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terça-feira, 29 de novembro de 2011

À TABELA

Ainda se lembrava das velhas locomotivas a vapor, do cheiro do carvão, da nuvem branca e densa que saía dos êmbolos junto ao rodado da máquina, como um bafo, do fumo negro que borbotava da chaminé alta, da fuligem que andava por todo o lado e que sujava o colarinho e os punhos brancos das camisas, das carruagens de compartimentos fechados e de corredor lateral, das janelas que se abriam ao puxar de uma fivela de couro, do silvo estridente da máquina, antes de partir, aguardando o apito fino e prolongado do revisor ou do chefe da estação.

(Estação do Rossio - Google imagens)

Eram uma aventura as viagens no comboio a vapor: o tuff-tuff do arranque, o tuuu-tuuu-tuuu quando se cruzava com o comboio descendente ou saudava o pessoal que acenava na passagem de nível, o abanar constante e ritmado das carruagens na sua deslocação e o tac-tac das rodas ao passarem nas juntas dos carris. 

O revisor, de fartos bigodes e alicate na mão, a pedir os bilhetes para perfurar, a pergunta constante da senhora do banco da frente a saber quantas estações ainda faltavam para a Lageosa de Cima, o cesto que se tirava  da prateleira por cima das cabeças e o farnel que se abria, o papo-seco que se comia com marmelada, a maçã que se descascava com a navalha de ponta-e-mola, o senhor do lado a fumar um Definitivos ou Provisórios e a ler o jornal O Século, o fumo que tudo invadia cada vez que o comboio entrava num túnel, e a emoção que era quando se passava de uma carruagem para outra, naquela passagem metálica, estreita, a descoberto, e que abanava por todos os lados.

A paragem breve nas estações, com as mulheres, de xaile e chinela, a venderem água fresca do cântaro de barro, mais os rebuçados de açúcar queimado, as arrufadas, as santinhas e as orações a São Cristóvão para uma boa viagem. Também se aproveitava a paragem para o ajudante do maquinista ir batendo nas rodas e nos eixos das composições com um martelo de cabo comprido, para ouvir se nada soava a rachado.

Depois eram as paragens, às vezes longas, no apeadeiro, à espera do comboio que vinha em sentido contrário, porque a linha era de via única. O chefe da composição a baixar a alavanca do sinal para dar a indicação de via aberta e o maquinista a virar a agulha para dar entrada na linha lateral do apeadeiro. É que o Rápido e o Sud-Express tinham sempre a prioridade...


Finalmente a chegada, o descarregar das malas e dos cestos de vime, as mantas que não ficassem esquecidas, porque no inverno fazia mesmo frio e, lá ao fundo da estação, agitando a mão bem ao alto, a figura ímpar do avô esperando os netos para o terno abraço das saudades...


Eram assim as viagens, no tempo em que o vapor era rei e senhor e o comboio, raramente, andava à tabela!



1 comentário:

Anónimo disse...

Não tenho memórias desses tempos, mas acho fantástica a forma como a memória elimina o desagradável e cria estas narrativas fantásticas!
Beijinhos
Berta