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terça-feira, 13 de julho de 2010

O PANAMÁ

Assim que o sol começou a ficar mais intenso, a avermelhar-lhe a testa, disse para consigo que estava na hora de voltar a usar o panamá.

Velhinho, enrolado na caixa de madeira original, quase a parecer uma caixa de charuto gigante, com algumas das palhas partidas, mas que uns pingos de cola de contacto, aplicados no interior, resolveram e disfarçaram na perfeição, a fita preta bem presa ainda e, com dois toques, duas esticadelas, ficou quase como novo.


Também não gostava dos panamás novos, vincados, imaculadamente brancos, com as abas perfeitas.

Gostava deste assim, meio amachucado, já enformado à sua cabeça e com a aba, à frente, meia virada para baixo, a dar o seu toque pessoal.

Óculos de sol, Rayban, de lentes acastanhadas, e ei-lo com ar de sul-americano, a passear no seu MG, descapotável, pela marginal, em direcção ao Guincho.

Sem pressas; também não interessava, pois o vento e a deslocação do ar causada pela velocidade podiam levar-lhe o chapéu.

Fora-lhe oferecido por um doente, panamiano, funcionário da Embaixada, um modelo especialmente feito por um dos últimos artesãos, no Panamá. Agora a maior parte deles já são feitos na China, com a trama de palha tecida em máquinas, em vez de o ser à mão, e todo o fabrico automatizado, até a fita preta, em nylon, é colada em vez de cosida e pespontada.

Daí a estima grande pelo seu Panamá.

Parou no Muchaxo. Apreciava imenso aquela sala grande sobre o oceano, e o corredor cheio de recantos com mesas e janelas a olhar o mar. Pediu um branco bem gelado, levemente frutado, uma travessa de percebes e ali ficou a descansar a vista naquele mar sempre agitado e perturbado pelo vento da nortada do fim de tarde.

O senhor Guedes, o chefe de mesa, veio cumprimentá-lo e saber se ficava para jantar, é que tinha recebido uns sargos, acabados de pescar, ainda estavam vivos!, e podia grelhar-lhe um, escalado!

Quem podia resistir?

A sobremesa tinha que ser a encharcada; acha que nunca comeu, ali, outra sobremesa.

O café, a conta e horas de voltar.

Ainda tinha que preparar a palestra para amanhã sobre o efeito dos novos anti-inflamatórios no controlo da dor lombar.

O vento forte à saída do Muchaxo obrigaram-no a segurar, com veemência, o panamá, não fosse ele voar. A procura das chaves no bolso do seu casaco de linho, fizeram com que, momentaneamente, largasse o seu chapéu que, aproveitando a ocasião, se pôs a rodopiar, a rodar pela aba, e ele a correr atrás, rodopiando como o chapéu, acompanhando-lhe os movimentos até que, com o pé, o calca com força e finalmente o agarra com a mão livre; na outra, tinha a chave do carro. 

Ao endireitar-se, uma forte dor lombar a impedir de se endireitar. E, meio encurvado, com o chapéu espezinhado e sujo, lá entra no carro e regressa a casa.

Colocou o panamá na cabeça em bronze, do Mozart, tentando que ficasse mais composto, foi à procura do tal anti-inflamatório para as dores, e sentou-se numa cadeira dura, de costas direitas, à espera que a dor aliviassse.

Será que ainda vai ter que pedir ao Luís, o colega ortopedista que mora no 6.º esquerdo, para o observar? E se ele lhe mandar tomar o tal anti-inflamatório?

 



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