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domingo, 19 de junho de 2011

RESERVA

Ainda faltava mais de uma centena de quilómetros e o mostrador de combustível indicava que ainda tinha dois "pauzinhos".

Mais do que o suficiente para chegar a casa, pensou ele.

E continuou no seu ritmo rápido, até porque estava cansado e tinha saudades do seu canto. 

Passou a ponte e continuou pela estrada estreita e cheia de curvas que bordejava as margens do rio.

Os seus pensamentos andavam longe: recordava as últimas semanas, o trabalho intenso, a saúde frágil, as reuniões a preparar, os cães fechados no canil, o passeio à beira-mar na manhã fresca daquele dia, a sardinhada no bairro de Marvila, o jantar em casa dos amigos, o almoço a dois, as compras que tinha que fazer no supermercado... Tudo, num turbilhão de imagens e passagens a correrem no seu pensamento, tal como as curvas e contra curvas que iam aparecendo diante de si, na sua condução apressada.

Olhou de novo para o nível de combustível. Desta vez só um "pauzinho" e só tinham passado meia dúzia de quilómetros. O turbilhão de pensamentos desapareceu do seu espírito e, de repente, tomou consciência de que era capaz de não chegar a casa com o que restava no depósito.

E hoje que é Domingo, os postos de abastecimento quase todos fechados. Como vou fazer? interrogou-se no seu pensar preocupado. Resolveu reduzir a velocidade, abrandar nas curvas e seguir com mais tranquilidade. Desligou o ar condicionado, abriu o vidro da janela, apoiou o braço no peitoril e assim foi, como se estivesse a passear junto a um mar tranquilo, sem ondas e sem gaivotas.

Mas, mesmo assim, a luz da reserva não tardou a aparecer. Reduziu ainda mais a velocidade. Restava a esperança de um posto de combustível, fora da estrada, fechado provavelmente, e a uns bons quilómetros adiante. E lá continuou num andar mais lento fixando o olhar na luz amarelo-alaranjado, que insistia no piscar rápido... e quanto mais rápido piscava menos combustível tinha e mais depressa batia o seu coração!

Desta vez teve sorte. Apesar de ser Domingo, as luzes vermelhas do preço dos combustíveis lá estavam, a indicar que tudo funcionava.

Ele, que costumava meter sempre a mesma quantia, dez euros de cada vez - é que assim custava menos -, desta vez não se acanhou nos bolsos. Encheu até ao cimo, até ter a certeza que chegava a casa sem ter mais aquela luz incómoda da reserva, a piscar-lhe rápido, como se piscasse ao ritmo do seu coração cheio de ansiedade...


2 comentários:

Anónimo disse...

Luzes vermelhas são sempre terríveis! Mas, acho eu, às vezes deviam aparecer-nos na vida, a avisar de perigos piores!

Beijos

Maria Helena Cruz disse...

Será que essa luz amarela intermitente de batida de coração com o disparo de ansiedade, não será um alerta que a vida tem outro ritmo!,
Porque quando nos aparece luz vermelha é mesmo mudança sem reservas sem perguntas sem saber se queremos ou não, e só nos resta mudar ou ter o bom senso de abrandar.

Beijinhos