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sábado, 17 de abril de 2010

AS LARANJAS DO ESPANHOL

Depois de uma suave aterragem na pista das Lajes, na Ilha Terceira, Açores, um pouco como compensação feita pelo comandante do avião da SATA à sacudida viagem desde Ponta Delgada, meti-me num táxi e segui rumo a Angra do Heroísmo, a capital, do outro lado da Ilha. Ia-me encontrar com um grupo de amigos, um dos quais um simpático espanhol, residente em Portugal há muitos anos, possuidor de grandes laranjais na zona de Benavente, a norte de Lisboa.
O táxi era um Mercedes, já antigo, e o seu motorista e dono ficou ao serviço do grupo durante os três dias que passámos na Ilha. Figura simpática, de pronúncia carregada e fechada, típica do falar terceirense, o senhor Hermínio, assim se chamava o homem, cedo se revelou um infindável conversador e contador de histórias. À medida que a conversa se desenrolava, fui adaptando o meu ouvir àquele dialecto difícil de perceber e entender às primeiras vezes.
O senhor Hermínio era um grande defensor da sua Ilha! Para ele era a ilha mais bonita das nove ilhas dos Açores, as paisagens as de maior encanto, o mar o mais azul e o mais rico em peixe, o Algar do Carvão o mais espectacular, e patatí e patapá... e, assim foi, até chegar ao hotel, no centro da cidade.
No outro dia foi a visita à ilha e o "nosso" Hermínio a debitar "... e a cidade da Praia da Vitória, e a bravura dos ilhéus, e a corrida de touros à corda, única em Portugal, e os Impérios do Divino Espírito Santo, os mais bonitos, e as pastagens com as vacas que produzem o melhor leite do mundo, e o queijo flamengo, melhor que o original, e a alcatra comida ao almoço, nos Biscoitos, sem comparação com qualquer outra, e o vinho das curraletas, muito superior aos vinhos do continente... ".
No terceiro dia, a partida para outra Ilha e o fiel e dedicado Hermínio lá nos foi levar ao aeroporto. O trajecto de regresso foi mais o desfiar de uma ladainha de louvores à Ilha e aos terceirenses, sempre melhores que os naturais de São Miguel (japoneses e coriscos) ou os do continente.
 
Já dentro do aeroporto, com o "check in" feito e as malas despachadas para a Ilha do Faial, o meu amigo espanhol resolveu pôr o nosso Hermínio à prova. Do bolso do casaco tira a carteira, dentro desta retira uma fotografia que mostrava um dos seus laranjais, com as árvores carregadas de laranjas muito grandes, de aspecto suculento e mostra-a ao Hermínio ao mesmo tempo que lhe perguntava: "E vocês têm cá laranjais e laranjas assim como estas?"

Durante 30 longos segundos a verborreia do Hermínio transformou-se num sepulcral silêncio acompanhado de um ar de espanto e surpresa mas, sem demoras de maior, com um sorriso de vitória a aflorar-lhe a face, um brilho estimulante no olhar e o teclado dos dentes a mostrar-se no seu esplendor, num rasgo de génio intelectual e de bairrismo, sai-se com esta frase lapidar: "As nossas são mais doces..."

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