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domingo, 6 de março de 2011

FIM DE FESTA

A praça estava toda engalanada; havia muitos balões, muita cor, muita alegria, música a encher todos os espaços, bailes, marchas, fantasias e animação.

Durou dois dias, sempre dois dias, mas  dois dias bem vividos, festejados, dançados, brindados, bem comidos e bem regados.

Começam os festejos com os bombos e tambores, logo às sete horas da manhã, ensurdecedores no ruído, a acordar o sono mais pesado, a estremecer janelas, paredes e móveis, a fazer tilintar os copos nas prateleiras; são sempre 15 minutos assim. A chamar todos! Só depois do tocar dos bombos é que entra o pessoal para decorar a praça vazia: com os festões, os balões, o palco improvisado, as esplanadas com as mesas e as cadeiras, as bancas para as mostras e vendas do artesanato. As luzes e a instalação sonora, essas são colocadas de véspera, uma tarefa mais demorada, com mais exigência técnica, a pedir mais tempo do que as duas horas precisas para se montar o restante.

É que as festas aqui têm regras e horários: o acordar com os bombos às sete, quinze minutos de rufos e bombos à volta da praça, como se fora uma procissão, e só depois é permitida a entrada do pessoal para a montagem de tudo, em duas horas, não mais!

Às 9h 30 minutos é a abertura oficial, com o alcaide a presidir, numa cerimónia de pompa grotesca, pelo vestuário, pelo aparato, com foguetes a estalar no ar, com o discurso da praxe, sempre inflamado, sempre apelativo e a largada de pombos. Depois dá-se a partida para a corrida da légua, pelas ruas ali à volta, dentro dos limites daquele bairro, e chegada junto à porta norte da praça.

Praça que se vai enchendo de pessoas, de música, de canções, de artistas que mostram habilidades e reúnem à sua volta alguns curiosos, de vendedores que exibem e anunciam os seus produtos, de um encher de sons diferentes, de vozes, de gritarias,  tudo misturado, tudo confuso. 

À tarde são os ranchos, as bandas, as palhaçadas, os bailes, as peças de teatro, os grupos corais, os contadores de histórias...

Servem-se refeições a toda a hora, bebe-se em qualquer momento, as esplanadas sempre cheias, as cadeiras ocupadas, o cheiro a frango assado, a febras, e o fumo dos assadores a misturar-se com o dos cigarros e o dos charutos.

Pela noite dentro a animação dos bailes, das orquestras, do chá-chá-chá, dos boleros, dos tangos, das marchas populares, das kizombas... mais além uma cigana com castanholas ensaia um flamenco acompanhado com as palmas da assistência.

O fogo de artifício anuncia o fim do primeiro dia, a marcar a hora do silêncio até ao dia seguinte.

E de novo o barulho dos foguetes a acordar de mais um dia, a chamar o povo, para um quase repetir de tudo, desta vez sem corrida a pé, mas com jogos tradicionais na praça, com a subida do pau ensebado, com campeonatos de malha, o quebrar da bilha,  as corridas de saco, o festival de ilusionismo, o concurso de pregões e as quadras ao desafio.

Até que tudo acaba no fim, diz-se. 

Depois é o arrumar da festa, das mesas e cadeiras, o retirar das bancas, o desfazer do palco, o adeus aos balões e aos festões.

Finalmente os bombos e tambores a marcarem o termo a darem a volta à praça, de novo em procissão, mas agora em sentido inverso como a anunciar o fechar do ciclo que anualmente se repete.


(Bilbao  - 2008)

Desta vez, a chuva abundante, que apareceu no fim da festa, ajudou a lavar o chão e as paredes das casas deixando a praça limpa e lavada como se nada ali se passara.

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