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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

LATADA



Foram-se enchendo devagar, os bagos daquelas uvas brancas de mesa, moscatel.

A videira, plantada há muitos anos atrás, foi crescendo em altura, sempre tratada e acarinhada pelo velho avô, e as uvas sempre foram abundantes e gradas. Na altura própria, iam-se colhendo os cachos, que se lavavam, não porque fosse muito preciso, mas mais para os refrescar do calor dos dias de verão. Assim, mais frias, as uvas ganhavam outro sabor e apeteciam muito melhor...

Quando chegavam os netos, nas férias do verão, saltavam para cima do banco de pedra e iam depenicando os cachos, bago a bago, causando, na zona de influência daquele banco, um desgaste prematuro da quantidade de uvas.

Era uma alegria, um contentamento, aquela casa, no verão, cheia de gente, feita de várias gerações...



(DO AUTOR - MONSARAZ)

Agora, que os velhos partiram definitivamente, ficou a casa, de banco vazio, de janela fechada, mas de cortina colocada, impecavelmente branca, como a avó se orgulhava!

E a latada lá continua, com as mesmas uvas doces, agora não tão cheias, nem tão gradas, porque deixou de ser tratada, apenas esperando a visita dos filhos e netos, emigrantes bem longe, que aparecem nesta época para matar as saudades, limpando e caiando a casa, e cuidando da cortina de renda da janela, trabalho das mãos habilidosas da velha avó, no tentar conservar uma vida e uma tradição que, cada vez menos, vai interessando as gerações mais novas... 



gkjg

2 comentários:

Luisa disse...

Eu acho que é urgente despertar as novas gerações para alguns fascínios perdidos, como o de depenicar as uvas antes das vindimas...
Vou tentar fazer isso com os meus netos! é um pouco, acho, o reinventar da poesia.
Bjs
Luísa

Anónimo disse...

Muito sensível... belíssimo texto...
Ana Hertz