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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A ENCOMENDA

Levava o rótulo de muito frágil, era uma encomenda mais que preciosa... era uma peça única... original... Não tinha jeito de a entregar pessoalmente... não teve outro remédio senão solicitar os serviços de uma firma de entregas... no destino alguém haveria de lha entregar em mão...

Escolheu a melhor, a de mais confiança, a que lhe oferecia mais garantias...

Rapidez, segurança, acondicionamento, e uma série de seguros... caso aconteça algum problema... um atraso, roubo do veículo, colisão, quebra... 

Assim foi... fez questão de a entregar pessoalmente ao motorista do camião... explicou-lhe da preciosidade da encomenda, da sua fragilidade, a quem tinha de ser entregue... viu bem onde ele a colocou... acomodada no meio fardos de algodão... na parte da frente estavam os bidões de aguarrás,  a seguir as paletes dos pisos flutuantes de madeira... de jatobá... depois os fardos de algodão com a sua encomenda bem acondicionada... e lá para trás dois contentores cheios de caixas de velas decorativas...

Saiu à hora certa... rumo ao destino comum de toda a mercadoria... ia chegar na hora acertada... precisava de lhe telefonar...a confirmar a hora da partida... a dizer da hora provável da chegada... 

Ela não sabia o que era... apenas uma prenda... única... preciosa pela originalidade... e, como todas as obras de arte... frágil... muito frágil... acima de tudo não podia suportar temperaturas muito altas... por isso se decidira pela camião frigorífico... os bidões da aguarrás e as velas decorativas.. exigiam temperaturas baixas... o ideal para o transporte da encomenda...

O motorista não se apercebeu... os carros que passavam por ele buzinavam... os dedos indicavam a traseira... e notou, pelos retrovisores, as chamas que saiam... do lado esquerdo...o vento na mesma direcção... em plena ponte... sobre o rio... o rio que  separa as margens... largo... enorme... quase um mar...

Assistiu impotente... ao fogo que tudo consumia... às explosões dos bidões da aguarrás... ao arder da estearina das velas decorativas... aos sacos de algodão a servirem de grandes  tições... a desenvolverem mais calor...

A estrutura a desaparecer... os pneus em fogo a estrondearem... e tudo a transformar-se em fogo...  em brasas... como um imenso tição... um pavor... um calor de queimar... de assar...

E a encomenda, que não podia suportar muito calor... ali, no meio da chamas, das brasas... a volatilizar-se... a desaparecer num ápice...

Mais tarde... veio a saber que só não foi feito um seguro... contra incêndios!..  ..


(Lisboa - Ponte Vasco da Gama - Setembro de 2004)

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