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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

GARCIOSIDADE

Chegou assim que a maré começou a baixar.

Veio, num voo planado, chegou com um bater curto de asas, elegante e gracioso, e, delicadamente, deixou que as patas tocassem e se enterrassem levemente naquele lodo mole, saltitando depois, até sentir que não enterrava as patas, mais do que o pretendido.

Ficou quieta durante uns momentos, quase como uma estátua e, assim que à sua volta tudo voltou à normalidade - os caranguejos saíram das tocas, as ameijoas à superfície começaram com os seus esguichos, os peixes aprisionados nas poças de água voltaram às suas voltas... -, lentamente, com gestos cuidados e estudados, olhando aquele lodo em efervescência, começou na sua luta pela vida.

Com o seu olhar de garça, a fixar a vítima, o pescoço a mover-se lentamente, como se fosse o meneio de um bailado, o bico, semi-aberto, a aproximar-se e, num instante, a refeição estava ganha.

Repetiu os gestos, movimentando-se com a lentidão que a situação ia exigindo mas, num ápice, lá ia mais um peixe, uma conquilha, um caranguejo, um molusco sem carapaça... bicados por aquele rostro comprido e bem afiado... 



(DO AUTOR - GARÇA DA RIA - FUSETA - ALGARVE)

E, assim que o sol se pôs, assim que o dia começou a adormecer e a luz a tornar-se escassa, com a sua graciosidade de garça - numa espécie de garciosidade - partiu, batendo as asas em silêncio e suavemente, elevando-se nos ares iluminados, agora, por um luar de quase lua cheia...



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2 comentários:

Anónimo disse...

Criativo como sempre!
Beijos.
Rita Rosário.

Anónimo disse...

Seu belo texto me lembrou este curioso link recebido:

http://oglobo.globo.com/blogs/pagenotfound/posts/2012/08/25/passaro-aprende-pescar-com-isca-462193.asp
Lolla