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quinta-feira, 15 de março de 2012

À JANELA

Era ali que costumavam estar as duas, mãe e filha, ou as três, quando se juntava a avó com a sua bem cuidada cabeleira branca.

Muitos anos de janela de rés-do-chão, num tempo em que ainda não havia televisão e era, através daquele rectângulo, daquela moldura azulada, com as portadas abertas e a persiana levantada, que o telejornal e as séries eram feitos de ver o cruzar das pessoas na rua, de cumprimentos e conversas de parapeito, das ambulâncias que passavam a apitar a caminho do São José, da algazarra dos alunos do Liceu de Camões, ou dos aprumados cadetes da Escola da Academia do Exército, na sua farda cinzenta, abrilhantada, em dias especiais, por uma espada reluzente.

(do autor, em Gomes Freire, Lisboa)


Quase sempre ao fim da tarde, e nas noites quentes de Lisboa, a janela abria-se para refrescar a casa do calor do dia e para que as duas, ou as três, se distraíssem com o passear das pessoas, com a passagem do autocarro 12, vindo de Algés para os Caminhos de Ferro, ou do 12A para Sapadores ou então, mais para os lados do Liceu de Camões, do 32 que vinha da avenida das Descobertas para o Hospital de Santa Maria. Num tempo em que a vida ainda era tranquila, os carros ainda eram poucos e havia sempre lugar para se estacionar, tempo em que a praça de táxis se enchia dos velhos Mercedes pretos e verdes, quando os eléctricos eram só amarelos, sem a publicidade agressiva e colorida de agora, e os autocarros eram verdes assegurando, por um bilhete azul de uma zona ou cor de rosa, de duas zonas, o transporte de toda a gente, num tempo em que o namoro de janela era um costume e a quase única permissão de se poder estar a sós, enquanto não chegava a autorização para se entrar em casa da prometida...

Quando a janela estava fechada era porque a menina tinha ido para a faculdade, ou estava a estudar para os exames, ou, então, tinham ido, as três, lanchar à Estudantina, ali bem perto.

Na Estudantina, os cadetes da Academia eram os frequentadores mais assíduos e faziam gala, como galos bem aprumados, em exibir as fardas impecáveis, as calças bem vincadas, o boné debaixo do braço e as luvas na mão, fazendo um contraste em movimento, com os manequins estáticos da montra do Senhor Ferreira, alfaiate, que ficava mesmo de frente à pastelaria. 

Os palmiers e os caracóis, bem cheios de frutas cristalizadas, e o leite com chocolate, a fumegar na chávena de faiança branca, eram o lanche mais apetecido. 

Uma troca de olhares, um jeito de apertar o nó da gravata, o livro de pneumologia que cai da borda da mesa para o chão, um levantar rápido do cadete da mesa ao lado que o apanha ainda no ar, os aplausos das mesas circundantes, e a jovem estudante de medicina a corar no agradecimento. 

A verdade é que a história acabou, mesmo, em casamento.

Hoje, ao olhar aquela janela, recordou a infância, a juventude, a vida de faculdade, a Estudantina, as fardas dos cadetes, o namoro de parapeito... uma vida que foi, em grande parte, vivida na moldura daquela janela.

Agora, fechada, a janela já não se vai abrir mais, nem para deixar ver, através dela, a vida que passa do lado de fora, nem para vislumbrar o viver que foi por dentro daqueles vidros.

Um tempo que se foi e se mudou para outra janela no dia em que, definitivamente, fecharam aquela.



2 comentários:

Anónimo disse...

A vida a cumprir-se num fechar e abrir de janelas.

Beijos

Anónimo disse...

Prof. Amaral Marques

Gostámos todos daquela janela foi de facto a janela de várias vidas e a origem de muitas outras... Fechou-se, mas ao olhá-la através desta bonita fotografia, muitas e saudosas recordações vêm ao nosso pensamento.

Um obrigado sincero,

M José Serra, Margarida e João