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sábado, 7 de maio de 2011

O BRINDE

Fora ao supermercado para comprar os cereais do pequeno almoço. Queria daqueles com muita fibra e poucas calorias. 

Foi vendo caixa a caixa, contava as calorias por 100 gramas ou por dose, o teor de hidratos de carbono e de açúcar, os lípidos saturados e insaturados, as fibras solúveis e insolúveis e, finalmente, o teor em sódio.

Fez uma pré-selecção de uma meia dúzia de caixas, viu dos sabores e da apresentação, com raspas de chocolate, com pedaços de frutos secos, ou frutos desidratados, com ou sem sementes, em flocos ou em tiras...

Não prestou muita atenção ao que estava escrito no resto das caixas, cheias de muitas figuras coloridas, de desenhos animados que passam nos canais infantis da televisão. Nem reparou nos brindes que anunciavam. Apenas lhe interessou o que estava escrito na face lateral da caixa, nas letras pequenas, com a composição e as percentagens dos diferentes componentes.

Escolheu a caixa de 750 gramas, pois era a que ficava mais em conta.

Quando chegou a casa abriu a embalagem para colocar o saco dos cereais dentro da lata de folha de flandres, para que se conservassem mais tempo e, surpresa!, deu conta que tinha um brinde: um iô-iô. Não daqueles simples de dois discos de plástico com o cordel no meio, mas este era sofisticado, mais bojudo, transparente e a deixar um interior cheio de luzes e fios eléctricos, como se o estivesse a ver ao raio X. 



Não resistiu e lá o lançou e, assim que ganhou velocidade de rotação, assim que o vai e vem se ia acelerando, ia escutando um zumbido musical, o corpo circular, transparente, começou a iluminar-se de vermelho, a apagar e a acender como anúncio de néon e, quanto mais acelerava o movimento mais luzes apareciam, a piscar, em várias cores, psicadélicas até que, ao parar o movimento tudo voltava ao início: um iô-iô bojudo, transparente, a deixar adivinhar um interior cheio de luzes e fios eléctricos.

De repente, veio-lhe a lembrança do tempo da Farinha Amparo, uma espécie de farinha fortificante, que era preparada com leite quente, com um sabor de chocolate falso, provavelmente da alfarroba que tinha na composição.

Mas, sobretudo, era muito apreciada porque dava brindes e todos ansiavam pela abertura da caixa para ver o brinde: desde soldadinhos que marchavam, bonecos dos jogadores de futebol, a galinhas que punham ovos de plástico e, até, esquemas para rendas e bordados, no pressuposto que as meninas adolescentes também a comiam e podiam aproveitar os tempos de ócio para prepararem o seu próprio enxoval!

A Farinha Amparo era quase uma instituição nacional!

Os anúncios na rádio lembravam constantemente: "Coma Farinha Amparo, a farinha que tem sido o amparo de muitos portugueses"!
 
Ou a frase batida do "Trigo limpo, Farinha Amparo" a significar "trabalho fácil", "resultado garantido", "certo e sabido".

E havia, ainda, a associação negativa em relação aos brindes - é que não há bela sem senão! Quando um condutor de automóvel fazia uma manobra mais atrapalhada era certo e sabido que ouvia logo o: "Saiu-te a carta na Farinha Amparo?!"; ou se um tipo era pouco aplicado nos estudos, se tinha feito um curso sem se esforçar muito, era certo que ouvia a boca: "Saiu-te o curso na Farinha Amparo!!"

Mas não existia só a Farinha Amparo, havia também a Farinha 33 (Tomando Farinha 33 valerás por três) e a Farinha Predilecta (Para a avó, para a neta e também pró atleta).

Só que estas, que lembre, não davam brindes!



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