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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

PARAPEITO

Todos os dias o ia cumprimentar à janela.

Não sei se seria, mesmo, todos os dias.

Mas sabia que bastava chilrear um pouco e ele aparecia, às vezes com ar ensonado ainda, dos dias em que se deitava mais tarde e lhe apetecia ficar na cama mais tempo. Mas aparecia sempre, de sorriso nos lábios e sempre com a bolacha Maria já esfarelada.

E ali ficava, encantado, a vê-lo debicar aquela farinha doce.

De vez em quando dava um voo até à beira do tanque, bebericava um ou dois goles de água e voltava ao parapeito... dava dois gorjeios de satisfação e continuava a sua sobremesa matinal.

Um ritual que começou em Maio, ainda era um passarito que mal sabia voar. Ele encontrara-o caído, junto à janela, pegou-lhe com cuidado, acarinhou-o, deu-lhe água para beber e foi, com ele na mão, bem aconchegado, dentro de casa, buscar-lhe uma bolacha que esfarelou com os dedos e lhe deu a provar. A água, a bolacha Maria e o mimo recebido, deram-lhe alento, vida e rapidamente começou a agitar as asas, a querer libertar-se daquela mão que o acolhia, mas também o prendia.

Ele apercebeu-se e, delicadamente, abriu a janela, colocou-o no parapeito e deixou-o ali, esperando um voo de partida. O passarito olhou-o, deu dois pios de satisfação e partiu. Um voo largo e um retorno, um pousar, de novo, no parapeito e nova partida.

Perdeu-lhe a vista. Naquele dia não o tornou a ver.

Mas, no dia seguinte, ouviu, logo pela manhã, um pio débil, mas insistente, chamativo, ali, na janela onde o tinha deixado. Lá estava ele, no parapeito, a bicar os restos de bolacha que tinham restado da véspera. Foi buscar mais uma bolacha e o passarito deliciou-se.

No outro dia, o mesmo, e no dia depois a mesma coisa. Não passou dia que isso não acontecesse. Não posso jurar que tenham sido todos os dias... mas, a maior parte dos dias, assim foi.

E o passarito deixou de o ser e transformou-se num pássaro lindo, de penas brilhantes, lustrosas, com verdes, castanhos, amarelos, azuis... o pio trinou e começou a transformar-se em melodias, gorjeios, cânticos... um pássaro adulto que passava o dia, em bandos, na procura de alimentos, ora petiscando numa pêra, ora enchendo o papo com framboesas doces.

E assim passou o verão e entrou o outono, entraram os ventos, o tempo mais arrefecido e chegou a altura de partir, de dizer adeus e seguir para terras mais quentes. O bando a reunir-se a aglomerar-se de pássaros, centenas, a querer partir à frente das nuvens escuras, da tempestade que ribombava lá atrás...

Sem tempo para  mais, um passar rápido junto à janela e um poisar breve no parapeito a depositar a minhoca gorda que trazia presa no bico, a retribuir os bons dias de cada manhã.

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