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sexta-feira, 30 de julho de 2010

SEXTA FEIRA

Desculpe a intromissão, mas a sua menina tem uma tosse esquisita!

Fazia-lhe lembrar o "garrotilho", aquela tosse da difteria, que aprendera na Faculdade, o pescoço levemente tumefacto, o olhar febril e o rosto macilento.

Que não, era assim mesmo, como a irmã gémea que sofria de asma. Esta sofre de epilepsia e venho da consulta em Lisboa no Hospital da Estefânia.

O voo era  de Lisboa para a Terceira. Vinha sentada no banco de trás. Moça dos vinte e poucos anos, vinte e três, confirmou mais tarde, mãe solteira, com um par de filhas gémeas com 6 anos de idade. A Raíssa era a que sofria de epilepsia, tinha sido operada com 4 anos de idade e veio ontem da consulta com a medicação parada. A tosse sempre foi assim. Nunca ninguém tinha perguntado pela tosse: irritante, enrouquecida pela continuidade, quase constante, quase um tique. A outra menina, a Taíssa, tinha ficado na Graciosa, com os avós. Essa sofre de asma e também anda em tratamento na Estefânia. Não posso trazer as duas porque sou só; tratar das duas é complicado. Não tenho família no continente e ficar na pensão, almoçar numa tasca, com as duas é difícil e os bilhetes de avião são muito caros. Também ainda são pequeninas e a Raíssa, esta, parece que tem um "atrasosinho". 

E a Segurança Social?

Não me fale. Veja-me: mãe solteira, desempregada, a trabalhar em limpezas quando há, com duas filhas doentes e eles não querem saber. Não me ajudam com nada. Obrigam-me a ir a Angra com as meninas, que há bons médicos, dizem. Mas com a Raíssa, esta, foi preciso ir quatro vezes ao Hospital a dizer que a menina tinha ataques de epilepsia e eles a dizerem que não eram. Só quando fiz um vídeo de um ataque, com o telemóvel e eles viram, é que se convenceram e me mandaram a Lisboa. Foi operada à cabeça no ano a seguir e esteve com medicamentos até ontem. Agora dizem para voltar ao Hospital de Angra mas perdi a confiança. Por isso vou às consultas a Lisboa. Os meus pais são pobres, trabalham na terra e com as vacas, mas ajudam-me. Valha-me isso!

Olhe, Mariana, sou médico e vou ajudá-la no tratamento da asma das meninas. Tratamos do que pudermos pela internet e, um dia que vá a Lisboa  ou eu volte aqui, vemos as meninas com calma e mais atenção.


E a Mariana o que pretende fazer no seu futuro? Gostava de trabalhar em contabilidade. Estou a acabar o 9.º ano, preciso do 12.º e depois do curso. Mas não vai dar, aqui nas ilhas é tudo difícil, não há cursos nocturnos e é tudo muito complicado.


Raiva, tenho é à Segurança Social que não me ajuda: mãe solteira, duas filhas doentes, desempregada, a fazer limpezas de biscate... Os pais ajudam no que podem, mas também são pobres e têm de trabalhar.


Graciosa? 

Só mesmo o nome da ilha!

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