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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A OLHAR

Encostava-se ao granito do muro e ali ficava, horas perdidas, a olhar o longe, a distância, num olhar vago, sem se fixar em nada. O ruído do gado, o badalar dum chocalho, o latido de um cão faziam-lhe virar a cabeça e o olhar nessa direcção mas, logo de seguida, o seu olhar voltava para o longe, para o horizonte do seu alcance...

(Monsanto - Abril de 2003)

Tinha dias em que recordava a sua meninice, a escola, a mestra Aurora, a palmatória que lhe aqueceu muitas vezes as mãos por não saber o nome dos rios; escola que interrompeu na 3.ª classe porque tinha que ir guardar as cabras, dar-lhes o pasto, recolher o leite ao fim do dia e levá-lo, já noite, à queijeira na aldeia ao lado. Tinha medo dos lobos, sabia da história de uma miúda que fora atacada, há uns anos, naquele caminho, que não era mais do que um trilho serrano, aberto pela passagem constante de gente entre os dois lugares. Levava a lanterna de azeite que pouco iluminava, mas que lhe podia servir de arma de defesa ou de arremesso se fosse atacada pelas feras. Também sabia o caminho de cor, as pedras soltas, os requebros, as voltas mais largas, aquele muro de pedra, meio esventrado, que atravessava o caminho e o ramo daquele carvalho que parecia lhe querer barrar a passagem, mesmo à altura dos olhos. No inverno custava, o caminho gelava, as socas de madeira escorregavam, e ela não podia perder o leite... se não, levava quando chegasse a casa, era na cara, ficavam os dedos marcados e o rabo quase sem se poder sentar umas horas. Vida dura, sofrida, solitária.

Não tinha irmãos e, por isso, as tarefas eram todas distribuídas para ela. Via os primos, cada um a fazer as coisas que lhe competiam e ela a fazê-las todas. Brincadeiras, só ao domingo. Jogava à macaca, à bilharda com os rapazes. Nunca chutou na bola de trapos e também nunca teve uma boneca. Fez uma, de trapos, cabeça de pano, uma quase marafona, dormia com ela na enxerga, era a sua companhia, a sua ouvinte de monólogos de menina maternal.

Fora essa a história que lhe contara no fim daquela manhã, beneficiada por um sol morno de inverno. Despediu-se... tinha que ir tratar da sopa para ela e para o marido, que estava a chegar da horta.

Santas tardes, senhor!
 

1 comentário:

Luiz Leite disse...

Vida pura e dura! E tu sempre um observador atento que consegue transmitir como se estivéssemos no cinema. Continua, para nosso prazer.
luiz