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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

TAL CÃO, TAL DONO...


"Tal dono, tal cão"! É costume dizer-se...

E não parece haver muitas dúvidas que as pessoas arranjam um cão de companhia em função da sua personalidade, da sua maneira de ser e, até, da sua condição física: um praticante de boxe nunca iria ter, como cão de companhia, um chihuahau: um boxer assenta-lhe que nem uma luva; tal e qual como uma "madama" ou uma "tia" das de Cascais, ou de outra terra qualquer, prefere, mil vezes, a companhia de um yorkshire terrier à de um rafeiro alentejano...

Mas a inversa também pode ser verdadeira... Tal cão, tal dono!

Uma destas tardes, numa pequena esplanada na Ilha da Culatra, onde tudo é pequeno e à escala do tamanho da ilha, estava um grupo de velejadores, de nacionalidades diferentes, a maioria alemães, à volta de duas mesas bem cheias de garrafas de cerveja ("Honi soit qui mal y pense"). Um dos convivas, sentado de costas, tinha junto a si um cão, com a trela presa à sua cadeira. O cão era cinzento, de pelo curto e só os pelos do focinho, como se fosse uma barba, é que eram mais compridos. A trela era também cinzenta, quase da cor da pelagem, e tinha uma coleira azul. Apesar de ter os movimentos limitados - apenas podia dar dois ou três passos para cada lado -, mesmo assim, mexia-se bem e estava atento a tudo o que se passava... A maior parte do tempo ficava imóvel, como um cão de caça, parado, a olhar uma presa, de olhar fixo, indiferente a tudo, mesmo aos outros cães que por ali passavam. Só perdia as estribeiras e se agitava todo quando uma determinada senhora passava diante dele levando, pela trela uma caniche branca, toda bem cuidada e extremamente feminina, provavelmente com o cio! Nessas alturas o cão passava-se (e ela passou, pelo menos, quatro vezes diante dele), rodava sobre ele próprio, enrolava-se na trela, fazia gincanas por entre as pernas do dono e da cadeira, abanava a cauda, curta e bem levantada, e, depois da passagem da dona e da cadela, quando já mais nada podia fazer, punha-se a ganir, num tom agudo e lamurioso como se fosse uma carpideira em dia de funeral...

E o dono, de cabelo curto, quase rapado, grisalho, de barba da côr do cabelo, vestido com uma T-shirt cinzenta da côr do pêlo do cão, com riscas azuis da cor da coleira, assemelhava-se, em quase tudo ao cão... Também ficava tempos longos quieto, quase parado, olhando, talvez, o infinito do mar, aparentemente alheio à conversa que decorria naquela mesa, apenas virando a cabeça quando passava a tal mulher com a cadela diante de si... Nessas alturas acompanhava o seu passar com a cabeça, agitava-se na cadeira e quase se levantava, indiferente à conversa e aos comentários dos amigos. Só não gania... mas rosnava de inquietação assim que a mulher desaparecia do seu campo de visão...

Tal como o cão...

(DO AUTOR - NA CULATRA - TAL CÃO, TAL DONO)


2 comentários:

Anónimo disse...

Estão bem um para o outro.

Boas férias
Ana Lacerda

nobody listening disse...

irresistível este post ... :) bem como este blog que eu não conhecia