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quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ENGORDA

Quando apareceu o euro resolveu arranjar um mealheiro.

É que a vida ia ficar mais cara, o aumento do custo de vida quase passou para o dobro, a bica passou dos 50 escudos para os 50 cêntimos e o resto também aumentou na mesma proporção... era altura de começar a economizar, guardar algum dinheiro, para uma compra inesperada, para uma viagem, para as prendas de Natal...

Lembrou-se dos tempos da sua infância, quando tinha um porquinho de barro onde guardava os tostões que ia recebendo dos padrinhos e dos tios e, quando o porco estava cheio, partia-o com um martelo... depois era só separar os cacos dos tostões, contá-los, e lá ia comprar a bola de futebol, os últimos cromos da colecção dos ases de futebol... era o Travassos o mais difícil de encontrar, o Travassos dos cinco violinos do Sporting. Era o último cromo... e quem o tinha vendia-o bem caro. Lembra uma vez em que pagou vinte e cinco tostões pelo cromo do Barrigana, o guarda-redes do Porto, conhecido pelo "mãos de ferro". 

Comprou um porco-mealheiro, versão recente de plástico e começou só a guardar as moedas de 2 euros, cada uma que lhe aparecia ele guardava-a e, ao fim do dia, lá ia meter a ou as moedas na ranhura, e ia enchendo, devagar, a pouco e pouco., aquele porco de plástico.. tinha dias em que não tinha moedas...  eram só as de dois euros...



Com o tempo começou a receber menos moedas... às vezes tinha uma semana que não lhe calhava nenhuma. Resolveu começar a guardar também as moedas de um euro, sempre a metade das que tinha e, à medida que o tempo ia passando, ia aumentando a dificuldade em arranjar moedas para colocar na ranhura do porco e ele a não engordar como queria...

Mudou de emprego, o salário reduziu a sua expressão e o guardar moedas foi-se tornando mais difícil e o porco a emagrecer... Havia alturas em que retirava mais moedas do que as que colocava. O que enchia, agora esvaziava e, com o tempo, o dinheiro foi evaporando, desaparecendo, sumindo...

O porco deixou de ser útil, ficou lá, no cimo do móvel, como decoração.

Mas ele achava que devia voltar a poupar, já não pensava em euros, mas em cêntimos, a guardar as moedas de um e de dois cêntimos... precisava arranjar outro mealheiro, um que fosse adequado à sua realidade, à realidade deste país... e encontrou-o.


Pode ser que agora o encha mais depressa, com as moedinhas de um cêntimo, mas  será que consegue arranjar dinheiro para as férias, para as prendas de Natal... quando partir o porco?


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