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domingo, 31 de julho de 2011

GANHARAM VIDA?

Outro dia, ao passear junto ao mar, numa baía tranquila, feita de águas transparentes e quase mornas, dei-me conta que os meus peixinhos, que animam a banda superior deste Blogue e que andam sempre atrás da comida que lhes deixo, resolveram também mergulhar ali, na beleza daquele lugar, na limpidez daquelas águas...

Será que ganharam vida? Não lhes levo a mal, se não quiserem voltar...

(Baía do Porto Pim - Faial - Açores - Julho 2011))

Ganharam vida mas não quiseram a liberdade, voltaram todos, não quiseram ficar por ali!

São mesmo peixinhos de aquário!!!





sábado, 30 de julho de 2011

ÀS VEZES APETECE IR LÁ

Principalmente quando me sinto incapaz de resolver um problema, encontrar uma solução, descobrir o que ando à procura, modificar o que não sou capaz...

Não sei se terei resposta, nem sei se é ali que me devo dirigir mas, em desespero, é esta a morada...

(Cidade da Horta - Ilha do Faial - Julho de 2011)


Chegado lá em qual número de porta devo bater?









sexta-feira, 29 de julho de 2011

CORRESPONDÊNCIA

Cada vez tem menos importância.

O que recebemos pelo correio são jornais e revistas que assinamos ou nos enviam, mesmo sem querermos, são as contas da EDP, do Gás, da Água, da TV por cabo, do Telefone e da Internet, são os avisos para pagar as despesas dos cartões de crédito e, também, o sempre temido talão das Finanças para pagar os impostos que nos taxam e atarraxam, cada vez mais, a nossa existência. Tudo feito num computador, impresso numa dessas maquinas a laser, tudo feito de forma totalmente impessoal.

Mas cartas, daquelas escritas à mão, de preferência com caneta de aparo, já é raro, cada vez mais raro. Uma vez por outra lá se recebe um postal de viagem de alguém que se lembra de nós e nos inveja com as vistas e as palavras escritas por detrás da fotografia: "Aqui tudo é lindo, o mar maravilhoso, as paisagens de encantar..." enquanto estamos a trabalhar, afogueados de trabalho e de imenso calor.

Mas nada que se pareça com uma carta escrita à mão... aquele papel espesso e levemente rugoso, a caneta de tinta permanente, de caligrafia grossa, a mão a escorrer suavemente sobre uma linha imaginária, a escrever o que vai na alma, no coração, ou na razão. Depois a assinatura, assinada mesmo, não digitalizada, o fechar do sobrescrito molhando aquela cola pré-colocada, o escrever do endereço, não esquecendo o código postal, o colocar o remetente e, finalmente, o colar do selo. Todo um ritual que se vai perdendo e que nunca deixa de ser, quase, um acto de amor.

Há um ainda, é que a carta precisa de ser colocada no marco do Correio, daqueles vermelhos que, cada vez se vão vendo menos por aí...

(Marco do Correio - Horta - Ilha do Faial - Julho de 2011)
Lá tem a hora do expediente para se saber se a carta ainda segue no próprio dia ou só segue no seguinte, e tem, no alto, a ranhura para colocar a correspondência.

Correspondência... uma palavra bonita, atilada, amistosa, de relacionamento, de ligação... que foi perdendo o romantismo que lhe estava associado para se transformar, cada vez mais, num termo de ligação de meios de transporte público.

Agora, quando se fala em Correspondência já não se pergunta pelo preço do selo, mas antes sobre o custo do bilhete. Novos tempos!


quinta-feira, 28 de julho de 2011

ADEUS ANTÓNIO

(Foto retirada do Facebook de Judite Sachicumbi)


Partiu esta manhã. Silenciosamente, sem incomodar ninguém.

Partiu como sempre se conduziu na vida, com discrição... não quis avisar da partida, para não incomodar, apenas se foi.

Mas esta partida silenciosa causou um barulho enorme de surpresa, de tristeza e, já, de imensa saudade nos seus amigos.

Tinha vindo para Lisboa, nos princípios deste mês que está agora a terminar, para que a recuperação e a reabilitação se fizessem da melhor maneira, no Alcoitão.

Viemos no mesmo avião. A Judite, a sua mulher, a seu lado; ele na maca, mas de olho bem aberto. Trocámos olhares, falei para ele e respondeu-me com uma lágrima a escorrer emoção.

Hoje de manhã já não era!

Não era, mas vai ficar sempre na nossa memória, no nosso coração e vai encher as nossas vidas de muita saudade.

Deixo aqui os meus sentimentos à Judite, à GRANDE MULHER que esteve SEMPRE ao lado do seu HOMEM, do seu GRANDE HOMEM.

QUE DESCANSE EM PAZ!!!

No BLOGGETROTTER de 8 de Julho, dedicado ao ANTÓNIO SACHICUMBI, hoje, duas pessoas, dois anónimos, escreveram, cada um, o seu comentário que aqui deixo: 
Anónimo disse...

Que descanse em paz! vou ter saudades! até sempre!
Anónimo disse... 
 
Hoje é um dia triste para todos os que tiveram o privilégio de conhecer o Dr. Sachi. Estou muito triste, mas também sei que os últimos meses não foram viver, mas sim sobreviver; mas enquanto havia vida, havia esperança e agora não há nada! Até sempre Dr. Sachi. Nina
 
(O PICO AVISTADO DA CIDADE DA HORTA - ILHA DO FAIAL -  AÇORES - 7/7/2011)
ANTÓNIO SACHICUMBI, deixo aqui a paisagem que avistavas da Ilha que escolheste para viver e que, diariamente, enchia o teu olhar!

Leva-a contigo!



quarta-feira, 27 de julho de 2011

PEQUENO-ALMOÇO

Vem visitá-lo todos os dias deste verão quente, por vezes, um pouco ventoso. 

Aparece sempre à hora do pequeno-almoço. Sabe que tem garantida uma refeição grátis. Por isso não se atrasa na hora e não tem falhado um dia, sequer.

Pouco tempo depois de se sentar à mesa, ei-lo que aparece. Vem de um voo só até perto da mesa e pousa, seja no parapeito da varanda, seja no chão, ou ainda nas vigas que continuam a varanda para o exterior. Olha de lado, desconfiado, envergonhado, ou matreiro, não deu ainda para perceber. 

Mal o vê chegar, esboroa um pouco de pão, de bolo  ou de bolacha, o que tem ali à mão, e atira, de forma suave, as migalhas para o chão, ali, perto de si.

E ele, hesitante e saltitante, vai-se aproximando, pulo a pulo, até chegar junto do seu alimento. Olha para cima, certifica-se que tudo está bem e começa no seu bicar, sempre olhando para cima, entre cada bicada.

Acabada a dose afasta-se um pouco, fica de costas, mas olha para a mesa à espera que chovam mais pedaços daquela comida que lhe tira a fome e o sacia.

(Horta - Faial - 7-7-2011)
Tem sido assim, todos os dias. Tem sido o seu companheiro de pequeno-almoço, a quem dá os bons dias e, de volta, ouve um chilreio, a quem pergunta pelo tempo e, de resposta tem um bater de asas, a quem deseja um bom resto de dia que ele devolve com um esvoaçar por cima da sua cabeça antes da partida para longe, a significar um até amanhã...

terça-feira, 26 de julho de 2011

TINTO DE VERANO

Isto da crise faz com que, cada um, procure gastar o menos possível e compre o mais barato que puder.

O depósito de combustível do carro estava sequioso do precioso e caro líquido, quase a chegar à reserva e tinha, mesmo, de o encher. Não lhe apetecia nada, o dia estava quente, o vento tinha parado e o calor abafava, até sentia dificuldade a respirar.

E amanhã tinha que sair cedo, ir e vir, tudo, uns quase 700 Km. Mas tinha que ir. Há tanto tempo que estava a prometer. Por isso, desta vez, tinha mesmo que ser.

Esperou que o dia refrescasse um pouco mais, o fim da tarde é sempre mais agradável, o sol já anda mais por baixo, o vento suave costuma descer do alto da serra e, assim, a chatice de ter de ir meter a gasolina torna-se menos pesada. 

A fronteira, ali quase ao lado, seria o destino. O preço da gasolina, muito mais barata, compensava os 30 ou 40 Km que tinha de fazer para se abastecer. A estação de serviço, onde os empregados eram quase todos portugueses, estava sempre cheia de carros vindos de Portugal. Além da gasolina vende-se gás engarrafado, também mais barato, e tem, também, um mini mercado que tenta sempre mais uma compra ou uma necessidade de momento. Os gelados estão sempre a sair, pudera!, com este calor...

Mas o fim de tarde, junto à fronteira, tem outro atractivo, o DIAZ... Aquele esplanada junto à estrada, com as mesas de tampo vermelho, os chapéus de sol, também vermelhos, a garantirem a sombra desejada e, àquela hora, a apetecer uma bebida fresca.

Escolheu a mesa com mais sombra e esperou. A saudação de boas tardes e o pedido de qualquer coisa fresca, muito fresca, que o dia tinha sido de escaldar.

Acabou a tarde ali, a afogar a sede num fresco, quase gelado, Tinto de Verano...

segunda-feira, 25 de julho de 2011

FALCÃO

Costumava andar por ali. 

Quantas vezes não foi avistado no alto de um poste de electricidade, ou poisado no cimo de uma árvore mais alta que as outras ou, então, a voar em círculos largos, lentos, quase sem bater as asas.

Deixou de aparecer não há muito tempo, talvez uns seis meses, no máximo. Provavelmente deve ter arranjado companhia, pois nunca se lhe conheceu par. Certamente por falha de quem não está suficientemente atento, ou não passa por aqueles sítios nas melhores horas.

Mas deu para fazer, numa folha de papel branco, um desenho, meio retrato mental e meio fotográfico, deixando, assim, que o traço do carvão perpetuasse a imagem e a lembrança deste solitário das alturas.


domingo, 24 de julho de 2011

AMY WINEHOUSE

Parece que escolheram todos a mesma idade para morrerem (ou se matarem), aos 27 anos:

Robert Johnson, guitarrista e cantor de blues, há quase um século;

Brian Jones, inglês, um dos fundadores dos Rolling Stones;

Jimi Hendrix, um dos maiores guitarristas de sempre de Rock;

Jim Morrison, um cantor dos anos 60 que fez parte do grupo The Doors;

Janis Joplin, de voz marcante, sempre ligada ao Rock, deixou-nos o "Me and Bobby McGee" e o "Mercedes Benz"; 

Kurt Cobain, vocalista e guitarrista dos Nirvana;

Amy Winehouse.

As causas da morte, para alguns, ficou associada ao álcool e às drogas, para outros ficou-se no não esclarecimento, no suicídio, no afogamento ou no envenenamento.

Todos eram bons nas canções, na música, no espectáculo.

Dói ver jovens a morrerem (ou a matarem-se), quando tinham, aparentemente, condições e possibilidade para viverem muitos anos.

Ficam, todos, no mesmo patamar da fama, porque o génio deles não vai morrer.

Há uns bons anos, muitos já, fiz um desenho a tinta da china que chamei de "Senhora com laço no sapato". Hoje, ao olhar para ele, "vi" a imagem da Amy Winehouse.

Fica o desenho:

sábado, 23 de julho de 2011

LE PREMIER BONHEUR DU JOUR...

"C'est un ruban de soleil..."

(Ilha da Culatra - canal de Olhão - 22 de Julho de 2011)


O dia amanheceu límpido, com o sol a espreitar do horizonte, como a pedir licença, ainda meio estremunhado de um dormir que mal acabou.

A lua, quase sempre noctívaga, prestes a esconder-se do lado oposto, a fugir da luz daquele sol que promete iluminar e aquecer, com intensidade, o dia que acaba de inaugurar.

A ria, amolecida, vai espalhando as cores do sol, reflectidas de um céu sem nuvens, de vermelho e laranja intensos pintado.

E as gaivotas, com a aproximação dos primeiros barcos de pesca, iniciam o seu voo de perseguição na procura fácil do peixe que é o seu alimento... e como guincham, como gritam, como lutam pelo alimento vital.

(Largo da Ilha de Santa Maria - 23 de Julho de 2011)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

BEIRA-MAR

A maré-baixa proporcionava um espectáculo único, de uma imensa extensão de areia, a perder de vista e a permitir que se afastasse largas centenas de metros da beira-mar mantendo a água por meio da altura da perna.

A areia, junto ao bater suave da água, era delineada por uma margem continuada de pequenas pedras, algas, conchas, umas grandes, outras minúsculas, de cores variadas e das mais diferentes formas. Havia conchas muito finas, extremamente delicadas, que tinham sido, certamente, o habitáculo de moluscos jovens, outras, provavelmente com algumas dezenas de anos, tantos quantas as camadas de calcário ou de nácar que se iam acrescentando à concha original.


(Praia da Ilha da Culatra - Beira-mar - 21de Julho de 2011)

Colocou os óculos de mergulho e passeou no meio da fauna e flora marinhas daquele paraíso tão especial e diferente. Viu peixes, paguros, alforrecas, conquilhas e outros bivalves que apanhava com a mão quando a mergulhava na areia onde se escondiam.

Cá fora, sentado na pequena arriba de areia que antecedia a duna deliciou-se com outro espectáculo, o das gaivotas na gritaria e algazarra por um peixe, atirado por um pescador que ali passava e ia limpando as redes, e o das andorinhas do mar no seu mergulho vertical para apanhar o peixe que o seu olhar preciso alcançou lá do alto do seu esvoaçar quase parado. 

Foi mais um encontro com a natureza, com a simplicidade da vida, com uma forma diferente de bem-estar.

Pena o sol forte e a pele branca não se entenderem tão bem como o apelo a ficar ali, naquele lugar de sonho, de apetecer...


quinta-feira, 21 de julho de 2011

FAINA

Saiu cedo, o sol acabara de despontar, mas tinha que ser, era a rotina do dia a dia, a rotina do viver.

Rotinas dos homens daquele mar, vidas da pesca que lhes dá o sustento.

As redes preparadas, o isco acondicionado, o café bebido, a bucha para ser comida já no mar.

(Ilha da Culatra - Manhã cedo - 21 de Julho de 2011)
Depois a faina de lançar a rede,  de colocar as boias sinalizadoras, e está na hora de regressar ao pesqueiro da noite e, mais uma vez, na sua rotina, recolher as redes, guardar o peixe e voltar. 

A lota cheia a prometer um bom dinheiro.

E, de novo, logo, ao fim da tarde, tudo a recomeçar...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

ILHA DA CULATRA

Chegou pelo fim da tarde. Tinha ficado ancorado uns dois ou três dias à espera da maré boa para entrar na barra, da calma dos ventos, da boa hora da praia-mar...

A demora tinha-se prolongado, parecia não terminar, mas, finalmente, tudo se conjugou, a maré ficou de feição, o vento agradou-se, a ondulação amenizou e o barco fez-se à barra, aproximou-se do enfiamento dos faróis, acompanhou as boias de sinalização, prestou atenção aos fundos, procurou o melhor local, o mais abrigado possível, largou ferro e sinalizou a posição.

O sol começava agora a baixar, a tarde a dizer adeus ao dia e a saudar a noite, desta vez alumiada por uma lua em quarto-minguante, as águas rapidamente a amansarem, como que a quererem adormecer, cansadas da agitação dos últimos dias, as aves marinhas a pousarem na tranquila mansidão daquele fim de tarde...

Foi a terra, à "sua" ilha, sentou-se na esplanada do Ramiro fatigado do dia de navegação e deixou que aquele fim de tarde lhe devolvesse a paz que tanto precisava naquele momento.

(Ilha da Culatra - 20 de Julho de 2011)

terça-feira, 19 de julho de 2011

A IMAGEM

Parece uma estátua, de santa, ou de rainha, quase de certeza de mulher.

Não é mais do que uma ilusão, neste caso apropriadamente de óptica, porque foi captada através da óptica da câmara fotográfica.

(Ilhéu Deitado - frente à Madalena do Pico - Açores - 9 de Julho de 2011)

Nada mais do que uma fractura provocada pela erosão dos ventos e das águas, e pela instabilidade sísmica da região.

Uma visão, uma ilusão, na travessia do canal.

Uma devoção para alguns crentes desta ilusão que dizem representar uma santa. A verdade é que, naquele barco cheio de gente, uns faziam o sinal da cruz, outros uma oração adivinhada pelo movimento dos lábios, outros, ainda, um fechar de olhos de recolhimento.

Mas a maioria, indiferente ao mito, olhava o Pico majestoso que se aproximava rapidamente de todos.




segunda-feira, 18 de julho de 2011

VENTO

Sopra com força no sul deste país.

Assobia, agita as bandeiras, empurra com força as velas de barcos, faz espumar as ondas do Atlântico, põe as gaivotas no ar quase sem bater de asas, mas faz bater portas com as correntes de ar...

Tem sido assim toda a semana, um vento forte, consistente, que faz levantar a areia das praias, que faz abanar, com força, os ramos das árvores e põe a tremelicar as flores dos canteiros de Vilamoura.

Com o vento o ar está límpido, transparente, sem névoas matinais ou vespertinas e as noites ficam mais frescas, como a compensar o calor sentido durante o dia.

Um vento bom para navegar, para bolinas surpreendentes, para bordos fantásticos, para popas bem empurradas...

(A passar o cabo Horn - 2009)


(A passar o cabo Horn - 2009)
 


domingo, 17 de julho de 2011

CÉU ESTRELADO

Olhou o céu na noite escura. Estava mesmo negro, um céu sem lua, que estava escondida na sua fase de renovação, e lhe permitia ver melhor as estrelas no seu esplendor, no seu recorte feito de bicos e de pontas.

Um céu verdadeiramente estrelado!

E as estrelas, tão nítidas, tão delicadamente recortadas, tão perto de si.

Vieram-lhe à lembrança momentos bons, momentos de êxtase, de entrega, aqueles, únicos, em que se dá a flutuar no ar, em que sobe até às nuvens fofas de algodão, em que alcança as estrelas e se sente picada pelos seus bicos, pelos seus picos, pelas suas pontas... Uma espécie de comichão doce, deliciosamente boa.

Seria bom se pudesse pegar numa porção delas, para as ter à sua disposição, para poder usá-las sempre que o desejo voltasse, sempre que a vontade pedisse.

E imaginou-se a  colher uma mão cheia daquelas estrelas e a depositá-las, com extremo cuidado, na taça de cristal, cheia de água,  que tinha diante de si.

Fez o gesto de imaginar, colheu nas suas mãos os cristais cintilantes daquele céu escuro e, em seguida, mergulhou as mãos cheias naquela água pura. 

Fechou os olhos e imaginou a taça, cheia de uma água escura como estava a noite, a resplandecer de estrelas cheias de luz.

Ao abrir os olhos deu-se conta que a magia aconteceu:


(Porto Pim - Horta - 8/7/2011)





sábado, 16 de julho de 2011

SÁBADO

Mais um sábado de Julho, de verão quente, cheio de sol.

Começa cedo a correria para as praias, que se vão enchendo de milhares de pessoas que quase lutam na ânsia de encontrarem o melhor lugar na areia para poderem estender a toalha e colocar o chapéu de sol.

Agora é a altura do bronze, dos corpos estendidos na areia a ganharem a cor e tom de pele porque se anda a suspirar durante quase todo o ano. É também o tempo dos cremes para bronzear e proteger dos raios ultra-violetas, os tais, que fazem mal à pele, que provocam o cancro.

Por isso os protectores solares fazem parte dos apetrechos de praia: o fato de banho ou o biquíni, a toalha, o chapéu de sol (deveria chamar-se era chapéu de sombra!), a sacola com os pertences e a bebida e a sanduíche, e o protetor solar, que tanto pode ser em creme, como em líquido ou em spray, tudo depende dos gostos e da bolsa de cada um. Há uns que são mais oleosos, outros que são absorvidos rapidamente e não pegam a areia, outros mais espessos, mais eficazes na proteção e que se fixam de forma mais consistente à pele, o que é chato porque se nos deitamos na areia ficamos, tal e qual como um croquete envolto em pão ralado. Quase todos têm um cheiro agradável a flores ou a frutos, que quase apetece provar.

É isso que fazem as moscas e abelhas que, atraídas pelo cheiro apelativo, começam a rondar o corpo, a pousar para provar daquilo, a incomodar... o pior, mesmo, é quando as abelhas são atraídas e começam a aparecer, umas atrás das outras, em grande número e não sabemos o que fazer... a solução é o banho no mar ou o mergulho na piscina... é a melhor forma de evitar uma ferroada valente que deixa marca e faz doer.

Hoje andou, pelas praias do Algarve, uma equipa de dermatologistas a sensibilizar as pessoas sobre o perigo da exposição aos raios ultravioletas, a dar avisos sobre as horas de maior perigo de insolação, sobre como e que tipo de protetores se devem usar, numa campanha contra o cancro da pele que, cada ano, vai provocando lesões em milhares de pessoas e matando algumas centenas... Uma doença perfeitamente evitável e que, apenas, depende de cada um.

O aviso ficou feito, as cautelas terão de ser de cada um!


sexta-feira, 15 de julho de 2011

O SNOOPY

 

















Encheram a Duque d'Ávila de "Snoopies", com ar saudável e contente, cada um vestido à sua maneira. Um modo de alegrar, ainda mais, aquele bocado de Lisboa, agora arranjado, e que começa a ganhar vida.





Há alguns anos a cidade de Lisboa foi invadida por uma manada de vacas, todas diferentemente pintadas e decoradas.

Vi em Londres o mesmo, mas com elefantes pigmeus. 

Qualquer dia serão girafas, leões, ou rinocerontes... é tudo uma questão de momento.

Só não vale a pena é porem pelas ruas camaleões, raposas, aves de rapina, víboras, vira casacas, troca tintas, vigaristas e... amigos da onça, que isso é o que já há demais por aí.


quinta-feira, 14 de julho de 2011

A BIMBY

Encontrara a máquina perfeita, dizia ela. A máquina de cozinha robot que fazia tudo, de sopas a doces, que cozinha tanto  pratos de carne como de peixe, que coze os legumes ao vapor, que faz molhos, que mistura a farinha e amassa os ingredientes para fazer pães ou bolos, que faz gelados deliciosos, que isto e que mais aquilo.

Pesa, mede, calcula, separa, adiciona, bate, mistura, leveda, finta... todos os actos e gestos de uma boa cozinheira, de um bom Chef!

Mas, como robot que é, cumpre, apenas, o que está no programa, não se desvia um grama, um decilitro, uma colher a mais ou a menos... Não deixa pôr mais uma pitada de sal, um pó de açafrão, um rasgo de canela, uma colher de queijo ralado, um pouco disto, um pouco daquilo...

Ou se faz como está no livro, e no programa da máquina, e a coisa anda ou não se faz e ela pára, não avança para o passo seguinte, acende uma luz laranja intermitente  e dá um sinal sonoro. Um aviso que falta um ingrediente ou que se colocou a mais. E dali não passa.

Apesar de quase perfeita, à máquina faltam-lhe uma série de coisas: falta-lhe a imaginação, falta-lhe o paladar, falta-lhe um nariz para apreciar o aroma dos cozinhados e faltam-lhe olhos para ver o aspecto com que ficam os preparados. 

De qualquer modo o resultado está ali, diante de nós, à nossa vista, aparentemente impecável, mas sempre igual, sempre constante. A consistência da mousse de chocolate é a mesma hoje, como foi ontem e será para a semana, o arroz sai sempre igual, nem malandrinho demais nem seco em excesso, a sopa é sempre tal e qual, nem mais cremosa nem menos aveludada...

Tudo isto me faz lembrar uma história que a minha avó contava, passada com uma amiga, a D. Elisa Leão, uma doceira excelente, que um dia, ao preparar um lanche em casa para as amigas, quando foi para tirar o pudim da forma e colocar no prato, este desmanchou-se todo por não estar ainda no ponto ideal de consistência.


Ela, que era uma senhora muito prática e despachada, não se atrapalhou (ou seja, não "bimbou"), meteu tudo numa taça de vidro, deu-lhe uma volta com a colher, toca de pôr o açúcar caramelizado que ficou no fundo da forma de lata, por cima, e levou para a mesa do lanche, com ar triunfante, assim, como se fosse um doce novo, uma receita nova: - "Tenho aqui um doce novo, uma receita que inventei e que gostaria que provassem para dar a vossa opinião".

As amigas elogiaram imenso aquele doce que não conheciam e insistiram muito em saber o nome, como era confeccionada tal delícia e como é que ela fazia para ficar assim, com aquele aspecto de desmanchado? Mas ela é que não se desmanchou, não revelou o segredo da receita de tal delícia, e apenas avançou com o nome que lhe veio à cabeça naquele momento: - "Pudim desfeito", assim o baptizou ela!


quarta-feira, 13 de julho de 2011

A ESPUMA DO MAR

(Moledo do Minho - 30/05/2011)

"As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e a espuma
Do mar que cantava só para mim."

Sophia de Mello Breyner Andresen - Obra Poética - Dia do Mar - Sem título

terça-feira, 12 de julho de 2011

AS RIFAS

Fora à Quermesse da Santa Casa! Desta vez era para ajudar os idosos e os deficientes a cargo da Instituição. A entrada não era paga, não havia ninguém a pedir dinheiro com um saco na mão mas, em contrapartida, havia muita banca onde podia gastar o seu dinheiro.

Como era para um bem social, por uma causa justa, as bancas estavam cheias de pessoas, todos queriam ajudar e contribuir para que a Quermesse fosse um êxito, tivesse sucesso, e os idosos, assim como os jovens deficientes, pudessem beneficiar de toda a ajuda.

Havia uma banca onde se vendiam manjericos a sério, outra onde os manjericos eram de papel, mas todos vinham com uma quadra feita, no momento, pelo "poeta" de serviço, havia uma banca para os "bebes", outra para os "comes", também havia a da sardinha assada, que tinha uma fila comprida, uma com bolas de trapos para serem atiradas contra as latas vazias que estavam no fundo da barraquinha, outra de dardos com um alvo redondo em que só levava prémio, um manjerico, quem acertasse mesmo no centro - até àquele momento ainda estavam, por lá, todos os manjericos - e havia, bem lá no fundo, a banca das rifas, daquelas de papel enrolado e dobrado ao meio. Custavam um euro cada.



Comprou uma mão cheia delas, nem as contou, sempre era por uma causa social, e foi desenrolando, lentamente, uma a uma, cada folhinha daquele papel branco, na esperança de encontrar um número ou uma letra a que iria corresponder um prémio.

Daquela mão cheia de papel apenas três folhinhas tinham um número, três prémios, que deram quase a mesma emoção de quem estava à espera dos números do euromilhões. Três prémios adequados ao sorteio, três prémios que tinham sido oferecidos ou feitos por anónimos ofertantes: uma caneca de louça, um paninho bordado e uma caixinha forrada de chita. Ficaram lá na banca, para que se fizesse novo sorteio, mais umas quantas rifas, mais uns quantos dinheiros que iam entrar.

Ficou satisfeito por ter ido à Quermesse, por ter visto aquele espaço cheio de muita gente, por ver aqueles idosos contentes, divertidos, por ter visto muitos jovens voluntários e animados a darem apoio àqueles portadores de deficiências para que se sentissem felizes naquela noite que lhes era, inteiramente dedicada.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

CHAMARRITA

A Chamarrita é um baile. É um dos mais antigos bailes tradicionais dos Açores e que, com isto da Diáspora, se estendeu para a América do Sul, fruto da abundante emigração açoriana para esse continente.

Basta que haja um motivo para uma festa popular e eis que, quase espontaneamente, se juntam as pessoas numa roda.

A Chamarrita é um baile de roda mandado, acompanhado por tocadores de violão, bandolim, eventualmente uma rebeca, e acordeão também. Tem um mandante que dá as ordens à roda... se vira para a direita, ou para a esquerda, se vai ao centro, se muda de par, se roda ao contrário...

Cada vez há mais bailes de Chamarrita nos Açores, principalmente nesta altura do ano, com as festas das cidades, das freguesias, dos lugares. É a altura em que voltam os emigrantes de todo o lado, no seu apego à terra e às festas... e a Chamarrita é obrigatória. São muitos os jovens que a bailam e não dispensam uma roda de Chamarrita.

(Chamarrita - Santa Casa da Misericórdia da Horta - Ilha do Faial - Açores - 9/7/2011)


A música fica no ouvido e os passos soltam-se com o ritmo da música e a imposição da coreografia ditada pelo "mandador".

Foi bom vê-la a ser dançada pela cidade da Horta, em todas as freguesias, em todas as praças. É sinal que a cultura popular subsiste e, cada vez mais, está presente no espírito e no coração do povo açoriano.

domingo, 10 de julho de 2011

PIQUINHO

Fica bem lá no cimo do vulcão, no ponto mais alto de Portugal. É o Piquinho do Pico, a 2351 metros acima do nível do mar.

Umas vezes à mostra, outras coberto de nuvens, numa variação constante e inesperada que faz parte da magia e do encanto destas ilhas atlânticas, as ilhas das quatro estações num dia, do sol e da chuva, do temperado ao quente, do calmo ao ventoso. No inverno costuma cobrir-se de um manto branco e espesso de neve.

Naquele momento em que foi avistado estava assim, meio a descobrir-se, a deixar-se ser visto, a mostrar-se e, talvez, a piscar o olho a uma lua diurna, em quarto crescente, namoradeira e sempre vaidosa, ou não fosse a lua mulher!

(Madalena do Pico - Ilha do Pico - Açores - 09/07/2011)




sábado, 9 de julho de 2011

A ESPALAMACA

O nome ficou-lhe sempre na memória: ESPALAMACA. 

Era um nome estranho, o nome de uma ponta de terra sobre o mar, logo à saída norte da Horta, e antes de se chegar à Praia do Almoxarife.

Mas era também o nome de uma embarcação de madeira, a lancha ESPALAMACA, que fazia a ligação entre as ilhas, do Faial e do Pico, entre o porto da Horta e o cais da Madalena do Pico, e também a ilha de São Jorge. Tinha 17 metros de comprimento por 4 de largura e levava, com bom tempo, 100 passageiros e, nas alturas de mau tempo no canal, o número de passageiros era reduzido para 75. A tripulação, essa, era sempre de 4 homens.

Havia uma outra lancha de passageiros, essa mais pequena, a CALHETA, que também, fazia a ligação entre as ilhas.

Tinha feito duas travessias na ESPALAMACA, já lá vão uns quase 30 anos; o tempo de atravessamento do canal, nessa altura, era demorado, quase sempre balanceado por uma vaga de través que fazia nausear algumas pessoas, em particular junto aos dois ilhéus, o de Pé e o Deitado, na aproximação da Madalena do Pico. No interior da embarcação havia baldes para aqueles que não aguentassem o balanço atravessado daquela ondulação, e pudessem libertar, à vontade, o conteúdo dos seus estômagos.

Claro que os tempos de agora exigem modernidade, pedem melhores barcos, mais rápidos, mais seguros, maiores e mais confortáveis e, hoje em dia, a travessia faz-se em boas condições e em tempo razoável. Até os nomes dos barcos, agora, são mais atuais, mais fáceis e confortáveis de dizer: CRUZEIRO DO CANAL, EXPRESSO DAS ILHAS. Nada de Espalamaca, Calheta ou Picaroto, a barcaça de transporte de carga entre as ilhas do canal.

Só quando faz "mau tempo no canal" é que a travessia se faz de forma mais batida, mais agitada, em particular quando no desembarque na Madalena.

Hoje resolveu ir até ao Pico e, à saída do cais, deu de caras com a ESPALAMACA, não como a gostaria de a ver, bem arranjada, como peça de museu, como parte importante da história das ilhas do triângulo e das suas gentes, muitas vezes, nos maus invernos, como o único elemento de ligação entre as ilhas, mas estava no cais, em doca seca, apoiada em toros de madeira, aprumada como sempre a viu, mas de madeiras apodrecidas, esquecida no meio de outros barcos, também velhos e abandonados. Também a CALHETA e PICAROTO por ali estavam, também abandonados e esquecidos.

(A ESPALAMACA - Porto da Madalena do Pico - 9/7/2011)

Faz pena ver, assim, abandonada, deitada para o lixo, parte da história deste arquipélago, da história das travessias, das gentes e do "mau tempo no canal"...

São, outra vez, os homens a terem a memória curta, a esquecerem a história do seu próprio povo...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

ANTÓNIO SACHICUMBI

O António Sachicumbi está doente.

Por isso, não pode estar presente nas Jornadas Médicas que ele delineou e organizou.

Por isso quisemos todos, sem exceção, fazer-lhe uma homenagem ao Amigo, ao Médico, à Pessoa. 

Como ele não pode estar presente fisicamente, veio a Mulher, a Dr.ª Judite, receber essa homenagem que foi muito sentida e comovente.

É que o Sachi é um grande Amigo e tem sido um Médico exemplar, de Dedicação, de Competência, de Integração, de Solidariedade. 

O António Sachicumbi vai agora para Lisboa, para recuperar o que lhe falta para ganhar autonomia, para poder voltar a ser o Médico, o Pneumologista, desta cidade da Horta, destas ilhas do Faial, do Pico e de São Jorge.

Porque ele faz falta, faz muita falta à Família, aos Amigos, aos Colegas e, sobretudo, aos seus Doentes.

Os desejos? Os votos? A esperança? É que volte rápido, regresse bem e retome a sua vida profissional.

É que em 2014 voltamos a encontrarmo-nos aqui na Horta, na cidade desta ilha de encantos, de mistérios, de brumas e, também, de angústias! Oxalá estas últimas passem depressa!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O VOO

Parecia um enorme pássaro, aquele avião.

E veio-lhe à memória o avião de lata, que lhe tinham comprado na Feira dos Santos, quando era mais miúdo.

Com algumas diferenças: neste, a cor predominante era o branco, no outro, no de brincar, a cor exterior era a das embalagem de lata que lhe deram origem (as salsichas do Isidoro, o atum Tenório, as sardinhas da Maria Elisabeth, o chocolate do Ovomaltine ou do Milo...), este era um avião a sério que voou muito bem, o outro, o de brincar, nem o atirando com força pelo ar e com o hélice a rodar, era capaz de voar, nem meio metro, caía logo a pique, este era um avião novo, cheio de tecnologia, de muitos bancos e de pouco espaço entre eles, o outro, o de brincar, tinha no interior a tecnologia de um elástico que se enrolava à mão quando se queria pôr o hélice a girar.


É que no dia em que veio para o Arquipélago Açoriano o avião vinha tão cheio, tão cheio, que as pessoas vinham como as sardinhas de conserva, em lata, todas bem acamadas, encostadas, alinhadas, quase sem espaço para se mexerem. E não era um desses voos "low cost".

Mas é bom que assim seja, é bom para estas ilhas que venham muitas pessoas, para darem movimento, animarem as terras, criarem riqueza.

E estas ilhas merecem, pela riqueza do seu património natural, quase único no mundo, pela biodiversidade, pelas paisagens, pelo contacto com a natureza, pelos vulcões e pelas caldeiras, pelos picos, pelas praias de areia de lava, pelo verde dos campos, pelo azul intenso do mar, pelas hortênsias, pelas curraletas, pelo peixe, pela carne, pela simpatia das pessoas, pela calma e tranquilidade, pelo bem-estar que se sente aqui.

Por isso não se importou de vir, como sardinha em lata, e também porque se lembrou do seu velho avião de lata, de asas grandes como as de um pássaro, com o enorme hélice na frente, que girava pela força do tal elástico que era enrolado à mão...



quarta-feira, 6 de julho de 2011

A MORTE

A morte vem e a morte leva. A morte bate à porta mas não fica à espera. Entra pela casa dentro, não pede licença, não se senta para tomar chá.

Às vezes vem violenta, arrasadora, outras entra de mansinho e leva sem dor, sem sofrimento físico.

Não diz adeus, não deixa despedidas, não quer abraços, só os dela, não dá tempo para uma carta de despedida, nem, mesmo, para um telefonema.

Assim chegou hoje, desta vez não tão inesperadamente como é costume. Já tinha feito soar as trombetas, já se tinha feito anunciar pela doença que não perdoa, pelo agravar da extensão das lesões, pelo aspecto que não enganava, pelos olhos encovados e escuros, pela forma como falava, pela marcha mais imprecisa... Uma morte anunciada mas, nunca, nunca desejada.

Desta vez levou a Dr.ª Maria José Nogueira Pinto, uma MULHER a sério, defensora acérrima dos seus ideais, uma MULHER de ideias e de convicções, uma lutadora, uma mulher determinada na defesa dos valores da honra, dos valores éticos...

A Dr.ª Maria José Nogueira Pinto fez-me sempre lembrar Sá Carneiro, na forma como lutava, como se empenhava, como era determinada, como defendia, como se colocou, sempre, na defesa e na proclamação das suas ideias, dos seus convencimentos.

O país muito lhe deve, e ela merecia que a Nação lhe prestasse uma homenagem, uma bandeira a meia haste, um minuto de silêncio, uma sessão de homenagem na Assembleia de República onde foi deputada até ao último dia.

Eu já fiz o meu minuto de silêncio por ela!

terça-feira, 5 de julho de 2011

A LISTA

Tinha-lhe pedido para passar pelo supermercado para comprar umas coisas antes de voltar para casa.

Ele, sempre com a cabeça cheia de mil coisas, apenas lhe pediu que lhe fizesse a lista das compras a fazer e lha mandasse por mail.

Assim tinha a certeza que não ia esquecer de nada. Deveria ser o costume, calculou: os sumos, os iogurtes, o leite magro, os cereais do pequeno almoço e o chocolate (só um!) - era assim que sempre dizia -. Mas, desta vez, disse-lhe que queria que trouxesse  mais umas coisas pois gostaria de fazer um doce novo que lhe tinham ensinado, uma sobremesa fresca, "light", apropriada para a época quente.

Mas manda um mail com tudo o que queres, insistiu ele, para não esquecer de nada.

Antes de sair abriu o mail e imprimiu o anexo sem olhar. Dobrou a folha, colocou no bolso, e saiu.

A viagem de regresso foi rápida, sem trânsito e o supermercado tinha pouca gente. Assim poderia chegar mais cedo a casa, dava-lhe tempo para um duche, para despachar o correio, não do electrónico, mas do de papel, com sobrescrito e selo, e, se ainda sobrasse um bocado mais de tempo, ainda ia tratar do aquário e dos peixes tropicais. Tudo isto antes de ela chegar, pensou.

Estacionou o carro, foi buscar o carrinho e entrou no super. Dirigiu-se instintivamente à zona dos iogurtes, os mesmos de sempre, 0% de gordura, poucas calorias, muita fibra, e com ameixa, por causa dos intestinos. E só quando meteu a mão ao bolso para se assoar dos espirros que o frio daqueles expositores sempre lhe provocavam é que se deu conta que tinha o papel com a lista do que devia levar para casa.

E estava lá tudo:

os iogurtes, os sumos de frutos, o pão de cereais, o fiambre, os cereais com fibras, o leite magro, o pacote de manteiga de soja, a lata do ananás, os ovos ricos em ómega 3 e... mesmo no fim da lista:

100 Kg de beijos,

132 Kg de compreensão,

210 gr de sorrisos,

347 Kg de paz, 

578 Kg de confiança,

3 toneladas de amor, 

69 carícias profundas.

Não conseguiu evitar um sorriso comovido... Só mesmo dela! Só dela é que saiam estas coisas!

Chegou a casa, arrumou as compras e, quando entrou no quarto para se despir e ir tomar o duche que lhe estava a apetecer, ela, na cama, aguardava-o para que lhe entregasse, pessoalmente, a tal parte do fim da lista que ele não conseguiu encontrar no supermercado.


segunda-feira, 4 de julho de 2011

LABIRINTO

Parecia um caos estabelecido, um não acabar de percursos, de muros, de rodopios de pedra, de quadrados e de círculos que se misturavam numa aparente desordem.

Veio-lhe à ideia um labirinto e, instintivamente, olhou para o céu à procura do Ícaro daquele lugar.


(Monte de Santa Tecla - ruínas romanas - 2011)

Mas não viu ninguém, não ouviu nenhum bater de asas; ali, apenas ele e a paisagem, insólita, inesperada, perturbadora.

O Ícaro, que houvesse, já teria partido no seu voo de ambição, no seu bater de asas enceradas...

A verdade é que o dia estava chuvoso e não havia sol nem calor que lhe derretesse a cera e o desejo e glória de voar alto!