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sexta-feira, 25 de maio de 2012

MARINHEIRO SEM MAR


Sentia-se confiante, vencedor, triunfante, mas não era mais do que um pobre, um triste, perdido no cais de uma cidade qualquer!

Sem nome, sem mar, sem barco ou destino, por não os ter, vazio de amor, por o não saber!

Julgava-se o dono, duns patrão, doutros poderoso senhor, não passando dum insuportável ditador!

E tanto mais tempo passado, sem nunca se achar...

Sem rumo, decerto, sem rota ou destino, sem sul ou sem norte, em desassossegado desespero percorrendo, num desatino, caminhos escuros, desconfiado, como bandido ou renegado, pedinte faminto, a fugir do medo, a escorregar para a morte,  a última esperança dos vencidos!


(do autor - A dobrar o cabo Horn)



"Longe o marinheiro...
...
... perdido caminha nas ruas obscuras
Ruas da cidade sem piedade

...
Porque ele tem um navio mas sem mastros
...
Porque o destino apagou
O seu nome dos astros
...
Nenhum mar lavará o nojo do seu rosto
...
Em vão chamará pelo vento
...
Ele morrerá sem mar e sem navios
Sem rumos distantes e sem mastros esguios
Morrerá entre paredes cinzentas
Pedaços de braços e restos de cabeças
Boiarão na penumbra das madrugadas lentas."

in Sophia de Mello Breyner - Mar Novo - Marinheiro sem mar.


4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei, há tantos marujos armados em almirantes assim...

Parabéns pelo que escreve e pela coragem.

Abraço

M. B.

Anónimo disse...

Vidas sem rumos, que andam ao sabor dos ventos, dos instantes e dos momentos.
Só a Sophia a escrever com aquela força e determinação... para o bem e para o mal!
Pobre marinheiro...
Abraços
Beatriz

Anónimo disse...

Pôxa, Raul.
Forte, violento, quase agressivo...
Gostei da história apoiada nos versos da SMB. Não conhecia. Parece que foram escritos com raiva! Ela que parece ser sempre uma mulher tão serena...
Abraço amigo
Antônio

Anónimo disse...

curiosidade..dei uma espreitadela no seu blog e basicamente eu neste momento sou "marinheiro sem mar"..."Sem rumo, decerto, sem rota ou destino, sem sul ou sem norte, em desassossegado desespero percorrendo, num desatino, caminhos escuros, desconfiado, como bandido ou renegado, pedinte faminto..." pedinte da sua ajuda!!!

Telma Miragaia