que se deixa saber, pois, como já disse, há coisas que podemos revelar sobre nós que nada diz quem somos em essência, sendo apenas referências muito superficiais e que poderão não ser o que nos chama a atenção de alguém.

O que for necessário saber, tu irás me dizer, e eu não sei desejar saber mais do que isso.

Pensando bem, mais interessante do que segredos, são os mistérios do ser, por serem irreditíveis.

Ele: É curioso e quero que saibas que meu último apagar de ideias e o meu primeiro abrir de pensamentos vão, também, para ti. Depois anseio ler as tuas mensagens nesta escrita feita de virtualidades mas que são a realidade dos nossos diálogos, dos nossos encontros.

Quando alguém se sente aprisionado de alguma coisa, de alguma pessoa, mesmo que apenas esteja materializada numa escrita é sinal que os sentires estão despertos e orientados para quem está do outro lado.

Como a Lua, sempre a Lua, que tem duas faces: a visível e a oculta; sabemos que ela existe mas não a conhecemos e o homem que já foi à Lua não foi lá verificar o que ela nos esconde: por temor? por falta de curiosidade? ou, simplesmente, expectativa e forma sábia de aguardar?

Dos segredos e coscuvilhice da Lua o tempo vai permitindo a descoberta, tal como o embrulho do presente: primeiro retira-se o laço, depois a fita gomada, em seguida o papel de embrulho, lustroso e colorido, a caixa fica a descoberto e, lá no fundo, o ambicionado presente.

ELA: Lindo! Tens a razão ao muito que já foi dito, mas, no fundo, todas as coisas são desnudas, apesar de toda a protecção de que se possam cercar... é o caso da nossa LUA... "sempre a Lua"...

Nós não sabíamos, mas houve alguém que observando (antes mesmo dos pretensiosos americanos irem até lá pôr aquela bandeira cheia de glória, etc e tal, e pouco nos dizer) soube essa dessa verdade de que tudo está diante dos nossos olhos.

Assim não há mistérios sobre essa face oculta da nossa Lua. O que acontece é o movimento do planeta Terra, girando ora em volta do Sol e da Lua, ora girando em volta de si mesmo... Claro que eu sei que tu sabes de tudo o que acabei de dizer... Eu disse para estar aqui a falar contigo.

Solidão... Eu precisaria escrever um bocado para estar a falar desse tema tão presente nos dias de hoje, Mas, por enquanto digo apenas que solidão, solidão mesmo no duro, é quando nos perdemos de nós mesmo e procuramos, em vão, pela nossa alma.

À tarde tentarei encostar o meu tempo ao teu. Um beijo em teu coração.

ELE: Outro.


terça-feira, 30 de março de 2010

A LENA

Hoje voltei à Lena, na Ortiga, perto da barragem de Belver.
A especialidade de "A Lena" é a lampreia. E, desde já digo que não vou dizer que é a melhor lampreia do mundo.
Isto porque, cada apreciador de lampreia, ou de cabeça de garoupa, ou de leitão sabe sempre de um tal restaurante onde essa iguaria é a melhor do mundo.
A cada cabeça seu paladar e, depois, o paladar varia com o humor daquele dia, com a companhia, com o que cada um está a pensar e, claro também, e imenso, com o talento do cozinheiro.
O restaurante "A Lena" é, por assim dizer, uma tasca; fica num apeadeiro do caminho de ferro, muito perto da barragem e do rio Tejo e é ladeado por um braço de água dessa barragem que forma, ali, uma praia fluvial. É uma casa sem nada de atractivo em termos de arquitectura ou de conforto mas que, nesta época da lampreia, fica  cheia como um ovo. Aos fins de semana, a partir de sexta feira, nem vale a pena lá ir, tal a romaria de lampreiófilos.
Cumpro esta tradição há mais de vinte anos. Fui lá pela mão de um grande amigo e fiquei fiel desde essa altura. Como disse, não vou dizer que é a melhor lampreia do mundo porque não sei se há outra melhor. A de hoje estava divinal, cheia de ovas, de bom tamanho, macia, a lascar-se com o tocar do garfo e com um molho de pedir pão para ensopar. O arroz, cozinhado naquele molho, estava perfeito. O vinho até era bom, apesar de não ser do verde tinto mas, como dizia um poeta que conheço:
 "Copos de bom vinho tinto,
   pelo menos, serão três!
   manda a regra, e eu não minto:
   beber um de cada vez!"
 O café e o bagaço completaram esta refeição quase sublime.

Hoje saí dali satisfeito, pela companhia de bons amigos, pelas conversas boas havidas e pelo renovar de sabores que a Lena sempre sabe pôr no meu paladar! 

segunda-feira, 29 de março de 2010

DA MINHA JANELA

 

Estou aqui, no Hospital, no meu gabinete de consulta.

O gabinete tem uma janela que dá para as traseiras do edifício e, dessa janela vejo as traseiras dos outros prédios, antigos a maior parte. São daqueles edifícios ainda com varandas, escadas e estendais de roupa, tudo em ferro pintado
Um prédio, o mais antigo, tem uma escada de emergência em caracol e outros três prédios, da correnteza, têm as escadas em zigue-zague.
Mesmo de frente para a janela, do outro lado, são as traseiras de um hotel abandonado. Edifício sem história, sem arquitectura marcante e sem ninguém lá dentro.
O espaço das traseiras é enorme e é bem aproveitado. Tem três casinhotas com telhados de lusalite, tem, também,  árvores de fruto: uma  nespereira a florir, um limoeiro carregadinho de limões, uma ameixoeira atapetada de flores brancas, que mais parecem flocos de neve gigantes e uma laranjeira que faz lembrar uma árvore de Natal cheia de bolas cor de laranja. No meio deste pequeno bosque de frutíferas, sobressai uma enorme roseira, de rosas amarelas, lindas! 
E tem gatos, tem melros, tem pombos e pardais; acontece aparecerem, por ali, um ou dois bandos de mulatas, aquela espécie de papagaios todos verdes e de bico preto, vindas não se sabe de onde. Uma vez por outra recebe, também, a visita de gaivotas, daquelas que sobrevoam a cidade à procura de alimento nos caixotes do lixo.
E  tem, também, uma antena parabólica enorme, a olhar o céu.
E hoje tinha, ainda, uma senhora loura, à janela, a estender roupa. É que hoje é segunda feira, dia de grandes lavagens, pelos vistos, e a roupa estendida é muita, naqueles estendais de ferro e arame, principalmente roupa de cama, lençóis e fronhas, e toalhas de banho; também há muitos panos de cozinha pendurados, multicolores, como se fossem bandeiras de coloridos países.
As varandas estão cheias de muitos vasos. Mas poucos são os que têm flores, pois ainda não é o tempo.
Depois há aquela vizinha que, sempre à hora certa das 11, atira para cima dos telhados de lusalite daquelas casinhotas, pedaços de pão velho para os pássaros, enquanto outra cuida da água e da ração dos gatos, meio vadios, que por ali andam e que, neste momento, aproveitam o raro sol que nos tem visitado e se deixam ficar quietos, mas atentos, quais lagartos, a aquecer-se bem enroscados.
Muitas vezes fico ali, a olhar a vida daquele ecossistema urbano, mas nunca é por muito tempo. É que, quando dou por ela, já tenho sentada na cadeira do paciente, a impaciente dona Julieta que, do alto dos seus 85 anos, dá um tossir mais forte, a marcar presença.

domingo, 28 de março de 2010

O REGRESSO





O dia de sol prometia, a brisa suave, mas constante, convidava, o desejo de regressar, de voltar àquele mar, era imenso.
Amarras soltas, defensas arrumadas e a saída da marina com o auxílio do motor.

O mar estava calmo, com uma vaga suave, regular, com cerca de um metro. A vela grande aberta, o motor desligado e a genoa a abrir-se, bem insuflada, e o ir, naquela bolina, quase umas dez milhas para fora da costa.

Foi o regresso, este ano, ao mar, com a promessa de muitas vindas e de muitas viagens.

Mas, mais do que as viagens, as distâncias, ou os portos desejados, é o prazer inebriante que o mar provoca; o estar ali a sentir o vento, a escutar o sulcar das águas, a afinar velas, a puxar cabos, mas, também, a deixar o tempo passar, a ver as aves no seu percurso, na procura do alimento... É o comungar o mar. É o contacto com a natureza.

Cada vez mais esta paixão. A partida e o regresso. E, entre o ir o vir, o Navegar!

Navegar é preciso. Viver não é preciso. E o Pessoa, o poeta sempre, no meio de nós!

sábado, 27 de março de 2010

VOAR

"O céu é o lugar onde o ar é gelado onde respiras e vives, onde desejas poder flutuar, sonhar, correr e brincar todos os dias  da tua vida.
O céu existe para todos, mas só alguns ousam buscá-lo". (Estranho à Terra).

Não sei se não ousam ou se não são capazes.

O "céu" é o local da nossa plenitude, o local ou o momento onde nos encontramos com nós próprios, onde os nossos sonhos são as realidades da nossa imaginação, onde somos a criança que está sempre dentro de nós.

O céu é o nosso jardim privado, o éden dos nossos pensares, onde brincamos a vida, voamos os sonhos, buscamos a felicidade.
 
Quem ambiciona o céu não se fecha em si mesmo, como a ostra que guarda a preciosidade da pérola para si mesma, apesar de a pérola não ser mais do que uma excrescência dela própria.

A cada um o seu "céu"!


sexta-feira, 26 de março de 2010

LIBERDADE

"Ao amanhecer havia cerca de mil pássaros escutando e tentando compreender Fernão Capelo Gaivota.
Ele disse-lhe coisas muito simples: que uma gaivota nasceu para voar, que a liberdade é a essência do seu ser e que todo o obstáculo a essa liberdade deve ser evitado.
 
Podemos ser livres!

Podemos aprender a voar!"

A liberdade é a nossa alma solta, é um conjunto de sentimentos não constrangidos, é um respirar sem opressões, é um olhar sem fronteiras. Liberdade implica, acima de tudo, respeito pelos outros, tolerância.

Qual o valor da liberdade?

quinta-feira, 25 de março de 2010

FERNÃO CAPELO GAIVOTA

"Fernão Capelo Gaivota passou o resto dos seus dias sozinho, mas voou muito além dos longínquos telhados.
A sua única mágoa não era a solidão - era perceber que as outras gaivotas se negavam a acreditar na glória de voar, que se recusavam a abrir os olhos e ver".

Quantos de nós não estamos sozinhos porque não acreditamos? Porque não queremos voar mais além? Porque não vemos para lá daquilo que os nossos olhos nos mostram? Porque não damos mais do que aquilo que temos para dar? Porque é que se perdeu o significado das palavras honra, dedicação, empenho, entrega? Porque é que a mentira é a verdade oficial?

Porquê?

 

quarta-feira, 24 de março de 2010

ALMA DE POETA











O vento era forte
Despenteava as cabeleiras das ondas
E estas, num acesso de raiva incontida,
com uma fúria embravecida
e ajudadas pelo vento norte
castigavam, com força,
aquela rocha,
ali adormecida.

E desfaziam-se em mil espumas
brancas,
leves,
inofensivas.

Até parecia
que aquela rocha,
ali quieta
transformava
a ira em calma,
a violência em brandura,
o azul em alvura.

Quem isto via,
de certeza
tinha alma de poeta!

terça-feira, 23 de março de 2010

O SORRISO DO OLHAR

Gostei de a ver assim contente, como uma criança a quem oferecem prendas, muitas prendas...
Os olhos sorriram, o sorriso brilhou e o coração bateu mais rápido à medida que ia desembrulhando cada um dos presentes. Adivinhei um humedecer especial nos seus olhos lindos.
Depois embrulhou tudo rápido, meteu o tudo no saco e foi trabalhar.
O dia passou-o a pensar no momento de chegar a casa.
E agora imagino-a sentada na borda da cama com as prendas todas espalhadas por cima do edredão e a examinar, uma de cada vez, com atenção, com minúcia, a apreciar os pormenores, a sentir o toque aconchegante da seda, o cheiro da pele...
Que bom ver alguém a sentir-se assim feliz e contente!

segunda-feira, 22 de março de 2010

A MANTA DOS INVISÍVEIS

Acabei de ler num jornal que foi inventado um processo de tornar invisíveis os objectos. Tipo uma espécie de manta reflectora que desvia o olhar e impede de ver o objecto mas dando a sensação de que se vê através dele.
Acho que vai ser comprado por muita gente, muita gente que gosta de se esconder sob a capa da invisibilidade, do pseudónimo, para incomodar os outros, lançar boatos, chatear quem quer tranquilidade. São muitos esses anónimos, toda a gente sabe que existem, têm nome, são joões, manuelas, renatos, teresas, todos assumidamente cobardes. Andam pelos blogues a falar mal deste e desta, a imaginar conversas, a injuriar, a boatar. Chegam mesmo a conseguir a "password" das pessoas e introduzem-se nos seus mails.
Sei de dois casos em que isso aconteceu. Foi feita a denúncia na polícia... até agora só ficou pela denúncia. Espero que, brevemente, essa gente vil possa ser identificada e denunciada.

domingo, 21 de março de 2010

LISBOA FLOR



Os corvos e a caravela
Bandeira desta cidade
Lisboa!
Pintura de aguarela
Feita de sons e claridade.


Os bairros e as colinas,
O Fado e os poetas,
Os Pregões e as varinas,
Lisboa!
Cidade de portas abertas!

O Tejo, ali, mesmo ao lado,
Passeia seu espreguiçar
E o velho Castelo,
Lisboa!
No alto, aprumado
Alcança longe com seu olhar!

Lisboa, menina-moça, bela
Cidade-Luz, feita de cor.
Lisboa!
Quando te vejo da minha janela
Vejo-me num jardim, vejo-te uma flor!

sábado, 20 de março de 2010

CORAÇÃO DE BATER RÁPIDO


Beatrice sonhava. Sonhava um grande amor. Um amor daqueles que arrebatam o coração, a alma, os sentires, os desejos, a vida…
A lua preenchia a noite com a sua luz. Uma luz suave, coada por um céu levemente enublado, que transmitia paz, aconselhava tranquilidade e amolecia aquele coração ansioso e de bater rápido.
A vida passada tinha-lhe legado lembranças que, não raras vezes, deixavam um misto de saudade e de raiva, como um sim e um não, que se equilibram nas proporções mas agitam a alma e aceleram esse bater do coração.

Daniello estava tranquilo, sentado na areia daquela praia vazia, com um livro na mão, mas a olhar longe o mar que rumorejava o bater das ondas pequenas de maré vazia. A lua fazia um carreiro de prata que ondulava ligeiramente sobre as águas quase tranquilas.

“Lindo, este luar!” Foi a única coisa que ela disse para aquele homem bonito, ali sentado. Ficou sem resposta. Será que não ouviu ou prefere ficar calado? De pé descalço foi-se aproximando daquela suave rebentação deixando que as águas quase mornas lhe viessem beijar os pés. Caminhou um pouco ao longo da praia e, quando voltou para cima ele já não estava lá.

Naquela noite Daniello teve dificuldade em adormecer. Aquele “lindo, este luar” dito por aquela mulher de voz grossa, mas quase cantada, com um sotaque italiano, ficou gravado nos seus ouvidos, atravessou-lhe o pensamento e não o deixou dormir. "Lindo, este luar"… a persegui-lo como um encantamento! Não dormiu, mas sonhou, muito!

Beatrice, naquela noite, teve dificuldade em adormecer. Aquele homem bonito sentado na areia, abandonado no olhar e desligado do mundo que o rodeava - e ela que era, naquele momento, o mundo que o rodeava, pois não havia mais ninguém na praia – deixou-a intrigada e de coração mais agitado. Tinham-lhe dito que, quando começasse a sentir o coração a bater mais desencontrado subisse e descesse umas escadas em ritmo apressado e tudo passava. Mas, desta vez, o bater descompassado era outro. Sentia calor no corpo, as mãos ficaram humedecidas de um suor fino, os lábios avermelharam e as emoções da sua juventude pareciam regressar. Não dormiu, mas sonhou muito!

Para Daniello o dia acordou de sol, límpido e de cores lavadas. Decidiu ir à cidade comprar uns livros. A paragem do autocarro ficava relativamente perto e o percurso até ao centro demorava cerca de vinte minutos.

Para Beatrice o dia acordou radioso, luminoso e a sorrir para ela. Tinha aula de saxofone das dez horas até às onze e meia. Praticava há três anos e faltava um ano para terminar o curso. Jazz era o que mais gostava de tocar. A paragem do autocarro distava uns cem metros da sua porta e o percurso até ao centro da cidade demorava cerca de vinte minutos.

Chegaram à paragem quase ao mesmo tempo. Olharam-se com surpresa disfarçada. Ele, por uma questão de cortesia, deu uns bons-dias tímidos. Ela, com uma ansiedade atrapalhada, respondeu com voz baixa ao cumprimento.
Desta vez foi ele que disse: “Temos um bonito dia de sol”. Com a voz grossa, mas titubeante, ela concordou e acrescentou: “Pena ter que ir para a aula de saxofone, apetecia muito mais praia”. “Com uma boa companhia”, respondeu Daniello, ao mesmo tempo que acenava à motorista do autocarro para que parasse ali.

Deixou-a entrar, cortesmente, e sentaram-se ambos ao lado um do outro. Não havia mais passageiros. A motorista, bem negra, cantarolava uma lengalenga monótona…”que raio de vida a minha, ninguém me leva deste lugar, queria de alguém ser rainha, queria contigo casar”… Sorriram um para o outro, com troca de olhares quase cúmplices e deixaram a viagem seguir.

A meio do percurso, perto do miradouro de Santana, Daniello sentiu que as mãos de ambos se tocaram, também os bancos não davam muito espaço e era natural que isso acontecesse. A sensação foi boa, apetecia segurar-lhe a mão, deixar que os dedos se entrelaçassem e sentir o corpo dela encostado ao seu. Beatrice apercebeu-se, também, que as mãos se tocaram, mas não fez qualquer gesto para afastar, pelo contrário, a sensação foi boa, apetecia-lhe segurar a mão, entrelaçar os seus dedos nos dele e sentir o corpo dele encostado ao seu.

“O luar, ontem, estava lindo” disse ela com a sua voz grossa. Desta vez ele respondeu: “Sim estava lindo, e mais encantador ficou quando você apareceu. O meu nome é Daniello, posso saber o seu?” “Beatrice”, respondeu ela acrescentado ambos, logo de seguida, um “muito prazer”.

Desta vez os olhos olharam-se fundo, como que se estudando mutuamente, as mãos foram-se apertando fortes, os dedos começaram a entrelaçar-se e os corpos a encostarem-se com firme determinação. Um sorriso imenso saiu daqueles olhares e um beijo longo confirmou o desejo de ambos.
Passou mais um tempo e eles continuaram, de mãos dadas, com os dedos bem entrelaçados e os corpos assumidamente bem colados. Num momento, ele afastou-se um pouco, olhou-a bem de frente, pegou-lhe de novo nas mãos e, em tom solene e com voz que se ouvisse, perguntou-lhe: “Queres casar comigo, queres ser a minha rainha?”
“Estava a ver que nunca mais perguntavas” sorriu ela com a satisfação a saltar-lhe do peito.

A viagem chegou ao destino e, de mão dada, saíram do autocarro sorrindo no momento em que a negra cantarolava …”deu sorte na vida minha, vou sair deste lugar, vou ser de alguém a rainha, e vou com ele casar”… ao mesmo tempo que lhes piscava o olho, com um sorriso cúmplice.

sexta-feira, 19 de março de 2010

GALILEO GALILEI



Pisa continua com a Torre inclinada. Cada vez mais! Mas está de cara lavada. Branca como nunca tinha sido vista assim, mas ainda de andaimes no quarto andar. Cá em baixo, uma barreira de protecção impede que os milhares de turistas, que a admiram e fotografam, se aproximem demais, não aconteça a queda de algum objecto do local onde ainda as obras decorrem.
Rafaello, com o seu fato-macaco branco imaculado, limpava uma roseta em calcário com uma esponja apropriada, previamente mergulhada em água saponificada com pó de esmeril. Era como uma lixa muito fina que ia retirando o negro da poluição daquelas pedras expostas a um ambiente cada vez mais poluído e corrosivo e, ao mesmo tempo que branqueava a pedra, deixava na sua superfície, ao secar, uma película protectora que atrasava o desgaste da mesma, pelos agentes poluentes. Especializou-se na recuperação de imagens e figuras em relevo feitas em pedra mármore. Já trabalha nesta arte há mais de 20 anos e é considerado um perito na matéria.
O dia tinha acordado risonho de sol, os turistas e estudantes começaram, cedo, a visita ao Campo dei Miracoli: o Baptistério, o Duomo e o cemitério do Campo Santo, juntamente com a mais famosa torre do mundo, constituem o conjunto arquitectónico daquele local. Um conjunto admirável de mistura de elementos mouriscos, como os embutidos de mármore em arabescos geométricos, com delicadas colunas românicas e esguios nichos e pináculos góticos.
As pessoas aglomeravam-se à volta da Torre, os guias com as bandeirinhas, os girassóis de plástico ou outro objecto apelativo, lá iam arrebanhando os seus turistas e explicando o que interessa saber sobre a história da construção da Torre e da sua inclinação. Uma senhora, de alguma idade, mais afoita, passa a barreira frágil que impede o aproximar da Torre e tenta a fotografia única e espectacular, não só pela proximidade mas pela perspectiva de inclinação que aquele local lhe podia proporcionar. Não se apercebeu de qualquer protesto ou aviso para que se afastasse do local. Mas, lá no alto, Rafaello, bem gritava e gesticulava cá para baixo para que a senhora saísse daquele sítio, bem na perpendicular dos seus objectos de trabalho e que repousavam no parapeito da varanda, tão inclinado como a Torre. A altura a que se encontrava e o barulho lá em baixo, não deixavam que a sua voz se fizesse ouvir. Então, num gesticular mais exuberante de desânimo, ou não fosse italiano este Rafaello, bate com a mão esquerda no balde cheio daquela água com esmeril ao mesmo tempo que larga a esponja que tinha na sua mão direita. Ambos os objectos chegaram ao chão exactamente ao mesmo tempo, a fazer lembrar a experiência realizada por Galileo Galilei, no Século XVII, sobre a queda de corpos de pesos diferente, numa clara demonstração que a lei da gravidade (ainda desconhecida naquela época) é imutável.
A senhora, que já estava do lado de fora da cerca junto do seu grupo excursionista, não se apercebeu nada do que se passou e, muito menos, desta original demonstração acidental da lei da gravidade.

quinta-feira, 18 de março de 2010

APAIXONADAMENTE DADAS...



Florença é uma cidade plana, passear a pé não se torna cansativo e as bicicletas e as duas rodas motorizadas são presença constante nas suas ruas estreitas.
Mas, para Bella o dia tinha sido muito cansativo. Acabava de deixar, no hotel Villa de Médici, um grupo de japoneses a quem tinha servido de guia. Eram 17 horas. Tinha começado às 9 horas a visita turística que a agência lhe solicitara. Volta a pé pelo centro da cidade, visita à Galleria dell’ Accademia para ver a estátua de David, passagem pelo Battistero de San Giovanni e pelo Duomo de Santa Maria del Fiore, depois a Piazza della Signoria e um atravessar da Ponte Vecchio sobre o Arno. Do outro lado do rio, um autocarro levou aquele grupo a Siena: uma cidade medieval de ruas íngremes que se dirigem, como os raios de uma estrela, para a Piazza del Campo onde decorre, cada 2 de Julho, o festival mais célebre da Toscana – o Pálio de Siena - uma corrida de 17 cavalos em pêlo, à volta da Piazza, representando, cada um, o seu Contrade (distrito). O vencedor ganha um palio (estandarte). Uma hora de almoço que aproveita para descansar daqueles japoneses cansativos. Depois, a visita ao Duomo de Siena e, em seguida, o regresso apressado por causa das horas - é que o horário tinha de ser cumprido ao minuto e a chegada estava mesmo marcada para as 17 horas.
Despedidas feitas, dirige-se para a bicicleta e, num pedalar apressado, atravessa a cidade em ziguezagueares constantes, numa espécie de gincana, para evitar os turistas que ainda enchiam as ruas da cidade. Quando passou por mim os olhos já brilhavam de alegria e o cansaço, que certamente teria quando pegou na bicicleta, deu lugar a um sorriso satisfeito e apaixonado. Giorgio esperava-a ali, um pouco mais à frente, junto à Piazza della Repubblica. Quando voltei a olhar para os dois, já iam longe, de mãos dadas, apaixonadamente dadas…

quarta-feira, 17 de março de 2010

O CÓDIGO



Desta vez Leonardo intrigou os seus discípulos.
Pegou no carvão, no bloco de apontamentos e pôs-se a escrevinhar com ímpeto, de um lado para outro, agitado.
As cabeças, expectantes, acompanhavam esse movimento, como se assistissem a uma partida de ténis – bola cá, bola lá -...
De súbito a agitação cessou. As cabeças pararam o seu vai e vem.
Leonardo sorriu brevemente.
Pousou o carvão sobre a mesa e abandonou o bloco em cima de um banco, saindo para o jardim.
Todos se precipitaram para ver... apenas umas siglas indecifráveis.
Talvez seja o tal Código de Da Vinci, disse Melzi, seu discípulo favorito.

GÉNIO


A tarde escoava-se rapidamente. O sol apressava-se a desaparecer no horizonte e Catarina, mãe de Leonardo, atarefava-se na preparação do jantar. Accatabriga del Vacca, um afamado pasteleiro de Vinci, ia cear e propor-lhe casamento. Desde que o pai de Leonardo a abandonou, a vida ficara difícil e o casamento com o pasteleiro podia proporcionar-lhe algum desafogo.
E, quem sabe! Talvez Leonardo se tornasse, também, um mestre pasteleiro!
O problema é que as peças de maçapão que Leonardo modelava e deixava a secar ao sol da Toscana não apeteciam ser comidas, antes admiradas como esculturas originais.
Daí mandá-lo para o pai, em Florença, que o entregou a mestre Verrochio.
Assim se perdeu um pasteleiro e se ganhou um génio.

terça-feira, 16 de março de 2010

AEROPORTO



Local de partidas e de chegadas, de encontros, de matar de saudades, de malas perdidas, de lágrimas de despedidas, de risos de alegrias, de compras, de esperas, de desesperos pelos atrasos, de filas, de quase tudo do tudo.
Agora está mais espaçoso, renovado, mais atraente, também muito mais comercial, com muitas lojas novas e muitos restaurantes, a apelar ao consumo, ao gastar do dinheiro vivo, ao utilizar dos cartões do dinheiro plastificado.
Parece mesmo um Centro Comercial com a diferença que, em vez de se regressar ao parque de estacionamento no fim das compras, se toma o avião. Muito mais fino, mais selecto, mais extravagante. O destino não interessa muito: pode ser para o Porto ou Faro, como para Xangai ou Sidney. Eu fico-me timidamente pela Europa, num voo saltitão entre Lisboa, Paris e Florença.
Vou visitar, outra vez, o "meu" David, a ponte Vecchio, passear pelas ruas estreitas e cheias de História feita de muitas histórias, embrenhar-me novamente no espírito dos Médici, olhar as portas do Baptistério, sentar-me numa esplanada na Piazza dela Signora, percorrer, com calma, as bancas do Mercado da Palha, tentar visitar a galeria dos auto-retratos, aquele túnel imenso, por cima da ponte Vecchio, que liga as Gallerias degli Uffizi ao Palácio Pitti, almoçar uma saborosa Ribollita e, claro, comer o melhor gelado do mundo...
Uns dias de folga, de ausência, de afastamento, que vão fazer bem. Estou certo. A paz agitada desta cidade tranquiliza o espírito, revigora a alma e renova a alegria.

segunda-feira, 15 de março de 2010

PISA PAPÉIS


Tenho bastantes, uns cinquenta, por aí; nunca os contei e estão espalhados por muitos locais da casa e no consultório. Não há dois iguais; parecidos, alguns; grandes, pequenos, a maior parte em forma de bola, mas também os há com a forma de pêra, de ovo ou de outras geometrias, algumas delas bastante bizarras; ultimamente têm aparecido com a forma de frutos (tenho um tomate e uma maçã, ambos de um vermelho muito vivo), de animais (um pato preto e branco e alguns peixes, cheios de cores) e tenho um em forma de coração. Grande parte serve apenas como elemento decorativo, seja pelo tamanho, pela forma ou pelo peso excessivo; os outros exercem mesmo a sua função, geralmente os mais pequenos, dispostos em cima da secretária a calcar as receitas, as vinhetas, a correspondência, fotografias, tudo o que seja susceptível de sair do local por força duma corrente de ar.
Mas tenho um, também na minha secretária, redondo, de bom tamanho, cristalino, sem enfeites nem cores e que parece mesmo uma de bola de cristal. Daquelas dos adivinhos, dos curandeiros, das videntes, daqueles que enchem páginas de jornais com anúncios a prometer tudo: amor, negócios, mau olhado, casamento, impotência sexual, depressão, inveja, amarração...
Se, na realidade, servisse para adivinhar o futuro, para saber dos males dos doentes sem eles se queixarem, do prognóstico evolutivo de uma doença ou, ainda, saber o quanto tempo ainda tinham de vida, de certeza que já não a tinha ali.
Não quero correr o risco de adivinhar nada, prefiro basear os meus diagnósticos, as terapêuticas, os prognósticos de vida, nos meus conhecimentos, na minha experiência de vida, na minha intuição e na arte que, por enquanto, a medicina ainda tem.

domingo, 14 de março de 2010

O SORRISO


Brevemente vou, de novo, a caminho de Itália, outra vez a Florença, com passagem por Paris a cidade onde vivi e fiz parte da minha formação médica.
Duas cidades que têm de comum algo que se passa com esta pequeníssima história que escrevi há uns tempos. É que vem a propósito:

O silêncio que reinava naquele lugar, um amplo atelier em Florença, foi, subitamente, interrompido por uma voz feminina, jovial e entusiasmada. Parecia que estava a contar uma história ou alguma inconfidência. À medida que a narração se desenrolava, entusiasmando atentos ouvintes, ia despertando, de quando em vez, “Ahs” de admiração, cochichos, sorrisos ou gargalhadas bem sonoras que enchiam o espaço daquele atelier.
A discreta Gioconda, que posava para Leonardo, esboçou um sorriso leve, subtil, quase enigmático... Da Vinci apercebeu-se daquele quase sorrir e fixou o instantâneo, não com a máquina fotográfica que, até àquele momento não tinha ainda inventado, mas na tela, com o pincel... Nem sei se também inventou a máquina fotográfica!

O que sei é que o Museu do Louvre, em Paris, ficou com o retrato da Mona Lisa, com os direitos de autor e tem, também, as fotografias do enigmático sorriso à venda.

sábado, 13 de março de 2010

PAI

Se fosses vivo, farias hoje 92 anos. Seria uma bonita idade. Imagino-te onde estás a sorrir para nós, a agradecer os parabéns que daqui, todos, te enviamos. Um beijo e muitos PARABÉNS Pai!

sexta-feira, 12 de março de 2010

CARÁSPITA

A minha tia Túlia era uma mulher ríspida, de poucos sorrires e muitos sobrolhos. Era o oposto da tia Lurdes, sempre a sorrir, com cara boa e olhar terno.

A tia Lurdes nunca dizia a palavra chatice, achava pouco conveniente numa senhora, ficava-se pelo aborrecimento, pelo incómodo, ou quando a chatice era mesmo uma chatice dizia "cha cha"...

Já a tia Túlia era pessoa de outros dizeres: chatice, maçada, tédio, maldição, raiva... naquele tempo era inaceitável dizer outras palavras que se dizem agora com todo o à vontade, embora se pensassem ou fossem ditas pelo próprio, mas na sua intimidade.

Mas ela tinha uma expressão que era o máximo: quando estava extremamente irritada com alguma coisa, quando fazíamos alguma asneira mais grossa, se a chateávamos para além do seu aceitável saía-se com o caráspita e, aí, era a altura para pararmos.

Daí para a frente, o mínimo era o quarto escuro, o castigo de ficarmos virados contra a parede, quando não umas palmadas aplicadas com força, com aquela mão seca, de poucos afagos e que nos deixava as nádegas bem vermelhas e doridas.

Nunca ouvi mais alguém que pronunciasse a palavra caráspita, não a encontro nos dicionários, mas acho que a palavra tem muito de onomatopeico; então se dita com o timbre de voz da tia Túlia, com aquele olhar de fúria e com aquela mão seca, levantada e pronta a actuar...

Penso muito na tia Túlia, cada vez mais... Bem, não sei bem se é nela que penso, se no seu, dela, caráspita. É que hoje em dia, face à pouca vergonha que por aí grassa, às trafulhices, às mentiras, às ignomínias que se praticam, vem-me sempre à ideia de gritar, bem alto, CARÁSPITA, para esta gente ordinária, para esta política, para este governo, para esta forma de vida.


quinta-feira, 11 de março de 2010

CIÊNCIA

Na escuridão daquela sala
uma luz de laser, de cor vermelha,
guia o nosso olhar
demonstrando a evidência de um novo marcador,
indo na descoberta duma célula até então desconhecida,
ou na indicação dum sintoma fora do vulgar.

Mas,
oh contradição,
se a ciência é luz,
se a ciência é descoberta
se a ciência representa abertura,
porque temos, então,
de nos fechar sempre numa sala assim escura?

Responde o sábio:
Amigo, é sina humana
sonharmos com a luz
e persegui-la
dentro da sala obscura
a que chamamos Universo.
E, se nos tenta a ânsia
dum momento fugaz de claridade,
há que fazer um verso
e regressar à circunstância
da sábia obscuridade.

quarta-feira, 10 de março de 2010

OS FRAMBÓSIOS


O senhor José é um homem rude, campesino, mas dócil nas atitudes e no modo como fala com as pessoas e, sobretudo, na maneira muito especial como lida e conversa com as plantas que são o seu mundo. É hortelão desde que se conhece e as roseiras, as plantas de cheiro, os tubérculos, os legumes da horta, as árvores de fruto não têm segredos para ele. Gadanha a terra, semeia, planta, arranja, rega, aduba, desparasita, sulfata, poda, colhe na altura certa... é o seu mundo!
Como gosta de falar, e nem sempre tem gente a seu lado, passa horas esquecidas a monologar com as suas "meninas". São monólogos que traduzem o amor que dedica às suas plantas: "eu bem te disse ontem que a geada desta noite ia dar cabo das tuas folhas, olha lá se não tinha razão?" ou "hoje acordaste bem disposta, és a rosa mais bonita deste rosal" e, sempre que encontra alguém para dialogar, perde-se nas conversas, mas sem descurar o que está a fazer: a abrir o sulco na terra para deixar passar a água que vai regar os feijões, a compor os pimentos verdes caídos por causa da ventania da madrugada, a cortar aquele ramo da macieira de bravo de Esmolfe já meio seco...
Há uns anos compraram-lhe umas estacas de framboesas e de mirtilos para ele plantar na horta onde costuma trabalhar. Nunca tinha ouvido falar em tais nomes nem como seriam os frutos desses arbustos; conhecia os morangos silvestres, as groselhas, as amoras, mas aqueles com nomes esquisitos, isso não. E lá dispôs as plantas em linha, orientadas por arames esticados entre paus fortes espetados no chão e tratou daqueles desconhecidos com todo o esmero e dedicação. O entusiasmo foi grande quando começaram a florir e, maior ainda, quando os frutos começaram a despontar. A natureza e os cuidados do senhor José fizeram com que aqueles novos arbustos se carregassem de muitos frutos que iam surgindo, crescendo e amadurecendo em várias etapas.
Da primeira vez que pediu um recipiente para os colher não se percebeu muito bem o que queria e para quê: era para os "frambósios", dizia ele. Aquele nome, assim, fez lembrar os gambusinos que se apanhavam com um saco e ficou-se na dúvida se não estaria a brincar ou a expressar-se mal. Só junto dos frutos se compreendeu: como eram parecidos com os morangos achava que o nome devia ser masculino e tratou de os baptizar de "frambósios". Não valeu de nada dizer que eram framboesas. O certo é que, lá na Quinta já não há framboesas... só frambósios!

terça-feira, 9 de março de 2010

RENEVAR


Mais uma vez as "minhas" Serras de São Mamede e de Marvão acordaram cobertas por um manto branco de muita neve.
Tem sido uma visitadora assídua destas zonas, a neve! A temperatura caiu durante a noite de uma forma significativa; a quinta arrefeceu o suficiente para que o acordar desta manhã enregelasse os ossos e pedisse, por mais um curto tempo, a preguiça da cama.
Mas o espectáculo lá fora era lindo. A Serra, logo ali, ganhou belos tons grisalhos e despertou desejos de uma volta até Marvão, passando pelos caminhos de São Julião, para apreciar a "Suíça" do Alto Alentejo. Máquina fotográfica em punho e a volta dada durante a manhã, com um frio e um vento cortantes. O espectáculo, sempre novo, agora "renevado" por este inesperado nevão, leva-nos em sonhos para outros locais. Quase me apeteceu calçar as botas, colocar uns esquis e deixar-me ir, assim, sem rumo, sem tempo, nas pistas da minha imaginação.

segunda-feira, 8 de março de 2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Hoje deixo aqui a minha homenagem a TODAS as mulheres.
Sempre foram para mim um exemplo de vida, de viver e de vivências.
Obrigado

domingo, 7 de março de 2010

SILÊNCIO DE OLHARES

O dia era de Festa! O terreiro, enorme, estava repleto de pessoas. Ele, menino de uns 6 anos, não sabia qual era o Santo da festa, mas devia ser importante: tinham-lhe vestido um fato à homem, com uma comprida gravata às riscas e um chapéu de feltro que devia ter sido do avô. Apesar de assim vestido continuava a ser o mesmo menino de cabeleira farta e olhos, grandes, de cor verde-mar. Por isso, quando o homem dos balões passou junto a ele, os olhos arregalaram-se e não hesitou em pedir ao padrinho, o tio Manuel, que lhe oferecesse um daqueles balões coloridos que, atados no alto de uma cana, baloiçavam ao sabor do vento. A boa disposição do padrinho - sempre era dia de festa!- traduziu-se na oferta de dois balões grandes e vermelhos. E por ali ficou a brincar, a atirar os balões ao ar, o mais alto possível. A brisa suave daquele fim de tarde ia-os empurrando na direcção do sol que, àquela hora, começava a espreguiçar-se e a preparar-se para dar lugar à lua quase cheia que começava a nascer do outro lado.
Num certo momento apercebeu-se que uma menina o olhava fixamente. Também estava vestida à gente grande: um casaco comprido e um lenço de cores garridas, ao pescoço; de certeza que o chapéu também tinha sido da avó dela! Aquelas flores vermelhas, colocadas sobre a aba, davam a cor que sobressaía da palidez do seu rosto.
Foram-se aproximando lentamente um do outro. O olhar dele fixava os olhos dela e reparou que o olhar daquela menina saltitava entre o seu olhar e aqueles balões vermelhos, que ele, agora, segurava firmemente na mão. Não houve troca de palavras.
Instintivamente, ele pegou na mão da menina e colocou nela o cordel que prendia uma daquelas bolas vermelhas, da mesma cor do sol que agora começava a desaparecer.
Ficaram quietos, a olhar um para o outro, calados por um silêncio talvez cheio de dizeres. Os olhares sorriram e, sem qualquer palavra, os lábios pálidos da menina selaram, com um beijo, o silêncio daquele olhar.

sábado, 6 de março de 2010

A FRONTEIRA DA SEGURANÇA



A máquina fotográfica estava preparada e as cegonhas, naquele fim de dia, também se preparavam para o anoitecer. 

O dia tinha sido bom; os campos, de um verde luminoso depois daquela chuva persistente, constituíam um bom manancial de alimentos vivos: sapos, lagartixas, minhocas, ratos... e o papo estava cheio, consolado.

Tinha começado a época do acasalamento e da reprodução. Em cima do ninho, por ambos construído há já alguns anos, deram início à parada nupcial, feita de rituais próprios, com bateres dos bicos compridos, produzindo aquele som repetido e seco, como castanholas, com as cabeças a inclinarem-se acentuadamente para trás, numa dança complexa feita a dois. Os ramos arranjados e entrelaçados de novo, deixaram o ninho pronto a receber os ovos que irão assegurar o continuar da espécie.

O casal tinha chegado há uma semana: a viagem tinha sido longa, depois do inverno passado a sul do deserto do Saara, alguns milhares de quilómetros de voo feito, cada ano, nos dois sentidos e sempre para este mesmo local. Um sítio ermo, no cimo de uma chaminé em ruínas e suficientemente elevada para que, de lá, se tenha uma boa visão que assegure a procura da comida e a defesa de alguns inimigos tradicionais.

O sol começava a baixar no horizonte, hora boa para uma boa fotografia, a luz coada pela neblina do fim do dia atenuava as cores fortes e amaciava os tons contrastantes.

O casal, lá no cimo, continuava o seu ritual de namoro. O enquadramento estava perfeito, o silêncio daquele fim de tarde era o cúmplice que completava este cenário.

No momento do disparo, o ruído de um galope surdo acompanhado de um ladrar forte e rouco atrapalhou a fotografia, as cegonhas interromperam o namoro e, num bater forte de asas, planaram para longe. O rafeiro alentejano aproximou-se, agora com um ladrar mais feroz e a mostrar uns dentes agressivos prontos a rasgar. Felizmente o arame farpado estabeleceu a fronteira da minha segurança.

A foto, essa, fica para a próxima vez!


(DO AUTOR -  MOMENTO DE TERNURA - PORTALEGRE)

sexta-feira, 5 de março de 2010

ESCULPIR VIDAS


Desta vez tinham-lhe encomendado uma cabeça de cavalo.
Diante dele, um bloco disforme de um mármore branco mesclado, aqui e ali, de rosa e de negro. Ele gostava sempre de trabalhar ao ar livre e, nesse dia, uma neblina mais cerrada amaciava as sombras e humedecia, ainda que ligeiramente, a superfície da pedra. A prudência aconselhava o uso de óculos protectores e costumava resguardar as mãos com umas luvas de pele fina de modo a que pudesse sentir, pelo tacto, a superfície da pedra que iria talhar. Pegou no martelo e no escopro e pôs-se a dilacerar aquele pedaço duro de pedra de uma forma violenta mas orientada. As lascas saltavam do mármore a cada golpe do martelo e iam deixando descobrir aquilo que o artista via no seu interior. A pouco e pouco iam emergindo uma orelha, depois um pedaço de crina, as narinas abriam-se ao rodar rápido do escopro e os olhos iam ganhando vida à medida que os bateres na pedra se iam suavizando. Foram semanas de um trabalho feito a um ritmo desordenado, mas persistente. A pouco e pouco a cabeça foi ganhando personalidade e, nesse correr do tempo, o toque na pedra passou a fazer-se de forma mais branda, mais subtil, quase como um afago, um aconchego.
A obra estava, já, perto do fim. Nesse dia tinha trabalhado quase oito horas seguidas a acertar pormenores, a alisar as poucas asperezas que ainda sentia com o passar dos dedos, a pentear a crina longa e farta que cobria grande parte do pescoço forte de onde emergiam veias bem salientes. E começou a criar um afecto, quase paternal, pela sua obra.
Já tinha esculpido muitas cabeças de cavalo, todas encomendadas, todas vendidas. Mas esta decidiu guardá-la para si, criando um local especial no pequeno museu das suas peças.
Com todos os cuidados transportou a obra terminada para aquela sala acolhedora e bem iluminada, colocando-a no topo de um pedestal de mármore preto.
Era uma obra perfeita, quase real, imaginava-se o respirar por aquelas narinas bem abertas e os olhos, matizados suavemente de rosa e negro, davam a ideia de que viam o que se passava ao seu redor. Ficou horas esquecido a contemplar a sua obra, tocando-a docemente e afagando-a como se tivesse vida.
Quando ia a sair, no momento em que fechava a porta ouviu um breve relincho e, ao voltar-se, ainda teve tempo de ver aquele olhar cheio de vida dar-lhe uma piscadela de agradecimento.

quinta-feira, 4 de março de 2010

PEDACINHOS DA VIDA

Para que servem as rotinas?

Para ciclizar a nossa vida?

Para habituar o nosso viver a uma constância de atitudes?

Ou será que existem para serem quebradas? 

É uma expressão muito usual, essa a de "quebrar a rotina". Isto deve querer significar que a rotina é uma coisa frágil, delicada, pois se ela se quebra com tanta facilidade! 

Mas o quebrar da rotina pode ter várias formas: pode ser uma rotina consistente, que está entranhada no nosso modo de viver, como o acordar, o tomar banho, o fazer a barba, que não se quebra com facilidade, mas que uma vez por outra pode ser amolgada, quando decidimos não fazer a barba naquela manhã, ou nos deixamos a espreguiçar na cama por mais uns tempos - então, aqui, não quebramos, mas amolgamos a rotina; 
uma outra rotina é a que é feita dos sítios que habitualmente, ou rotineiramente, para melhor enfatizar o termo, frequentamos, como o local da bica ou do almoço, os pontos de encontro com os amigos, o supermercado onde fazemos as compras, e esta pode ser, também, não quebrada mas desviada temporariamente para outros locais, estilo agulha do caminho de ferro, em que mantemos o mesmo rumo, mas por outras vias, pois, mais tarde ou mais cedo, tornamos aos mesmos locais - também aqui, não quebramos, nem amolgamos, mas podemos dizer que desviamos a rotina; 
já uma mudança de residência, uma mudança de profissão, uma mudança de vida, podem ser mais assumidas e interpretadas com o tal quebrar da rotina e este quebrar pode ter vários graus: desde o rachar, ao estilhaçar, ao pulverizar.

E quando estilhaçamos ou pulverizamos a rotina, não vale a pena tentar unir os pedacinhos nem arranjar cola para os consolidar. Uma vassoura e uma pá, ou um bom aspirador, solucionam o problema. É que, quando se tenta colar, remendar ou remediar, no fim, vão-se sempre encontrar imperfeições, asperezas, conflitos...
Eu cá não tenho espírito de arqueólogo, não gosto de andar a juntar os pedacinhos da vida.

quarta-feira, 3 de março de 2010

PRAZERES

O almoço era excelente, o local não podia ser mais maravilhoso, a vista da janela perdia-se na imensidão daquele mar azul forte, bem tingido... quase apetecia mergulhar o aparo da caneta com que anoto os meus apontamentos e escrever com aquela tinta azul, bem salgada. De certeza que a escrita ia ganhar outro sabor, mas esta mania das medicinas refreou-me um pouco o entusiasmo porque associei, de imediato, o sal ao aumento da pressão arterial.
De qualquer modo vinguei-me durante a refeição: uma sopa cremosa com calabresa, aquela linguiça fatiada e bem salgada, a fumegar e a fazer-me lembrar a canja de galinha em Tormes ("desconfiado - Jacinto - provou o caldo que era de galinha e rescendia. Provou... e levantou uns olhos que brilhavam, surpreendidos." - Eça de Queiroz in A Cidade e as Serras); depois, e porque a vizinhança daquele mar tranquilo exigia um prato a condizer fui surpreendido por um Strogonoff de arangosta (lavagante) com risoto de trufas negras, de sabor e apresentação espectaculares e acompanhado de um vinho branco soberbo, um Lacrima Christi de 2008, na boa temperatura - um vinho dourado que deixa um adeus inesquecível; finalmente um Zabaglione com frutos vermelhos temperado com um Marsalla seco para cortar o doce deste fim de refeição.
Não sei se o fígado protestou, se a pressão arterial subiu, se os diabetes açucararam o meu sangue ou se o colesterol me besuntou, ainda mais, as minhas coronárias. Também não notei que o Lacrima Christi ou o Marsalla me tivessem perturbado o espírito.
Apenas sei dizer que senti uma onda de prazeres a invadir o meu sossego naquele começo de tarde em que me fui despedir daquele lugar.

terça-feira, 2 de março de 2010

DESPERTARES


ELA: Despertaste para mim, dizes... É o coração que nos diz o que é para ser visto... Os abraços que não se abrem são mortais para o amor, mas tu soubeste acolher-me, não como se de um inapelável destino se tratasse. Abriste os braços da vida para mim, aconchegaste-me no seio da tua intimidade, por isso me deixo adormecer nos sonhos das nossas vidas.
Tu dormes, mas não é sonho, eu existo!

ELE: Ambos existimos! Achamos bonito o que sentimos, porque é verdadeiro e também porque te sinto nos meus abraços, porque te acarinho no aconchego da nossa intimidade, porque te deixas adormecer assim, enroscada na entrega da nossa devoção.
Eu não te peço nada!

segunda-feira, 1 de março de 2010

E SE EU TIVESSE NASCIDO A 29 DE FEVEREIRO?

Como ia comemorar o meu aniversário? Na fracção de segundo ou no ínfimo instante que separa o 28 de Fevereiro do 1 de Março? Ou, só cada 4 anos, na ocasião em que os anos são bissextos? Fiquei cheio de dúvidas em como o iria fazer. E pus-me, por isso, a pensar. E acho que não o faria, nem de uma maneira, nem de outra, acho que iria passar a festejar o meu aniversário cada dia; claro que não teria esse nome e passaria a chamar-lhe diaversário e pronto! Ficava resolvido o problema.
Agora, tanto poderia ter nascido a 29 de Fevereiro, como a 1 de Agosto, ou a 28 de Outubro... qualquer dia dá! Para os amigos tem a vantagem de não ter que se comprar, de cada vez, a prenda dos anos... só a prenda dos dias e que seria proporcional à comemoração: um abraço, um beijo, um olá, um aroma de perfume "Pleasures", um grão de café "Delta platina", ou outra coisa qualquer... E, também, sem ter a obrigação de dar os parabéns diariamente.
E quando se recebe um telefonema, mesmo que não seja dos amigos a dar os parabéns, mesmo que seja daquelas chamadas chatas que nos costumam estragar o dia, sempre há a oportunidade de começar por agradecer com um "muito obrigado", ou um "agradeço muito a atenção por se ter lembrado do meu diaversário". Todos sabemos como um agradecimento pode mudar tanta coisa na vida...
Então, porque não comemorar diariamente o diaversário?
É que uma visita feita às necrópoles de Herculano e Pompeia, no sopé do Vesúvio, despertou-me, ainda mais, para os valores da vida em oposição à morte. É preferível, mil vezes mais, renascer cada dia, sorrir para a vida e andar em frente, do que ir morrendo ou fenecendo, quotidianamente, numa apoptose inglória e fatalista.
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