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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O CONTADOR

Comprara-o num leilão. Há uns anos já. 

Sempre sonhara ter um, para guardar as jóias e os segredos, dizia.

E lá o conseguiu arrematar, mas quase o ia perdendo. No meio da licitação, quando o pregoeiro já estava para bater o martelo pela segunda vez, apareceu uma outra interessada naquele contador,  uma coleccionadora de contadores, dizia-se. E o que era para ter custado 100, passou a 170, mas conseguiu-o.

Escolheu o sítio mais nobre da casa para o colocar. Ficava à vista de quem entrasse, era gabado por quem o via pela primeira vez e ela não se cansava de contar a história-quase-aventura da sua aquisição. Naquele sítio, longe do quarto, não era prático para guardar as jóias, mas sempre deu para guardar os seus segredos.

Não era fácil de abrir... porque também tinha um segredo: uma peça de madeira que se enfiava entre os dois painéis da frente, que se abriam como portas e deixavam soltar uma espécie de botão que permitia abrir apenas uma gaveta. A chave da fechadura da porta apenas era elemento decorativo, para enganar quem o queria abrir sem lhe conhecer o segredo. Depois, puxava-se a gaveta e premia-se num outro botão que deixava abrir uma  porta interior. Dessa porta tirava-se uma outra peça que se fazia deslizar por um buraco junto à dobradiça e, assim, de segredo em segredo, ia abrindo aquele contador que, ao ser aberto na totalidade, deixava à vista um segundo conjunto de gavetas onde ela podia ir guardando os seus segredos.



Uma semana depois do dia em que partiu, uma semana depois de ela ter deixado a casa para sempre, a filha tentou abrir o contador, mas não conhecia o segredo; tentou de várias formas, usou lâminas de facas, chaves de fendas, até tentou desaparafusar as dobradiças, mas não conseguiu. Não podia estragar aquela preciosidade e deixou-o ficar, assim, fechado, como um sacrário em lugar de destaque.

Foi a melhor maneira de recordar a memória da mãe e a preservação dos seus segredos...

2 comentários:

Anónimo disse...

Também já tive um contador. Também foi comprado num leilão e deixou-me uma saudade imensa!!São peças fascinantes!!

Maria Helena Cruz disse...

Lindo como peça decorativa, o guardar é bem discotivel, nunca os segredos... pois segredos por serem segredos devem ficar nas memorias, e morrem com quem os tem, assim fica sempre tudo em equilibrio mesmo sem o enterdermos São segredos... e o melhor é não os ter.