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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

ANDO TRISTE

Apareceu-lhe na consulta. Tinha-a marcado já há duas semanas.

Entrou no gabinete. Ele, sentado à secretária, levantou-se para a cumprimentar e indicar-lhe a cadeira.

Ela vinha, elegante, de preto vestida, com o semblante sério. Sentou-se.

Ele também se sentou e perguntou-lhe: em que lhe posso ser útil? Era quase sempre assim que começava a conversa, perguntando se podia ser útil.

Ela respondeu-lhe: espero bem que sim, Doutor, que me seja útil, que me ajude, ando muito precisada de apoio.
- Então o que se passa?
- Ando triste, sem vontade de sorrir. Já dura há uns meses,
- E apareceu assim de repente? Ou foi um processo que se foi instalando de forma paulatina e progressiva?
- Desde que fiquei desempregada, desde que a minha vida deu uma volta total. Foi o processo que levou ao despedimento, injusto! Foi o ordenado que se foi, foi a vida que estava habituada a viver que se alterou substancialmente. O carro e as prestações a pagar, o andar que tinha comprado e o banco que não aceita renegociar o "spread" e a mensalidade (dizem que já estou a ficar velha e por isso não querem alongar o prazo), é tudo. Depois acho que entrei em depressão, sou sozinha, o psiquiatra enche-me de medicamentos para contrariar a depressão mas que me trazem outros problemas e não me cortam a angústia do viver. Por isso voltei a fumar, a gastar ainda mais dinheiro na porcaria do tabaco mas que tem sido a minha companhia.
- Mas sabe que não deve fumar, o bem passageiro que lhe provoca vai transformar-se num mal agravado no futuro. Não se esqueça da sua bronquite...
- Eu sei Doutor, sei de tudo isso, mas nada me livra da angústia deste viver, sem trabalho, sem dinheiro, com as contas para pagar. O tabaco, ainda assim, vai-me anestesiando a vida, vou-me refugiando nele, vai-me acompanhando... aquele fumo que se desfaz no ar... quem dera que à minha vida  acontecesse o mesmo: desfazer como o fumo. Por tudo isto eu sei que ando triste, apenas vim aqui para falar um pouco com o senhor que sei que me escuta. Desculpe a minha tristeza...  

2 comentários:

Anónimo disse...

Vieram-me as lágrimas aos olhos. É que eu conheço a tristeza! Tratamo-nos por tu.

Anónimo disse...

A tristeza trata-se por você. Para manter uma certa distância. Porque para vivermos momentos felizes, é preciso trabalhar com determinação.