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sexta-feira, 9 de abril de 2010

A CADEIRA DO DENTISTA

É sempre um stress ir ao dentista.
Primeiro pelo motivo que nos leva lá: habitualmente a dor de dentes incómoda, a gengiva vermelha e inchada, aquela sensação desagradável do metal quando toca no dente, ou a prótese que se descolou, ou o dente que se partiu...
Depois a espera: angustiante pelo tempo que demora, pelos queixumes ouvidos, pelos berros estridentes das crianças ou pelas caras sofridas que se vêem quando saem, habitualmente com uma das mãos a segurar a queixada.

Em seguida a entrada no gabinete: o médico ou médica de máscara na cara, com a broca na mão, a fazer lembrar os filmes de cowboys com o bandido de lenço a tapar o rosto e de colt 45 na mão, pronto a disparar, e nós de mãos no ar!
Segue-se o sentar na cadeira: um sentar quase empurrado e imediatamente reclinado para impedir qualquer movimento mais brusco, desde o soco ou o pontapé no dentista, quando ele, com a broca maldita de alta rotação, toca naquela raiz hipersensível, que nos faz doer no alto da cabeça, parecendo que a dor nos quer furar o crânio.
Depois é o enquanto: ou seja, aquele tempo infinito que ali estamos com a luz dirigida nos nossos olhos, quais bandidos a ser interrogados pelo FBI ou CIA, e a ouvirmos palavras estranhas e arrepiantes -  "prepara a broca n.º 3", "faz a amálgama para a obturação" (quando mais que amolgados estamos nós, naquela posição de inferioridade) - a agarrar crispada e intensamente os braços da cadeira com a boca escancarada num sofrimento de condenado à morte na cadeira eléctrica.
A parte melhor é quando nos concedem aqueles vinte segundos de intervalo para bochechar e lavar a boca com a água meio amornada daquele copinho minúsculo que nos dão para a mão. São vinte segundos, nem mais um, já contabilizei! Naquela curta fracção de tempo dá para recuperar e ganhar coragem para a fase seguinte.
A parte pior quando tem de arrancar o molar, velho, empedernido de anos naquele local, e o dentista com alicates, martelos e escopro, pronto, a cada martelada vigorosa, a fazer os olhos saltar das órbitas, o cérebro empancar contra os ossos do crânio, os sentidos a degradarem-se... e o desmaio quase a surgir.
Mas, como para tudo, há sempre um final: bom quando acaba bem e por ali, pior quando chega ao orçamento para o implante, para a prótese, ou para o aparelho de correcção, mas que sempre pode pagar em prestações suaves.

Eu vou muito ao consultório dos dentistas, quase todas as semanas. É muito agradável, conversamos, bebemos café, falamos de futebol e da política e, quando chega a hora de trabalhar, a hora da verdade,  cada um vai para seu gabinete: eles vão tratar dos seus doentes e eu vou tratar dos meus.

Agora que estamos no tempo de primavera, os meus doentes entram quase todos de boca aberta, mas não é por engano de gabinete ou porque estão mal dos dentes, é porque têm o nariz entupido e não têm outro remédio senão respirar pela boca.

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