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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

CHONG FUNG CHA

Encheu a cafeteira com a água do garrafão de vidro. Pôs ao lume brando do fogão, para que a água fosse aquecendo de forma suave, sem grande convulsão das suas moléculas, proporcionando uma subida gradual da temperatura até estabilizar uns graus abaixo do ponto de ebulição. Não a podia deixar ferver, era sagrado!

Aquele chá, vindo das montanhas verdes de Chintochao, de plantações situadas a meio da encosta virada a sul, era único.

As folhas verdes, ainda enroladas, eram colhidas às primeiras horas do dia, depois de terem repousado em noite de lua cheia, uma a uma, as primeiras das pontas dos ramos dos arbustos, por mãos pequenas, delicadas, e depositadas em pequenos cestos forrados a seda. Sofriam uma maturação especial, quase secreta no modo de a fazer, e era apresentado como o chá de Chong Fung Cha.

Tinha de ser importado directamente, a quantidade produzida cada ano não passava de algumas centenas de quilos, e o preço, quase astronómico. E vinham, com as folhas do chá, a água daquelas montanhas e, da primeira vez que se comprava e que se fazia o registo como comprador-apreciador, também o material para preparar e beber aquela preciosidade.

Por isso o cuidado na sua preparação, o material apropriado, a água exclusiva, os cuidados com o calor para a aquecer, os tempos de infusão, a temperatura da sala, o ambiente, as cores, até a música (também, da primeira vez, veio um CD de músicas que ele chamava de Zen).

O chá, aquele chá, necessitava de uma preparação, quase espiritual, para ser bebido: um ritual próprio de gestos, de respiração própria, de relaxamento, como se tratasse de uma sessão de yoga. 

Por isso não era um chá que se bebesse todos os dias, não era um chá para acompanhar com bolinhos ou scones, não era um "five o' clock tea", era um chá que não queria conversa, apenas acordes de música oriental, introspecção, sossego e tempo... E tempo, também, para preparar tudo,  o ambiente, a cabeça e o próprio chá.

Quase tinha reservado a tarde toda para o cerimonial! É que, depois de ter sido bebido, e quase que não é bebido, mas apreciado, olhado, cheirado, sentido, aquele chá pede tempo para ser verdadeiramente degustado e poder transmitir a paz, a tranquilidade e o zénite de bem estar.

Momentos raros de felicidade. 

Do tudo só não gosta do nome: CHONG FUNG CHA!

É um nome cuja onomatopeia lhe faz lembrar um caminhar em terrenos lamacentos, um caminhar feito com botas grossas e andar pesado, um nome que nada tem a ver com a delicadeza, graciosidade e quase feminilidade daquele chá!


3 comentários:

MJ FALCÃO disse...

Deve ser fantástico esse fungchangfu! Quem nos "meteu" no chá foi a Gui. Estou sempre aprovisionada com chás daqui e dali, mas esse não conheço!
Enjoy!

Carlota Pires Dacosta disse...

Esse chá não conheço, mas o meu chá de frutos vermelhos, tem um cerimonial parecido.
O sossego da sala, a temperatura do ar, o líquido na chávena, o cheiro, o paladar, o degustar, tudo no tempo certo. muitas vezes acompanhado por uma música calma, um livro, um pensamento..

Beijo

Anónimo disse...

Quem me dera provar esse chá e saborear esse ritual. Adoro chá! Mas, ainda mais, adoro esses rituais de ternura

Beijos
Berta