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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ROSAS VERMELHAS

Ele bem tinha dito: rosas vermelhas... tinha insistido, chamado a atenção... que era, mesmo, para serem vermelhas...

De nada valeu...

Trouxeram desta cor... cor de rosa-champagne..., desmaiado, pálido, a atirar para o amarelo...
Será que ela vai gostar? Será que ela vai aceitar? Será que ela vai colocá-las na jarra?

Ou será que ela não vai gostar, nem aceitar e, pura e simplesmente, vai deitá-las no lixo?

Ficou sem saber o que fazer... ir a outra florista? Devolvê-las e pedir o dinheiro de volta?

Hesitou, andou para trás e para diante... E aproximava-se a hora de saída dela... ali, no Chiado, mesmo em frente à Brasileira... e ele na hesitação... e ainda tinha que apanhar o Metro...


Quando chegou já passava da hora... o escritório fechado... o telemóvel desligado... tinha perdido mais uma oportunidade...


Sentou-se ali, na esplanada, mesmo diante do Pessoa... sempre atento aos seus papéis, sem ligar ao que se passava ao seu redor... e lembrou-se que, nesse mesmo dia, ele tinha morrido... há 75 anos... o seu poeta preferido... o seu Campos... o seu Caeiro... o Ricardo... o seu Desassossego... o absurdo... as incongruências...


Veio à lembrança a dualidade do querer e não querer, do ser e não ser, do estar e não estar... 

Por isso hesitou em oferecer-lhe aquele ramo de rosas...


Não Quero Rosas Desde Que Haja Rosas
Não quero rosas, desde que haja rosas.
Quero-as só quando não as possa haver.
Que hei-de fazer das coisas
Que qualquer mão pode colher?
Não quero a noite senão quando a aurora
A fez em ouro e azul se diluir.
O que a minha alma ignora
É isso que quero possuir.

Para quê?... Se o soubesse, não faria
Versos para dizer que inda o não sei.
Tenho a alma pobre e fria...
Ah, com que esmola a aquecerei?...


(Ricardo Reis)






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