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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

FOLHA

Diante da janela tinha um plátano, uma árvore velha, de tronco gordo, ramos fartos e bem distribuídos, com a sua pele característica, como se fosse malhada.

Era inverno e a árvore estava totalmente despida, feita nudez quase obscena de tanta ostentação de corpo. Assim que os primeiros sóis de fim de inverno apareceram, assim que os dias começaram a clarear de mais luz, assim que os frios começaram a ir embora para outros lados, a árvore começou a ganhar consciência da sua nudez, do seu atrevimento ostensivo e começou a brotar  em cada ponta ou curva dos ramos um gomo verde que foi crescendo quase a ver-se de dia para dia: ontem uma protuberância de um verde desmaiado, hoje já um broto a querer parir-se da casca tenra, daqui a pouco um esboço de folha bem verde a abrir-se no ar. A árvore como que a vestir-se sorrateiramente, de forma delicada.

Fixou-se no ramo que ficava mais perto da sua janela e foi, ao longo do tempo, da primavera, do verão e do outono, apreciando o desenvolvimento e crescimento daquela folha. De início de um verde tenro e frágil, muito maleável, de bordos macios e suave ao toque, mais tarde, já com a sua forma de quase estrela de cinco pontas, grande, maior que a palma da sua mão, a textura tornou-se mais consistente, os bordos mais ásperos e quase cortantes, a pele a criar veios que lhe tiravam bastante daquela maleabilidade juvenil, o verde mais forte e mais adulto. Com o verão a folha começou a mudar, a ficar com um verde mais esmorecido, a ficar mais rija, a ondular-se no bordo, a criar manchas que amareleciam, acastanhavam ligeiramente, ou começavam a avermelhar... tudo feito de um continuado quase imperceptível para quem se dedicou à observação quotidiana daquela folha. 

Entrou o outono e a folha a ficar toda amarela, de um tom forte a transformar-se depois em castanho e, rapidamente, a tornar-se quase um fogo de vermelho.



A folha a enrugar-se, a perder flexibilidade, a quebrar as pontas por força das rabanadas de vento, pelo choque com as outras irmãs de árvore, pelos pingos fortes das primeiras chuvas de Setembro...

Ela olhou as suas mãos e imaginou-as folhas, comparou-as na sua evolução, no seu percurso de vida. Viu umas mãos velhas, de 84 anos, manchadas, de pele áspera e endurecida, com os dedos a entortarem, os nós das articulações a deformarem... 


O que numa folha muda num ano, demora mais tempo, substancialmente mais tempo a mudar nas suas mãos... 

As suas mãos, como folhas presas aos ramos, que são os seus braços, de uma árvore, também velha, mas de raízes móveis, raízes que lhe dão a liberdade de passear a vida, deambular no mundo e não se quedar ali, como aquela árvore, todo o tempo, diante da sua janela...

1 comentário:

Anónimo disse...

Que bela alusão!
Tal como folhas , nós também fechamos ciclos.
Tal como raízes, fixamos,sorvemos o do melhor e o do pior da vida, mas aprendemos e caímos e levantamos e vamos tendo conhecimentos de coisas de pessoas, que passam por nós e deixa impressões, como o tempo deixa nas árvores, a cada ano uma camada, a cada pessoa, uma vida.
Beatriz Morcego.