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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

UM CAMPO VERDE E VASTO


"É um campo verde e vasto,
Sozinho sem saber,
De vagos gados pasto,
sem águas a correr.
Só campo, só sossego.
Só solidão calada.
Olho-o, e nada nego
E não afirmo nada.
Aqui em mim me exalço
No meu fiel torpor.
O bem é pouco e falso,
O mal é erro e dor.
Agir é não ter casa,
Pensar é nada ter.
Aqui nem luzes ou asa
Nem razão para a haver.
E um vago sono desce
Só por não ter razão,
E o mundo alheio esquece
À vista e ao coração.
Torpor que alastra e excede
O campo e o gado e os ver.
A alma nada pede
E o corpo nada quer.
Feliz sabor de nada, 
Inconsciência do mundo,
Aqui sem porto ou estrada,
Nem horizonte no fundo."

24-1-1933
É um campo verde e vasto

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930 - 1935).




(DO AUTOR - UM CAMPO VERDE E VASTO, NA SERRA DE SÃO MAMEDE)


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2 comentários:

Manuel Poppe disse...

Uma belíssima fotografia... que compensa o pessimismo mórbido de Pessoa... Desejo-lhe um Novo Ano muito feliz e abraço-o com sincera Amizade.

Anónimo disse...

em campo vasto um bjo largo sempre grato. B ano dr. bjoooo!
Isabel Mendes Ferreira