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quinta-feira, 24 de junho de 2010

O ÓSCAR


Já não me lembro como apareceu.

Alguma doente ou alguma colaboradora que o trouxe...

Veio num aquário, daqueles de forma esférica, do tamanho de uma bola de futebol, era vermelho e muito pequenino.
O aquário era o seu mundo e o seu limite. 
Quem ficou a tomar conta dele foi a minha secretária, a Vanda, uma cabo-verdiana de olhos lindos e um sorriso sempre pronto.

Com as pétalas de comida que lhe eram dadas todos os dias foi crescendo e a ficar grande demais, para o seu mundo esférico e transparente, e resolveu-se a compra de um aquário adequado ao seu tamanho de adulto, daqueles com filtro e bomba de ar.

Nunca tinha tido um nome. Achámos que, com a casa nova, deveria ser baptizado e, por consenso, ficou a chamar-se Óscar.

E assim, sem ter que ir ao notário, pagar sisa ou renda mensal, o Óscar ganhou, de uma assentada, nome de gente e uma casa nova.

Viveu bastantes anos; não sei se feliz ou infeliz, nunca nos disse do seu estado de espírito mas, de certeza, fez-nos companhia, acompanhou muitas das nossas conversas, das nossas preocupações, festejou, também, as alegrias e, quando havia um lanche de aniversário, ou de Natal, era certo que, nesses dias, tinha direito a umas migalhas extras.

O Óscar, no seu silêncio, com o seu olhar sereno, com os seus movimentos de requebros, com o ondular das barbatanas foi uma fiel companhia.

Até que um dia, ao chegar de manhã, dei com ele a boiar, inerte. E vi duas lágrimas a escorrerem dos olhos da Vanda.

Nesse dia, ao almoço, em vez do habitual peixe grelhado pedi  rolo de carne. É que me sentia como que com uma espinha atravessada na garganta.



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