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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O MELRO

Começou por ouvir um toque-toque, sem saber muito bem donde, como se fosse um bater seco, um martelar repetido, com algum eco curto ou uma ressonância.

O barulho parou mas, pouco depois, voltou, de novo, o toque-toque bem repetido.

Não conseguia identificar a origem do barulho e, muito menos, o que seria ou quem seria. Imaginou alguém a martelar fora da casa, mas quem poderia ser se a porteira estava fechada e ninguém, teoricamente pelo menos, poderia entrar? Ou seria o vizinho, do outro lado da cerca, a trabalhar junto das ovelhas que já andavam no pasto àquela hora matinal? Ou que mais poderia ser?

Mas o toque-toque repetia-se e não teve outro remédio senão levantar-se e ir ver o que se passava. O barulho vinha de cima, talvez da varanda ou da sala do fundo.

À medida que ia subindo as escadas o barulho tornava-se mais nítido, parecendo agora alguém a bater nos vidros da janela. Toque-toque, toque-toque, um silêncio quase de nada e, de novo o toque-toque.

Foi-se aproximando lentamente da janela donde vinha o bater, encostado à parede nua para não se deixar ver, e ali estava ele!



Um melro gordo, bem preto e luzidio, no parapeito, a olhar fixamente no vidro espelhado da janela, a olhar-se do outro lado, a imaginar, talvez, um rival do mesmo tamanho e proporções. De repente começa a bicar o vidro com força num ataque desenfreado ao seu rival virtual e tão igual a ele.

Mal se apercebeu da presença humana voou para outra janela poisou no parapeito, olhou na vidraça, estufou o peito preto, abriu as asas e agitou-as e voltou ao mesmo, ao desafio, ao toque-toque, ao ataque...

E ali se entreteve uma parte da manhã numa luta sem resposta, diante de um adversário, mudo e que tinha o condão de o imitar em todos os gestos e requebros...

Esta manhã ainda não apareceu. Será que volta?




3 comentários:

Anónimo disse...

Amei seu texto! Beijinhos, lola

Anónimo disse...

São provocadores, mas ternos e lindos. E, sabe, acho que fazem boa companhia. Adoro vê-los saltitar no meu quintal.

Beijos e paciência
Berta

Jorge L. disse...

A mim aconteceu me exactamente isto hoje, por isso vim procurar e encontrei este texto. Obrigado, já achava que era conjuro ou até imaginação minha. É que a insistência do melro era insólita.