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sábado, 31 de março de 2012

DESPERTAR

Acordou cedo como, aliás, era o seu costume.

Nesta história do deitar e do erguer apenas cumpria com uma parte do ditado: "Deitar cedo e cedo erguer... " porque, habitualmente, deitava-se tarde mas, quanto ao erguer cumpria-o na risca. E, como não era muito alto, e os ditados habitualmente são certos no que contêm - "... dá saúde e faz crescer", se não cresceu muito tinha, pelo contrário, muita saúde. Pelo menos não tinha dores, não se queixava de nada e nem comprimidos tomava.

Naquele dia, talvez por dormir em cama estranha, num lugar que não era habitualmente o seu, a verdade é que acordou ainda mais cedo e, sem ter nada que fazer, estar farto daquela cama macia de mais e daqueles almofadões que lhe faziam dor no pescoço, resolveu levantar-se e aproveitar o fresco da manhã para ir dar uma volta a pé.

A manhã estava ainda fria, o dia ainda não tinha acordado o suficiente para que o sol o iluminasse e aquecesse como conviria, mas deu para apreciar o despertar da natureza, o murmurejar das águas da ribeira, o acordar das aves, o latir dos cães das quintas, o badalar dos pequenos rebanhos de ovelhas e de cabras que, cedo na manhã, ia partindo, sozinhos, à procura de pastos ali por perto, o sacudir dos ramos das árvores ajudadas pelo vento de sudoeste a libertarem-se das gotas do orvalho da noite...

(do autor - a ribeira de Nisa, em São Bento)

À medida que ia percorrendo os caminhos da serra, com o capote vestido e apoiado num cajado, como se fora um caminhante, ou um romeiro no seu percurso à procura da fé, ia-se deixando envolver em pensamentos, em imaginares, construindo castelos de sonhos, abstraindo-se do ambiente.

E, só quando as irregularidades do terreno ou as pedras do caminho o faziam, quase, tropeçar é que acordava para a realidade do momento e lá voltava, de novo, ao murmurejo das águas, ao embalo dos badalos, aos agudos dos chilreios, ao rouco dos latires, ao pingar dos orvalhos...


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3 comentários:

Carlota Pires Dacosta disse...

Gostei da nova imagem primaveril.
Um belo texto, acompanhado por tão bela imagem.
Tenho que me perder mais vezes por São Bento, eheh.
Beijinhos

MJ FALCÃO disse...

Também eu gostei!
Linda a fotografia da ribeira de Nisa! É tão bonita toda essa zona...
Bom Abril!

Anónimo disse...

Bucolismo quase puro. Faz bem à alma!
Beijos
Berta