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terça-feira, 29 de maio de 2012

CEREJEIRA


(do autor - Londres)

"...
Quando - pela última vez - bateste à porta da casa e te sentaste à mesa
Trazias contigo como sempre alvoroço e início
Tudo se passou em planos e projectos
E ninguém podia pensar em despedida


Mas sempre trouxeste contigo o desconexo
De um viver que nos funda e nos renega
- Poderei procurar o reencontro verso a verso
E buscar - como oferta - a infância antiga


A casa enorme vermelha e desmedida
Com os seus átrios de pasmo e ressonância
O mundo dos adultos nos cercava
E dos jardins subia a transbordância
De rododendros dálias e camélias
De frutos roseirais musgos e tílias


As tílias eram como catedrais
Percorridas por brisas vagabundas
As rosas eram vermelhas e profundas
E o mar quebrava ao longe entre os pinhais


Morangos e muguet e cerejeiras
Enormes ramos batendo nas janelas
Havia o vaguear tardes inteiras
E a mão roçando pelas folhas de heras
Havia o ar brilhante e perfumado
Saturado de apelos e de esperas
Desgarrada era a voz das primaveras


Buscarei como oferta a infância antiga
Que mesmo tão distante e tão perdida
Guarda em si a semente que renasce"

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética, O nome das Coisas, Carta a Ruben A., Junho de 1976



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1 comentário:

Anónimo disse...

Como é que se escrevem coisas tão lindas? Como tem tanta sensibilidade para as captar?

Beijo

LM