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sexta-feira, 2 de julho de 2010

DE LENÇO NA MÃO

Naquele dia ele tinha-lhe prometido um jantar especial. Fazia 6 meses que namoravam, continuavam a sentir uma imensa paixão um pelo outro e aproveitavam esta ocasião para comemorar esse acontecimento.
Tinham começado namoro na Internet. Conhecimento casual, com amigos comuns, e foram, a pouco e pouco, desenvolvendo uma forma especial de amizade, ganhando afectos, criando cumplicidades. A teia universal e virtual da comunicação lançou sobre os dois um manto de amor.
Era a primeira vez que se iam encontrar. Moravam em cidades distantes e nunca se tinha proporcionado o encontro. Coincidiu, também, com o facto de ela vir morar para perto dele, fruto de uma nova oportunidade de trabalho.
Ele marcou encontro no melhor restaurante junto ao mar. Pediu para reservar, expressamente, a mesa n.º 15, aquela que ficava perto de uma janela discreta, num recanto que lhes permitia a visão única do espelhar da lua sobre as águas, hoje mansas, daquele mar que eles tanto diziam gostar.
A noite estava ainda quente, mas o calor era atenuado por uma leve brisa que o mar lhes enviava.
Ela chegou a horas, pontual, como nos encontros regulares no msn. Um vestido preto que lhe fazia sobressair a elegância da silhueta e um colar de pérolas brancas de uma simplicidade ímpar.
Ele de blazer preto e uma camisa branca imaculada.
Um beijo singelo, um abraço a denotar afecto e a bastante emoção daquele primeiro encontro. E três sonoros espirros da parte dele.
Foram encaminhados para a mesa previamente marcada. 
Acertaram na escolha do prato principal: robalo ao sal com um João Pires de 2008, bem fresco. 
E, de novo, os espirros agora com o nariz a pingar. De lenço na mão, tentava conter a sonoridade dos espirros e a correria dos pingos nasais.
De entrada ela escolheu uma salada com crocante de lagosta "aux petits morceaux" e ele ficou-se por espargos verdes amornados em "sauce d'escargot au beurre". A bebida a acompanhar era um espumante da Ervideira com "espressão" de maracujá .
A música de fundo, com  Sinatra a cantar em dueto, canções de amor, não podia ser a mais adequada.
O momento apropriado para assumir grandes decisões e ele estava disposto a isso.
Levantou a flute e propôs um brinde-compromisso de vida. Para que fossem viver juntos, em casa dele,  um apartamento com vista sobre o rio, naquela zona da cidade onde era "chic" viver.  Assim ela escusava de  procurar um apartamento e todas as coisas associadas: mobílias, contratos de luz, água, gás, TV Cabo e internet. Acabavam os sms, as horas marcadas de encontro virtual e concretizavam o sonho da realidade que os fez chegar àquele momento.
Ela sorriu, baixou o olhar de emoção, pronta a dizer o SIM...
Que  SIM, que SIM, que SIM... mas tinha que levar junto com ela as gatas persas, de um pêlo cinzento abundante, quase angorá...
Que NÃO, que NÃO, que NÃO... que não podia por causa da alergia ao pêlo do gato, e alergia era a única doença que ele padecia.
Ela foi intransigente, que assim não ia, eram a sua companhia, os seus amores, a sua paixão mais antiga.
Além de intransigente, intolerante na forma como o disse.
De nada valeram os argumentos dos espirros, do nariz a escorrer, dos olhos vermelhos, da falta de ar, da comichão pelo corpo que, só de ouvir falar em gatos, isso lhe provocava.
Ela levantou-se, pegou na carteira e, sem olhar para trás, saiu porta fora bamboleando as ancas da forma que só uma gata sabe fazer.
Ele deixou-se ficar, pegou de novo no lenço branco, deu duas assoadelas, puxou  do comprimido de antihistamínico e engoliu-o com um trago de espumante.
Não espirrou o resto do jantar.

2 comentários:

Anónimo disse...

Aconteceu comigo, o nome do meu angorá era Bianco Coeli, tinha um olho verde e outro azul.Na época preferi o casamento com o noivo alérgico. Hoje já divorciada lamento não ter escolhido meu gato.
no momento tenho quatro gatos, não os deixaria por homem nenhum.

Maria Helena Cruz disse...

Uma prova como o ser humano dá mais valor aos egoísmos, e excentricidades.
Esquecendo-se porem o quanto vale um Grande AMOR. Eu por um amor verdadeiro, puro e sincero, dou gatos cão cachorro papagaio e toda a bicharada que existisse, concordo porem que iria ficar com o (animal) mais complicado da face da terra, mas onde o amor tudo supera, e alimenta. Um dia estes (animais racionais) ditos humanos entenderam que o egoísmo o individualismo a nada o leva e passará a amar-se com verdade e entrega e tolerância, isto não é utopia.
Gostei de ler, esta se calhar ficção, mas muitas vezes real onde o AMOR, “esse” não existia.
sorte dele.