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terça-feira, 1 de março de 2011

A CADEIRA

Estava ali, solitária, esquecida, em decadência, no pátio da casa.

Era a cadeira da menina, da única menina daquela casa de família, uma  família de lavradores, com cinco filhos, quatro rapazes e uma filha, a mais nova, quase uma insistência dos pais até que nascesse uma menina.

Não viveu como uma princesa na mãos dos "bruxos" da casa, porque o tempo nunca foi de riquezas, nem o ambiente se prestava a tal, mas foi sempre mimada e acarinhada pelo pai, pelos irmãos mas, sobretudo, pela mãe que tinha tido, ao fim de tantos rapazes, uma menina. A sua boneca, porque parecia mesmo uma boneca, nascida de uma gravidez já tardia, de um parto complicado e apressado, mas em que tudo acabara por correr pelo melhor.

Aos 4 anos o pai oferecera-lhe a cadeira, uma cadeira alentejana, azul, assento de bunho, e de perna curta, adequada ao seu tamanho de menina. Deixou-a ficar no pátio da casa, um pátio grande, quadrado, com chão de pedra, onde a família se reunia, e onde cada um tinha  a sua cadeira. Era lá que se fazia a sesta no verão, que se arrumava parte do material agrícola no inverno, pois o pátio tinha uma cobertura de telha a toda a volta e que o tornava mais ameno quando vinham os frios do inverno, protegia da chuva, do calor e do sol inclemente do verão.

Ela ficou orgulhosa da sua cadeira, agora também já tinha uma, dela, só para ela, escusava de andar a sentar o rabo em cadeira que não fosse sua.

Se a mãe estava na cozinha a preparar a refeição da família, pegava na cadeira, levava-a para lá e sentava-se enquanto ia conversando com a mãe a perguntar o que estava a fazer, ao mesmo tempo que ia assimilando as artes da cozinha; gostava, sobretudo, de ver a mãe a fazer os bolos de bacalhau pois sabia que lhe fazia sempre uns mais pequeninos, adequados ao seu tamanho.

Nas tardes e nas noites frias de inverno lá pegava na cadeira e ia para junto da lareira da sala e ali se sentava a aquecer-se antes de se ir deitar.

À medida que foi crescendo, e quando saiu para ir para a Escola, as suas pernas já não se ajustavam ao tamanho das pernas da cadeira que foi ficando mais sozinha, quase esquecida, no pátio, debaixo do beiral, encostada à parede de branco caiado da casa. 

E, à medida que o tempo ia passando a cadeira ia-se deteriorando, o bunho a criar fungos, a degradar-se, a ficar com buracos, e a cor azul a escapar-se e a deixar a madeira à mostra.

Inútil, já para nada servia, já ninguém se sentava nela, quase esteve para ir alimentar as chamas da lareira da sala.

Passaram-se anos e ela, a cadeira, resistente, no seu posto, decrépita de aspecto, pouco firme nos seus apoios, mas fiel.

A menina, agora mulher, mãe já de uma menina quase a fazer os quatro anos, lembrou-se da cadeira velha, da cadeira que o pai lhe tinha oferecido no dia do seu quarto aniversário.

Resolveu dar-lhe vida, ela mesma a foi levar ao restaurador para lhe colocar bunho novo, para raspar a tinta velha e a pintar de novo, da mesma cor e, depois de renovada, como se fora nova, fez um embrulho lindo para a filha e ofereceu-lha no dia em que fez quatro anos.

Hoje lá está, no mesmo posto, de novo a sentir-se útil a saltitar do pátio para a cozinha, para junto da lareira... num voltar à sua meninice de cadeira.


(Monsaraz - 2008)

Como se as cadeiras tivessem meninice...

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