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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

PORTO

A viagem, apesar de longa, faz-se bem e não é preciso ultrapassar os limites de velocidade. É que há radares escondidos, prontos a tirarem o retrato e a estragarem o prazer da viagem...

Antigamente dizia-se que o melhor que o Porto tinha era a placa a indicar LISBOA.

Hoje, de modo nenhum se pode dizer isso. Quase seria um sacrilégio e, sobretudo, uma enorme falta de gosto.

É que o Porto está diferente, está bonito, tornou-se uma cidade agradável, bem estruturada, com vias de acesso fácil, com lugares agradáveis, sobretudo junto à foz do Douro.

No Porto as pessoas ainda se cumprimentam na rua, param para falar e não correm tão apressadas como em Lisboa.

No Porto come-se bem, também se bebe muito bem, e conversa-se muito.

No Porto respira-se bem, dão-se bons passeios no Parque da Cidade, sente-se tranquilidade.

Claro que nem tudo é bom no Porto...

O Porto tem um grande defeito: ainda mantém a mesma placa a indicar LISBOA.

É que apetece tanto ficar por lá...

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A FALAR COM OS SEUS BOTÕES

Gostava muito de falar com os seus botões.

E o tipo da conversa com os botões variava em função do número, do tipo e da qualidade desses mesmos botões.

E tinha botões de plástico ordinário, feitos na China, tinha outros de massa, de tamanho grande e de cores variadas, tinha outros, ainda, de metal, mais pesados e de brilho fácil e, no topo da melhor categoria de botões, tinha os de madrepérola, de brilho nacarado, irisdiscentes nos reflexos, uns botões de classe, apropriados para uma soirée elegante.

Adaptava, assim, a conversa ao tipo de botão. Se estava com os de madrepérola, por exemplo, a conversa que tinha com eles era uma conversa culta, letrada, ilustre... Só se atrevia falar de Sophia ou citar alguns dos seus poemas ou versos, quando vestia alguma coisa com botões de madrepérola.

Nunca falou com os seus botões de plástico, dos tais chineses e ordinários, sobre Camões ou sobre Pessoa... Com estes botões as conversas que tinha eram do tipo de mexericos, de problemas de canos entupidos, ou de limpezas ou, ainda, de osgas que se passeiam pelas paredes da sala de jantar.

Com os botões de massa, a conversa era sobre as coisas do dia a dia, do trabalho, das compras do supermercado, da receita do bolo de chocolate... e, com estes, a conversa variava consoante as cores dos botões: com os botões vermelhos, por exemplo, só falava de impostos, das contas do banco que andavam sempre a zero ou dos pagamentos que tinha que fazer.

Com os botões de metal, porque lhe faziam lembrar a tropa e a disciplina, só falava sobre assuntos sérios, sobre a legislação, sobre os raspanetes que tinha de dar aos filhos...

Arranjou uma caixa grande, com divisões, onde tinha, separados, os diferentes botões, por tamanhos e por cores.



Assim, sempre que lhe apetecia falar sobre um determinado assunto, ia à caixa, escolhia o ou os botões apropriados e começava a conversa.

No outro dia, parecia que a conversa não tinha mais fim. É que tinha deixado cair a caixa dos botões ao chão e ali andava ela, ajoelhada, a apanhar cada botão e, a cada um que encontrava, lá ia dando dois dedos de prosa, apropriada ao tipo de botão, claro!


quarta-feira, 28 de setembro de 2011

DE CHEGADA

Acostou o barco ao cais. O dia amanhecia e a neblina da manhã quase impunha um ambiente de mistério associado à angústia e à expectativa do regresso.

Foram semanas fora, sozinho, falando apenas consigo próprio pois, na sequência de uma onda gigante que lhe inundou o barco, ficou sem comunicações e impedido, por isso, de usar o Skype via satélite. Felizmente que o GPS , o radar e o piloto automático escaparam àquela água e lhe foram permitindo manter a rota traçada e chegar a bom destino, embora com algum atraso.

Sabia que não teria ninguém à sua espera. Daí, também, a angústia que sentia.

Ela adoecera, já ele andava pelo mar e, enquanto estiveram em contacto, ia acompanhando a evolução, o internamento hospitalar, a cirurgia... depois, mais nada!  Veio a onda grande que tudo varreu. Agora teria de ir ao encontro do desconhecido.

A casa fechada, as flores secas na jarra da mesa de camilha, a cama por fazer, o quarto com a roupa dela  espalhada aconselhavam a ida o hospital onde tinha sido operada.

As más notícias, o desfecho trágico, a dor, a tristeza, a saudade...



(Foto do autor)
Voltou ao cais, largou as amarras, e fez-se ao largo com o olhar molhado de lágrimas salgadas do mesmo sal de que era feita a água daquele mar...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

INVASÃO

O fim de tarde, ainda quente, convidava a um pequeno passeio à beira-rio onde, uma leve brisa atenuava a brasa que sentia no corpo e na cara.

As águas, naquele sítio do rio - quase um mar - por efeito da maré vazia, tinham descido o bastante para deixarem ver uma imensa extensão de areia e lodo que dava a ilusão de chegar até à outra margem!

No regresso do passeio, faltavam umas duas centenas de metros para que chegasse ao carro, já com o lusco-fusco a escurecer a margem, foi assaltado por uma nuvem densa de pequenos mosquitos vorazes, sedentos de sangue, de "bicos" afiados e de mira feita para acertar no alvo  do seu corpo.

De um momento para outro, a delícia do seu passeio transformou-se num pesadelo de picadas, de esbracejares, de zumbidos ferozes, de palmadas no ar, de um correr desenfreado...

Quando chegou a casa, ainda mal refeito daquele inesperado assalto, os braços já tinham pápulas vermelhas, o olho direito começava a inchar, as pernas estavam quase trambolhos de tão inchadas.

Parecia que tinha sido sofrido um assalto de tropas de elite de algum exército de pigmeus!

Agora só lhe resta, amanhã,  ter que ir para o trabalho de óculos escuros a tentar esconder aquele olho inchado e vermelho...

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A BANCA DOS MILAGRES

Entrou aflito, com grande dificuldade respiratória, a respiração era ofegante e muito ruidosa, e a fala entrecortada pela imensa dispneia.

Sentou-se, uma pausa de ambientação, Mozart a preencher o espaço daquele gabinete com um concerto de piano, um breve diálogo para um diagnóstico apropriado daquela dificuldade respiratória, daquela falta de ar, a auscultação e, a seguir, decidiu-se pela inalação de um medicamento de alívio.

Três acessos de tosse, um certo constrangimento na face, nova pausa, porque tudo precisa de tempo e, minutos passados, a sensação de alívio, o respirar mais profundo, a voz a soltar-se com facilidade, a conversa direita, sem cortes nem pausas, o peito a encher-se totalmente, o ar a sair, sem apitos, assobios ou obstáculos...

Esperou pelo preencher das receitas, ouviu as recomendações, agradeceu e saiu ligeiro, de passo firme, a sorrir.

Quando chegou à porta, já com um pé de fora do gabinete, vira-se para trás e diz admirado: "é verdade doutor, este seu consultório é uma verdadeira banca de milagres!"

domingo, 25 de setembro de 2011

CATAVENTO

Como o nome indica, cata o vento. 

Não é mais do que um aparelho que capta a energia do vento para produzir trabalho.

Os mais conhecidos e mais universais eram os moinhos de vento que se usavam, quer para extrair a água dos poços ou das cisternas, quer para moer os cereais e produzir farinha.  Esses cataventos quase desapareceram e, actualmente, não são mais do que peças de arqueologia industrial e artesanal.

Os novos cataventos, os que se vêem por ai, são essas enormes torres eólicas construídas para produzir electricidade, uma electricidade "limpa" que "suja" e esborrata a paisagem das nossas serras e montes.

No fundo, quase todos aproveitam a energia dos ventos para produzir diferentes formas de trabalho.

É que há cataventos que não produzem qualquer trabalho: são colocados no alto das chaminés, e por ali ficam, girando ao sabor do vento e apontando, sempre, o lugar donde ele vem.

(Fotografia do autor)

Estes cataventos, de repente, fizeram-me vir à lembrança, ou à cabeça, uns cataventos em forma de gente e que são conhecidos como os cabeças-de-vento, os cabeças-no-ar, os cabeças-ocas, cabeças-leves, os cabeças-de-alho-chocho ou, ainda, os cabeças-de-abóbora. A verdade é que todos têm cabeça, mas o cérebro, esse, é do tamanho dos miolos do galo que encima o meu catavento e, também quase não produzem trabalho. Mas dar trabalho, isso, quase todos dão!

sábado, 24 de setembro de 2011

DESPERTADOR

Tocou à hora certa: sete horas, nem mais um minuto!

E ela, que estava cheia de sono, enroscou-se no seu sonho e deixou-se ficar mais um momento. O tempo, só, pensou, para ela própria ir desfazendo, com doçura, as imagens e as recordações boas daquele sonho.

Momento que se foi prolongando, sonho que parecia que não querer esgotar-se e ela a enroscar-se mais nele, a abraçá-lo, a segredar-lhe intimidades...

Quando, finalmente, acordou, ali estava ele, a seu lado, com o tabuleiro a fumegar o café acabado de fazer, a cheirar a torradas besuntadas de manteiga, a saborear um copo cheio do seu sumo de laranjas acabadas de espremer...

Pena o tempo não parar ali, apenas por uma eternidade!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

OUTONO

Acabou, agora mesmo, de entrar. 
Com nevoeiro, com nuvens cinzentas e uma temperatura ambiente a pedir roupa mais consistente.

Chegou no início de um fim de semana e, por isso, fez a sua aparição de forma descontraída, sem grandes cerimónias ou manifestações.

Um dia bom para aproveitar a natureza da melhor forma, seja para passear junto ao mar ou dar uma volta longa pelos caminhos da Serra de Sintra, e até, quem sabe, não irá encontrar, numa das curvas do Monte da Lua, o Chevrolet do Álvaro de Campos a guiar ao luar e ao sonho (?)...

"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
 Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
 Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
 Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
 Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
 Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
 Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
... "

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

AVARIAS

Ontem foi o telefone, hoje foi o leitor de CD's que deixou de tocar e, há três dias, tinha sido o automóvel que ficara sem bateria.

Isto, sem falar da máquina de lavar louça que deitou a água toda para fora e ele passou uma boa hora de esfregona na mão a limpar tudo, ou do tubo do aspirador que se rompeu e, ainda, do chuveiro do duche que se entupiu!

Eram coisas a mais.

A verdade é que, bem vistas as coisas, tudo estava a ficar velho e com grande desgaste. Ainda por cima ele não era muito amigo de fazer manutenções.  O carro era a única coisa que levava à oficina para fazer as revisões.

Daí, não se ter admirado muito quando as avarias começaram a aparecer. Só achou estranho ter acontecido, quase tudo, de uma só vez...

Até nele próprio, que apesar da idade, se sentia ainda um jovem, começou a notar que já estava a ficar cheio de avarias: ora era o joelho que doía e quase prendia o movimento da perna, ora eram os olhos que, sem aviso, ficavam vermelhos e com imensa comichão, ou as taquicárdias que apareciam do nada, ou a sensação de peso nas pernas que se tornavam "chumbo" e, ainda, aquele catarro imenso, de fumador, que o obrigava a tossir, quantas vezes no meio de um concerto... 

Há tempos para tudo... até para as avarias!




quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O ARROZ DOCE

Fora mais um encontro do que uma celebração.

Um encontro de amigos que se vêem de tempos a tempos.

Tinham combinado um almoço num restaurante de ambiente familiar, numa zona sossegada da cidade, para poderem falar calmamente, sem as pressas de quem tem coisas para fazer.

Chegaram a horas, quase todos! O "Gordo", esse, era sempre o último, não que fosse por pirraça, mas antes por uma questão de lentidão: gostava de fazer tudo devagar, a falar era pausado, a comer era compassado, a andar arrastava-se...

A ementa do almoço era a da casa. Ninguém quis a sopa juliana e preferiram começar pelos peixinhos da horta, acabados de fritar. Pela pesca constante à travessa de onde vinham, deu para entender que deveriam estar uma delícia: o polme bem fino e muito enxuto, estalava à primeira dentada. Depois, veio o polvo à lagareiro, servido em doses individuais, bem macio e suculento, com o azeite ainda a ferver.
 
A sobremesa veio numa travessa, uma enorme travessa de arroz doce, bem amarelado pelas gemas dos ovos de galinhas do campo. Ainda vinha morno e cheirava a doce. 

Por cima, numa caligrafia tosca de canela, feita pela cozinheira, a palavra AMISADE, a dar o toque final à refeição.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

PHARMACIA

É o nome de um restaurante.

O ambiente parece-se com o de uma farmácia antiga, do tempo em que Pharmacia se escrevia assim, com os armários nas paredes cheios de frascos de vidro, balanças, espátulas, cadinhos, jarras de vidro castanho, caixas de madeira pintadas de branco com rótulos escritos à mão, naquela tinta de cor sépia, e mais uma série de outros instrumentos adequados à confeção de hóstias, comprimidos e supositórios.

Só não cheirava a remédio, a cânfora, ou a outra qualquer essência, porque o aroma que vinha do lado do Laboratório (leia-se cozinha) era suficientemente intenso para afogar qualquer outro cheiro.

Os pratos, as bebidas e as sobremesas, tudo tinha nome de remédio: do ácido acetilsalicílico ao paracetamol, da estreptomicina à claritromicina, da cânfora ao ácido bórico, do álcool desnaturado ao elixir de benzoato de sódio, da essência de terebentina à tintura de benjoim, da manteiga de cacau ao iodeto de potássio, do xarope de ipecacuanha à tisana de avenca...

Felizmente que não havia nenhuma referência a coisas do tipo estricnina, nem óleo de fígado de bacalhau, nem supositório e, muito menos, injecção.

Só se esqueceram do Leite de Magnésia Philips, das pastilhas Rennie e dos Sais de Frutos da Eno.

É que, com tanto "remédio" a atacar o estômago, não deve haver enfartamento ou azia que não se faça sentir com aquele horrível ardor no esófago a vir por ali acima!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

BRINQUEDO NOVO

Entrou pelo gabinete de consulta com um sorriso nos lábios. 

Entrou com a mulher, gorda e bem anafada, e um atrelado de rodinhas com o seu novo concentrador de oxigénio.

Viu-se que vinham, os dois, com ar de satisfação, com um sorrir de vitória! E não era para menos: ele, um insuficiente respiratório grave, de lábios mais azuis que rosados, de unhas quase eternamente cianosadas, de dedos de extremidades espessas, como se fossem baquetas de tambor, de falas entrecortadas pelo cansaço, desta vez entrou mais ágil, sem a matiz azulada da sua pele, mas com um rosa subtil a colori-lo, sem arfar mas a falar, a apontar o seu novo aparelho que o ajudava a respirar melhor, a ter mais qualidade no viver.

E falou do como se sentiu mais ágil, do como as unhas já não eram mais azuis, do como os dedos afinaram, do como já ia do quarto de dormir à sala sem se cansar, do como já podia sair à rua, do como já era capaz de pegar na neta ao colo sem perder a força nos braços...

E falou sem pausas, sem arfares, sem cianoses, sem cansaços, ignorando, quase, a doença, esquecendo os sintomas, minimizando as queixas.

Como se fosse uma criança entusiasmada com o seu brinquedo novo...

domingo, 18 de setembro de 2011

MENINA

A Mariana é uma menina. Melhor, uma menina num corpo de mulher.

A Mariana deixou crescer o corpo mas não quis deixar de ser criança.

A Mariana é muito delicada, atenciosa e gosta de prender a atenção.

A Mariana pede como uma criança, adora doces e gelados, mas nunca se serve sozinha. Pede sempre, por vezes insistentemente, e também, por vezes, se esquece de pedir "Por favor", mas os pais, atentos, logo a corrigem.

A Mariana é uma menina feliz que tem, também, a felicidade de ter uns pais que lhe dão todo o apoio, numa envolvência de afectos, de muito carinho e, sobretudo, de muito amor!

Gostei de ter passado a tarde com a Mariana.

sábado, 17 de setembro de 2011

BANDIDO

Ela tinha o hábito de sonhar.

A meio da noite, agarrava-se a ele e, em pleno sonho (ou pesadelo?), cravava-lhe as unhas, felizmente curtas, ou dava-lhe pontapés, ou batia-lhe, de punhos fechados, na cara, nas costas, onde calhasse. 

Ele era um mártir porque, como não a queria acordar - disseram-lhe que não se deve acordar quem está a ter um pesadelo, e ela agora tinha muitos - ia aguentando aqueles "maus tratos" noturnos.

Também havia noites em que ela sonhava doce e, nessas alturas, agarrava-se a ele, apertava-o contra si, e sorria, sonhando, de satisfação e de paz.

Ultimamente, porém, deu-lhe para falar durante os sonhos: com conversas descoordenadas, sem fio de meada, palavras soltas...

Mas, naquela noite foi demais! Além de lhe bater, de o arranhar e de lhe dar os pontapés, quase um costume, chamou-lhe nomes, praguejou e acabou, mesmo, por lhe gritar: BANDIDO!

Aí, ele não se conteve das ofensas com que ela o brindou, levantou-se, vestiu o roupão, foi para a sala e ligou a televisão. Ao lado, no sofá, estava ainda a caixa do DVD do filme que ela estivera a ver e cujo disco ainda estava no aparelho de vídeo.

Ficou mais descansado e voltou para a cama. Afinal aquilo não era nada contra ele!

"Ladrões e bandidos", era o nome do filme que ela estivera a ver e, de certeza, agora, a sonhar alto e ao vivo!

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

FIM DE ESTAÇÃO

Apesar do imenso calor com que este verão nos tem brindado (ou acalorado?), a estação está a chegar ao fim.

Entrámos no FIM DA ESTAÇÃO!

E, tal como nos saldos, em que as montras das lojas se enchem de roupa de verão e de cartazes a anunciar a redução dos preços, assim, também, está o tempo: com muito calor, mas a reduzir os dias, a refrescar as noites, a preparar-se para a estação mais bonita de todas.

Que bom esta época de FIM DE ESTAÇÃO!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

DEEP BLEU

A cidade fica ao lado mar.

O mar, ali, é de um azul forte e transparente, de um azul pacífico e terno.

E o mar, colorindo o casario que faz lembrar Lisboa, transforma  a paisagem num imenso azulejo da cor do mar...

(La Valletta - 14/09/2011)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

HARD AS A ROCK

Tinham decidido!

O jantar, à hora do Benfica - Manchester, iria ser no Hard Rock Café. Os écrans de televisão, espalhados pelas paredes, garantiam que não se ia perder pitada do jogo acompanhado pelo bife, o famoso RIBEYE STEAK, macio e encimado por um molho de manteiga de alho e Merlot, eram um programa aliciante para aquela noite de calor imenso. Havia ainda o ar condicionado da sala e, por ser um dia em meio de semana, a casa não iria estar muito cheia, nem muito barulhenta.

(Hard Rock Café - St. Georg´s Bay - La Valletta - Malta - 14/09/2011)
 Promessas!

O Benfica, que prometia ganhar o jogo, ficou por um empate, o bife, que prometia tamanho, maciez e sabor, saiu curto, cheio de aponevroses e duro de roer (hard as a rock), a sala, que prometia pouca gente e sossego, de repente, encheu-se com um aniversário de mulheres - umas 20 -, um grupo de "holigans" vestidos à Manchester e, para dar cabo do resto, um "entertainer" com uma viola tipo Jimmi Endrix, com a música do sintetizador no máximo, o som da viola estridente e uma voz de engolir microfones, que não deixava ouvir os comentários do jogo, nem manter uma conversa à volta da mesa.

O intervalo do jogo apressou o fim às promessas não cumpridas...

terça-feira, 13 de setembro de 2011

NARGUILÉ

O Narguilé é um cachimbo de água usado para fumar.
Como cachimbo que é pode ter várias formas, mas o princípio de utilização é sempre um mesmo: tabaco misturado com ervas aromáticas, ou cheiros diversos, que é colocado num "fornilho", onde se mantém aceso por meio de carvão em brasa. Depois, o fumo é aspirado por uma espécie de boquilha, passando, antes, por um contentor com água.

O Narguilé é originário do oriente e foi usado para fumar tabaco e ópio. A água, em teoria, serve para retirar as impurezas do fumo.

Habitualmente é fumado em grupo, acompanhado de uma bebida, geralmente café, e de uma boa prosa.

O Narguilé é composto por:
Base - é a peça central do Narguilé, assemelha-se a um vaso onde se coloca a água. Geralmente é feita de vidro, de metal ou de cerâmica.

Corpo - peça cilíndrica que sustenta o fornilho e conecta-se à base. A parte inferior do corpo projeta um tubo para dentro da água, que conduz o fumo.
Fornilho  - peça de barro ou cerâmica onde se coloca o tabaco e, por cima deste, o carvão em brasa.
Abafador - peça em metal para proteger a brasa do vento, evitando o consumo rápido do carvão
Mangueira - que é por onde se aspira o fumo, que é fumado por várias pessoas.
(MALTA - LA VALLETTA - ST. GEORGE'S BAY - 13-09-2011)
Aqui, na "rua do Pecado" de La Valletta fuma-se Narguilé em todos os bares; o cheiro adocicado, feito da mistura de muitos aromas, inebria e convida a sentar com os amigos, a formar uma roda, a aspirar aquele fumo comunitário, enquanto a conversa vai girando entrecortada pelo beber de um gole de café turco.
(MALTA - LA VALLETTA - ST. GEORGE'S BAY - 13-09-2011)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O GATO MALTÊS

Havia uma cantilena, ou lengalenga, sobre um "gato maltês que tocava piano e falava francês" que tinha a seguinte letra:

"Era uma vez
Um gato maltês
Que tocava piano
E falava francês
Queres que te conte outra vez?

Era uma vez
Um gato maltês
Saltou-te às barbas
Não sei que te fez
Queres que te conte outra vez?

Era uma vez
Um gato maltês
Que tocava piano
Falava francês
A dona da casa
Chamava-se Inês
O número da porta era o trinta e três!
Era bonito
E não era mau
E também cantava
Miau, miau, miau..."




(La Valletta - Malta - 12 de Setembro de 2011)

E este, que é um verdadeiro gato maltês, não sei se toca piano ou se fala francês, mas miar mia! Bastante!

Especializou-se em pedir comida, um bocadinho que fosse, com um miar melódico, ritmado e insistente, passeando junto das mesas o seu corpo magro, de costelas bem desenhadas na pelagem branca.

Mas não teve tempo de exibir as suas habilidades de francês e de piano em troca de um pedaço de costeleta de borrego, também maltês (?), ou de uma tira de gordura dum bife suculento.

É que o "garçon" do restaurante não lhe deu qualquer oportunidade... Com um "sape gato lambareiro" - dito em maltês, claro! - e a ameaça de um pontapé, o gato maltês virou costas e aí foi, num caminhar apressado e desengonçado... cantar a lengalenga para outro lado!
(Idem - Idem - Idem, mas apressadamente)

domingo, 11 de setembro de 2011

DEZ ANOS DEPOIS

O mundo ficou surpreendido, estupefacto com o que via, em direto, nas imagens da televisão.

Verdade? 

Ficção? 

Verdade mesmo, os aviões entravam pelas torres do WTC como se fossem facas a enterrarem-se em manteiga.

Depois, as explosões, os incêndios, o desespero das pessoas aprisionadas pelo fogo, pela destruição... Em 12 segundos as torres desfizeram-se em pó e acabaram por matar os que não tinham morrido com o impacto, as explosões, os incêndios... Foram 2996 pessoas, cidadãos americanos e de todo o mundo que por lá ficaram.

A seguir à queda das torres veio a retaliação, no Iraque, no Afeganistão e numa série de outros sítios originando  outros tantos conflitos.

Só no Iraque e no Afeganistão morreram, mais de 800.000 pessoas, a maior parte civis inocentes...  quase 300 mortos por cada americano que morreu em Nova Iorque!

À conta de quê? À conta de quem? Porquê?

As respostas todos as sabemos, uns de uma maneira, outros de outra, mas cada um com a sua verdade. O motivo parece ser o ódio, o extremismo, a ganância, o dinheiro...

Passaram 10 anos, 10 anos em que muita coisa mudou: a economia e a riqueza estão a deslocar-se para os países do oriente, e a recessão e a depressão estão a instalar-se de forma rápida e bem marcada por estes sítios do ocidente.

Altura para as pessoas abrirem os olhos? Para refletirem sobre quais são os verdadeiros valores da vida? Acabar com o ódio, com o extremismo, com a ganância e deixar, sobretudo, de se ser escravo do dinheiro, será a solução? Se não é, de certeza que ajuda muito...

O mundo e a vida são muito mais que isso. Tem de haver lugar para a confiança, para a amizade, para o AMOR!

sábado, 10 de setembro de 2011

A MALA

Não chegou.

Ficou pelo caminho, a rodar, indefinidamente talvez, na passadeira rolante de um aeroporto qualquer. 

Filas de espera, papéis, assinaturas, garantias, confirmação de entrega assim que chegar, mas nada!

Nada de mala, nem da roupa, dos sapatos, das coisas da higiene, do carregador do telemóvel e, muito menos, dos comprimidos para a enorme dor de cabeça que tudo isto lhe está a provocar...

Já lavou a roupa que trazia vestida, já a secou no secador de cabelo, já a passou a ferro e já vai entrar no terceiro dia sem notícias da sua mala.

Amanhã, bem cedo, se encontrar alguma loja aberta, lá vai ter que comprar um enxoval para ir alternando com a roupa que traz no corpo esperando e acreditando no regresso da sua mala pródiga.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

ETAPAS

Era para ser um voo em etapas.

Com saltitares de terra em terra até chegar ao destino final: um pouso aqui, o correr de um terminal para outro, mais um salto voado, outro pousar programado e, de novo, a corrida por corredores imensos com passadeiras rolantes para facilitar e apressar a partida para mais um voo.

Mas tudo foi em vão. O voo saiu atrasado da origem, chegou tarde ao fim da primeira etapa e, o outro, o que o devia levar para mais um passeio pelo ar, simplesmente não esperou.  Levantou voo e ele ficou em terra, de bilhete na mão, sem mala e sem mais voos.

Transformaram-lhe as etapas prometidas numa paragem, só, prolongada, dormida, esperada, atrasada...

Quem sabe amanhã consegue chegar ao final da etapa, à meta prometida?

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

TELEFONEMA

Ligou-lhe naquela noite.

O telefone avariado, fazia algum tempo, não lhe tinha permitido receber, nem fazer, qualquer telefonema.

Mas agora, com a ligação conectada de novo, com o sinal forte de chamar, pôde ouvir-lhe a voz, pôde escutar as novidades e as antiguidades, pôde saber da dona Mariquita, do filho do Martinez, das meninas do Cícero, das maldades da Diana, das conquistas do Amaral, do namoro do padre, enfim..., um pôr de histórias em dia desde o dia em que se avariaram, ao mesmo tempo, a televisão e o telefone. 

A televisão foi de vez, disse o técnico - já não tinha arranjo - e agora espera a oportunidade de um anúncio onde encontre uma em condições, mas baratinha, que o dinheiro anda fugido e escorregadio.

Agora com o telefone, a conversa foi outra: avisou a Companhia, explicou o que era, e ficou a aguardar que lhe estabelecessem a comunicação.

Demoraram, mesmo assim, duas semanas a restabelecer a ligação. Uma questão de cabos danificados que tiveram de ser substituídos.

Agora quase tudo voltara à normalidade, tudo menos a televisão!

Não que lhe fizesse falta por causa das notícias, são quase sempre más, nem dos programas da Júlia ou da Fátima, nunca vê, nem sequer do concurso daquele gordo vestido de preto; o que lhe falta, o que realmente lhe seca a alma é não saber se a Diana mata a Inês, se a Sandra fica com o Orlando, se o Fred se casa com Janaína ou se Solano morre com a maldição...

Mas, do mal o menos, apesar de não ter a televisão, a verdade é que sempre pode ir fazendo um telefonema para saber das novidades e para fazer um pouco mais de prosa, lá da Quinta, longe da civilização.



quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O POSTAL ILUSTRADO

Costumava enviar-lhe um postal ilustrado com a fotografia da cidade ou do local para onde tinha ido de passeio ou passar as férias.

E ele ia guardando todos os postais recebidos numa caixa de cartão onde estava escrito o nome dela, em letras bem grandes.

E já tinha postais de Viana do Castelo, de Coimbra, da Praia da Rocha, de Porto Covo, do Baleal, de várias ilhas açorianas, da Madeira, de Paris, de Londres, de Florença, de Amesterdão, de Bruxelas, de Sevilha, de Madrid, de Berlim, de Viena, de Bratislava, de Nova Iorque, dos Pirenéus, dos Alpes suíços...

Tinha já uma boa colecção que ia arquivando, por países, com as datas anotadas, para um dia fazer um álbum das viagens que ela fez durante as férias ou em trabalho.

Este ano lá voltou a receber mais um.

Mas, desta vez, o selo não era do estrangeiro, era português, e o postal era da cidade onde ela mora, com a fotografia de um jardim e de um recanto onde está uma enorme gaiola com pássaros exóticos. 


A escrita era parca mas significativa. As férias, este ano, fê-las cá dentro, dentro da sua cidade, da sua casa, como engaiolada no seu espaço.

Mas o postal ilustrado não faltou.

É que o dinheiro ainda vai chegando para o postal e para o selo!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

POÉTICA

Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.

E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitectura.

Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)

Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
- Entrai, irmãos meus!


Rio, 1960

Vinícius de Moraes

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

FECHADO

Habituara-se a passar por ali, quase todos os dias.

Não era uma livraria muito grande, nem teria, talvez, os melhores títulos, mas era um local onde gostava de ir. Era um cliente habitual, comprava ali bastantes livros e tinha mesmo um cartão que lhe dava possibilidade de ir acumulando pontos. Quantos mais pontos tivesse, mais desconto teria na compra de novos livros.

Hoje deu com a porta fechada. As montras estavam semi-tapadas com folhas de papel branco e, na porta, um papel a anunciar o encerramento. A dizer mais ou menos isto: "Os trabalhadores lamentam ter de fechar a livraria mas como já não recebem o ordenado há mais de 3 meses, vêem-se obrigados a encerrar as instalações, pedindo desculpa aos habituais clientes".

É mais um espaço comercial que fecha, desta vez uma livraria de bairro, um local onde se fazia e vendia cultura.

A pouco e pouco o pequeno comércio vai fechando, a vida dos bairros começa a perder-se, a degradar-se, a desestruturar-se. 

Só espera nunca chegar ver um cartaz à entrada de Portugal com os seguintes dizeres, em letras garrafais: "FECHADO".

domingo, 4 de setembro de 2011

O ENCONTRO

Cruzou-se com ela, inesperadamente, na esquina da avenida.

Trocaram olhares, pararam para se certificarem que que cada um era mesmo o outro, e cumprimentaram-se de forma efusiva.

Fazia tempos que não se viam: mais velhos, os dois, mas mantendo o mesmo gosto pela vida, os mesmos interesses, as mesmas afinidades.

Conversaram demoradamente num dos bancos daquela avenida, debaixo de um jacarandá azuladamente florido. Falaram da casualidade do encontro, falaram do trabalho, da vida, da família, mas falaram, também, deles, dos dois, da necessidade de novamente se encontrarem, de conversarem mais vezes, de voltarem a reatar a amizade de antigamente, perdida por desencontros, e reforçá-la, agora que o destino os tinha, de novo, colocado frente a frente.

A tarde ia-se deixando escorregar naquela conversa boa, naquele recordar de vidas, naquele entusiasmo do encontro, até que ela se deu conta que tinha que ir buscar a neta. A filha tinha um jantar e não tinha ninguém mais a quem deixar a filha.

E já estava em cima da hora!

Levantou-se apressada, ansiosa, despediu-se a correr, chamou o táxi que passava ali defronte e, da mesma forma como se encontraram, assim ela se foi, de repente, sem quase dizer um adeus, sem deixar um contacto, a perderem-se, mais uma vez, um do outro, nos desencontros da vida...



sábado, 3 de setembro de 2011

ACORDAR

O acordar, hoje, fora diferente, com o sol a entrar-lhe pelo quarto, com força, e a despertá-lo de um sonho ruidoso e complicado. 

Suado, e manifestando uma certa ansiedade provocada pelo sonho e pelo despertar, foi tomar um duche retemperador. 

Ensaboou-se demoradamente deixando-se ficar naquele correr de água sobre o corpo durante um tempo longo e, quando terminou, enrolou-se na toalha de banho e sentou-se na borda da banheira até se sentir seco.

Resolveu não fazer a barba.

Vestiu uma roupa leve, tomou o pequeno almoço na varanda: uma torrada de pão integral com manteiga e doce de abóbora, um sumo de frutos vermelhos e um café sem açúcar, mas mexido com um pau de canela.

Foi ver os cães, colheu duas pêras já maduras da árvore junto ao tanque da mina e foi sentar-se na cadeira de encosto debaixo da figueira velha.

A temperatura amena, o sol filtrado pelas folhas largas da figueira, o cheiro adocicado dos frutos da árvore e os sons tranquilos daquele lugar convidaram-no a fechar os olhos, deixando-o adormecer tranquilo, desta vez sem sonhos, sem ruídos, sem complicações e sem ansiedade.

Acordou passava do meio dia, como se fora o despertar de uma noite que acabou de acontecer...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CERVEJA BOHEMIA

Acabaram a noite numa cervejaria.

Estavam, ambos, com um desejo enorme de ostras, das portuguesas e ao natural. Mas, àquela hora, já tarde na noite, as casas conhecidas que vendem ostras e champagne, ou já estavam fechadas ou já tinham esgotado o seu stock de bivalves.

E foi quase na fase da desistência que, ao passarem diante da montra frigorífica de uma cervejaria, viram um tabuleiro cheio de ostras, das grandes, das portuguesas, como eles queriam, aconchegadas numa cama de gelo moído. Ali, tentadoras, a olharem para eles..

Resolveram entrar, passava das 11 horas da noite, receosos que já não os quisessem atender. Mas não, a sala estava cheia e tiveram mesmo dificuldade em encontrar uma mesa.



Pediram as ostras, quatro para cada um, ao natural, apenas com o sabor da água do mar e do limão... e, como bebida, o indispensável champagne, francês, de preferência.

Mas não, nem francês, nem nacional... 

E as ostras foram comidas, melhor, saboreadas, na companhia de uma cerveja Bohemia servida, não numa flute, mas numa caneca de alumínio para se manter bem gelada.

A verdade é que o sabor adocicado da cerveja fez despertar, ainda mais, as qualidades afrodisíacas daquelas ostras de tentação...



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

SETEMBRO

Entrou com chuva, com vento, mas sem frio.

(Farol do Cabo de São Vicente - 2010)

Foi assim que começou este Setembro, cada vez a afirmar-se mais como o mês do outono, o mês em que se nota já o encurtar dos dias, em que o arrefecimento das noites começa a pedir uma manta ou cobertor na cama e em que a roupa passa a ser de "meia-estação".

É o mês das vindimas, das colheitas, o mês em que os campos começam a ganhar os tons pastel dos castanhos, dos amarelos e dos dourados, o mês que inaugura o cair das folhas.

Pelas cores, pela serenidade, pela luz, pelos amanheceres esbatidos, pelos crepúsculos suaves, pelo recolhimento que nos remete, o mês de Setembro tem um carisma muito especial.