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domingo, 19 de agosto de 2012

PONTARIA

Ainda tinha lá em casa a fisga feita com a bifurcação de um ramo de árvore, com elásticos de borracha de uma velha câmara de ar e uma funda de sola, bem ensebada pelos dedos da tanta utilização que lhe dera.

Era hábil com a fisga e tinha boa pontaria: tivesse a pedra adequada - e andava sempre com uma boa reserva nos bolsos - e nada falhava, fosse o que fosse que surgisse ao seu alcance e ficasse sob a sua mira. Quando via um passarito num galho, uma lagartixa numa parede, uma cobra à sua frente parava, tirava a fisga que andava sempre à cintura, escolhia, pelo tacto, a pedra mais adequada, passava-a pelos lábios, como que a beijá-la, colocava-a na funda e, sem grandes delongas, mas com estilo, atirava certeiro. Se era o pobre de um pássaro, lá o colocava à cintura, como um troféu de caça, e levava-o para casa juntando-o, aos que foi matando, para uma fritada.

Deixara-a, guardada, na arca de madeira onde ia colocando todos os brinquedos e objectos que ia deixando de usar. Um mundo de recordações, uma mostra de como a sua vida foi crescendo, os brinquedos mudando e evoluindo, as escolhas modificando.

Sempre fora um perfeccionista: quer na caligrafia, com a letra bonita e bem desenhada, no desenho, tentando aprimorar os detalhes, nos estudos, sempre atento, a não perder pitada do que ouvia nas aulas e depois estudando em casa, como na profissão que escolhera e abraçara, procurando os pormenores, ouvindo com interesse e observando com meticulosidade...

Também, no desporto procurou uma modalidade exigente em precisão, de mão firme, olho arguto e determinação. E, como a mania e habilidade com a fisga lhe estavam na massa do sangue, escolheu o tiro ao arco.

(DO AUTOR - CASA DAS MUDAS - EXPOSIÇÃO ARTE MODERNA DE JOE BERARDO - ILHA DA MADEIRA)


Agora, com o filho a seu lado, ensina-lhe o modo correcto de pegar no arco, a importância do braço bem esticado e horizontalizado, o olho bem orientado e focado no alvo, a corda bem retesada, a ponta do indicador e do polegar a pegarem, de forma quase subtil, mas firme, a ponta da flecha até ao momento do disparo. 

A pontaria certeira e a maçã a abrir-se em dois pedaços, mesmo ao meio, como a maçã do Guilherme Tell, no dia em que este teve de a acertar sobre a cabeça do filho!


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1 comentário:

Anónimo disse...

Certeira pontaria em estilo literário de mestre!
Beijinhos, lola